"Quando observamos o panorama mundial, não podemos deixar de lamentar o estado atual do conhecimento dos economistas sobre o real funcionamento do sistema econômico e sobre o comportamento dos seus agentes. Ele, que deveria ser o objeto de um profundo escrutínio empírico de uma realidade histórica dinâmica, e a subsequente tentativa de descoberta de algumas relações estáveis (se existissem!), perdeu-se lentamente desde a segunda metade do século XIX. Foi transformado de political economy em economics, numa clara tentativa de aproximá-lo da physics ou chemistry e dar-lhe o cobiçado estatuto de ciência" (Antônio Delfim Neto, Jornal Valor Econômico de 23.11.2010)

 

"A natureza do mundo mudou e nós não a reconhecemos" (Donald MacKenzie – Long-Term Capital Management and the Sociology of Arbitrage, Economy and Society, 32,3 (agosto de 2003, p.374).

 

Todo modelo se sustenta a partir de seus axiomas fundamentais. Um axioma é uma "verdade" aceita sem a necessidade de provas empíricas, derivada da intuição e cuja validade é capaz de permitir a construção de todo  um edifício teórico.  Quer seja na matemática ou nas ciências naturais, tal postulado serve como ponto de partida para inferências ou deduções que virão a posteriori. Assim, basta que o axioma  de uma teoria seja alterado para que todo o modelo careça de uma revisão. Foi assim com a teoria  heliocêntrica de Copérnico que alterou o axioma de Ptolomeu de que a terra estava no centro do Sistema Solar bem como com o axioma que considerava a propagação da luz como um corpúsculo a se deslocar no éter, até que surgisse a dupla teoria da propagação cujo axioma afirmava que o fenômeno possuía a característica simultânea de corpúsculo e de onda. Sem dificuldade, poderíamos enumerar uma seria alterações de modelos que contaram com a substituição de um padrão de verdade condicionada, quando a uma certa altura esta deixa de produzir seus efeitos, quer seja pela confrontação com a realidade empírica dos fenômenos atuais ou pela apresentação de novos postulados que mostram-se mais adequados a evolução de determinados modelos.

 

Em economia, uma ciência cuja quantidade de variáveis em jogo está aliada a alto grau de imponderabilidade dos fenômenos, a revisão dos modelos faz-se necessária com frequência . Dado o dinamismo dos fenômenos econômicos, alguns postulados em economia carregam o peso de um anacronismo que dificulta o abandono de certas "convenções de verdade" que sustentam os modelos de certos economistas. Ao assistirmos o fim da última reunião do G-20, na Coréia, onde buscava-se um consenso sobre que modelo de equilíbrio global adotar, para garantir a manutenção do crescimento de certos países e a retomada do crescimento por outros, fica a impressão que vivemos uma época onde o axioma que deveria fundamentar os modelos desta nova fase da economia global é: a atual ordem econômica é cubista.

 

O Cubismo foi um movimento artístico do início do século XX, marcado pela tentativa de representar a realidade através de novas formas pictóricas que fossem capas de aprender e descrever nuanças que passavam despercebidas na representação clássica do formalismo das técnicas figurativas. Caracterizado pela desestruturação da obra em todos os seus elementos e o registro de todos eles em planos sucessivos e superpostos, o Cubismo procurava a visão total da figura, examinado-a em todos os ângulos no mesmo instante, através da fragmentação dela. Essa inovação visava criar efeitos plásticos que pudessem  ultrapassar os limites tradicionais das sensações visuais, despertando assim no observador novas impressões.

 

Parece um consenso geral entre os analistas financeiros, economistas e sociólogos que o mundo do século XXI experimenta um novo modelo de globalização, impulsionado pelas novas tecnologias da informação e cuja cena geopolítica, outrora definida como um jogo envolvendo o centro e a periferia do mundo, conta com um significativa alteração do que tange ao fluxo do capital. As novas "periferias" passaram por transformações estruturais significativas ao ponto de estarem próximas de assumir a liderança na produção da riqueza mundial. Se até 2000 a participação dos países emergentes no PIB mundial era de 38% em 2010 ela passou para 49% e poderá  atingir 57% em 2030, segundo o estudo Perspectivas sobre o Desenvolvimento Mundial 2010 - Deslocamento da Riqueza, publicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Estes dados, além de apontar um realinhamento do jogo econômico global, convivem com o fato que o motor das crises estruturais que assolaram a economia ao longo dos últimos 60 anos ter se deslocado para o centro do mundo. Embora os ecos da crise econômica que assola os Estados Unidos e Europa tenham chegado nas duas principais periferias (Ásia e América Latina), o posicionamento das economias emergentes destas regiões, que em linhas gerais se fundamenta nas ações voltadas à estabilidade financeira e o crescimento econômico, permitiu a captura de oportunidades que contribuíram, ainda mais, para o fortalecimento de players que já vinham se inserindo como principais parceiros globais. O Financial Times, em caderno especial sobre negócios na América Latina afirmou: "Se você voou numa companhia aérea regional recentemente na Europa ou nos Estados Unidos, é bem possível que estivesse sentado num avião da Embraer", afirma a publicação. Quem comeu frango num churrasco americano em 4 de julho também pode ter experimentado a ave da Pilgrim´s Pride, empresa da JBS. "Se você de repente tomou uma Budweiser no churrasco, hoje ela também tem um pedaço do Brasil"

 

Esta constatação leva-nos a uma reflexão sobre a validade de modelos de crescimento que insistem em se basear em premissas que refletem um mundo que ficou numa outra era, onde as nações hegemônicas exportavam as cartilhas com que se escrutinava a realidade em torno de si, as quais continham os modelos que garantiriam nada além de sua própria hegemonia. Em meio as tentativas de se chegar ao consenso sobre um modelo de crescimento que equilibre as diversas economias ao redor do mundo, que possuem uma significativa assimetria em relação ao estágio de desenvolvimento e à forma com que têm lidado com seus problemas estruturais, há de se considerar a diferença desses modelos com fundamentais para que se consiga trabalhar com as idiossincrasias e singularidades de cada país ou região interconectado a em um grande rede global. Para que se leve a cabo esta tarefa precisamos rever os axiomas tradicionalmente aceitos como válidos, a exemplo da recente onda que se instalou em meio aos analistas e economistas a respeito do "risco de desindustrialização" ou "re-primarização" da pauta exportadora brasileira devido ao câmbio apreciado.

 

Quando vamos a realidade empírica ela aparentemente se distancia dessas premissas, permeadas pela "aura de um dogma" que acredita ser a indústria o setor mais dinâmico da economia e onde se daria a adoção e criação de novas tecnologias, puxando a reboque todos os outros. Se confrontarmos as premissas que apontam um suposto processo de especialização regressiva como os dados dos gráficos de distribuição da PIB brasileiro por setores da economia, em especial a produção destinada as exportações, não encontramos inícios suficientes para afirmar que tal processo esteja em curso. No máximo percebemos um pequena migração da produção dos setores da "indústria manufatureira e de metalurgia" para a "indústria de mineração" e do agronegócio", fruto da inflexão que deslocou as forças produtivas de tecnologia para outros segmentos diferentes do tradicionalmente considerado como "segmento industrial de fato", aumentando sua eficiência e tornando estes segmentos altamente competitivos. Além disso, parece natural que países de dimensão continental assumam sua vocação agrícola, descontados aqueles cujo as condições climáticas e de solo cultivável não cooperem. Outro fator determinante para a composição do modelo de desenvolvimento das economias está relacionada a concentração de sua população nos centros urbanos que, por obedecerem lógicas próprias, assumem características distintas e refletidas na distribuição de sua produção, que apresenta uma maior concentração nos setores de indústria e serviços. Se Singapura concentra quase toda sua população nos "limiares da cidade" por uma condição geográfica mais que obrigatória, o seu setor de indústria de serviços assume, quase que automaticamente, o status de principal fonte de crescimento econômico, enquanto que na Alemanha, a concentração de sua população em áreas urbanas gera um modelo de crescimento que tem nos setores da indústria manufatureira seu principal motor, ficando a produção agrícola numa zona intermediária comparados os líderes em produção do segmento primários, todos de dimensão continental, dentre eles China, EUA, Índia e Brasil, todas do rol das principais potências econômicas mundiais da atualidade.

Um recente estudo do Banco Mundial, assinado pelos economistas Emily Sinnott, John Nash e Augusto de la Torre e comentado no artigo de Fernando Lopes, no Jornal Valor Econômico, em sua edição de 14/09/2010,  coloca em xeque o conceito que ficou conhecido como "a maldição das commodities". O estudo conclui que a maldição das commodities, se existir, não é forte nem inevitável. Os pesquisadores foram buscar evidências, a partir de estudos na América Latina e outros países ricos em recursos naturais, inclusive do mundo desenvolvido, que indicam que a riqueza em recursos naturais, em média, não prejudica nem promove desproporcionalmente o crescimento econômico. A questão da "maldição das commodities ou da doença holandesa", segundo eles estaria muito mais ligadas a uma má administração de situações privilegiadas das do tipo experimentada na atualidade pelo Brasil, que vive a febre do petróleo na camada pré-sal e tem realizado vultosos aportes em mineração,  esperando se consolidar como o grande exportador de alimentos deste século, efetuando uma profícua mudança de paradigma. Desta forma, cada modelo de crescimento econômico, respeitadas a soberania da singularidades de cada país e tendo como balizador a eficiente gestão de suas forças de produção, deverá estar apto a propor axiomas que consigam ser confrontados com a realidade dos fenômenos sem serem por ela "esmagados". Assim, considerando o atual processo de globalização, cabe perfeitamente a tese de um novo conceito de "indústria", além da convivência pacífica de modelos de crescimento locais que gerem uma complementaridade recíproca, facilmente detectável por "olhos" que consigam registrar os planos sucessivos e sobrepostos que se abrem ao observador atento, assim como os pedaços unidimensionais das telas de Picasso. Bem vindos a terceira revolução industrial!!!

 

* Carlos Machado é filósofo e especialista em finanças