Aplicações da tecnologia nuclear no Brasil
Diferente da matriz energética mundial, que utiliza largamente as usinas termelétricas a carvão (cerca de 40%), a energia brasileira é produzida majoritariamente por hidrelétricas. Apesar de utilizar o potencial hidráulico existente no país, não é seguro ser dependente de uma única fonte, sendo necessária a participação de fontes complementares.
Francisco Rondinelli Júnior, coordenador de Planejamento da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), em sua palestra no 17º Fórum de Debates Brasilianas.org, que discutiu a tecnologia nuclear, sugeriu que esta complementação seja feita com a energia nuclear, já que o país é considerado um dos três únicos - junto com Rússia e EUA - que tem urânio e também condições tecnológicas de aproveitar as reservas deste elemento químico. “Temos uma total independência com relação a utilização desta fonte de geração”.
Rondinelli ressaltou alguns projetos de tecnologia nuclear desenvolvidos no país, como o programa da Marinha com a participação do IPEN (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares) no processo de enriquecimento do urânio, principal ciclo do combustível que atende a geração de energia. “A INB (Indústrias Nucleares do Brasil) está construindo uma planta de enriquecimento para atender a demanda do parque gerador com essa tecnologia 100% nacional”.
Outro programa importante desenvolvido na área nuclear é o projeto do Reator Multipropósito, que visa dar autossuficiência no fornecimento de radioisótopos - no caso, o molibdênio -, utilizados na medicina em exames de cintilografia (diagnóstico por imagem). Segundo o coordenador do CNEN, uma das principais motivações para a construção de um reator para produzir molibdênio surgiu há dois anos, quando o Canadá, que detém 60% do fornecimento mundial de radioisótopos, teve problemas em um de seus reatores, que teve que sair de operação. Além disso, o país gasta R$ 32 milhões por ano em importações de molibdênio. O reator multiprópoisto está na fase de elaboração do projeto, e deverá custar quase R$ 1 bilhão.
O coordenador do CNEN também falou sobre as aplicações nucleares em uma importante área econômica brasileira, o agrobussiness. Em parceria com a Embrapa, o IPEN desenvolve pesquisas com fertilizantes. O pólo de produção de frutas em Petrolina (PE) utiliza irradiação no tratamento de frutas para atender as exigências de mercados como o norte-americano. Também em Petrolina, há a chamada “fábrica de moscas”: através de um processo de irradiação são produzidas moscas estéreis que criam uma barreira biológica em regiões que tenham grandes plantações. “É um processo biológico associada a uma técnica nuclear, e que é bastante eficiente e tem sido utilizada em vários países do mundo”.
Uma outra aplicação importante citada por Rondinelli é o tratamento de pedras irradiadas. O país é um grande exportador de pedras em estado bruto, que tem baixo valor comercial, mas, com o tratamento por irradiação, o quartzo, por exemplo, pode adquirir um valor agregado até 300% maior. “Você pega um quartzo irradiado, lapida, ele fica uma pedra preciosa. É um mercado de alguns bilhões de dólares”, ressaltou.
O coordenador do CNEN falou também sobre a questão regulatória e o projeto de criação de uma Agência Nacional de Segurança Nuclear. Atualmente, a regulação é feita pelo próprio CNEN, em uma diretoria específica. Além disso, Rondinelli afirmou que existe uma tentativa de flexibilização do monopólio da União em relação às atividades nucleares, definido pela Constituição. Ele citou a parceira da INB com a mineradora Galvani, que explora uma mina de fosfato em Santa Quitéria (CE), que tem urânio associado. A INB pagará US$ 350 milhões e a mineradora se compremete a entregar o urânio para a estatal fazer o enriquecimento.
Em relação à legislação, o engenheiro chama a atenção para a Lei das Taxas (9765/98), que estabelece a cobrança de taxas de licenciamento pela CNEN, e a Lei de Rejeitos (10308/01), que define os tipos de depósitos de rejeitos nucleares e indenizações para os municípios que tenham instalações de rejeitos. Ele cita o exemplo do município de Abadia de Goiás (GO), que possui um depósito definitivo de rejeitos e recebe indenização anual da CNEN, que era um distrito de Goiânia quando o depósito foi instalado e hoje é um cidade de 6 mil habitantes. “É uma história de sucesso em relação a mitigação de um acidente e a transformação em uma instalação com uma inserção harmonizada junto a comunidade”
Por último, Francisco Rondinelli Júnior ressaltou a importância da Lei de Inovação (10973/04). Apesar de não ser uma lei voltada especificamente para a área nuclear, o engenheiro a considera de extrema importância não só para o desenvolvimento do setor, mas também na promoção das técnicas nucleares em outros setores econômicos. “Temos que pensar na mobilização da indústria para isso, e vamos ter um período de aliança estratégica entre o setor público, onde está hoje o setor nuclear, e a iniciativa privada”.

Prezado
É sabido que 82% da nossa energia é gerada por hidroelétricas, o sistema de geração mais barato que existe o que nos torna muito competitivos em relação aos outros países.
A energia nuclear é a mais cara que existe e portanto o mix piorará a nossa planilha de custos.
Se temos urânio podemos usá-lo para outros fins onde ele é competitivo, vários exemplos foram dados, e vendermos o saldo do minério. De preferência beneficiado para não torná-lo mais uma commodity artesanal primária como costumamos fazer. Urânio enriquecido tem mercado com certeza. Com os recursos desta operação e a não necessidade de construir (caríssimo) usinas nucleares, podemos reduzir a carga de 52% de impostos sobre a energia elétrica para quem consome e quem usa para produzir.
Não temos dependência dessa fonte geradora como afirma o Dr. Francisco Rondinelli Junior. Nós somos dependentes de energia elétrica e se podemos gerá-la mais barata precisamos aproveitar essa oportunidade.
Meu pensamento vai no sentido de usarmos a energia de maneira mais racional, econômica e eficientemente.
Se parte dos nossos esforços fossem nesse sentido, colocaríamos os gestores do sistema muito mais a vontade, com prazos mais dilatados e menor necessidade de aporte de recursos para geração futura. Alongarmos os prazos, tirarmos as esporas que estamos colocando em nós mesmos.
Outro caminho é aumentar a eficiência do sistema, reduzindo perdas que nós sabemos são enormes. Exs:
Acredito que as águas que abastecem as populações das nossas cidades são bombeadas com energia elétrica e apresentam uma média de perda de 30% entre a produção e o consumo. Já seria uma economia significativa.
Aquecimento das águas por placas solares. Esta tecnologia pode reduzir em 25% o consumo doméstico nacional. É significativo. Essa tecnologia está disponível, barata, não demanda recursos do Estado e pode ser financiada pelo sistema bancário, que se paga. O consumidor paga o equipamento com a economia de energia e em pouco tempo fica só no lucro.
Os brasileiros sempre muito criativos encontrarão com certeza, outras formas de economizarmos energia.
Prezado Antonio Augusto,
1. Quem disse que a energia nuclear é a mais cara? A tarifa da central nuclear é R$ 148 por MWh, mais barato que a maioria das termelétricas do país. No resto do mundo, de forma geral, o preço é competitivo com gás e carvão.
2. A alta carga de impostos sobre a energia elétrica no Brasil não tem nada a ver com usinas nucleares.
3. Não há problema algum em exportar urânio natural como commodity. Canadá e Austrália são os maiores exportadores de urânio do mundo e não se tornaram pobres por causa disso.
4. Basicamente, a única forma mais barata de substituir a nuclear no Brasil é construir hidrelétricas com grandes reservatórios de regularização na Amazônia. Eu sou favorável, mas não acredito que seja viável, pois existe uma forte oposição política "verde" que está impedindo esse tipo de projeto.
5. Num país com baixo consumo como o Brasil, investir em economia/eficiência energética não é suficiente. Ainda há necessidade de expandir muito a geração (o dobro da atual no mínimo). Por exemplo, se o aquecimento solar puder reduzir em 25% o consumo elétrico residencial, isso representaria apenas 6% do consumo total (residencial+industrial+comercial etc.)
6. As experiências mundo afora (Áustria, Itália, Alemanha etc.) mostram que, na prática, quando se renuncia ao uso de energia nuclear, ela é substituída por fontes fósseis: CARVÃO, GÁS e PETRÓLEO.