Considerações sobre a Esquerda e a Revolta do Vinagre

Considerações sobre a Esquerda e a Revolta do Vinagre

 

Há uma série de textos e comentários publicados ao longo do dia exaltando as manifestações ocorridas ontem e entendendo que as críticas da esquerda à participação da classe média são autoritárias, e que qualquer interpretação sobre a influência da mídia no processo é conspiracionista. Mas será que é isso mesmo? O que será que está em jogo?

 

Primeiramente, a crítica da esquerda a uma certa classe média não diz respeito à sua participação nos atos, mas sim à hipocrisia de se condenar protestos per se (como se seus praticantes fossem vagabundos) e, posteriormente, de se utilizar desses espaços para implementar sua própria agenda – sem que isso signifique a concordância com a agenda progressista do transporte público gratuito e de qualidade. Não se trata, então, de se criticar a participação de segmentos conservadores no protesto. Isso é saudável para a democracia. A questão é a incoerência de seu comportamento e a subsequente apropriação oportunista do momento para o atendimento de seus próprios interesses. Mais grave, a entrada na agenda de determinados tópicos defendidos pelos conservadores enfraquece a própria pauta que aglutinou os manifestantes a princípio. Isso também não significa que não seja válido que existam vários temas sob discussão popular, mas sim que é preciso organizar as lutas, de forma republicana, para que a população alcance as conquistas que efetivamente almeja. Parece difícil acreditar, realmente, que os segmentos que passaram a participar das manifestações clamando pela redução da maioridade penal, pela criminalização do aborto, pelo fim do Bolsa Família e pela rejeição da PEC 37 concordem com a luta pelo transporte público gratuito ou mais barato para os mais pobres. Se pensamos na efetividade das lutas, não podemos ver protestos como imensos “torós de parpites”, em que demandas sociais colidam intrinsecamente entre si (como o é o interesse pela tarifa zero, a subsequente necessidade de aumento de tributos para tanto e o clamor das classes médias pela redução substantiva dos impostos). As arenas de política pública precisam conviver, mas não se anular.

 

Em segundo lugar, por óbvio, a crítica ao disseminado argumento de que “o gigante acordou” não quer dizer que a esquerda, enquanto vanguarda, estava consciente desde o início, mas sim que setores da classe média autoritariamente arrogam para si uma tomada de consciência nacional que, na verdade, é apenas de uma fração de classe que considerou, ela mesma, que a atuação política era coisa de iluminados, ao mesmo tempo em que, em todo o país e em todos os dias há movimentos lutando e resistindo. Por suposto, a descoberta do engajamento político é evento esfuziante e epifânico (e permite a cada um a percepção – por vezes ingênua, heroica e exagerada a princípio – do poder que se tem para mudar o mundo), mas isso não dá o direito de se sequestrar o discurso para si do interesse e da capacidade de intervenção na sociedade (que, curiosamente, é a crítica que se costuma fazer à esquerda tradicional). É preciso reconhecer para libertar.

 

Terciariamente, e não menos importante, a clarividente mudança de comportamento da mídia não expressa por parte dela uma tomada de consciência das mazelas do país, assim como também não o é a participação de segmentos que até então abominavam a ação política. Se o engajamento destes é legítimo e válido (se dentro do regime democrático), não o é a instrumentalização das críticas e dos interesses dos grupos para a realização das agendas da oposição. O que potencialmente está em jogo é mais uma tentativa de parte da imprensa de se desgastar o governo Dilma. Por mais que o PT não seja a organização perigosamente transformadora e radical que a mídia enuncia, ele não é o partido da ordem. Quanto mais tempo ficar no poder, mais incisivas serão as estratégias para dele demovê-lo. Se em 2011 a agenda foi a da tentativa de desgastar a base aliada e de derrubar, um a um, cada um dos ministros (tática que falhou e foi descontinuada), em 2012 o caminho foi o da crise econômica e da inflação (que também não deram certo até agora). Em 2013, busca-se então atacar o Bolsa Família e a popularidade da presidenta, constituindo-se em mais alguns exercícios de “testes de hipóteses”. Tentar tornar lutas específicas sobre a melhoria do transporte público em uma grande e geral agenda de desgaste para com o governo – que é um sentimento bastante delimitado socialmente – é a artimanha mais nova, que já escapa para propostas virtuais de impeachment e quetais. Não significa dizer que os segmentos apolíticos ou mesmo a direita que participam dos atos sejam em si mesmos golpistas, mas sim que as bandeiras que foram por eles incluídas no “pacote” de manifestações podem, por seu conteúdo, ser facilmente instrumentalizadas para esse fim.

 

Goste-se ou não desse governo, não se pode compactuar com estratégias golpistas. É essa a crítica que parte dos setores progressistas tem feito à participação de certos segmentos. A liderança dos movimentos de luta por transporte público digno não podem permitir que o frutuoso engajamento observado seja instrumentalizado para outros fins, nem condescender com relação à diluição dessa luta por meio da inclusão de pautas genéricas e que não correspondem ao mesmo campo programático.

 

A cidade deve ser uma ágora: viva a cidade (!). Há espaço para as lutas de todos – simultaneamente, para a direita e para a esquerda, partidos, ONGs e movimentos sociais –,  sempre deverá haver e devemos lutar com todas as nossas forças para que o direito à rua seja universal. Que fantástico e inspirador é poder ver tanta gente conhecendo e se apaixonando pela política pela primeira vez, observar outras voltando a fazê-lo após padecerem de um legítimo sentimento de descrença, irmanados àqueles que esperançaram. Esse é o sonho de qualquer um que quer ver uma democracia radical e igualitária em funcionamento. Precisamos, no entanto, tomar cuidado para que as lutas republicanas não sejam subvertidas para que sejam palatáveis aos interesses da ordem ou, pior ainda, que funcionem como estopim “produtivo” para a realização de seus interesses particulares, escusos e eventualmente golpistas.

 

 

Temos uma chance enorme de desenvolvermos um rico processo de construção de políticas públicas radicalmente emancipatórias, que só o podem sê-lo mediante altos índices de participação social (e, é claro, contínuos e permanentes, no sentido gramsciano, para se evitar que as mobilizações não sejam mais do que eventos sociais nas timelines do Facebook). Seria esse o lance de mestre do PT: aproveitar esse engajamento para implementar as agendas que hoje rejeita supostamente por não haver “condições materiais” ou maturidade institucional para tanto (ou, em vários casos, por conservadorismo mesmo). Seria esse o salto genial também para que esses governos pretensamente mais progressistas dessem o passo adiante na efetivação de um modelo de desenvolvimento com inclusão, de forma a transcender o paradigma de reforma gradual sem conflito (André Singer),  brilhante em sua origem, mas hoje quase esgotado. Mas é preciso encarar de frente esse desafio de transformar transversalmente a gestão pública e os serviços públicos. O PT terá coragem de aproveitar esse kairós,  mobilizar a sociedade civil que se volta contra ele e ainda desmobilizar sentimentos golpistas?

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