PIB não contabiliza todas as riquezas de um país
Fala-se muito em desenvolvimento sustentável, aquele capaz de suprir as necessidades sociais e econômicas da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das gerações futuras. O economista e professor da PUC-SP, Ladislau Dowbor, diz que para orientar o crescimento das nações esse sentido, é necessário construir instrumentos de avaliação de resultados diferentes daqueles utilizados para calcular o Produto Interno Bruto (PIB).
O PIB é a soma de bens e serviços produzidos em um país, durante o ano. O principal fator que influencia esse indicador é o consumo da população. Portanto, quanto mais as pessoas gastam, mais o PIB cresce. As exportações também contribuem para o aumento do PIB. Assim, as nações com os maiores PIBs são consideradas mais ricas. Segundo Dowbor, esse conceito de riqueza vem sendo cada vez mais questionado por não contabilizar resultados em termos de qualidade de vida e progresso social real:
“A lógica básica é simples: quando um grande produtor de soja expulsa agricultores para as periferias urbanas da região, podemos, eventualmente, dizer que aumentou a produção de grãos por hectare, a produtividade da empresa rural. O empresário dirá que enriqueceu o município. No entanto, se calcularmos os custos gerados para a sociedade com as favelas criadas e com a poluição das águas, por exemplo, ou o próprio desconforto de famílias expulsas das suas terras, além do desemprego, a conta é diferente. Ao calcular o aumento de produção de soja, mas descontando os custos indiretos gerados para a sociedade, o balanço sistêmico será mais completo, e tecnicamente correto”, analisa no estudo “Democracia Econômica – Um passeio pelas teorias”.
O mesmo se dá sobre a exploração e comercialização de recursos naturais de um país. “Quando um país vende os seus recursos naturais, isso aparece nas nossas contas como aumento do PIB, quando, na realidade, o país está vendendo recursos naturais herdados, que não teve de produzir e que não vai poder repor, e, portanto, está se descapitalizando, aumentando a riqueza imediata à custa das dificuldades futuras”, completa.
O professor destaca que o Banco Mundial avançou nas próprias metodologias. Desde 2003, a organização contabiliza a extração de madeira como descapitalização do país no relatório World Development Indicator. A mesma lógica pode ser levada à exportação de petróleo, e às demais fontes não renováveis.
Lala Deheinzelin, especialista e consultora em economia criativa, diz que os recursos intangíveis (cultura, criatividade, auto-estima, solidariedade, por exemplo) são peças chave para o desenvolvimento sustentável. “Por exemplo: a economia da dança é pequena, talvez a parca soma de bailarinos, coreógrafos e espetáculos. Mas a economia do “dançar” é grande, pois inclui as festas populares (como o carnaval); a vida noturna; todo o ‘fitness’ com seus respectivos equipamentos, espaços, conteúdos, adereços”, coloca.
Essa visão obriga a construção de novos indicadores para avaliar os demais produtos das atividades humanas, não mensuradas para calcular o PIB. Na visão de Lala, esses medidores devem incluir “as riquezas e a diversidade natural e cultural, os pilares das relações profissionais e pessoas: ética, auto-estima, solidariedade e confiança; e fatores que garantam qualidade de vida num sentido mais amplo, como o proposto pela Felicidade Interna Bruta do Butão”, completa.
O índice Felicidade Interna Bruta (FIB) foi criado em 1972, e, em vez de medir as riquezas materiais, mede o grau de satisfação das pessoas, bem como o desenvolvimento sustentável. Nele, são avaliadas nove áreas: bem-estar psicológico; meio ambiente; saúde; educação; cultura; padrão de vida; uso do tempo; vitalidade comunitária; e boa governança. A proposta do FIB leva em conta que um país pode aumentar seu PIB ao vender seus recursos naturais, mas isso não significa que seu progresso seja real, de modo a evitar danos ambientais e desigualdades sociais.
