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“A paixão dos intelectuais por modelos platonistas, absolutamente abstratos, independentes da realidade concreta, é muito forte. Há muitos intelectuais que acham que todo o poder e o prestígio deles vem do fato de serem capazes de fazer idéias loucas e absurdas”. É dessa maneira que o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira avalia a atuação de acadêmicos que insistem na defesa das teorias neoclássicas para sustentar o neoliberalismo. Dedicado exclusivamente à atividade intelectual, desde que deixou o PSDB, ano passado, o ex-ministro do governo FHC tem se debruçado criticamente sobre o tema econômico que mais lhe encanta: o novo desenvolvimentismo.

Sob o telhado do pensamento heterodoxo da economia, Bresser criou em 2009 o Laporde (Latin America Advanced Programe on Rethinking Macro and Development Economics ), evento que tem reunido no Brasil os principais nomes do desenvolvimentismo para uma semana de intensas discussões. Em 2012, a terceira edição do Laporde acontece na FGV-SP, entre os dias 9 e 13 de janeiro, e contará com nomes como Gabriel Palma e Há-Joon Chang, ambos de Cambridge, e também José Antônio Ocampo, da Columbia University, o economista Jan Krengel e o brasileiro Yoshiaki Nakano. Todos direcionados para a reflexão sobre o desenvolvimento da macroeconomia desenvolvimentista e estruturalista.

Em entrevista ao Brasilianas.org, Bresser falou sobre os principais temas que serão pauta dos debates do Laporde. Explicou também a influência do pensamento racionalista da ciência no neoliberalismo e quais os caminhos da economia heterodoxa a partir de agora.

Acompanhe a íntegra da entrevista abaixo.


Brasilianas.org - Qual o significado que tem a realização do Laporde este ano, no auge da crise do sistema neoliberal?

Luiz Carlos Bresser-Pereira - O Laporde é um curso internacional, de uma semana, que organizo em São Paulo, com a participação de alguns dos mais importantes economistas do desenvolvimento e que são, na sua maioria, macroeconomistas. Além do [economista de Cambridge, o professor sul-coreano] Ha-Joon Chang, temos o Jomo K.S., o José Antonio Ocampo, o Gabriel Palma e o Jan Kregel. O pensamento desses economistas, na primeira década dos anos 2000, renasceu, porque começou-se a perceber a crise do pensamento neoliberal e da teoria econômica ortodoxa que o orienta. Nesse renascimento, eu iniciei, primeiro, uma proposta de repensar o desenvolvimentismo e de pensar, então, um novo desenvolvimentismo. Ou seja, uma estratégia nacional de desenvolvimento para os países em desenvolvimento, especialmente os de renda média.

Essas idéias foram levadas para uma conferência internacional que organizei em 2010, e que resultaram na aprovação de dez teses sobre o novo desenvolvimentismo, e na qual todos esses economistas que citei participaram. As teses contaram com a assinatura de 80 economistas heterodoxos e desenvolvimentistas do mundo inteiro. Ao mesmo tempo que acontecia isso, ocorria uma segunda coisa: o desenvolvimento de uma macroeconomia estruturalista do desenvolvimento, ou seja, uma teoria que dá justificativa científica ao novo desenvolvimentismo. Essa nova macroeconomia foi exposta, de maneira razoavelmente sistemática, num livro chamado Globalização e Competição. Agora estou escrevendo, junto com o [economista] Nelson Marconi e o professor José Luis Oreiro, um livro sistemático sobre a macroeconomia estruturalista do desenvolvimento.

Para ser publicado ainda em 2012?

Talvez, mas certamente será terminado este ano. Já estamos trabalhando com uma editora inglesa, para publicarmos em inglês e em português. Mas o que é importante de se entender é que é nos anos 1990 quando ocorre a hegemonia absoluta do pensamento neoliberal e da sua justificação “científica”, que é a teoria economia neoclássica do equilíbrio geral e das espectativas racionais. Não critico todo o pensamento ortodoxo e todo o mainstream, mas apenas o coração dele. Pois ficou claro que há uma alternativa para isso. Nos anos 1990, parecia que não havia alternativa alguma, os economistas ganhavam prêmios Nobel e o mundo se desregulava. E os ideólogos do neoliberalismo declaravam que o modelo americano era o golden straight jacket, uma camisa de força dourada.

No transcorrer dos anos 2000, esse caminho único desmoronou. Agora há uma alternativa muito clara, que é o novo desenvolvimentismo e a macroeconomia, aos quais se acrescenta mais uma coisa. Eu também fiz uma crítica teórica à teoria econômica neoclássica, que se expressou em três papers (artigos), dos quais apenas um está publicado, que se chama The two methods and the hard core of economics (2008). Apresentei outro em Viena, chamado For a Modest and Heterodox mainstream economics, e um terceiro paper, que estou apresentarei no próximo sábado em Chicago, na Associação Americana de Economistas Históricos.

Mas o que há de novo nessa nova abordagem do desenvolvimentismo? No caso do professor Ha-Joon Chang, vemos que ele bebe diretamente na fonte do economista alemão Friedrich List, que já no século XIX apontava o movimento de “chutar a escada” por parte dos países ricos. Só agora o pensamento heterodoxo ganha destaque abrangente?

A importância do livro Chutando a escada, do Ha-Joon Chang, é que se trata de um livro brilhante, em que o autor não vai desenvolver nenhuma teoria nova, nem fazer uma proposta nova. O que ele faz é mostrar, com muita clareza, numa livro de história econômica, o imperialismo, especialmente na base dos soft power (conselhos e recomendações), dos países ricos, principalmente dos Estados Unidos atualmente. E ele vai mostrar isso dizendo que esses países chutam a escada, uma expressão do List. Mas ele vai mostrar como as políticas e as instituições que esses países ricos recomendam a nós são exatamente aquelas que eles não fizeram; e aquelas que eles condenam são as que eles adotaram quando estavam no nosso estágio de desenvolvimento. O livro do Ha-Joon é um livro crítico, que atualiza o imperialismo.

Mas o desenvolvimento da macroeconomia desenvolvimentista e estruturalista não está no Ha-Joon Chang de jeito nenhum. Isso é realmente um outro grupo de economistas (Palma, Krengel e Ocampo), todos macroeconomistas, diferente de Ha-Joon, que não o é. Mas não são apenas estes, há outros, brasileiros, como o Paulo Gala, o Fernando de Paula, o Ricardo Carneiro, o Fernando Ferrari, entre outros.

Se pegarmos a história do pensamento científico, a visão racionalista contribuiu para um distanciamento da realidade, ao desconsiderar contradições e eleger a visão objetiva como única forma de observação do mundo. Como que esse pensamento influenciou a teoria neoclássica na economia?

A minha crítica é da teoria econômica neoclássica, que é a teoria econômica matemática. Divido a ciência em dois tipos: as ciências substantivas e as ciências metodológicas. Ciência metodológica não tem objeto, mas sim um objetivo, que é o de ajudar o pensamento. A matemática é uma ciência desse tipo, assim como a estatística, a econometria e a teoria de tomada de decisão. Depois, temos as ciências substantivas, que possuem um objeto e é dividida em dois subtipos: as ciências naturais e as sociais. As naturais tem o objeto, a matéria, ou a vida, como a biologia e a física. E as sociais tem como objeto os sistemas sociais, do ponto de vista econômico, social e político.

Essa distinção entre ciências substantivas e metodológicas é fundamental, pois as ciências metodológicas usam o método hipotético-dedutivo, e não há outro método para usar; eles partem de alguns axiomas e deduzem o resto, sentados numa poltrona. Já as ciências substantivas, o método delas é outro. Claro que se usa muita dedução, mas o método correto é observar a realidade concreta, generaliza, a partir dessa realidade empírica ou histórica, e depois verifica se aquilo que foi observado originalmente estava correto; é o chamado método científico.

Acontece que todas as ciências sociais e naturais sempre usaram isso, até que apareceram os economistas neoclássicos, a partir de 1870, que disseram “vamos fazer outra coisa, vamos usar para a economia o método hipotético-dedutivo”. Adotaram como axioma a idéia de que o ser humano é racional, “e vamos deduzir todo o resto da racionalidade”. E aí o critério de verdade é a coerência interna do raciocínio, como acontece na matemática.

E aí há também a discussão em torno da objetividade.

Tudo isso desaparece, porque você passa a ter uma ciência... Quer dizer, não existe discussão de objetividade em relação à matemática. Não há objetividade na matemática, ela é um método de raciocinar. No caso da economia, é a mesma coisa. Mas desenvolveram uma ciência toda matemática – e demoraram para fazer isso. E o que tem sido feito é montar um modelo hipotético-dedutivo, que, para mim, é um castelo no ar.  

O que se ensina nas grandes universidades, na pós-graduação, é esse modelo do equilíbrio geral e das expectativas racionais. Mas aí se diz: “esse modelo não bate com a realidade”. E eles dizem: “não tem problema, o modelo continua certo e correto; o que está errado é existem falhas de mercado que atrapalham, e, portanto, devem ser corrigidas”. Esse é o raciocínio deles. Mas, dentro dessa lógica, o que eles verificam é que os mercados são autoregulados e quase perfeitos.

E, portanto, a partir desse “fundamento científico”, eles recomendam e adotam o neoliberalismo. Eles vão em frente, com os modelos matemáticos desenvolvidos nas grandes universidades, e causam essa desgraça. É o mesmo fenômeno que aconteceu nos anos 1920, quando também havia uma hegemonia total desse pensamento.

O senhor acha que dessa vez a solução virá de maneira definitiva?

Não posso dizer que será definitivo. A paixão dos intelectuais por modelos platonistas, absolutamente abstratos, independentes da realidade concreta, é muito forte. Há muitos intelectuais que acham que todo o poder e o prestígio deles vem do fato de serem capazes de fazerem idéias loucas e absurdas.

Mas diferente dos anos 1920, hoje temos o poder, ainda inicial, da Internet, formando territórios de resistência, como Occupy Wall Street... Ou seja, há uma disseminação maior, fora do eixo da grande mídia.

Espero que sim. Eu estou fazendo minha força para que isso [um desastre econômico] não volte a acontecer. Mas não é fácil; de um lado há interesses que você regule tudo, mas são interesses relativos, pois você pode dizer que a burguesia sempre defendeu o liberalismo, porém ela é uma classe razoável. Eles estão interessados em ganhar o dinheiro deles, portanto se disserem a eles que a regulamentação é importante, eles entendem e aceitam. Mas os intelectuais platonistas são uma desgraça endêmica do mundo.

Precisamos, portanto, repensar também uma economia institucional? A economia heterodoxa está preparada para uma análise profunda do poder e das relações entre bancos e governos?

De acordo com minha visão, a ciência econômica está absolutamente integrada com a política social, não dá para separar totalmente. A gente procura fazer algo mais econômico ou mais político, mas é só isso. Eu me considero um economista keynesiano e estruturalista. Keynesiano, porque dou grande importância à macroeconomia e ao lado da demanda agregada; e estruturalista, pois eu penso historicamente. E quando você é estruturalista, você também é institucionalista, pensa nas instituições. Mas o institucionalismo que apareceu na moda, junto com o neoliberalismo, há 30 anos – quando a teoria neoclássica voltou, depois de entrar em crise em 1930 – voltou também um institucionalismo, que muita gente boa achou que era uma maravilha. As coisas do [economista estadunidense] Douglass North, por exemplo, eram uma maravilha. Isso era, na verdade, um imenso equívoco.

Por que?

Porque o que esse institucionalismo neoliberal veio dizer é que as instituições são importantes – e isso todos sabemos – e que você pode, voluntaristicamente, mudando as instituições, solucionar todos os problemas. Ou seja, as estruturas não são importantes. Um exemplo: você chega lá na Líbia, derruba o Kadafi e diz que agora irá implantar a democracia. Derruba o Kadafi e, no dia seguinte, faço uma constituição democrática, realizo eleições e a Líbia está democrática. Ou fazer o mesmo no Paraguai, que é democrático muito mais ou menos. Quer dizer, as estruturas determinam as instituições, mas as instituições podem mudar de estrutura. Mas não podemos esquecer das estruturas. E esse institucionalismo neoliberal tentou esquecer as estruturas.

E qual seria uma definição de institucionalismo não-neoliberal?

É o institucionalismo histórico, ou histórico-estrutural. É o pensamento que pensa que você tem, numa sociedade, três instâncias: econômica; política e institucional; e cultural ou de valores (religiosos e ideológicos). E essas três instâncias se movem correlacionadamente, mas com certa dependência, e você podendo mexer nas três. Não se trata de um marxismo simplificado e tolo, de que a economia determina tudo.

Foto: IPEA

 

 

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