Dilemas da esquerda no Brasil

Por Diogo Costa

DILEMAS DA ESQUERDA NO BRASIL - Escutam-se murmúrios, aqui e alhures, sobre o impasse da reforma política, da democratização das comunicações, da reforma agrária e de outros temas sensíveis aos anseios populares. Alguns mais afoitos são os primeiros a decretar: "A culpa é do PT"! Será?

Nem é preciso ser um cientista político renomado para saber que reformas estruturais não se fazem com uma varinha mágica de condão. Se fazem com a aprovação de projetos via legislativo, dentro dos marcos da democracia liberal burguesa clássica, ou através de uma revolução social como a Revolução Francesa de 1789 ou a Revolução Russa de 1917. No caso do Brasil, temos o horizonte das reformas dentro da democracia liberal, posta e garantida pela Constituição.

Uma pessoa medianamente informada sabe que para se aprovar um simples projeto de lei no Congresso Nacional, são necessários os votos de 257 deputados federais e de 41 senadores. Sabe também que para se aprovar uma Emenda Constitucional são necessários os votos de 308 deputados federais e de 49 senadores. Pois bem, o PT tem apenas 87 deputados (16,9% do total) e 12 senadores (14,8% do total). Logo, vê-se que o argumento de que o PT não faz reformas porque não quer fazê-las, ou porque tem medo, é uma falácia.

Mas é preciso ir mais além. Aqui e acolá surgem idéias de alguns apressados (e equivocados) dizendo que o PT deveria aprofundar e tornar preferencial sua aliança com o PMDB, tornando-a mais sólida no Congresso Nacional, pois os dois maiores partidos garantiriam, com folga, as votações mais importantes. É mesmo? Nem que o PMDB fosse o partido mais coeso e fiel da face da Terra estaria garantido que apenas ele e o PT pudessem implementar sozinhos qualquer tipo de reforma! A soma de PT e PMDB garante 168 deputados e 32 senadores. Ou seja, não aprovariam nem um mísero projeto de lei.

Agora vem o drama da esquerda. A esquerda (PT, PSB, PC do B, PDT e PSOL) não tem sequer 1/3 dos votos no Congresso Nacional. Destes menos de 1/3 dos votos o PT responde por pouco menos da metade. Pior do que isso é o fato de que em temas como a reforma política e a democratização dos meios de comunicação nem mesmo a esquerda é capaz de apresentar propostas conjuntas. O PSB e o PDT são contra a reforma política (já haviam votado contra em 2007) e contra uma Ley de Medios 'Made in Brazil'. Ou seja, é outra rotunda falácia dizer que o PT não faz reformas porque não quer fazê-las ou porque tem medo das mesmas. Se o PT não tem o apoio sequer de alguns dos partidos de esquerda, como uns e outros pretendem que as reformas estruturantes sejam aprovadas? Só se for com a famosa varinha mágica de condão...

Outro argumento falacioso é o de comparar a situação brasileira com a situação política totalmente distinta existente em outros países da América do Sul, notadamente na Venezuela, na Bolívia ou no Equador. Nada mais fantasioso e falso! Se o PT tivesse a força que tem o PSUV na Venezuela ou a força do MAS na Bolívia, todas as reformas estruturais já estariam feitas há muito tempo. Ocorre que o PT não tem toda essa força. O PT lidera uma coalizão de partidos, o PT não governa sozinho. O PT não tem 308 deputados federais e também não tem 49 senadores. Se tivesse essa maioria consolidada, como os congêneres partidos venezuelano e boliviano tem, e, ainda assim não fizesse as reformas, todas as críticas do mundo seriam corretas e pertinentes. Mas não levar em conta as diferenças dos processos sociais existentes em diferentes países torna as críticas inconsistentes.

Seria até interessante ver em 2014, por exemplo, uma vitória do PSOL para a presidência da república. Plínio de Arruda Sampaio eleito e subindo a rampa com seus hipotéticos 10 deputados federais e hipotéticos 05 ou 06 senadores. Certamente em seis meses o Brasil veria a concretização das aspirações dos movimentos populares! Em seis meses teríamos a aprovação de todas as reformas progressistas de que o país necessita há décadas! Tirando a ironia, vale destacar que isso não valeria só para o PSOL, se vencesse o pleito de 2014 ou outro pleito qualquer, isso valeria e vale também para o PSTU, para o PSB, enfim, vale para qualquer partido político. Ou seja, a vida não é um mar de rosas e nem se passa numa película em preto e branco. A disputa política envolve uma série de mediações que jamais podem ser desconsideradas. Entre o slogan e a vida real existe uma considerável distância que só é vencida com o acúmulo de forças, não com palavras de ordem ou arrivismos.

Os mais inocentes deveriam saber também que em 1964 o antigo PTB, que propugnava pelas corretíssimas reformas de base, tinha uma representatividade parlamentar muito maior que a representatividade parlamentar que o PT tem no Congresso Nacional nos dias de hoje. E aí, será que o antigo PTB, com força congressual muito maior que o PT atual, também não fez reformas porque não quis ou teve medo? Será que caiu por culpa de seus próprios defeitos e limitações?

Esse é o grande enigma da política brasileira atual e a origem do impasse que entrava e paralisa as reformas estruturais. O problema do país não é o PT ou a esquerda, mas a debilidade do PT e da esquerda. O PT precisaria ter o dobro do tamanho que tem! A esquerda precisaria ter o dobro do tamanho que tem! Esse é o fato concreto. E aí quando o PT propõe temas como a reforma política, que beneficiaria todos os partidos programáticos e enterraria os fisiológicos, setores da esquerda votam contra... A 'culpa' é de quem mesmo?

Enfim, na atual conjuntura não resta outra saída a não ser continuar lutando pelas transformações sociais, discutindo temas estruturais e fomentando a participação dos movimentos sindicais, estudantis e sociais. É preciso aumentar a massa crítica em favor das reformas e saber que, sem mobilizações sociais de grande monta, fica muito difícil aprovar qualquer tema mais polêmico. O que não dá é para cair no conto do vigário de que os males da humanidade são culpa da 'paúra' do PT. Isso é uma bobagem pueril.

Há um enorme espaço para o crescimento da esquerda em Pindorama, desde que os militantes de esquerda critiquem a direita! Enquanto esses militantes se detiverem na inglória tarefa de tentar destruir o Partido dos Trabalhadores, continuarão apenas a cumprir um triste e profundamente equivocado papel.

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21 comentários
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Paulo Luiz Mendonça.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Igualdade dos políticos brasileiros.

 

      Políticos no Brasil são todos iguais, mesmo aqueles saídos do seio do povo pobre e desamparado. Vamos saber o porquê desta afirmação. Os políticos criados em berço de ouro, os quais são a maioria no nosso país, estes não conhecem o sofrimento do povo menos favorecido, não sabem o que é o precário sistema de ensino, não conhecem o precário sistema de saúde publica, pouco sente a falta de segurança, pois são bem protegidos por guarda costas e carros brindados. O que temos que aprender a observar com inteligência são os políticos populistas saídos do seio do povo, os quais surgem deslumbrantes com promessas de resolver todos os problemas que atinge principalmente os mais pobres.

      Estes políticos com raízes na pobreza conhecem e sentiram na pele o péssimo sistema de saúde, o péssimo ensino e a falta de segurança sentiram na pele o descaso dos governantes também sentiram na pele o efeito desastroso da corrupção.

      Com tudo isso se esperava que políticos com estas qualificações de ter sofrido junto ao povo fossem excelentes para governar o país e resolver os problemas cruciais que impede o Brasil de progredir, mas não é isso que aconteceu. Tivemos por oito anos o Lula um retirante saído do seio do povo pobre e desamparado. Qual foi o resultado benéfico para o Brasil, nenhum de monta que se possa bater palma. As reformas estruturais as quais eram sistematicamente cobradas por ele e seu partido permaneceram estagnadas nas gavetas do congresso. Uma pessoa saída do seio do povo, conhecedor dos problemas do nosso país, sobe a rampa do palácio da alvorada, imediatamente sofre um apagão na sua memória, esquece seu passado, e passa a se preocupar somente com o bem estar dos seus companheiros e seus familiares. Esquece que suas raízes foram plantadas lá no sertão pernambucano ao lado de gente humilde, também ao lado dos demais brasileiros que depositaram nele a esperança de dias melhores, são frustrados e abandonados a própria sorte.

      Enganar o povo pobre com bolsa família ou qualquer outro tipo de esmola, isso não é resolver problemas é sim enganar a população que esperava mais reformas estruturais e não estas esmolas que trazem no seu bojo a intenção pura e simples de  compras de votos.

      Uma coisa importante para reforçar o descaso com o povo. Se perguntarmos  para todos os brasileiros se aprovam a construção de doze estádios para a copa do mundo, todo brasileiro de bom senso responderá que isso é um absurdo. Este procedimento de fazer obras faraônicas tem um único objetivo,  favorecer as empreiteiras e fomentar ainda mais a corrupção. Pensem, usem o bom senso e a razão, dinheiro para a saúde, ensino e segurança não há, mas para obras faraônicas ai sim o dinheiro aparece como por encanto. Diante disso dá para continuar a ser petista de carteirinha, ou é hora de começar a desconfiar de pobres que mudam seus discursos após subirem a rampa do palácio da alvorada..

 

Paulo Luiz Mendonça.

 
 
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http://www.brasil247.com/pt/247/poder/98648/Jo%C3%A3o-Santana-faz-campanha-do-PT-por-reforma-pol%C3%ADtica-Jo%C3%A3o-Santana-faz-campanha-PT-reforma-pol%C3%ADtica.htm

247 – O marqueteiro que já ajudou o ex-presidente Lula, a presidente Dilma Rousseff e o prefeito Fernando Haddad a se eleger entrará agora numa nova empreitada do PT: dirigir uma campanha pela reforma política proposta pelo partido. Para isso, o jornalista preparou um material específico – spots, cartazes, braçadeiras e camisetas – que será apresentado na reunião do Diretório Nacional petista, marcada para esta sexta-feira 12, sob o slogan "Dinheiro sujo mancha a República", numa referência ao atual formato de financiamento de campanha, com dinheiro privado.

O presidente nacional do partido, Rui Falcão, acredita que este seja um mote "bem pesado". "Quero mostrar para o diretório porque é uma campanha de alto impacto", declarou, ao Valor Econômico. Segundo ele, alguns dos objetivos com a estratégia é conseguir 1,5 milhão de assinaturas para emenda popular que prevê o financiamento público de campanhas, listas partidárias com alternância de gênero e a convocação de assembleia constituinte exclusiva para tentar emplacar o projeto.

No texto, o relator Henrique Fontana (PT-RS) quer ter aprovado o financiamento público de campanha, o voto em lista, o fim das coligações proporcionais e da suplência no Senado. Ele defende ainda que a reforma seja discutida também com a sociedade. "Depois de votada a lei pelo Congresso, nós vamos submeter a um referendo em 2013, se depender da minha posição e da minha ideia, em que a população brasileira terá a última palavra", afirma o deputado federal.

Falcão já se antecipa às críticas que virão da oposição, alegando que a defesa do projeto seria uma forma de "limpar a barra" do partido, que acaba de ter líderes condenados no processo do 'mensalão'. "Na verdade nós sempre defendemos essas propostas para a reforma política", justifica. Em artigo publicado nesta quinta-feira no jornal O Estado de S.Paulo, o ex-governador tucano José Serra sugeriu que a reforma do PT seja um "golpe", e que a proposta de financiamento público de campanha é uma "patranha" do partido para "maquiar a própria história".

Outras pautas

Na pauta oficial do diretório nacional da legenda está a análise da conjuntura e os preparativos para a eleição direta dos novos dirigentes do PT, que será em novembro. Mas os assuntos servirão para lançar, na prática, duas grandes campanhas que serão defendidas pelo partido a partir de agora. A da reforma política – os petistas esperam, com a ação, que a proposta chegue ao Congresso com a mesma força da que instituiu a Lei da Ficha Limpa – e a tentativa de emplacar a Lei de Meios petista, tão criticada pela imprensa e vista com resistência até pelo governo da presidente Dilma.

 
 
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Gunter Zibell - SP

Acho que o dilema da esquerda é voto mesmo.

Desde a eleição pluripartidária em 1982, mais ou menos metade do público se divide entre alternativas de direita ou fisiológicas e entre o remanescente do MDB e partidos autointulados de esquerda, mas que foram fazendo prática e discurso de centro para disputar justamente o eleitorado do PMDB.

E isso aconteceu mesmo com forte aumento da escolaridade média e grande renovação do eleitorado, já que cerca de metade dos que votaram em 2010 não tinham idade para tanto lá atrás...

Pensar que o candidato de um partido recebe 60% dos votos para executivo não significa tanto. É necessário condicionar-se a uma governabilidade que, na prática, tem muito de parlamentarismo.

Foram mudando um pouco as marcas com o tempo, mas os produtos são basicamente os mesmos...

Re: Dilemas da esquerda no Brasil
 

"Eu abri uma frestinha na porta do armário. Dei uma escapadinha para fora. Eu entro no armário de novo e tranco a porta. Boto cadeado. Juro." http://www.facebook.com/FelixBichaMa

 
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maria utt

Então tá, quem manda no Secom mesmo? O Paulo Bernardo é do PMDB? A isenção de 6 bilhões para as teles saiu de quem? Por que Fernando Ferro não estava sequer entre os indicados do PT para a CPI do Cachoeira? Quem obrigou a Dilma a ir ao convescote da Folha ou ao seminário da Abril?

Sem contar que, fora três, todos os ministros do Supremo foram nomeados pelo PT. E aquele politiqueiro Gurgel também.

Culpar o PT de tudo é de uma profundidade de um pires. Isentá-lo de qualquer responsabilidade segue o mesmo caminho. O PT constantemente alimenta a direita que depois o mantém como refém.

 
 
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Gunter Zibell - SP

"A esquerda (PT, PSB, PC do B, PDT e PSOL)"

PDT é esquerda? Não tem cabimento um deputado fazer um projeto tão anos 1700 como o abaixo.

http://www.votenaweb.com.br/projetos/plc-1865-2011

PCdB é esquerda? Tomamos conhecimento de como foi a campanha em Manaus em 2012...

...E de que a PEC 99 foi aprovada por uma CCJ com presidência do PT e maioria governista.

Assim como a MP 577 não caiu do céu.

E que o PSB agora flerta com o apoio de Malafaia.

Se vai ser sempre assim, so sorry, fico com a direita secularista.

 

"Eu abri uma frestinha na porta do armário. Dei uma escapadinha para fora. Eu entro no armário de novo e tranco a porta. Boto cadeado. Juro." http://www.facebook.com/FelixBichaMa

 
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JC

Besteirol puro.

Reformas de base ou mesmo reformas mais profundas são letra-morta dentro da agenda petista. 

A opção foi pela cartilha do WB e vão seguir nisso, não há correção de rumo possível no caminho escolhido pelo PT de se aliar as elites para melhorar um pouco a vida dos miseráveis. 

O enfrentamento está descartado e, muito mais possível que conseguir essa maioria desejada é o PT ser apeado do poder.

E comparar a situação atual com 64 é uma das maiores imbecilidades que já vi. Jango e o PTB nem eleição ganharam,  chegaram à presidencia num contexto de renúncia, impedimento e posterior  posse de poder. Sem contar a conjuntura internacional de guerra-fria.

 

‘Los partidos políticos institucionales son el bioshacker de la lucha por la libertad’

 
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Stálin da Silva

"O enfrentamento está descartado."


Enfrentamento? Me ilumine, por favor. Como seria esse "enfrentamento"? Cada um (quem?) irá pegar num fuzil? Ou irá ganhar no grito? Ou ainda se irá obrigar reformas por decreto? Como? Mas, por favor de novo, pense bem no que vai escrever porque quem chama o texto do Diogo de besteirol tem obrigação de fazer uma proposta que pare em pé.


 


 

 
 
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JC

Ora, o enfrentamento é enfrentamento político que é a base de todo o texto do Diogo. O Diogo acredita, ingenuamente, que o PT ainda irá enfrentar a elite burguesa e que para isso só precisaria ganhar " musculatura" política. Doce engano. 

E, por favor, um analfabeto funcional não deveria usar o pseudônimo d´O Georgiano para desfilar sua ignorância em um blog tão lido. Fique apenas com o Da Silva que lhe é mais apropriado.

 

‘Los partidos políticos institucionales son el bioshacker de la lucha por la libertad’

 
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Stálin da Silva

Logo vi. Quem grita muito sempre tem pouco ou nada a oferecer no campo do real.

 
 
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Clever Mendes de Oliveira

 


Diego Costa,


É bem isso e um pouco mais. Você só fez referência a um aspecto - a representação – que está dentro de uma esfera de compreensão da realidade política – o funcionamento da democracia. Dentro da esfera do funcionamento da democracia há ainda como aspectos relevantes a repartição e equilíbrio de poderes, a eleição do presidente da República, a natureza fisiológica do funcionamento da democracia representativa. E fora da dimensão funcionamento da democracia, mas em estreita relação com ela, há a questão social agravada no Brasil pela perversa distribuição de renda, pelo baixo nível de escolaridade e pela carência no tocante ao saneamento básico. E há também a dimensão econômica onde é ainda maior o desentendimento sobre como a esquerda deve tratar essa questão.


Eu lembro aqui em relação à dimensão econômica o meu entendimento de que caberia à esquerda intensificar o capitalismo, combatendo ao mesmo tempo o efeito mais perverso dele que é a piora da distribuição de renda para que se possa chegar ao ponto em que o capitalismo seja superado. Sem esquecer que, enquanto há os que, como a mim, preconizam por maior participação do Estado para que haja a intensificação do capitalismo, outros dentro da esquerda combatem a maior presença do Estado e se não bastasse isso, há ainda aqueles de esquerda que lutam contra o capitalismo e não pela superação dele.


Como um brizolista que viu seu candidato ser destruído pelo próprio PT e com base em um discurso que era contrário ao que eu sempre defendi que era a valorização da classe política enquanto o PT a atacava de modo geral, eu poderia ser refratário ao PT. Não há, entretanto, como deixar de reconhecer que a conquista da presidência da República pelo PT em 2002 e depois a reeleição de Lula e a eleição de Dilma Rousseff foram feitos que a esquerda jamais poderia imaginar viáveis em um país conservador como o Brasil.


Clever Mendes de Oliveira


BH, 10/04/2012

 
 
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Paulo Kautscher

O PT pode ter se tornado qualquer coisa, menos o PCB. Ainda mais o do século XXI... ......................................................................................................................
Paulo SchuelerEm entrevista ao site IHU Online, reproduzida no mesmo dia pelo Brasil de Fato, Rudá Ricci, apresentado como sociólogo, faz uma declaração estapafúrdia, que preferimos creditar à sua ignorância para não declararmos que foi a fria e crua má-fé.Numa crítica à trajetória do PT nos últimos 10 anos, Rudá diz que "o PT se acomodou às clássicas ideologias de esquerda que tanto criticou na sua origem: estatismo, centralismo, personalismo, burocratização. O PT se tornou o PCB do século XXI". Essa foi das maiores mentiras já ditas em qualquer 1º abril - por coincidência, o dia da publicação.Antes de dialogar com o entrevistado, um parêntesis necessário: causa estranheza a escolha editorial feita para o título da entrevista, justamente "O PT se tornou o PCB do século XXI".Da entrevista, citamos sem grandes dificuldades outras duas declarações mais fidedignas da realidade petista, que certamente preencheriam a manchete com maior precisão factual: " O PT... é uma mera estrutura de poder sem imaginação e programa" e "o PT se 'peemedebizou' ".Até porque, se as duas citações acima estão corretíssimas, a comparação com o PCB não cabe: o PT pode ter se tornado qualquer coisa, menos o PCB. Ainda mais o do século XXI...Nem em seus piores momentos, nos grandes erros estratégicos e táticos, o PCB se assemelhou a essa camarilha. Enquanto o PCB enviou combatentes para lutar ao lado dos republicanos na Guerra Civil Espanhola, o PT envia tropas para a ocupação do Haiti; enquanto o PCB lutou pelo monopólio do petróleo e a criação da Petrobras, o PT entrega nossas reservas em leilões da ANP; enquanto nossos militantes foram julgados na justiça brasileira pelo fato de serem comunistas, o PT tem alguns de seus dirigentes importantes condenados - com tramitação em julgado - por corrupção ativa e passiva; enquanto o PCB sempre lutou pelos direitos trabalhistas e previdenciários, o PT apresenta uma proposta de Acordo Coletivo Especial que acaba com esses direitos e se lambuza nos conselhos de administração dos fundos de pensão.Por fim, em uma história cujos contornos ainda são desconhecidos, enquanto o PCB passou a maior parte de sua história na clandestinidade, o PT se legalizava em 11 de fevereiro de 1982 – mesmo ano em que a Polícia Federal acabou com um Congresso clandestino do PCB e prendeu todos seus participantes . Aliás, ao contrário de Lula, nenhum integrante do PCB jamais declarou que os governos Medici e Geisel tiveram aspectos positivos - afinal de contas, o PCB era criminalizado nesse período e 13 de seus integrantes continuam com o destino de seus restos mortais desconhecido.Rudá erra até mesmo nos itens que levanta para sua comparação. Ao falar sobre "estatismo", o sociólogo se esquece da iniciativa do PCB de lutar pelo Poder Popular com a criação dos conselhos populares, lançados pelo Partido na década de 1950. Ao citar o "centralismo" e o “personalismo”, esquece de dizer que no PCB todas as decisões foram e são tomadas coletivamente, e que sobreviveu às perdas, divisões e defecções de algumas de suas maiores figuras públicas. Já no PT, o que Lula fala vira lei, trata-se de uma organização refém do senhor Luis Inácio. Por fim, sobre a "burocratização": não há, nos 91 anos de história do PCB, arrivistas, carreiristas e oportunistas que cheguem perto dos "feitos biográficos" de um Delúbio Soares.Autocrítica, o PCB faz na práticaDesfeita tal aberração comparativa, é preciso afirmar: se o PCB não pode ser comparado ao PT, nem em seus piores momentos, quiçá o PCB do Século XXI. Como um fênix renascido das cinzas, de toda a sorte de desvios reformistas, o PCB dos últimos anos é a antítese do PT e de seus acordos eleitoreiros e rebaixados, da arte de governar "como nunca antes na história desse país" para banqueiros e empreiteiras, de relações imperiais com nossos povos vizinhos, de alianças comerciais armamentistas com Israel para o assassinato do povo palestino, de submissão à FIFA e ao COI em "mamatas olímpicas", de alianças em governos estaduais e municipais que colocam suas PMs para o assassinato da população pobre, do "ter" vale mais que "ser" do consumismo endividador desenfreado, das fotos espúrias e sorridentes ao lado de personagens como Fernando Collor, José Sarney, Renan Calheiros e outros canalhas menos votados.Não, Rudá, o PCB nunca frequentou e nem frequenta o esgoto da política. Seja lá o que o PT se tornou, é lá que ele chafurda.Paulo Schueler é jornalista e membro do Comitê Central do PCBFonte: PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO

 

“Instrui-vos, porque precisamos de vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos de vosso entusiasmo. Organizai-vos, porque carecemos de toda vossa força.” Revista Lórdine Nuovo

 
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O Militante

Ainda bem, para este senhor, que ele não viveu o bastante para ver no que o partido que ajudou a fundar se transformou. Se bem que ele já intuía o que estava a acontecer, como se poderá ver na entrevista.

 

 
 
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Walter Decker

Falando em dilemas e debilidades das esquerdas no Brasil, está mais do que na hora de alguém ter coragem de botar o dedo na ferida e acabar um dia com a eterna impunidade dos “ di menor “, rapazes com 17 anos e 11 meses, que são assassinos frios e impunes. Estou fazendo um desabafo aqui por três motivos. Primeiro porque o post fala sobre as esquerdas e o PT ( partido de Lula e Dilma, os quais sou defensor e eleitor ) está no comando há uma década. Segundo porque estou me colocando no lugar daquele pai que apareceu arrasado na TV pela morte do filho, assassinado por causa de um celular. Terceiro porque meus dois filhos já tiveram seus celulares roubados aqui em Santos ( um deles, duas vezes ) e estão vivos por sorte, porque ficaram sob a mira de uma arma e o assaltante não atirou porque não quis. Haja saco pra aguentar esse ECA ! Só no Brasil que um marmanjo com quase 18 anos, 1,80 de altura, é “de menor”  e inimputável até em crimes de homicídio com arma de fogo. 

 
 
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Bobo

Mas o que vc está propondo é menos que paliativo. O discurso de diminuir a maioridade penal só serve para reeleger os 'aumentadores penais' a cada eleição, e sem efeito nas causas do problema se a discussão não for feita em um sentido mais amplo. Daí a questão volta para se é possível fazer algum tipo de reforma na segurança, e como?

 
 
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Walter Decker

Só para lembrar, a maioridade penal em outros paises de esquerda da AL, como Argentina, Chile e Uruguai, é de 16 anos.

Só no Brasil continua os 18 anos. Anacronismo total...

 
 
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sergiorgreis

Diogo,

 

Excelente texto! Estou escrevendo um que dialoga com várias das questões que você colocou. Em síntese, para contribuir, diria por ora que a esquerda governista/institucional está se aproximando do limite do momento em que poderá atuar para consolidar o processo de transformação social em curso sem atacar as grandes agendas e, por conseguinte, o grande capital. Há muito ainda por fazer com relação à inclusão social dos setores menos favorecidos, mas considero que essa agenda possua limitações próprias, tanto de alcance quantitativo (há diversos contingentes populacionais que não poderão ser plenamente alcançados) como qualitativo (como coloca o atual debate sobre a incompletude do processo de inserção social via "mercado") - mesmo do ponto de vista simbólico. Ao mesmo tempo, a próxima vitória eleitoral poderá (e deverá) vir, mas escolhas mais pungentes e agudas precisarão ser realizadas, sob pena de retrocedermos mais de uma década. Pelo próprio fato de nossa democracia (e o bloco progressista, especialmente) ser tão frágil (como vc colocou), será preciso determinar algumas lutas da grande agenda - não dá p/ atacar tudo ao mesmo tempo. Mas elas precisam acontecer - saindo do campo strictu sensu da gestão - com urgência, sob pena de inviabilizar um ciclo consistente de desenvolvimento alicerçado na transformação social.

 
 
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marcos nunes

Tudo bem, amigo, mas o problema é que o governo não ousa nada, nem tenta, sequer ventila hipóteses, não utiliza sua bancada para apresentar e sustentar propostas para varrer excrescências constitucionais e sequer se move em direção de uma reforma política ou legislações antimonopolistas e afins; além disso, continua a sangrar as finanças públicas financiando aqueles que se opõe ao governo - a mídia em geral, alegando "critérios técnicos".

E tem mais: o governo tem sido pautado pela mídia e pelos mercados, que dizem o que deve ser discutido, como, onde, quando e em que direção. Falta uma voz para dizer: "Essa discussão é de vocês, não é a nossa; o que pretendemos é realizar nossos programas, desenvolver de fato o país e não nos interessa se vocês consideram que estamos errados ou em direções contrárias àquelas que trariam o desenvolvimento, pois todos estão cansados de saber que vocês não querem desenvolvimento algum, só dinheiro em seus próprios cofres".

Sim, é preciso se contrapor, mostrar a cara, dizer a que veio, ser o que se é - e talvez seja esse o maior problema, o governo NÃO É.

Não acabou: como já disse anteriormente, a maneira que o governo tem se ocupado para fugir a certos confrontos é simplesmente realizar eventos quase diários com lançamentos de programas, 90% deles deixados pelo caminho, se é que foram começados ou tem prazo para começarem. Muito marketing de um lado e muita controvérsia no geral. Não basta, Diogo, se proteger na minoria no Congresso e Senado, que passa a ser o confortável álibi governamental para continuar nessa modorra. Por outro lado, para a construção da tal governabilidade, o governo agregou parlamentares, senadores e partidos que tem SISTEMATICAMENTE VOTADO CONTRA O GOVERNO. Outros servem para criar embaraços, como Renan Calheiros, enquanto uns fazem a farra da mídia, como o tal Feliciano, que "subiu de paraquedas" no gosto da mídia, feliz por ter mais uma ferramenta para espicaçar o governo e demonstrar sua inabilidade política para compor alianças que de fato se aliem ao programa de governo, se é que ele de fato existe e, talvez por inexistir, o Feliciano possa ser da base e ao mesmo tempo contrariar basicamente todos os pressupostos de transformação social à esquerda.

E agora essa palhaçada armada pelas corporações financeiras e mídia agregada em favor da alta da Selic, com o governo mais uma vez demonstrando toda sua pusilanimidade, fazendo-nos também crer que, soim, é possível que o BC aumente os juros, isto é, o governo aumente os juros. Ou agora o governo também quer um BC independente das políticas de Estado?

São dez anos no governo e não se conseguiu assentar um vetor político; age-se no varejo, dispondo caraminguás no ralo; perde-se no atacado da confiança popular em um rumo determinado por um governo que parece uma biruta de aeroporto, indo para onde sopra o vento.

Por fim, a esquerda sabe que não dá para mudar o país de supetão; mas também sabe que não dá para ficarmos na base do mais do mesmo e achar que assim o país se muda sozinho. Só a esquerda se muda: para o Uruguai.

 

Perplexidade aflita diante da perspectiva caótica

 
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Revolution

Vamos fazer acontecer então?


"...o governo não ousa nada, nem tenta, sequer ventila hipóteses, não utiliza sua bancada para apresentar e sustentar propostas para varrer excrescências constitucionais..."


Quais "excrescências constitucionais" você quer ver varridas? Dá para ser um pouco mais específico? Porque assim, generalizando, fica um pouco difícil.


"...além disso, continua a sangrar as finanças públicas financiando aqueles que se opõe ao governo - a mídia em geral, alegando "critérios técnicos


Continua a sangrar? Das duas uma, ou eu não sei o que é sangrar ou você não sabe fazer contas. O orçamento do Estado nos últimos dez anos foi de aproximadamente 1 trilhão de reais. O gasto com publicidade foi de 2,5 bilhões de reais no mesmo período...


"E tem mais: o governo tem sido pautado pela mídia e pelos mercados, que dizem o que deve ser discutido, como, onde, quando e em que direção."


Mentira, né, Marcos Nunes, e você sabe que é. Se não, qual pauta a mídia botou para o governo e que este seguiu feito cordeirinho?


"Não acabou: como já disse anteriormente, a maneira que o governo tem se ocupado para fugir a certos confrontos é simplesmente realizar eventos quase diários com lançamentos de programas, 90% deles deixados pelo caminho."


Quais programas foram deixados pelo caminho. Como você chegou a 90%?


"E agora essa palhaçada armada pelas corporações financeiras e mídia agregada em favor da alta da Selic, com o governo mais uma vez demonstrando toda sua pusilanimidade, fazendo-nos também crer que, soim, é possível que o BC aumente os juros, isto é, o governo aumente os juros."


?????


Será que você percebe, que está digladiando com os seus fantasmas, não com a realidade? Onde que o governo demonstrou pusilanimidade?! A taxa de juros já subiu e ninguém está sabendo, além de você?

 
 
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O Militante

Vou guardar este artigo. É uma joia do possibilismo radical.

A aceitar a tese dioguiana, estaríamos até hoje sob as trevas da ditadura militar. A esquerda, como sabemos, era minoritária à época.

Povero Gramsci, rodopiando em sua tumba.

 
 
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Fernando Martins

"Enquanto esses militantes se detiverem na inglória tarefa de tentar destruir o Partido dos Trabalhadores, continuarão apenas a cumprir um triste e profundamente equivocado papel."

Por aqui o escorpião sempre vai picar o sapo no meio da lagoa.

 
 
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marcos nunes

Isso não passa de uma maneira de dizer que o militante deve defender o governo a qualquer custo e qualquer preço, independentemente da razão e dos fatos, só porque o governo que há supostamente é o dele. Pior do que fomentar divisões na esquerda é se fingir de esquerda para fugir ao confronto com as realidades.

 

Perplexidade aflita diante da perspectiva caótica

 

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