Um dos momentos mais marcantes do Fórum Social Temático foi a bancada da noite do dia 27 de janeiro, denominada "Direitos Humanos, Justiça, Lutas e Memórias" composta por  1- Daniel Iliescu – presidente da UNE, o mais jovem, o representante da geração que era maioria nas cadeiras do auditório no Salão Nobre de Direito da Faculdade Federal Do Rio Grande do Sul. Os intelectuais: 2-  Boaventura de Sousa Santos- Sociólogo português, consagradíssimo, inteligente, voraz. Fechou a bancada em sintonia com os nervos da plateia. 3- Emir Sader – intelectual presentíssimo no o site www.cartamaior.com.br. Bem humorado, a favor do governo. Pessoa de caráter, humilde e diplomático. 4- Leonardo Boff- intelectual de enorme sensibilidade, o único que destacou a necessidade de perdoar, inclusive militares assassinos durante o período da Ditadura. E a geração intermediária e, ao mesmo tempo, o lado representado pelo governo do PT: 5- Maria do Rosário – Ministra da secretaria dos Direitos Humanos.

 

Meu foco é o discurso de Maria do Rosário, exatamente quando começou a ser contestada pela plateia (abarrotada, todas cadeiras tomadas, o chão da frente, as laterais, tudo lotado). Não vi lentes da Globo, não vi lentes da Band nem de qualquer grande rede de televisão (posso estar enganado).

 

Maria do Rosário, a ministra, estava visivelmente emocionada. Nervosismo talvez seja o sentimento mais acurado. Ela sabia que representava ali uma versão oficial do governo, diante de uma plateia crítica, com membros que conhecem e rejeitam a estratégia militar do Brasil no Haiti, que sabem de cor o atropelo da Dilma com relação à Belo Monte e que esperam com fé o veto para alguns artigos do Código Florestal, sobretudo a respeito da anistia e do aumento da margem de desmatamento.

 

A Rosário - não sei se lhe é uma característica própria ou se estava realmente afetada com o contexto - estava com dificuldade para construir uma linha de raciocínio preparada, coerente. Atrasou para chegar, pediu muitas desculpas. Quando falava,  suas orações demonstravam insegurança, com algumas pausas, com um fluxo de pensamento um tanto caótico. Sua voz demonstrava paixão e nervosismo. Isto não é uma crítica, é uma tentativa de contextualizar o momento da conferência.

 

Seu discurso durou cerca de 27 minutos. No começo, com diversos aplausos convictos provenientes da plateia que foram se enfraquecendo ao longo do discurso, até que começaram a surgir contestações, quando a própria fala da ministra entrava em contradições. Primeiro, com alguns membros da plateia, interpelando sua fala dizendo “Haiti”, depois, mais forte, o caso de Belo Monte, retratado a seguir:

           

Maria do Rosário:

 - Ainda que estejamos em lugares diferentes, a sociedade civil deve cobrar,  organizar, cobrar do estado a superação das marcas de violência que historicamente se constituíram e que se repetem por novas formas em Pinheirinho ou na periferia das grandes cidades quando jovens negros são mortos...

- Belo Monte – um membro começa da plateia.

- Quando as comunidades são mortas... continua a ministra.

- Belo Monte. – mais forte da plateia.

- Belo Monte! – mais forte.

*Aplausos.*

- Ali eu quero dizer a vocês... – tenta continuar Maria do Rosário.

- Belo Monte!

- Eu quero dizer a vocês – conseguindo o silêncio da plateia - que sobretudo enfrentar esta realidade e a lógica de violência que Daniel [Iliescu] nos trouxe aqui pelas polícias, nas delegacias, nas penitenciárias, é essencial. O governo brasileiro tem tido um amplo debate sobre suas políticas de desenvolvimento. Os temas relacionados às estratégias de desenvolvimento são importantíssimas para nós, seja em Belo Monte, seja no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro, no Paraná, em torno de Itaipu, no Mato Grosso, ou em todas as demais regiões do Brasil – dialogando diretamente com as manifestações que surgiram da plateia - As questões de desenvolvimento devem cada vez mais envolver os povos diretamente. Não pensem meus amigos que me provocam, como devem fazê-lo, com  Haiti ou como Belo Monte que como representante do governo assumira eu, ou assumirei eu uma posição recuada diante disto.

 

*Aplausos fortes, assobios a favor e algumas e abafadas vaias no fundo.*

        - A presidenta Dilma e todos nós sabemos disto, eu irei ao Haiti daqui a dois dias para tratar de imigração humana porque nós não faremos com o povo haitiano o que os Estados Unidos e a Europa fizeram com qualquer um dos povos.

 

*Aplausos mais fortes*

       - Os haitianos são bem-vindos ao Brasil, os bolivianos são bem-vindos ao Brasil.

 

*Aplausos continuam*

       - Os  pobres do mundo não incomodam o Brasil. O que incomoda o Brasil – pausa-  o que incomoda o Brasil – ela hesita -  o que ofende ao sentido de dignidade humana é quando – nova pausa -  os migrantes do mundo são tratados como escória e não como parte da humanidade.

 

*Aplausos mais fracos*

 [...]

      - A missão no Haiti tem que imediatamente se transformar de uma missão de caráter militar para uma missão de cooperação, porque esta é a trajetória do Brasil e a trajetória de compromisso brasileira. Belo Monte e as estratégias de desenvolvimento tem que ser pensadas como projeto, e que me perdoem os membros desta mesa, se for por este caminho, mas tem que ser pensadas a partir da compreensão global do desenvolvimento do Brasil.

      Mais para frente, no fim de seu discurso, houve aplausos fortes, vaias fortes, aplausos, aplausos, vaias, aplausos, aplausos, vaias, aplausos, gritaria:

     -       Rosário, Rosário, Rosário! Rosário – em franco apoio à ministra.

Depois mais aplausos, e algumas vaias.

Sobretudo, a maioria do público apoiava a ministra, inclusive Pablo Gentili, ouvindo o discurso de pé, no canto; inclusive Emir Sader, inclusive Boaventura, Leonardo Boff que discursou depois e ponderou sobre a possibilidade da voz da ministra ganhar força. Não olhei para Daniel Iliescu neste momento, não sei como reagiu.

 

Quem esteve lá viu Maria do Rosário tomada por muita emoção, conclamar a necessidade de reavaliar imediatamente a postura do Brasil lá no Haiti. Quem esteve lá viu Rosário defender visceralmente a comissão da Verdade. Quem esteve lá viu a ministra criticar veementemente a reintegração de posse de Pinheirinho.

 

No instante após este memorável discurso, Boaventura, ao começar sua reflexão, em grande sintonia com a plateia – que o aplaudiu do começo ao fim, inclusive de pé no fim da noite - disse:

“Eu nunca vi uma ministra assim... e eu gostava [gostaria] de acreditar 100% no que ela disse. A ministra, grande ministra que é, aquilo que diz que vai fazer só o fará se essa gente se aproximar todos os dias. Porque se não se aproximar, seu governo é contraditório. Portanto, a minha primeira palavra é esta: ajudem a ministra a cumprir o que ela quer fazer.”

 

            Noite memorável no Fórum, para plateia, para os palestrantes e, principalmente, para Maria do Rosário. Tenho certeza de que vai retumbar no coração da ministra, que neste momento, está no Haiti. Tomara que volte com força suficiente para mudar o paradigma da missão militar brasileira.