Verão de 2010. Ou, o momento em que Serra vacilou.
Verão de 2010. Ou, o momento em que Serra vacilou.
Este é texto que provavelmente contém erros factuais, já que escrevo basicamente de memória. Não tem a intenção de documentar a história, mas sim, de questionar-me por que um político experimentado, após uma carreira longa, vacila no seu melhor momento.
Ocorre que no Brasil ainda não votamos em partidos e sim em nomes e um partido poder sequer existir na prática e, ainda assim, eleger um presidente.
O caso de Fernando Collor com o seu PRN é emblemático.
O assunto deste texto vem daí, de algo que intriga me, o porquê da, em determinado momento da longa campanha para a sucessão de Lula, enorme vacilação de José Serra.
Por mais que o personalismo de FHC tenha prejudicado o PSDB, a partir da campanha de 2002, e mais precisamente, da sua eleição à prefeitura de São Paulo em 2004, José Serra era dono do seu nariz, politicamente falando. Não dependia mais de FHC. E jogou muito bem, com estratégia apurada, preparando a eleição presidencial de 2010. Se não foi isso, então as circunstâncias o favoreceram como a um ungido. Estava tudo caminhado como deveria ser e, então, no curto espaço de tempo compreendido entre a primavera de 2009 e o verão de 2010, como diria Tim Maia, Serra vacila e põem tudo a perder.
Serra, o carreirista.
Que Serra é um político carreirista com um único objetivo, chegar à presidência da republica, é coisa há muito sabida.
Pelo menos desde a eleição de FHC em 1994. Naquele ano o PSDB paulista fez cabelo, barba e bigode. FHC na presidência, Covas no governo de São Paulo e Serra no senado.
Mas Serra não vai para o senado, vai para o ministério do planejamento de onde sai para tentar a prefeitura em 1996. E, então, já se comentava que sua estadia na prefeitura seria a ponte para a eleição para o governo do estado em 1998 e a presidência em 2002.
Pobre Serra, tanta coisa e nada. A eleição de 1996 trouxe a derrota e o ano de 1997 a emenda da re-eleição, adiando seus planos para 2010. Sim, porque 2002 seria, a partir daí, o ano de Covas, mas isso comento mais abaixo.
Entrou papa, saiu cardeal. Ou seja, foi de senador a ministro, a governador, a presidente e acabou como estava, de volta ao senado.
A eleição de 1996 trouxe outro dissabor para Serra, a fama de político ruim de voto, devido a sua baixa capacidade de interagir no corpo-a-corpo com o eleitorado.
Lembremos, em 1996 ainda não havia a Revista Piauí e o tal álcool em gel para as higienizações pós-contato eleitoral, mas já havia essa percepção.
As eleições de 2002
O governador de São Paulo é sempre um candidato natural a presidência da república. Pelo menos desde Adhemar de Barros, passando por Jânio Quadros, Paulo Maluf e chegando a Covas. Não é nada do tipo “destino manifesto”, mas é que governando a maior economia e o maior colégio eleitoral e tendo influentes empresas de comunicação tão próximas, o governador de São Paulo sempre é alçado a esferas federais, daí sua candidatura a presidente ser natural.
A saúde não permitiu isso a Covas, morreu em março de 2001. Seu sucessor, ou herdeiro, veremos abaixo, Geraldo Alckmin, era novo demais para tal vôo.
Abriu-se uma nova brecha para Serra.
Serra só não contava com o fato de que FHC era cabo eleitoral de Lula.
Além disso, o fim da era FHC não era exatamente propício para um candidato do PSDB. Era clima de fim de festa, ou de feira. Após a fase de riqueza advinda com o controle da inflação do Plano Real e do dinheiro fácil obtido com as privatizações, a incapacidade de evitar o contágio com as diversas crises econômicas que aconteciam em lugares diferentes (Coréia, Rússia, México e Argentina) mas repercutiram no Brasil, o aumento de impostos e juros necessários para pagar os credores internacionais condenando o desenvolvimento do país ao chamado vôo da galinha, as altas taxas de desemprego e a precarização das relações trabalhistas promovida durante o governo FHC, isso sem falar nos vários escândalos, incluindo o da compra de votos para a emenda da própria re-eleição, os acidentes da Petrobrás e finalmente o apagão de 2001, minaram qualquer chance de vitória de um político continuista.
Seria melhor para Serra ter tentado novamente o senado e deixado a batata quente com Tasso Jereissati ou Paulo Renato. Ao invés disso, Serra partiu para o pescoço de Jereissati com mais um dos seus dossiês, forçou sua indicação como candidato, perdeu para Lula e somou mais um desafeto, o próprio Jereissati.
A eleição de 2004 e a volta por cima.
Após a derrota lhe resta a presidência do partido, o nome é bonito, mas nada mais que isso.
O vento começa a soprar a favor a partir de 2004. Enfrenta uma Marta Suplicy desgastada por um governo impopular, o governo da Martaxa.
Derrota o PT vencendo um candidato a re-eleição. Não é pouca coisa, apesar dos desacertos de Marta Suplicy, quem disputa a re-eleição leva uma vantagem considerável.
A vitória, no entanto, teve um custo, foi obrigado a assinar em cartório um compromisso de não abandonar a prefeitura para candidatar-se a presidência em 2006. Era o custo do político carreirista.
As eleições de 2006
Essas não eram para Serra, era chegada a vez de Alckmin, seguindo a lógica, o governador de São Paulo é o candidato natural à presidência. Além do que, no outro corner estava Lula. E a essa altura com o “efeito Azeredo” e o fim melancólico do mensalão no congresso e com os primeiros resultados das ações de distribuição de renda bombando Lula era imbatível.
Pior para Alckmin. E, ainda assim houve aquela cena ridícula dos 4 cavalheiros decidindo o futuro da nação ao entorno de uma garrafa de bom vinho.
O que explicaria aquilo? Uma provocação ao grupo de Alckmin. O grupo de Alckmin reage, impõem o seu nome. Alckmin disputa e perde para Lula, óbvio, e submerge para respirar e reagrupar as tropas. Vai reaparecer nas eleições municipais de 2008, ser derrotado, e proporcionar o grande momento político de Serra, então um político no comando do seu destino.
O caso dos “Aloprados”.
A eleição de 2006 tem uma particularidade interessante. O escândalo dos “Aloprados”.
Tem todo o jeitão de mais uma armação de Serra. Alguém surge do nada oferecendo informações sigilosas sobre Serra, alguém do PT, subalterno sem nenhuma importância, os tais “Aloprados”, segundo Lula, resolvem comprar. Aí um delegado da Polícia Federal, outra vez ela, entra em cena e dá voz de prisão aos aloprados. Ora, é crime comprar informações? Que eu saiba, não. Desde que essas informações não tenham sido obtidas de forma ilegal.
Logo, a questão não era a compra da informação, que aliás, nem existia. Era a origem do dinheiro. Quem não sabe como se financiam as campanhas?. Demonstrar a origem do dinheiro é que é o buziles. Na mesma época, se não me engano, teve o caso de um avião do PFL carregado de malas de dinheiro que foi apresentado como dízimo.
Pois bem, e lá vai o delegado cometendo desvio de função e invadindo o depósito onde estava o dinheiro, fotografando a pilha e distribuindo a foto para os jornalistas. Quais jornalistas? Ora, aqueles dos jornais que davam apoio ao Serra,
O interessante dessa história é que o escândalo envolvia a campanha de Mercadante mas foi a bala de prata usada pela imprensa para alavancar o 2º turno da campanha de Alckmin.
Se foi armação do Serra, realmente ele não precisava disso para derrotar Mercadante. Ocorre que talvez não tenha como resistir a esse tipo de ação.
Vejamos,
ELEIÇÃO
CASO
PREJUDICADO
BENEFICIADO
AGENTE
2002
LUNUS
Roseana Sarney
José Serra
Polícia Federal
2004
Duda Mendonça e a rinha de galos
Marta Suplicy
José Serra
Polícia Federal
2006
Aloprados
Aloísio Mercadante
José Serra
Polícia Federal
PSDB, um partido dividido desde a origem.
O PSDB nasce uma dissidência do PMBD paulista em função da incompatibilidade com a liderança de Orestes Quércia.
Quércia era um político aventureiro, sem nenhum nome ou cacife se lança candidato ao senado em 1974 pelo MDB em plena ditadura, isso porque, provavelmente, ninguém queria aquela disputa. A ARENA, partido do governo parecia imbatível. Todo aventureiro precisa de sorte, a eleição de 74 foi o ponto de viragem da ditadura. A população deu o sinal necessário que a aprovação daquele modelo de governo não resistiria ao fim do milagre econômico. Elegeu massiçamente os candidatos do PMDB. Posteriormente, em 1982, Quércia melou a convenção do PMDB que indicaria Montoro e Covas para a primeira eleição aos governos estaduais na desde 1966. Covas, homem de partido, cedeu a vaga, Quércia se elegeu vice-governador e pavimentou a sua eleição para o governo em 1986 com o Plano Cruzado fazendo água e ele prometendo mandar a polícia federal laçar boi no pasto para garantir o abastecimento da população.
Montoro lidera a ruptura, leva consigo Covas e FHC. Não leva Ulisses Guimarães, o MDB era o filho que Ulisses nunca teve, não o abandonaria apenas por causa de Quércia, pagou seu preço na eleição de 1990, Quércia o deixou na chuva..
O PSDB unia-se em torno da liderança suave de Franco Montoro mas era rachado entre o grupo de Covas e o grupo de FHC. Com a retirada de Montoro da cena política, a ruptura era inevitável. Convivência de aparências e nada mais.
Em 1992 FHC quis embarcar na canoa do plano de salvação do governo Collor, Covas vetou. Com Itamar a história foi outra e sabemos o que veio depois.
Alckmin foi adotado por Covas, Serra caiu pela 2ª lei Newton, no grupo de FHC, não que FHC tivesse algum respeito por ele. Já Covas, contam, queria Alckmin como a um filho. Os dois grupos nunca se uniram.
Assim, em 2002 o grupo de Covas/Alckmin não trabalhou por Serra e em 2006 o grupo de FHC/Serra não trabalhou por Alckmin.
Como o consenso não era possível, a única solução seria um grupo destruir o outro e unificar o partido em São Paulo.
A eleição de 2008 foi esse momento.
Serra, o audacioso.
Com Alckmin marchado para a derrota em 2006, Serra aplicou sua grande jogada, a candidatura para o governo apesar do compromisso assinado em cartório. Julgou e acertou que o eleitorado paulista não se sentiria traído.
Instalou Kassab, um fiel escudeiro no Anhangabaú e tomou posse no Morumbi.
Era governador de São Paulo, portanto, candidato natural à presidência em 2010. Mas ainda era necessário derrotar o grupo de Alckmin, para dominar o partido em São Paulo.
A eleição municipal de 2008 e o domínio de Serra
Submerso desde 2006, Alckmin volta a cena em 2008. Postula a candidatura peessedebista. Serra é contra, apóia a reeleição de Kassab. O grupo de Alckmin novamente se impôs, mas erra e dá a Serra a sua grande chance de prevalecer unificando o partido em São Paulo.
A peça chave dessa eleição era o tempo de televisão nas mãos do PMDB de Quércia.
Quércia oferece apoio a Alckmin, porém o grupo de Alckmin, fiel aos compromissos de Covas recusa.
Serra não teria esses pruridos de consciência, fecha acordo com Quércia, coliga PFL com PMDB. O PSDB sob seu comando, e com a aprovação de FHC que tem aí a sua grande chance de dar a volta em Covas, ainda que esse já estivesse morto, deixa Alckmin na chuva, apóia sub-repticiamente Kassab e derrota de uma única vez dois adversário, o PT de Marta Suplicy e o grupo de Alckmin.
Kassab é re-eleito e o grande vencedor é José Serra.
Alckmin bate no fundo do poço.
Aí Serra mostra que realmente é um articulador. Com o grupo de Alckmin completamente derrotado, Serra lhe oferece uma secretaria em seu governo.
Em gesto de grande esperteza transforma desafetos em devedores políticos.
Agora tudo está pronto para a sua candidatura a presidente em 2010. Ele havia pavimentado o terreno. Era o governador de São Paulo, tinha Kassab e o seu PFL instalado na prefeitura, um acordo com o PMDB de Quércia e a dívida de gratidão de Alckmin.
Lula, um enorme patrimônio sem herdeiro.
No verão de 2009 o PT tinha um enorme patrimônio, Lula e o governo Lula, e ninguém que pudesse assumir esse patrimônio.
O governo Lula era um sucesso inconteste, pelo menos 20 milhões de brasileiros haviam deixado a linha de pobreza, com o crédito facilitado a classe C e D consumiam mais do que a classe A e B criando pela primeira vez um mercado de escala no país e obrigando os empresários a repensar suas estratégias de produção.
O Brasil era auto-suficiente em petróleo e o pré-sal permitia vislumbrar-se que em pouco tempo se tornaria um dos grandes exportadores de petróleo.
O PAC e o “Minha casa, minha vida” provocavam o apagão da mão de obra e, por conseqüência, e forçavam a formalização do emprego e o aumento do poder aquisitivo da classe trabalhadora.
A eterna e impagável dívida externa foi paga e o Brasil se tornara credor do FMI.
Isso tudo com a inflação controlada e com Lula rindo-se da crise mundial de 2008. Aqui, o tsunami era marolinha.
No campo externo, o Brasil peitou os EEUU em Honduras, no NAFTA e na OMC e obteve vitórias nas três frentes. No G-20 era voz influente.
Tal condição rendeu a indicação para sede da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016.
Lula era “O cara”, causava inveja em Barack Obama e sentava-se ao lado da Rainha da Inglaterra.
No panteão dos nossos presidentes, Lula só poderia ser comparado a Getulio e Juscelino, tornando FHC a herança maldita do PSDB.
Já o petismo ia mal das pernas, não tinha mais nomes. Seus quadros foram queimados nos escândalos ou nas urnas. Talvez um dia venhamos a contabilizar o quanto o lulismo custou ao petismo.
José Dirceu, que no primeiro governo era dado como o sucessor de Lula, e José Genoino, que chegou ao segundo turno para a disputa o governo de São Paulo, estavam mortos pelo escândalo do mensalão, e não eram os únicos.
Marta Suplicy inviabilizada por governo impopular, uma derrota e um “relaxa e goza”. Mercadante e Eduardo Suplicy sem nenhuma apetência para o executivo.
Não, o grande PT paulista se esgotara, não sairia de São Paulo o nome do sucessor de Lula.
Fora de São Paulo, 3 nomes, Patrus Ananias, José Pimentel e Tarso Genro. Somavam duas desvantagens, não eram nomes de escala nacional e tinham fortes adversários regionais.
Buscar uma solução fora do PT?
Ciro Gomes. Sem dúvida era fiel à causa lulista, mas, e quanto à causa petista? Além do que, Ciro era incontrolável e dava sinais contraditórios, tais como, aquela história de aceitar ser vice de Aécio Neves.
Lula, como um grande estadista, consolidou o modelo eleitoral ao se recusar a qualquer aventura de terceiro mandato.
Ou seja, Lula elegeria até um poste, mas o PT não tinha poste a apresentar e, assim, até Serra poderia se candidatar a ser o melhor pós-Lula à disposição.
Ou seja, no verão de 2009 a sucessão de Lula estava aberta, apesar, ou em função, de Lula ser Lula.
Dilma, a mãe do PAC.
Lula é um animal político de espécie superior, percebeu a sinuca de bico e fez uma jogada tão audaciosa que só os grandes mestres do taco teriam o tirocínio e a audácia de fazer.
Decidiu construir um sucessor começando do zero. Escolheu alguém tão desconhecido que ninguém poderia criticar, Dilma Rousseff.
E quem era Dilma? Ora, era a mãe do PAC.
Daí para frente tinha um ano e meio para convencer os brasileiros de que Dilma era o verdadeiro pós-Lula.
Serra jogou muito bem no início. Nada fez. O problema era de Lula. Impor um nome sem nenhuma tradição partidária a um partido que morre teso, mas não entrega a rapadura e depois, ainda, amarrar Dilma na ponta de uma linha e empinar sua pipa mesmo sem vento.
Era esperar e nem ter de pagar para ver. Se algo desse errado, não haveria plano B e vitória de Serra estaria assegurada antecipadamente por WO.
A tragédia sorri pela primeira vez para José Serra, a doença de Dilma mostrou, realmente não havia plano B para Lula e o PT.
A primavera de 2009.
Setembro chegou e trouxe a primavera e o momento de decisão para Serra.
E aí algo acontece com o político maduro que não percebe que chegou o seu momento.
Como foi possível tal vacilação, o que aconteceu? Não sei, mas algo aconteceu.
Dilma clinicamente curada, seu nome aceito e sua pipa começando a voar. Voar baixo, mas já se mantendo no ar.
Era a hora de Serra se lançar o como o candidato do PSDB, afinal ele era o governador de São Paulo e o governador de São Paulo é candidato natural à presidência. Além do que, era o mais velho com condições de se candidatar e, em política, tem fila.
A alegação de que era muito antecipado, que a campanha só começaria em 2010 não se mantinha e as pesquisa mostravam.
Mostravam Serra em primeiro, Lula em segundo e Dilma em um distante terceiro lugar, mas crescendo lentamente sobre o eleitorado de Lula.
Ora, Lula não seria candidato, apenas o eleitor mais desinformado, muitíssimos, ainda não sabia. Era o eleitorado de Lula que estava em disputa. Se nada mudasse o quadro, aos poucos passaria a ser de Dilma, mas naquele instante era de quem convencesse esse eleitorado que seria o melhor pós-Lula. Ou seja, era sobre nesse eleitorado que Serra deveria imediatamente começar a buscar corações e mentes.
O PSDB percebe, a imprensa conservadora percebe e gritam: “vai que é tua, Serra”, e Serra vacila.
Aécio e o vácuo.
A política é avessa a vacilação tal qual a natureza a avessa ao vácuo.Acredito que Aécio sabia que em política há fila e respeitasse essa regra. Mineiro e sobrinho de quem é, não poderia ser de outra forma.
Mas Lula estava viajando o país costurando acordos e fazendo a pré-campanha antecipada de Dilma, os espaços do PSDB estavam cada vez menores e, então, no vácuo de Serra, Aécio se lança.
Nem assim Serra se mexe. O PSDB se desespera, a imprensa conservadora atônita com tal desinteresse e Serra só na vacilação. Por quê? O que ocorria com Serra? Não sei. Mas algo ocorria. Serra tem experiência demais para não perceber o que, a demais, era gritado pelo partido e pela imprensa.
Creio que o lançamento de Aécio foi um ultimato do PSDB a Serra.
Serra, duas alternativas e a terceira margem do rio.
E, para Serra, só havia dois caminhos a seguir.
Perceber que o momento era o momento dele, postular o lugar de pós-Lula e lançar se na campanha acreditando que de mineração e eleição só se sabe o resultado após a apuração. Tinha chances. O eleitorado ainda não conhecia Dilma, era um governador com ascendência sobre o maior colégio eleitoral do país, tinha na prefeitura da capital mais que um aliado, um escudeiro e, pela primeira vez desde sua fundação, o PSDB paulista estava unificado, a força, mas estava. Aécio, o governador amado do segundo maior colégio eleitoral poderia não ajudar, mas, naquele momento, não atrapalharia. A possibilidade de vitória colocaria o restante do PSDB a serviço e DEM e PPS não tinham escolha, além de dizer “sim, senhor”.
Poderia mostrar obras, o rodoanel, as novas linhas do metrô e as novas marginais no governo de São Paulo e as realizações no ministério da saúde, os genéricos e a política de assistência aos doentes portadores de AIDS. Bastaria esconder FHC e se comprometer com o continuísmo das políticas sociais de Lula.
Nada difícil para marqueteiros e uma imprensa que já haviam elegido um “caçador de marajás”.
Bastaria, em um momento solene do PSDB ou do governo paulista declarar algo assim:
“O governador Aécio Neves tem uma qualidade que eu já não tenho mais, a juventude. Pode esperar mais 4 anos. Na convenção do próximo ano pretendo apresentar o meu nome como candidato a presidência da república”.
Pronto, a campanha peessedebista estaria iniciada.
Mas Serra não dizia nada. O Lula em plena campanha pró-Dilma e o PSDB paralisado.
Serra também poderia decidir que não dava mais, que Lula era imbatível, que realmente elegeria o poste. Nesse caso, bastaria ceder a vez a Aécio e assumir a candidatura de segurança que seria a sua re-eleição ao governo estadual paulista.
Aposentadoria?
Não exatamente, passaria os próximos 4 anos como o jogador veterano que deixa a bola correr e joga no erro do adversário.
Aécio, aos 50 incompletos, não teria nada a perder. Uma derrota lhe garantira, no mínimo, a presidência do partido e o recall da campanha alçaria seu nome em escala nacional preparando-o para 2014. E Serra, em uma improvável vitória de Aécio, teria cacife suficiente para obter um bom ministério para Alckmin. Além de, no governo de São Paulo garantir uma secretária para Kassab após o fim de seu segundo mandato a frente do governo da cidade de São Paulo.
Porque Alckmin e Kassab?
Porque eles seriam a continuidade do poder de Serra.
O acordo que levou Quércia a apoiar Serra deveria ter alguma contrapartida. É o mínimo que se espera em qualquer negociação política, ainda mais em uma negociação com Quércia. A chapa peessedebista em São Paulo seria esta: Serra – presidente, Kassab – governador, Alckmin e Quércia – senadores.
Para Quércia, a ressurreição, qualquer que fosse o resultado das urnas, voltaria ao comando o governo municipal paulista através de Alda Marco-Antonio.
Para Kassab, um caminho natural após 4 anos como prefeito da capital e a melhor chance não ter de compartilhar os destinos de Salim Curiati, Celso Pitta e Antonio Fleury Filho. Criaturas que não sobreviveram ao criador.
Para Alckmin e seu grupo, o retorno ao cenário político.
Ao invés disso, Serra optou pela terceira margem do rio. Não se assumiu candidato e iniciou uma campanha contra Aécio Neves que incluía desde notinhas no blog de Juca Kfouri até o inacreditável “Pó pará, governador” do Estadão. Passando obviamente por mais um dossiê.
Ter o jovem e amado governador do segundo maior colégio eleitoral como inimigo político, somado a Tasso Jereissati e a Sarney não é, por qualquer ângulo que se examine, uma prova de habilidade política.
Afinal, o que passava pela cabeça do Serra?
A política não admite a vacilação, tanto quanto a natureza não admite o vácuo.
A indefinição de Serra, sua tibieza e indecisão fortaleceram o grupo de Alckmin que se sentiu capaz e conseguiu a indicação para concorrer ao governo do estado de São Paulo, quebrando as pernas de Kassab.
Verão de 2010. Ou, o momento em que Serra vacilou.
O verão chegou. Aécio espertamente lavou as mãos. Tinha cumprido seu dever, agora era pensar em Minas e no seu futuro.
As chuvas chegaram e São Luis do Paraitinga e as inundações e mortes da Grande São Paulo deixaram a nu o desgoverno Serra.
Mesmo assim, a tragédia sorriu novamente para Serra. Era a hora de transferir o governo paulista para a cidade mais próxima de São Luis do Paraitinga, montar acampamento nas margens do rio, botar bombeiros e defesa civil mais a PM ao serviço da população atingida. No noticiário, fazer promessas malucas, tão curtas como um sonho bom.
Nas inundações da capital, culpar as chuvas “extraordinárias” e a “população irresponsável”. Dar um arrocho, ainda que momentâneo, na “máfia do lixo” e promover ações de emergência.
Como recomendaria Marques de Pombal após o terremoto de Lisboa, socorrer os vivos e enterrar os mortos.
Que grande figura faria. Serra, o homem certo, no lugar certo, na hora certa.
Esse era o momento da ação, as eleições eram outro momento posterior. Só os politiqueiros insensíveis à dor alheia não percebiam isso.
Dinheiro e poder não lhe faltaram.
Mas Serra nada fez, submergiu na água barrenta boiada por sacos plásticos pretos de lixo. Kassab, em uma última tentativa da imprensa conservadora em poupar Serra, apanhou um bocado. Já era um balão apagado.
Quando março chegou fechando o verão e Serra se anuncia candidato em um programa vespertino e popularesco, especializado em vender “mundo cão”, só a ponto de nem ter nem um vice para chamar de seu, já era uma derrota anunciada.Toda a baixaria que cometeu depois é história. Coerente com uma ação desesperada.
Não consigo entender, o que aconteceu com Serra?
Como ele não havia aprendido com Luis Melodia:
“um político, tal qual uma mulher, não pode vacilar”?
No verão de 2010, Serra vacilou.
