Data de publicação: 
18/11/2011

O trabalho de Walquíria Domingues Leão não possui estatísticas complexas, não recorreu a pesquisas com questionários fechados. Durante cinco anos ela foi ouvir mulheres em regiões tradicionalmente não assistidas pelo Estado – como o Vale do Jequitinhonha e o sertão alagoano, entre outras. Sua intenção foi avaliar os impactos sobre as pessoas da renda em dinheiro – tanto do Bolsa Família quanto do aumento do salário mínimo. Quis saber os efeitos sobre a vida pessoal, a cidadania, a maneira como as pessoas passaram a se ver.

Entrevista (parte I)

Em geral, os pobres são vistos como massa homogênea. Como tal, sujeitos a toda espécie de visão preconceituosa. Seriam pobres por serem preguiçosos; não poderia receber em dinheiro por não saberem fazer cálculo prudencial (calcular o dinheiro até o final do mês); gastariam em supérfluos e bebidas; as mulheres (que são as titulares do Bolsa Família) acabariam cedendo as senhas aos maridos. E assim por diante.

Com forte formação de esquerda, Walquíria se surpreendeu ao perceber a extraordinária função social do dinheiro – especialmente para quem sai da zona da extrema pobreza. O primeiro mito a cair foi o dos cálculos para manuseio do dinheiro. Nos depoimentos colhidos, mulheres confessavam que na primeira vez que receberam do Bolsa Família, gastaram o dinheiro na primeira semana. Na segunda vez, já sabiam calcular para o dinheiro durar até o final do mês.

Do mesmo modo, não encontrou mulheres que tenham cedido às pressões do marido para outras destinações aos recursos. Primeiro, porque tinham contrapartidas a apresentar: pesar as crianças no posto de saúde, apresentar atestados de frequência escolar dos filhos. Depois – como disse uma delas, em um relato que espalhou emoções no seminário: “Isso tudo não é mais para mim. São para meus filhos. Meu tempo já passou”.

Entrevista (parte II)

Em uma das melhores entrevistas da pesquisa, com uma senhora de Demerval Lobão, interior do Piauí, foi-lhe descrito o sentimento que se apossou dela quando descobriu que tinha “crédito” no comércio. Isto é, os comerciantes acreditavam nela. “Antes eu não era nada. Ninguém me vendia nem uma caixa de fósforos”.

A renda monetária conferiu-lhes dignificação da vida, confiabilidade. A possibilidade de escolha – entre comer feijão ou macarrão, por exemplo – mudou sua percepção sobre a vida, a cidadania, os direitos, constatou Walquíria.

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2 comentários
imagem de Ceição Martins

Adorei sua pesquisa Walquíria!

Estou no 5º período do curso de Serviço Social da UFF - Niterói e, certa vez, num debate sobre políticas públicas, em que, foi citado o impacto do Programa Bolsa Famíia, perguntei ao professor se via esse programa como algo positivo. A resposta foi de que isso é muito relativo. Que varia de região pra região, posto que, estudos mostram a destinação por parte dos usuários, do valor recebido para outros fins que não a alimentação infantil.

Sou maranhense e sei o quanto o pequeno valor recebido por muitas mães lá do interior tem ajudado a melhorar não só a alimentação, acredite! Mais por conta da possibilidade como você mesma constatou, de crédito, tem ajudado muito não só na qualidade de vida das pessoas, como da própria circulação econômica/financeira de diversos municípios pequenos.

O que constatei até agora, somente por diálogos,  é que, quem é contra essa assistência (que deveria ser transferência de renda) são as pessoas mais abastadas!

E se nenhum outro governo, seja no âmbito municipal, estadual ou federal fez algo parecido para tentar iniciar a equidade nesse país por transferência real de renda, que seja pela assistência até que se crie um verdadeiro programa de capacitação profissional e por fim geração de renda!

Parabéns!!!

Conceição Martins

 

Ceição Martins

imagem de Severina do Carmo

Muito boa a abordagem da pesquisadora, uma visão positiva, diante do massacre que pessoas abastadas jogam para desmotivar a crença de possibilidades para as classes mais desfavorecidas. Sei o que significa ter ou não ter uma comida para os filhos, a partir de minha origem no interior da Paraíba. Nos tempos de eu pequena, meu pai agricultor, meu avô e todos da familia, quando colhiam o feijão, distribuiam entre si, as relações próximas eram vigilantes que não faltasse comida para ninguém. Veio o tempo da industrialização, familias migraram, e nada de assistencia técnica para a vida agrícola se manter acesa.

Mas o hábito de prestar atenção aos mais velhos, aos menos favorecidos, pois a colheita também nao era igual para todos, dependia de muitos fatores: as chuvas, a qualidade da terra, o tamanho da propriedade, se tinham animais na pastagem ou não, se a familia se juntava ou não, para trabalhar.

Com a migração mais sofrem as mulheres e as crianças. O Bolsa Familia é uma espécie de abre portas, abre também a esperança de se poder viver com dignidade, é um canal de comunicação direta entre governantes e governados. Torço por programas de Capacitação profissional, criação de cooperativas de produção, etc, para que o Bolsa Familia tenha outra forma e portanto mostre outros resultados.

 

"Lembre-se da sabedoria da água: nunca discute com seus obstáculos, mas os contorna."