A Beleza e o Cuidado de Si

Ser notado, admirado e despertar no sexo oposto o desejo através da beleza física e sensualidade, cada vez mais são necessidades prementes tanto para mulheres quanto para homens. Esse exagero obsessivo pela busca da beleza perfeita produz a falsa sensação de que a própria felicidade pode ser alcançada através da instrumentalização da beleza do corpo. Trata-se de uma verdadeira overdose de culto ao corpo e o desejo obsessivo de ser destaque pela aparência visual fabricada, em detrimento de outros valores e atributos que compõe a complexidade da dimensão humana.

É enriquecedor entender a dimensão humana a partir das teorias que abordam sua complexidade. Somos seres complexos e multidimensionais, construídos pelas convergências de diversos fatores culturais, sociais, psicológicos, antropológicos, materiais e biológicos.  Essa rede de fenômenos esculpe a nossa individualidade. Tudo em nós tem que ser cuidado, não só o corpo; caso contrário, perdemos o equilíbrio das forças que nos constroem, e assim nos desumanizamos.

O culto excessivo ao corpo, naturalmente faz com que as pessoas muito provavelmente negligenciem as outras dimensões da condição humana, indispensáveis para a formação da estética singular - aquela que é verdadeira, eterna e que se estende para muito além do corpo. A falta de reflexão é o que nos leva à falta de moderação, a carência de uma dose de equilíbrio para enfrentar as forças ocultas que constroem esse homem-corpo. Pobres vítimas de uma ditadura midiática e de consumo, que se enraizou no pensamento comum. Nosso maior desafio não é somente compreender as relações de força que produzem esse comportamento, mas, sobretudo, lograr um equilíbrio entre a autoafirmação, sem cair no vício da arrogância e do menosprezo para com o outro, vícios baseados em preconceito que se alimenta de estereótipos.

Quem não se enquadra nos padrões de beleza é vítima em potencial desse preconceito. Na ditadura da beleza, o corpo passa a ser uma máquina, desprovida de outros valores. Tudo o que importa é um “belo” corpo. Basta ligar a televisão, folhear as revistas ou observar os outdoors para perceber o padrão de beleza imposto. Atualmente, a mulher tem que ter, sobretudo, um corpo bem definido, lábios carnudos, seios empinados, bumbum torneado e durinho, cintura fina, etc. Essas são as principais particularidades estéticas que atualmente compõe a base para outros atributos na constituição do padrão de beleza, desejado por muitas mulheres. Como nem toda mulher nasce com esses atributos ou então não se contenta com a maneira como veio ao mundo, a insatisfação com a aparência produz angústia, sofrimento, insatisfação, ou seja, afeta sua autoestima.

Segundo um artigo publicado na Revista Tribuna Hoje, no Portal R7: “A Fundação Onodera divulgou uma pesquisa realizada pela empresa Sophia Mind, uma das mais renomadas no ramo de pesquisa feminina, e revelou que 92% das mulheres estão insatisfeitas com o próprio corpo e gostariam de mudar algo em sua fisionomia”.1

A busca por esse padrão de beleza torna-se uma obsessão, nunca se está satisfeita com o corpo que tem, sempre tem algo a ser melhorado. Com isso, muitas estão se sujeitando a procedimentos estéticos. A beleza sempre pode ser fabricada. Muitas vezes, as deixam deformadas ou com problemas de saúde pelos eventuais erros médicos, produtos perigosos e com efeitos colaterais irreversíveis. Na tentativa de contornar a genética ou driblar a lei da gravidade, vale tudo: cirurgias, implantes, botox, preenchimentos, lipoaspirações, maquiagem definitiva, bronzeamento artificial, remédios para emagrecer, malhação, etc. Muitas vezes, essas pessoas estão atrás de pequenas mudanças e depois se deparam com grandes problemas.

Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica: “O Brasil ocupa posição de destaque no levantamento: o país foi o que mais realizou procedimentos cirúrgicos, ficando à frente dos EUA com 1.491.721 do total. O país da América do Norte, no entanto, ainda lidera quando o volume total de cirurgias plásticas – cirúrgicas e não cirúrgicas – é considerado. As cirurgias mais realizadas no Brasil foram lipoaspiração e colocação de próteses mamárias. O país também é líder quando o assunto é rinoplastia e abdominoplastia. Entre os procedimentos estéticos o destaque é a aplicação da toxina botulínica. O volume é o segundo maior do mundo, com 308.185 procedimentos realizados”.2

Neste contexto, o vestuário também merece uma consideração especial. Estar em evidência pela beleza, naturalmente, significa a necessidade premente de competir com aquelas que ocupam o mesmo espaço. De outro lado, este fenômeno produziu a prática de um julgamento da beleza que se dirige não somente ao corpo de cada uma, mas também à indumentária e os apetrechos complementares (acessórios, maquiagem, brincos, colares etc.), potencializando a necessidade de se “produzirem”, como complemento de autoafirmação e, também, para se preparar para o julgamento do outro. Neste cenário, o que vale é a exclusividade, pois a maior decepção, principalmente para as mulheres, é ir numa festa e encontrar outra com uma roupa igual ou semelhante, e “pagar mico”.

Cuidar do corpo é uma coisa, já o culto ao corpo é outra coisa. O primeiro é saudável, o segundo é desfavorável e prejudicial, pois é uma mania, um vício. É importante ressaltar que a vaidade em si não é nenhum mal. O problema são os excessos, principalmente quando a vaidade passa a ser obsessiva. Ela afeta o estado psicológico da pessoa e a leva a atitudes radicais que podem colocar em risco a sua própria saúde. O grande problema é a cegueira que afeta quem cultua seu corpo, pois a pessoa não se reconhece como tal.

A aparência física é o que, num primeiro momento, nos distingue dos demais, mas é a nossa singularidade, em sua totalidade, em não apenas o corpo, essa singularidade formada por uma complexa rede de fenômenos que faz que sejamos não apenas distintos uns dos outros, mas especiais. As nossas diferenças produzem o nosso estilo ou, como disse Foucault (1926-1984), a “Estética da Existência”. Ela deve ser entendida como “as práticas racionais e voluntárias pelas quais os homens não apenas determinam para si regras de conduta e um comportamento ético, como também buscam transformar, modificar para aprimorar tanto a sua singularidade como a de seus semelhantes e que sejam portadoras de valores estéticos que correspondam a certos critérios de estilo”3. Como o excesso de vaidade pode ser o desprovimento de outros valores que compõe a dimensão humana, a beleza física é a sua única autoafirmação, então o vaidoso precisa chamar atenção pelo corpo. Mas a vaidade saudável é natural, não necessita dessa aprovação externa. Pense nisso.

 

Luiz Claudio Tonchis é Educador e Gestor Escolar, trabalha na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, é bacharel e licenciado em Filosofia, com pós-graduação em Ética pela UNESP e em Gestão Escolar pela UNIARARAS. Atualmente é acadêmico em Pós-Graduação (MBA) pela Universidade Federal Fluminense. Escreve regularmente para blogs, jornais e revistas, contribuindo com artigos em que discute questões ligadas à Política, Educação e Filosofia.

Contato: [email protected]

 

Referências:

1.                  TAVARES, Andreza, 92% Das Mulheres Estão Insatisfeitas Com Seu Corpo, Revela Estudo. TribunaHoje, 11/12/2011.

http://www.tribunahoje.com/noticia/11935/cidades/2011/12/11/92-das-mulheres-estao-insatisfeitas-com-seu-corpo-revela-estudo.html› (acesso em 21/08/2015).

2.         SBCP, De Acordo Com a ISAPS, Brasil Lidera Ranking de Cirurgias Plásticas no Mundo. Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, 07/2014. ‹http://www2.cirurgiaplastica.org.br/de-acordo-com-a-isaps-brasil-lidera-ranking-de-cirurgias-plasticas-no-mundo/› (acesso em 21/08/2015).

 

3.         FOUCAULT, M. O Uso dos Prazeres e As Técnicas de Si, in Ditos e Escritos: Ética, Sexualidade e Política, vol 5. Tradução de Elisa Monteiro e Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. pp. 198-199.

Média: 2 (2 votos)

Postar novo Comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
CAPTCHA
Esta questão é para testar se você é um visitante humano e impedir submissões automatizadas por spam.
CAPTCHA de imagem
Digite os caracteres exibidos na imagem acima.