O regime de metas de inflação na berlinda

Do Valor Econômico

Por Sergio Lamucci | De São Paulo
 

Jonathan Drake/Bloomberg News / Jonathan Drake/Bloomberg News
Paulo Vieira da Cunha: "A inflação tem hoje um caráter muito inercial, o que a torna mais difícil de ser debelada"

O regime de metas de inflação está na berlinda, com as mudanças na condução da política monetária promovidas pela gestão de Alexandre Tombini. Os mais críticos dizem que o Banco Central simplesmente não se preocupa mais com o cumprimento da meta, de 4,5%, dando mais peso ao crescimento, enquanto outros afirmam que a instituição ainda se orienta pelo alvo, mas age apenas quando a inflação ameaça romper o teto, de 6,5%. Há ainda quem defenda a atuação da autoridade monetária, destacando que o cenário internacional continua longe da normalidade, com baixo crescimento ou recessão nos países desenvolvidos e uma abundante liquidez nos mercados globais - além disso, a economia brasileira perdeu força no segundo semestre.

Em pouco mais de um ano à frente da instituição, Tombini alterou significativamente a forma de atuar do BC. Em agosto de 2011 inverteu a mão da política monetária, começando um ciclo de baixa da Selic depois de seis altas seguidas. Passou a dar grande peso às chamadas medidas macroprudenciais, para regular o crédito, não confiando apenas no manejo dos juros. Em seus documentos, tenta convencer os analistas de que a taxa neutra de juros (aquela que não acelera a inflação) caiu expressivamente. Para completar, na ata da reunião de janeiro do Comitê de Política Monetária (Copom), indicou que pretende reduzir a Selic para a casa de um dígito.

Em documento distribuído na última quinta-feira, resultado da consulta a cerca de 100 analistas, o Banco Central informou que o próprio mercado considera que a taxa de juros real de equilíbrio está hoje em 5,5% ao ano. Nesta semana, primeiro em São Paulo, e depois no Rio de Janeiro, esses e outros assuntos devem compor a reunião da autoridade monetária com os economistas do mercado.

Professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Carlos Eduardo Gonçalves não acha que o regime de metas de inflação acabou. O arcabouço do sistema - como as reuniões periódicas do Copom, a divulgação da atas dos encontros e a publicação do relatório trimestral de inflação - continua de pé, e se trata de uma parte importante dele, segundo Gonçalves. O que mudou, para ele, é que o BC dá sinais de que passou a tratar os 4,5% do centro da meta como um piso. Isso não quer dizer, contudo, que a autoridade monetária não tenha mais nenhuma preocupação com a evolução dos preços, diz ele. Se a inflação se aproxima do teto de 6,5%, o BC tende a agir.

Em artigo recente, Gonçalves escreveu que "a função de reação do BC dita o seguinte curso de ação: quando a inflação ameaçar romper o teto de 6,5% no ano calendário, deve-se subir os juros e também os compulsórios e quando a inflação se aproximar de 4,5%, deve-se afrouxar a política monetária, com ênfase na queda de juros".

Ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC, Paulo Vieira da Cunha diz que a análise da função de reação da autoridade monetária mostra, a partir do segundo trimestre de 2009, uma redução significativa do peso do diferencial entre as expectativas de inflação e a meta, enquanto ganhou espaço a atividade econômica (medido pelo hiato do produto, a diferença entre o PIB efetivo e o potencial, que retrata a ociosidade de recursos na economia). Para Vieira da Cunha, essa mudança de atuação, seguida por muitos bancos centrais, fazia sentido em 2009, no auge do impacto da crise. A questão é que o peso da inflação seguiu baixo mesmo depois que o cenário global tornou-se menos incerto e se afastou o risco de depressão.

Vieira da Cunha vê com reservas a atuação recente do BC. "A inflação continua preocupante", diz ele, observando que os preços de serviços seguem pressionados, na casa de 8% a 9% em 12 meses. "A inflação tem hoje um caráter muito inercial, o que a torna mais difícil de ser debelada." A inércia é o fenômeno pelo qual a inflação passada alimenta a futura. Ele acha que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) pode ficar entre 6% e 6,5% em 2012 - em 2011, ficou em 6,5%. Um dos problemas é que diminuiu a eficiência da política monetária, avalia Vieira da Cunha, sócio do Tandem Global Partners.

O ex-diretor do BC Alexandre Schwartsman tem uma visão ainda mais crítica. Para ele, a autoridade monetária não mostra preocupação com a convergência da inflação para o centro da meta. Nesse sentido, a ata da reunião mais recente do Copom seria emblemática. O BC indicou que pretende reduzir os juros para a casa de um dígito mesmo com seus modelos projetando inflação distanciando-se do centro da meta em 2013, num cenário em que leva em conta as projeções do mercado para os juros, que incluía a redução da Selic para 9,5% ao ano.

Gonçalves tem uma opinião mais branda sobre a política monetária do BC, mas também vê com reservas o anúncio explícito da intenção de derrubar a Selic abaixo de 10%. "E se ocorrer um choque de oferta?", questiona ele.

Schwartsman também vê com grande ceticismo a tese de que a Selic pode recuar mais porque a taxa neutra de juros no Brasil seria hoje mais baixa - segundo o BC, devido a fatores como o cumprimento da meta de inflação pelo oitavo ano consecutivo, a manutenção de superávits primários elevados, o aprofundamento do mercado de crédito, as mudanças no mercado financeiro e o aumento da oferta de poupança externa.

Schwartsman acredita que a taxa neutra pode ser hoje algo entre 6% a 6,5%, descontada a expectativa de inflação, inferior aos 7% que ele estimou tempos atrás, mas ainda assim superior aos cerca de 4% atuais. Com um mercado de trabalho apertado e uma inflação em 12 meses ainda bastante acima de 4,5%, essa taxa de juros não lhe parece compatível com a convergência do IPCA para o centro da meta.

O ex-diretor do BC Luiz Fernando Figueiredo está na ponta contrária de Schwartsman. Para ele, o regime de metas continua vivo. "Na minha visão, o mundo mudou, e o cenário externo continua ainda muito distinto de um quadro de relativa normalidade." Os EUA crescem pouco, a Europa deve retração neste ano e há liquidez abundante no mercado internacional, o que implica em enxurrada de dinheiro para o Brasil. Nesse cenário, é preciso uma política monetária mais flexível, como têm feito Inglaterra e Israel, afirma ele.

Figueiredo também diz que houve uma forte redução do ritmo de crescimento no Brasil. No primeiro trimestre, a expansão anualizada em relação ao trimestre anterior foi de 4,5%, feito o ajuste sazonal, caindo para zero no terceiro. No quarto, a taxa anualizada deve ter ficado no máximo em 1%, estima ele, o que significa que a atividade também justifica uma política monetária mais relaxada.

"Em agosto, o BC surpreendeu a todos ao reduzir a Selic, e ficou claro que eles estavam certíssimos", avalia Figueiredo, que acredita num IPCA de 5% em 2012 e numa Selic possivelmente abaixo de 9%. O erro da autoridade monetária, segundo ele, ocorreu no segundo semestre de 2010, quando a atividade econômica estava forte e um ciclo de alta da Selic foi interrompido. "Mas em 2011 o BC deu show." Figueiredo também não vê problemas no anúncio de que a Selic deve cair para a casa de um dígito. "Vão reclamar que o BC é muito transparente?", diz ele, sócio da Mauá Sekular Investimentos.

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14 comentários
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Ivan Moraes

Uh...  o que o Schwartsman esta fazendo nesse item?  Ele tava na esquina esperando um reporter passar e ameacou bater no reporter se nao fosse entrevistado, nao foi?

 

Voto distrital de merda, vai sumindo do Brasil, e leve seus "religiosos" e espioes mediaticos porque o Brasil nao eh casa da sua sogra.

 
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Marcos Covre

Muito Bom seu comentário!

Não consigo entender como os jornalistas econômicos ainda dão ouvidos a ele. Ele já não tem a posição no Banco, que garantia um lobby para ele aparecer, O que ele vai falar todo mundo já sabe. Crítica, crítica e crítica. Depois ele pega uns números quaisquer para comprovar a crítca. e olha, agora ele esta mesmo INVENTANDO número. Antes ele manipulava..agora cria mesmo.

 
 
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Erick M

O jornalista queria fazer uma matéria plural e, por isso, precisava de alguém pra criticar.

 

Erick

 
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pereira da silva

pô erick, não força. o pluralismo, sempre salutar, poderia ser contemplado com outras vozes. o tal sujeito é msm um vício da nossa imprensa. nesse caso, estou mais p o comentário do ivan, com a esquina e td mais.

 
 
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Erick M

Pereira, eu não saí em defesa de Schwartsman, até porque não conheço bem o que ele pensa. Apenas postei o que me parece ser a razão pela qual o Valor o ouviu.

 

Erick

 
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José Almir

Nassif


Essa discução dos juros me lembra uma situação engraçada, tem um rapaz aqui em Itajubá que é uma figura carinbada, conhecido de todos é muito divertido e vive em outro mundo. A prefeitura botou um caminhão de som na principal praça da cidade o que fez a felicidade dos principais bebuns da cidade e de nosso amigo. Este rapaz vestia uma fita com algumas penas na cabeça e uma bermuda até bem comportada. Foi uma festa durante o carnaval todo, começava o som do caminhão a tarde e nosso amigo ja começava a pular com folego para ir ate a madrugada. Na quarta feira de cinzas a tarde estava la nosso amigo com sua fita de penas e seua bermuda pronto para pular, olhava para todo canto imaginando onde teria ido o caminhão com o som alto e os companheiros de farra.


Tenho a impressão que esta acontecendo isso com alguns economistas de mercado, estão fantasiados mas o som ja não toca mais.

 
 
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Maria Luisa

 So espero que a inflação no Brasil não va galopar como esta acontecendo na Argentina. 

 
 
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Augusto Soares

Algo fora de pauta, mas, por quê ninguém comenta que o valor do etanol está caindo pelas tabelas ? Só interessa quando a tendência é de alta ?

 
 
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Vinicius Carioca

Não dá pra levar a sério essas análises.

Os caras deixam bem claro que o problema da inflação está concentrado em um único setor (o de serviços) e querem fazer toda a choldra pagar por um problema que é tópico. Se o problema é local, ofereçam soluções para tratá-lo localmente. Se não têm essa solução que voltem aos bancos das faculdades para ver se aprendem a entender melhor como as coisas funcionam.

Eu tenho a impressão de que estes artigos são reproduzidos para nos aporrinhar. Ainda mais com o brilhante professor de Deus (como diria o Nassif) dando seus pitacos.

 
 
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Vinicius Carioca

 

publicado em 27/02/2012 às 09h01:Inflação do aluguel fecha fevereiro em queda de 0,06%

IGP-M mostra ainda que carne bovina, legumes, aves e ovos ficaram mais baratos

Do R7

 

A inflação do aluguel, medida pelo IGP-M (Índice Geral de Preços - Mercado), fechou fevereiro com deflação de 0,06%, informou a FGV (Fundação Getúlio Vargas) nesta segunda-feira (27). Em janeiro, o indicador, que também é utilizado para reajustar tarifas públicas, havia apresentado alta de 0,25%. No acumulado de 12 meses, o índice acumula alta de 3,43%e, no ano, 0,19%.

Já a inflação do mercado, medida pelo IPA (Índice de Preços ao Produtor Amplo), que também faz parte do cálculo do IGP-M, desacelerou 0,26%, intensificando baixa de 0,07% apurada em janeiro.

No segundo mês do ano, o custo de vida do brasileiro, medido pelo IPC (Índice de Preços ao Consumidor) subiu 0,27. Em janeiro, o indicador havia subido 0,97%. A maior contribuição para o resultado foi do grupo alimentação, cuja taxa passou de 1,47% para 0,05%. 

Das 22 classes de despesas analisadas, 17 apontaram quedas nas taxas, com destaque para carnes bovinas (de 0,69% para -3,13%), hortaliças e legumes (de 8,43% para -1,66%), aves e ovos (de 1,17% para -1,54%), adoçantes (de -0,74% para -1,91%), massas e farinhas (de 0,35% para -1,09%) e pescados frescos (de 3,17% para -0,37%).

Também apresentaram desaceleração os preços relativos a educação, leitura e recreação (de 3,33% para 1,18%), transportes (de 0,76% para 0,29%), vestuário (de 0,04% para -0,22%) e saúde e cuidados pessoais (de 0,48% para 0,45%).

Em contrapartida, os preços praticados pelo grupo despesas diversas apresentaram alta. A taxa passou de 0,27% para 0,41%. Nesse grupo,  os preços cobrados por serviços de cartórios subiram de 2,65% para 3,55%.

Gastos com habitação se mantiveram em 0,32% - mesma taxa apresentada na pesquisa imediatamente anterior. O grupo Comunicação, que passou a fazer parte do indicador a partir de fevereiro, variou 0,18%.

Construir ou reformar


O consumidor que comprou materiais para construir ou reformar encontrou preços levemente mais salgados em fevereiro, mas não mesma intensidade de janeiro. 

O INCC (Índice Nacional de Custo da Construção), que considera as despesas do setor, variou 0,42%, abaixo de 0,67% vistos no primeiro mês do ano.

Dois dos três grupos componentes do grupo apresentaram alta: materiais e equipamentos (de 0,27% para 0,32%) e serviços (de 0,68% para 0,73%).

http://noticias.r7.com/economia/noticias/inflacao-do-aluguel-fecha-fevereiro-com-deflacao-20120227.html?question=0

 
 
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Roberto São Paulo-SP 2012

Creio que com as medidas macroprudenciais será possível reduzir os juros da Selic para a média dos juros internacionais.

Cada vez vai ficando mais claro que o Brasil não precisa pagar um prêmio tão elevado na rolagem da dívida pública.

A redução dos juros da Selic, além de reduzir o custo de rolagem da dívida pública, irá reduzir os custos financeiros das empresas instaladas no Brasil melhorando a competitividade em relação aos importados.

Creio que a utilização das medidas macroprudenciais irá aperfeiçoar e consolidar o sistema de metas de inflação no Brasil, ao utilizar todas as ferramentas da Politica fiscal e monetária para controlar a inflação, e não aṕenas os juros básicos da economia. O que pode tornar o Brasil uma referência mundial do sistema de controle de inflação.

 

2010

 
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eliana paes

A questão básica não é o regime de metas de inflação.

A questão que se apresenta é utilizar a selic como instrumento principal para atingir as metas da inflação.

A taxa de juros como controle de inflação, faz sentido e assim é feito em qualquer país, onde não existam juros ao consumidor de 90 ou 200% ao ano.

Só no Brasil, país das jabuticabas, com prática econômica também jabuticaba,  é que se espera com redução de 0,5% na Selic, reduzir o consumo, contratado a taxas de juros estelares.

Reduzir prazos de crediário faz sentido, reduzir Selic, e esperar reduzir inflação, só se justifica por má fé.

Nem pensar em questionar os bancos, qual a razão das taxas de juros cobradas.

 

 
 
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aloizio Nunes

OK Nassif,

Depois eu post alguma puxando o seu saco pra ver se você publica

Vai me desculpar, mas eu acesso o seu blog desde a campanha presidencial de 2006 e descepcionante ver você, que tão ácido nas críticas a economista de mercado não aprovar comentários críticos a você com a mesma acidez

Agora entendi porque tantos comentários que dizem SIM. Você não quer mais debater, quer doutrinar. Mas sabe muito bem que isso não funciona mesmo nos tempos da WEB

Estou começando a relativizar o meu respeito e consideração por você

 
 
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luisnassif

Não se dê tanta importância assim, meu caro. Faria melhor em procurar sua última postagem, ler minha resposta e trazer argumentos para rebate-la. Foram vetadas apenas as provocações baratas que você colocou. Argumentos, ainda que discorde deles, não são vetados.

 
 

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