A educação que temos e a sociedade que queremos
Há décadas ouvimos o discurso de que é preciso melhorar a qualidade da educação no Brasil, de que essa qualidade é essencial para o desenvolvimento do país etc etc. Hoje, vários programas públicos, assim como movimentos da sociedade civil, carregam esta bandeira, mas o que é, afinal, esta qualidade? Que qualidade queremos? O Plano Nacional de Educação, avaliado em 2010, só teve 33% das suas metas cumpridas, entre 2001 e 2008, e foram apenas as metas quantitativas. Das metas qualitativas nada foi conseguido, muito pelo contrário, elas pioraram. A taxa de repetência no ensino fundamental aumentou de 21,7% em 2001, para 27,7% em 2007, e a evasão no ensino médio aumentou de 10% em 2006, para 13,2% em 2008.
Depois de tantos planos fracassados2, fica claro que a raiz deste problema ainda é desconhecida pelos nossos gestores públicos. Reconhecidos estudiosos da educação, como Edgar Morin3, Francisco Imbernón4, Saturnino De La Torre5, Isabel Alarcão6 e tantos outros, já nos alertam há anos que o grande obstáculo para oferecermos uma educação adequada às demandas do nosso tempo, se encontra no âmbito das relações humanas, na qualidade das relações humanas na escola, em especial durante o ensino infantil e fundamental, um período fundamental para o desenvolvimento humano.
No Brasil, o foco da relação do professor não é com os alunos, mas com o conteúdo, e os sistemas oficiais de avaliação do ensino, focados em notas, também estimulam esta cultura. Embora a formação em pedagogia, teoricamente, prepare o professor para lecionar em qualquer ano do ensino infantil ou fundamental de 1º ao 5º ano, ele se especializa no conteúdo relativo a um único ano escolar, e a cada ano pega uma nova turma de alunos para ensinar o mesmo conteúdo. Assim, ele não se compromete com o desenvolvimento e o sucesso futuro dos alunos. Se a criança tem dificuldades é cômodo transferir a culpa para a família ou o para o professor anterior, e ela será problema do próximo professor. Também é fato que, para se manter com um baixo salário, é comum o professor assumir uma carga horária muito alta, trabalhando em vários períodos, o que inviabiliza um envolvimento mais profundo com seus alunos. Nossas políticas públicas não estimulam o comprometimento do professor com o desenvolvimento individual dos alunos por longo prazo, nem uma aproximação efetiva do professor com as famílias, e, no fim, ninguém é responsabilizado pelo fracasso de um aluno.
Devido à pressão que a sociedade impõe ao poder público pela melhoria da qualidade na educação, governantes, assim como gestores de escolas privadas, tentam resolver o problema comprando “sistemas de ensino” apostilados, que não têm relação com as necessidades individuais dos alunos e nem com a identidade de suas comunidades. Com estes sistemas “economiza-se” o tempo para preparar aulas. Assim, os professores podem ter os vários empregos que precisam, pois os salários continuam baixos, e eles não têm tempo para dedicar ao seu aprimoramento e aos seus alunos. É a pura lógica industrial: investe-se nos sistemas e economiza-se na mão de obra. Assim a qualidade de vida dos professores vai para o ralo e a qualidade da educação vai junto. Adotar estes sistemas equivale a obrigar pessoas que podem andar a usar muletas. Eles já atingem milhões de crianças brasileiras, e quem mais se beneficia são as editoras que os vendem7. A educação, principalmente a infantil e fundamental, não pode ser tratada como se fosse apenas um treinamento, desvinculada das relações humanas e da individualidade dos alunos, e os professores como se fossem incapazes de criar e planejar suas aulas. Isso tira a autonomia da escola, engessa e massifica o ensino, relega os professores a meros coadjuvantes, a aplicadores de tarefas e testes, tolhendo seu protagonismo, e perpetua o status quo8.
Sabemos que a educação é radical: ela é a raiz do bem ou raiz do mal. O que chamamos de escolas públicas, no Brasil, são, na maioria, escolas estatais, obrigadas a seguir programas impostos pelo estado, escolas sem “alma”, que cerceiam a criatividade e a iniciativa dos professores, e, como consequência, desestimulam a criatividade, a iniciativa e o interesse dos alunos. Aí os jovens chegam ao ensino médio despreparados e desmotivados, sem acreditar na escola, nem nas suas próprias chances de sucesso, e acabamos com o “apagão” de mão de obra que o país enfrenta hoje9.
Neste cenário, fica claro que nossa educação básica se perdeu do fator humano. As crianças não precisam da escola apenas para serem instruídas, elas precisam para se desenvolver como seres humanos. Embora esta seja uma responsabilidade primordial da família, sabemos que a escola é um ambiente privilegiado para o desenvolvimento de valores como a responsabilidade, a solidariedade, a sociabilidade, a tolerância, a inclusão, a justiça, a democracia, a diversidade, a cidadania e a sustentabilidade, entre outros.
Sem pretender esgotar aqui este assunto, relaciono alguns princípios que considero condicionantes para uma educação de qualidade, com base nas relações humanas e na educação como arte social, e que podem ser um caminho para enfrentarmos nosso maior desafio: substituirmos a cultura do consumismo pela da sustentabilidade10.
O professor como formador comprometido com o sucesso do aluno
O êxito da educação básica depende, em primeiro lugar, da qualidade da relação humana entre professor e aluno. Tanto no ensino infantil, como no fundamental, o foco do professor precisa deixar de ser apenas o conteúdo, e passar a ser o aluno, e seu desenvolvimento como ser humano completo, que pensa, se sensibiliza, se relaciona e atua no mundo. A mudança deste paradigma é essencial para que outras transformações sejam conseguidas. Tanto no ensino infantil quanto no fundamental, é preciso criar a possibilidade e incentivos para que cada professor se comprometa com a condução de sua turma pelo maior tempo possível, e com o sucesso individual de seus alunos.
No ensino infantil, isso seria por cerca de três anos. No ensino fundamental, o professor formador poderia acompanhar sua turma do 1º ao 5º ano, ministrando as atividades e matérias básicas. Aulas de música, língua estrangeira, educação física, trabalhos manuais etc. podem ser ministradas por professores especialistas. O professor formador precisa conhecer a fundo cada aluno, seu temperamento, suas qualidades e dificuldades, e conhecer sua família, para poder atuar da melhor forma com cada um, assumindo perante os pais o compromisso de conduzi-lo em sua formação. Deve preparar suas aulas a partir de seu conhecimento sobre o desenvolvimento humano, sua visão de mundo, os conteúdos curriculares e o conhecimento sobre seus alunos e, claro, deve poder dedicar-se a apenas uma turma. Nas séries superiores do ensino fundamental os professores com licenciatura também deveriam ter estímulo para acompanhar suas turmas. Desta forma se fortaleceria também o vínculo dos professores com as escolas.
Como o exemplo pessoal do professor, independentemente de sua vontade, influencia na formação moral e social dos alunos, principalmente durante o ensino infantil e o fundamental, ele precisa se preparar para ensinar a responsabilidade sendo responsável e coerente em suas atitudes, ensinar a justiça sendo justo com todos os alunos, ensinar a solidariedade sendo solidário, ensinar a inclusão, incluindo, ensinar respeito, respeitando seus alunos, e, para entusiasmá-los pelo conhecimento, precisa ensinar com entusiasmo.
Este modelo de relação entre professor e aluno não é novo. É aplicado nas escolas que adotam a pedagogia Waldorf no Brasil, há mais de 50 anos11. Nestas escolas há professores formadores no ensino infantil e no fundamental. No fundamental os professores acompanham sua classe do 1º ao 8º ano, ministrando as matérias básicas. Eles recebem as crianças todos os dias na porta da classe, e as cumprimentam pegando em sua mão, desejando bom dia a cada uma, dizendo seu nome e olhando nos seus olhos. No fim das aulas se despedem da mesma forma. Assim, cada criança sente que foi olhada e percebida por seu professor, e que está no foco de sua atenção. Esta simples atitude já muda a disposição com que a criança recebe o que vem deste professor.12
A independência pedagógica da escola
Tudo que nossa civilização criou até hoje foi, em última instância, fruto de realizações individuais. Portanto, é fundamental estimular cada indivíduo a desenvolver suas capacidades próprias, e só o professor é capaz de enxergar o aluno como indivíduo. O Estado e as editoras não conseguem. Assim, cada professor precisa ter a liberdade de atuar com seus alunos. Esta liberdade não significa que as matérias exigidas pelos programas oficiais de ensino não sejam contempladas. Significa a forma como serão ensinadas e o momento, assim como a inclusão de matérias adicionais, principalmente no âmbito das artes e dos trabalhos manuais. O projeto educativo de uma escola deve ser livre da tutela estatal, tendo como base sua comunidade educadora, e partilhado por professores que experimentem em si próprios a liberdade, a responsabilidade e o protagonismo. A partir de professores livres, poderemos formar homens livres, com autonomia para escolher seu próprio caminho e novos caminhos para a humanidade.
O aprendizado deve ser prazeroso
Como Heródoto já disse há 24 séculos, “educar não é encher um balde, é acender um fogo”. A indisciplina que os professores do ensino fundamental enfrentam hoje ocorre porque suas aulas são focadas apenas no ensino cognitivo, como se esta fosse a única característica humana que precisasse ser desenvolvida. Ficam somente no exercício do Pensar, desprezam o desenvolvimento do Sentir e do Querer. Ocorre que as atividades ligadas ao Pensar sempre exigem “concentração”, e as aulas ficam chatas, pois crianças não aguentam só se concentrarem. Já as atividades ligadas ao desenvolvimento do Sentir e Querer permitem uma “descontração” e, quando as três são intercaladas, cria-se um ritmo mais saudável e produtivo, pois a aula “respira”. Os alunos passam a gostar das aulas e o professor se estressa muito menos para lecionar. Se o professor não cria momentos de descontração conduzidos por ele, os alunos criam por conta própria. A indisciplina deve ser encarada como um pedido de socorro dos alunos13.
O Sentir desenvolve-se por meio da vivência das relações humanas, pelo contar histórias (contos de fadas, lendas, fábulas, mitos, biografias etc.)14, pela interpretação musical, declamação de poemas15, rodas rítmicas, jogos, representação teatral etc. Interpretando personagens a criança e o adolescente vivenciam as qualidades que influirão na formação de seu caráter.16
O Querer, o fortalecimento da vontade, desenvolve-se exercitando a criação individual por meio de atividades que exigem uma ação manual transformadora, como criar um texto, um desenho, uma pintura, uma escultura, um trabalho em madeira e diversos tipos de trabalhos manuais, tocar um instrumento etc. O aluno precisa criar algo a partir da sua imaginação, usando a vontade, a perseverança, a coordenação psicomotora e o senso estético. Este é um antídoto contra o bitolamento de seu modo de pensar, onde cada resultado conquistado fortalece sua autoestima.
As atividades artísticas devem ser utilizadas como instrumento pedagógico para potencializar o aprendizado das matérias básicas, e não apenas como matéria isolada, pois permitem que o professor promova a vivência lúdica dos conteúdos. Representar uma peça sobre as grandes navegações, vivenciando as ações e emoções dos navegantes, é muito mais rico e interessante do que decorar nomes e datas, além de promover a socialização entre os alunos. A formação completa do ser humano não pode prescindir da arte como instrumento, pois ela ajuda a libertar e desenvolver as mais profundas capacidades que cada criança traz consigo.17
E quanto às avaliações, elas não podem incutir nas crianças o medo de errar. Se os alunos não estiverem preparados para errar, nunca terão idéias originais, e a maioria chegará à idade adulta tendo perdido sua criatividade. Como não sabemos como será o mundo onde eles vão viver, e os desafios que terão que enfrentar, a criatividade precisa ser tratada com a mesma importância que a alfabetização.
Um novo papel social para o professor
Um professor que assume a responsabilidade, perante um grupo de pais, de conduzir a educação de seus filhos por um período importante de sua formação, passa a ter uma importância social muito maior do que um professor “de passagem”. Ele deve atuar entre os alunos de modo a promover o fluir e a harmonia das relações, e o desenvolvimento harmônico de suas capacidades humanas de pensar, sentir e querer, criando um ambiente saudável para o aprendizado18. Educar desta forma deve ser considerado uma obra de arte social, e o educador, um artista social. Exige um constante esforço de aprendizado e autoconhecimento, ambiente de trabalho apropriado, e o reconhecimento da importância deste trabalho refletido em sua remuneração e num plano de carreira adequado e estimulante. Os jovens que tiverem a educação conduzida desta forma poderão chegar ao ensino médio com outra disposição de espírito para o aprendizado, com outro nível de responsabilidade social, mais idealistas e menos céticos em relação a suas perspectivas de sucesso na vida.
Fomentar o processo de auto-educação, auto-conhecimento e auto-estima do educador como base sólida para a sua interação saudável com a criança, é uma política pública primordial. A carreira de professor para o ensino básico precisa urgentemente melhorar seu status, pois temos que atrair para ela nossos melhores e mais promissores jovens. E as universidades, por sua vez, precisam fazer seu mea culpa e renovar seus currículos, proporcionando um estudo aprofundando do desenvolvimento humano19, o estudo pedagógico dos temperamentos20 e das necessidades da criança em cada etapa de seu desenvolvimento. Devem focar a realização do ensino com sentido estético, e estruturado com atividades artísticas, preparando-os para serem protagonistas da educação. Também é fundamental a criação de um sistema de estágios que realmente prepare os novos professores para a atuação em sala de aula, e um amplo programa de formação continuada ministrado por formadores com vivência prática em sala de aula.
Educação de qualidade para uma sociedade sustentável
A qualidade da educação, considerada como o compromisso de promover o desenvolvimento do aluno como ser humano completo, que pensa, se sensibiliza, se relaciona e atua no mundo, só se sustenta pela competência, autonomia e dedicação de seus professores. Nenhum livro didático, computador ou recurso técnico substitui a qualidade da relação humana entre um professor preparado, motivado e entusiasmado com seu trabalho, e seus alunos. Nenhum método educativo supera ou substitui a palavra falada que vai de um ser humano a outro. Só um professor bem preparado, amparado pelo ambiente de trabalho, e dedicado, sustenta a qualidade de seu trabalho durante o tempo de duração de sua vida profissional. Qualificar a educação através da qualificação das relações humanas entre professores e alunos está na raiz da sustentabilidade ambiental, social e econômica. Só a vivência cotidiana sadia dos valores humanos pode estimular os jovens a darem mais valor às relações e qualidades humanas e à cultura, do que aos bens materiais e ao consumo. Para nos tornarmos uma sociedade sustentável, o paradigma cultural do sucesso e da felicidade pessoal precisa ser mudado do TER para o SER, para conseguirmos educar uma nova geração que consiga viver melhor, e ser mais feliz, consumindo menos21.
Os princípios aqui sugeridos já são aplicados nas escolas que adotam a pedagogia Waldorf, em mais de 80 países, nos 5 continentes, mas, como se pode perceber, são princípios universais e já existe pesquisa acadêmica sobre sua aplicação em escolas públicas no Brasil22. Eles podem contribuir para as profundas mudanças que precisamos efetuar na educação básica brasileira, se quisermos nos tornar uma sociedade mais humanizada, solidária, inclusiva, justa, democrática e sustentável.
Rubens Salles é mestre em Educação, Arte e História da Cultura, empreendedor social e pesquisador do Instituto ArteSocial. www.artesocial.org.br rubens@artesocial.org.br
NOTAS
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Folha de São Paulo dia 3/3/2010, caderno Cotidiano, pg. C1 e C3.
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Jornal da Tarde em 19/6/2008 - Durante a gestão de Gabriel Chalita na Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, num período de 5 anos foram gastos 2 bilhões de reais em treinamento de professores, sem que houvesse melhora no resultado dos alunos.
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Edgar Morin. Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro. São Paulo: Editora Cortez e Edições UNESCO, 2002.
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Francisco Imbernón. Formação Docente e Profissional, São Paulo: Editora Cortez, 2006.
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Saturnino De La torre. Estrategias Didácticas Innovadoras y Creativas. Barcelona: UNED Aula Aberta, 2008.
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Isabel Alarcão. Escola Reflexiva e Nova Racionalidade. Porto Alegre: Artmed Editora, 2001.
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DCI Diário Comércio e Indústria em 23/7/2010 - O SEB, Sistema de Educação Brasileiro, um destes grupos, foi vendido para o grupo britânico Pearson Education por R$ 613,278 milhões.
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José de Souza Martins, Prof. Emérito da Faculdade de Filosofia, Letra e Ciências Humanas da USP – jornal O Estado de São Paulo em 23/5/2010 - “Toda prontidão, patriótica aliás, que nossos educadores já tiveram em tempos idos perdeu-se nas últimas décadas, na mentalidade redutiva e copista que transformou a escola em pobre imitação da fábrica. Sindicalismo e produtivismo aboliram a criatividade do educador [...]”.
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Diário da Grande ABC em 31/5/2010 - Empregadores têm mais dificuldades na hora de contratar no Brasil - 64% dos quase mil entrevistados apontaram que faltam profissionais adequados para preencherem as vagas - o segundo maior índice em ranking mundial.
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Relatório “Estado do Mundo 2010” – Worldwatch Institute e Instituto Akatu, disponível em http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/node/10920.
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Frans Carlgren e Arne Klingborg. Educação para a Liberdade – a Pedagogia de Rudolf Steiner. São Paulo: Escola Waldorf Rudolf Steiner, 2006.
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Mathias Riepe - Jon McAlice e Nana, Göbel et al (Coord.). Pedagogia Waldorf –Catálogo da 44ª reunião da Conferência Internacional de educação da UNESCO. Genebra: UNESCO, 1994.
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Rudolf Lanz. A Pedagogia Waldorf. São Paulo: Editora Antroposófica, 1990.
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Sueli Pecci Passerini. O Fio de Ariadne: Um Caminho para a Narração de Histórias. São Paulo: Editora Antroposófica, 1998.
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Ruth Salles. Aprendendo com Poesia. São Paulo: Instituto ArteSocial, 2003.
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Ruth Salles. Coleção Teatro na Escola – São Paulo: Editora Peirópolis e Instituto ArteSocial, 2007.
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Rudolf Steiner. Coleção A Arte da Educação. São Paulo: Editora Antroposófica, 2007.
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Elaine Marasca. Saúde se Aprende, Educação é que Cura, São Paulo: Editora Antroposófica, 2010.
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Bernard Lievegoed. Desvendando o Crescimento: As Fases evolutivas da Infância e da Adolescência. São Paulo: Editora Antroposófica, 1994.
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Rudolf Stenier. O Mistério dos Temperamentos. São Paulo: Editora Antroposófica, 2002.
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Patrick Viveret. Reconsiderar a Riqueza. Brasília: Fundação Universidade de Brasília, 2006.
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Rubens Salles – Formação Continuada com Base na Pedagogia Waldorf: Contribuições do Projeto Dom da Palavra. Dissertação de Mestrado, Mackenzie 2010. Disponível em http://www.artesocial.org.br.

Educação
31/08/2011
Que falta de educação
Por João Paulo Cunha - editor de Cultura do Estado de Minas
Publicado no caderno Pensar em 27/08/2011
A greve do setor público estadual da educação carrega um punhado de sinais. O mais importante deles, além dos baixos salários e das más condições de trabalho dos professores, é a forma como a educação vem sendo tratada no Brasil. E não é de hoje. O fato de os movimentos de paralisação se concentrarem sobretudo na questão do ganho do professor (com o pouco sutil desvio do nome de salário para subsídio, de modo a turvar a discussão) é um sintoma a mais da doença do descaso com que o setor é considerado. Independentemente de qualquer argumento, a defesa de pagamento a professores do ensino médio em patamares próximos ao do salário mínimo é um atestado do que vale a profissão para o gestor público.
A conta da remuneração do professor – como de qualquer outro profissional que exerce funções relevantes – deveria ser passível de um cálculo simples, que se balizasse pela menor discrepância possível entre o maior e o menor salário praticado. Assim, é justo e lícito pensar que um mestre de primeiras letras ou de ensino fundamental e médio recebesse valores compatíveis com salário do governador, do conselheiro do Tribunal de Contas ou de um juiz, na razão de até três por um. A não ser que, deixado de lado o escopo meritocrático (o que é mais importante para a sociedade?), a escolha recaísse em atributos de distinção e poder.
Não se trata de sofisma ou utopia. Em alguns países essa regra é aceita como padrão de civilidade. No Brasil, a constituição do sistema de educação, seja na relação público e privado, seja nas diferentes atribuições dos três níveis de governo, seja no tratamento diferenciado dos estágios de formação, tudo isso concorre para a construção de um edifício injusto e gerador de mais injustiça. Em outras palavras, há primazia do setor privado, indefinição de competências e afunilamento de oportunidades para a formação em nível superior na universidade pública. Nosso sistema é um rito voltado à exclusão.
A greve na educação, além de um fato político fundamental, tem potencial pedagógico em uma sociedade que parece ter perdido o norte do movimento sindical em nome de um realismo pragmático. Se nas sociedades modernas as relações políticas se deram em torno de duas instâncias formais – os partidos e sindicatos –, o contexto contemporâneo parece ter dissolvido essa história. Os partidos pelo jogo indecente da coalizão tocada a negociatas e “participação no poder”; os sindicatos pela busca de resultados e corporativismo alienante. Resta a recuperação dos movimentos sociais, que surgiram como alternativa nos anos 1970 e hoje parecem conter boa parte da politização social, mesmo que demonizados pela imprensa.
Quando professores cruzam os braços em reivindicações legítimas estão dando lições de cidadania. A perda do potencial politizador e educativo do outro lado se instaura quando a negociação, em vez de se dar na arena pública do debate, se desloca para a imprensa em forma de comunicados que distorcem a realidade (como a já referida “sutileza” de renomear salários como outro nome). Fingir que não se faz política em nome de decisões técnicas é a forma mais estúpida de fazer má política. A boa condução de um momento de crise deixa lições dos dois lados: o que pode a política quando impulsionada por demandas justas e o que cabe ao poder estatal na tarefa sempre necessária das revisões de rota em nome do interesse público. Negociar pode ser uma tarefa rica ou uma ação sem mérito. As duas possibilidades estão sempre em jogo.
Falsas premissas O combate à corrupção, que vem ganhando cada dia mais espaço na vida pública brasileira, é sempre referido sob um duplo vínculo. De um lado, trata-se de cortar uma tendência criminosa da nossa formação, que concentrou privilégios e hipertrofiou o interesse particular, usando o Estado como alimento. A corrupção seria um dos nossos males de origem, mas nem por isso nosso destino. De outro lado, o resultado da erradicação desse parasitismo social seria a garantia do fortalecimento das políticas públicas, principalmente educação e saúde. O dinheiro que falta na área social estaria sendo drenado pelas más práticas e pela má-fé.
A lógica pode ter sua facilidades. Assim, o teorema político tinha duas pernas e uma conclusão: se o roubo retira os recursos necessários ao interesse público, combatido o crime com eficiência, estaríamos preparados para implementar práticas excelentes no campo social. A candura do argumento está tanto nas premissas quanto na conclusão.
Em primeiro lugar a corrupção não é um desvio, mas uma triste regra norteadora dos interesses políticos. Não é por acaso que muita gente tem defendido o fim das ações do governo federal na área, dizendo que já é “hora de governar”, como se combater a corrupção não fosse um dos bons exemplos de governança.
O segundo momento do nosso silogismo parece universalizar as estratégias de acercamento do problema em torno de crimes e desvios legais. O mais grave não é tanto o delito, mas a consideração de que as ações públicas são consideradas universais e inquestionáveis por todos. Assim, tanto é corrupção o desvio puro e simples de recurso como, por exemplo, os planos de ajuda aos bancos, a escassez de recursos orçamentários para a área social e – para não fugir do assunto – o pagamento de salários irrisórios aos professores.
Por fim, a terceira parte da argumentação é a mais passível de debate: afinal, de que educação estamos falando quando deixamos jorrar da boca essas palavras como sendo o paraíso das nossas boas intenções? A história da educação no Brasil, construída em nome de uma perspectiva que garantiria oportunidades iguais de participação na riqueza social, se mostrou, nos últimos 50 anos, um campo de luta. Houve o momento em que foram questionadas as raízes ideológicas do processo, de caráter muito mais reprodutor (era a palavra da época) que formador. A educação discriminava as faixas populares, concentrava capital simbólico e alimentava os interesses do sistema econômico. Nada de liberdade, nada de igualdade. Fraternidade, então, nem pensar.
A primeira Lei de Diretrizes de Bases da Educação, de 1961, foi criada no contexto de uma sociedade siderada pelas promessas do desenvolvimentismo e, mais que mecanismo de ascensão, a educação se tornava estratégia para o progresso, traduzida na preparação para o mercado. Depois de várias iniciativas inspiradas pela consideração do processo educativo como agente de dinamização da sociedade, parece que retornamos ao mesmo imperativo da educação pensada como adestramento, o que pode explicar o atual desprestígio do saber em nome da competência técnica. Mais uma vez, parece que o Brasil, sem alcançar a modernidade (ensino universal, laico, gratuito e de qualidade), buscou um atalho sedutor da pós-modernidade (ensino pago, adestrador, elitista e ideológico).
Líquida e incerta O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, criador do conceito de modernidade líquida, definiu nosso tempo como “inóspito à educação”. O novo modelo de educação, para ele, coloca em xeque a ideia de invariantes, uma outra maneira de definir os valores sólidos de uma sociedade. No mundo líquido, não há lugar para fidelidade ou compromissos a longo prazo. A educação, nesse horizonte, vai ao sabor dos ventos (é só ver como os jovens hoje são mais preocupados com o emprego do que com a carreira; com o resultado do que com a construção; com o salário do que com o trabalho), nas asas do mercado e da competição. A educação, hoje, de acordo com Bauman, se preocupa mais em descobrir saídas individuais para problemas coletivos que achar o rumo de respostas coletivas para problemas privados. Sai o educador e entra em cena o orientador de carreira; o conhecimento se torna menos importante que a personalidade.
A greve é um momento de repensar a carreira dos professores e a dignidade de seu ofício. Mas é, principalmente, a hora de decidir que mundo estamos construindo. A forma como os professores são tratados é um sinal de civilização para todos ou a afirmação da barbárie que interessa aos defensores dos privilégios de classe.