A diferença dos custos de produção entre o Brasil e outros países, o chamado Custo Brasil, torna os produtos nacionais menos competitivos nos mercados externo e interno e é causado por diversos fatores como a infraestrutura precária, os impostos, as altas taxas de juros e o câmbio apreciado. Diminuir esta diferença é fundamental para aumentar a competitividade e incentivar a atividade industrial no país.

O programa Brasilianas.org da última segunda-feira (29) abordou este tema com a presença dos convidados Mário Bernardini, diretor da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), Odilon Guedes, professor da FAAP e membro do Conselho Regional de Economia de São Paulo, e Fábio Gallo, professor da FGV e especialista em finanças corporativas, na TV Brasil.

Bernardini explicou que, vinte anos atrás, a Abimaq fez um estudo comparando os custos de produção entre as subsidiárias estrangeiras e suas matrizes. “Naquela ocasião, chamei este diferencial de fator Brasil. Não disse “custo” porque era um fator que podia ser positivo ou negativo”. Segundo Bernardini, à época do estudo o fator Brasil era de menos de 20%, e hoje, no setor de bens de capital, atinge 43%. “Ao invés de melhorar a competitividade do país ao longo dessas duas décadas, ela piorou sensivelmente”.

Taxa de juros

 

Todos os convidados foram unânimes em apontar a alta taxa de juros como um dos principais fatores do Custo Brasil. “A taxa de juros tem um reflexo no conjunto da economia, porque ela é referência de lucro”, afirmou Odilon Guedes. Além disso, o professor pontuou a questão do custo de oportunidade, quando o investidor prefere investir no mercado financeiro ao invés da produção. “Por que investir na produção se eu posso ganhar dinheiro no banco?”

Fábio Gallo lembrou que a taxa de juros no Brasil é a mais alta do mundo, e Bernardini apontou que os juros custaram ao país uma média de 6% do PIB ao ano, na última década. Em muitos países, os juros giram em torno de 2,5%. “Na maioria dos paises do mundo, que tem uma dívida maior sobre o PIB do que o Brasil, paga-se menos da metade do que o Brasil paga com uma dívida que é a metade [do valor da dívida dos outros países].”

Este alto gasto com os juros da dívida acabam desviando recursos que poderiam ser investidos em áreas fundamentais para reduzir o próprio Custo Brasil. Segundo Odilon Guedes, “de 2000 a 2007, dados do IPEA, o Brasil pagou de juros R$ 1,157 trilhão, e investiu R$ 98 bilhões”.

Política Tributária

A carga tributária também é tratada como um dos fatores que encarecem a produção no Brasil e diminuem a competividade dos nossos produtos. Os convidados apontaram que o problema não são apenas os altos impostos, mas sim a forma como são cobrados. “Nos EUA e OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Economico), a maior carga tributária é sobre a renda, sobre a propriedade, sobre a herança e sobre riqueza. No Brasil é o contrário: a maior parte da carga tributária é indireta”, afirmou o professor da FAAP. Com isso, há uma distorção, na qual quem ganha até dois salários mínimos paga 53% de tributos, e quem ganha mais de 30 salários mínimos, 29% vão para os impostos, segundo dados do IPEA.

“A Reforma Tributária não vai para frente porque ela implica numa redistribuição da arrecadação”, disse Bernardini, mostrando que o modelo de arrecadação, e não a carga tributária, é que está errado: “não temos bitributação, temos tritributação ou quadritributação, porque imposto é cobrado sobre imposto”. Fábio Gallo também afirmou a necessidade da Reforma: “temos que desonerar toda a estrutura de cobrança de tributos, fazer uma reforma tributária realmente importante.”

Infraestrutura, câmbio e cartelização da economia

A rede deficitária de hidrovias e ferrovias, além das estradas mal-conservadas, são outro ponto que encarece a produção no Brasil. Odilon Guedes citou um levantamento que fez na área de transportes e descobriu que seriam necessários R$ 275 bilhões em investimentos para complementar e recuperar as malhas já existentes (ferrovias, hidrovias e rodovias, incluindo também aeroportos) “Daria um ano e meio de juros [da dívida brasileira]”, afirmou o professor.

Fábio Gallo ressaltou que os problemas de logística e infraestrutura são mais acentuados em um país com dimensões continentais como o Brasil: “[Os problemas de infraestrutura] aumentam o custo de toda a cadeia produtiva”.

Quanto ao câmbio valorizado, Bernardini explicou: “Hoje, o câmbio está sobrevalorizado, no mínimo, em 40%. Então, o meu produto custa 40% a mais pelo custo brasil e 40% a mais pelo dólar. Se eu multiplicar 1,4 por 1,4, meu produto custa duas vezes o produto lá fora.” Com este custo a mais, os produtos não conseguem ser exportados e perdem espaço no mercado interno. “A indústria de transformação está perdendo mercado e está deixando de fabricar e produzir para substituir por produto importado”, o que provoca a desindustrialização.

Finalmente, a cartelização é outro fator que encarece a produção no país. Segundo Bernardini, 20% do Custo Brasil vem de matérias-primas, como o aço. “Os monopólios ou oligopólios se valem de sua força e da proteção que o mercado interno tem e  colocam preços que são 30% mais altos, 40% mais altos que no mercado internacional”, prejudicando toda a cadeia produtiva. Odilon Guedes também lembrou das taxas da energia elétrica e da telefonia, segundo ele, a primeira e a segunda mais caras do mundo, respectivamente.

Para diminuir o impacto do Custo Brasil nos produtos, uma das soluções apontadas é a defesa do mercado interno: “A Inglaterra fez isso, os Estados Unidos, a Coréia. É uma política macroeconômica de defesa de interesses estratégicos no país”, afirmou Odilon.

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