O papel da ONU

Por Edmar Roberto Prandini

É perfeitamente compreensível o descrédito que se abate sobre todos acerca do papel da ONU, especialmente de seu Conselho de Segurança.

Entretanto, apesar de todos os limites, a ONU é a única instância de “governança” mundial com alguma legitimidade. Se não for através dessa estrutura já constituída e aceita pela maioria dos países, que instância teríamos para buscar agregar novos papéis, em busca de ampliar a coordenação de ações entre os governos?

Apesar dos pesares, a ONU simboliza anseios que merecem receber nosso apoio e que precisam ser sempre redivivos. Neste sentido, o desafio consiste em fortalecer e democratizar a ONU, aumentando a importância dos países pobres. Não se deve desqualificar ou deslegitimar uma organização cuja construção representou historicamente uma engenharia institucional complexíssima e a condensação de valores dos mais nobres. Leia mais »

A ultra-direita na UE

Por Luiz Eduardo Brandão

Nassif, em compensação, a velha Europa talvez venha a ter uma pedra no caminho na figura do presidente tcheco, que assume a presidência rotativa da União Européia, justo neste momento de crises. Vaclav Klaus, além de um direitista destemperado, é, veja você, antieuropeu! Em seu artigo de hoje no Estadão, Gilles Lapouge analisa, com a inteligência costumeira, essa encrenca em potencial: Leia mais »

A velha nova Europa

A Europa já foi o centro da civilização ocidental. De 1914 a meados da década de 1950, o centro da barbárie universal.

Abrigou a primeira guerra sórdida, em que civis não foram poupados, praticou-se a eugenia racial, povos inteiros foram levados de lado a lado, como se fossem gados.

Não foi apenas a barbárie nazista. A vilania atingiu povos inteiros, estimulou o colaboracionismo, a delação, o furto de bens, antes, durante e após a guerra.

Durante a guerra, o morticínio nazista, de outro a revanche sangrenta dos exércitos russos, a autorização aliada para bombardear Berlim, em represália ao bombardeio de Londres.

Após a Guerra, povos inteiros sendo empurrados de um lado para o outro, e, em vários países, a real politik se impondo sobre a resistência.

Depois, o duro acerto de contas, guerras nacionais, o imperialismo europeu abrindo mão das colônias, ainda muita radicalização, humilhação e um continente inteiro tentando varrer para baixo do tapete as atrocidades cometidas.

Finalmente, a reconstrução lenta. Lembro-me, rapazinho de 13 anos que gostava de impressionar os mais velhos falando da Comunidade Comum Européia, isso pelos idos de 1963.

De lá para cá a construção caminhou e o fim da chamada Cortina de Ferro acelerou a construção da Nova Europa. Já escrevi sobre o acordo que permitiu a unificação das moedas, as verbas orçamentárias para desenvolver as regiões atrasadas, os compromissos com o equilíbrio orçamentário.

Hoje em dia, há resistência contra imigrantes. Mas, nas últimas décadas, a Europa tirou dos Estados Unidos o cetro de capital mundial da imigração. Era para lá que passou a se dirigir o melhor da migração mundial.

Agora, com a crise americana, o modo de ser europeu volta ao centro das discussões. O estado de bem estar desenvolvido no pós-guerra, como maneira de minorar o sofrimento dos atingidos pelo conflito, o Estado entrando como investidor em setores econômicos relevantes, seu papel regulador.

Mesmo sofrendo os efeitos da crise, a Europa é a alternativa e o clima interno tem permitido o aparecimento de velhos-novos personagens com envergadura de estadista, como Gordon Brown, Nicolas Sarkozys.

É o retorno da velha Europa. Leia mais »

Os clássicos de 2008 - 1

A crise internacional implodiu conceitos, análises, prognósticos, e abriu espaço para besteirol poucas vezes visto no país.

Na eleição dos episódios sub-intelectuais mais significativos de 2008, meu voto vai para o artigo de Demétrio Magnolli "Lehman Brothers, Marx & Sons", publicado no Estadão e no Globo.

Merece um repeteco, por ser a maior comprovação de que, para atender à demanda de mercado por "neocons", a primeira regra é: seja tosco e deturpe conceitos até o limite da baboseira. Leia mais »

A morte de Samuel Huntigton

Por Renério de Castro Júnior

LN,

Dia 24 de dezembro faleceu Samuel P. Huntington, autor da famosa e controvertida tese do "choque de civilizações".

Bem que poderíamos iniciar um discussão acerca de suas teses e, principalmente, suas implicações e conseqüências na politica externa norte-americana.

Por Danilo Morais

A tese etnocêntrica do "choque de civilizações" ganhou grande notoriedade, segundo entendo, por se integrar ao esforço interpretativo do projeto político dominante (neo-conservador) dos EUA, principalmente após o fim da Guerra Fria. Sem fazer uma análise mais profunda, vejo esta tese como uma forma de multiculturalismo conservador, que reconhece a existência de diferenças culturais e civilizacionais (algo importante), mas mal esconde a defesa da modernidade ocidental como ordem social (e de suas formas de expressão e visão de mundo), enquanto superior, numa escala hierárquica, dentre as demais ordens sociais.

Já o livro "A Terceira Onda: a democratização no final do século XX" (editado pela Ática em 1994) é, pelo contrário, uma obra bastante recomendável do cientista político. Leia mais »

Economia e poder americano

Por Hugo Albuquerque

O capitalismo que dominou o mundo pós-soviético está centralizado na economia americana e, por conseguinte, nos dólares americanos. É um intrincado sistema global que, no entanto, possui um centro bem claro e definido.

Isso, sem dúvida dá um poder considerável aos EUA. Veja bem, poder considerável, não infinito; de Reagan para cá os EUA tem vivido bem além de suas possibilidades, mas foi no governo Walker Bush que eles ultrapassaram o limite.

Qualquer um sabe que o poder americano pós-soviético sobre bases políticas e não econômicas; os dólares em circulação pelo mundo somavam (e somam) um valor muito maior do que o da produção americana; seu valor se fundamenta no fato de que os Estados Unidos, por serem sido a única superpotência global, tinham força e credibilidade para manter a sua estabilidade. Leia mais »

Crescimento e bem estar

O José Eli da Veiga, em sua coluna no Valor, aproveita o escândalo Madoff para questionar, mais uma vez, as formas de medição do PIB e a idéia de que é preciso desenvolvimento para gerar bem estar. Clique aqui.

O tema já gerou boa discussão aqui no Blog.

A palavra de Patrus Ananias

Hora de decidir

Patrus Ananias, ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, especial para o Blog

Ao primeiro anúncio de desgaste do mercado ancorado no sistema financeiro, algumas empresas reagem prontamente, quase em uma equação de estímulo-resposta, com demissões. À possibilidade de queda no consumo, preserva-se o lucro no mais alto patamar possível a um elevado custo social, com graves conseqüências para muitas famílias. As notícias sobre recessão ou a mera possibilidade desse quadro no horizonte – próximo ou distante – acionam o instinto de sobrevivência do capital. Mas por quanto tempo mais a economia pode sustentar-se com base em uma visão tão restritiva que desconsidere outras relações na sua composição, tais como a relação com o mundo do trabalho que trate os trabalhadores e trabalhadoras em sua dimensão cidadã e humana? Leia mais »

A missão francesa

O namoro com a União Européia  é antigo. À medida que o bloco foi se consolidando aumentaram os gestos em direção ao Brasil. Daqui para frente, o novo modelo do capitalismo global emergirá do padrão europeu - sólido, menos aventureiro que o americano, mais regulado.

Daí a importância da visita de Nicolas Sarkozy ao Brasil.

O correspondente do Valor em Genebra, Assis Moreira, traz um bom quadro dos pontos que serão tratados:

Acordos setoriais

Negociação de cinco acordos setoriais para troca de preferências de produtos industriais específicos por meio da parceria estratégica lançada no ano passado e que será detalhada hoje, na cúpula do Rio. Haverá setoriais-piloto começando pelas áreas de têxteis e confecções, produtos florestais, siderúrgicos, metais não ferrosos e minerais. Por esse tipo de iniciativa, os setores envolvidos trocam preferências, como baixa substancial de tarifas para a entrada de produtos dos parceiros, que precisarão ser consolidadas num acordo UE-Mercosul.

Livre comércio bi-regional

Brasil e UE vão se engajar na luta contra o protecionismo, mas sabem que a prudência é fundamental em tentativas de liberalização, mesmo setorial, no contexto atual de crise financeira e recessão global.
Na semana passada, os setores têxteis do Brasil e da UE levaram adiante uma discussão de longa data para tentar baixar alíquotas, eliminar problemas burocráticos nas alfândegas e estimular joint-ventures, tentando pavimentar o terreno para um acordo UE-Mercosul. Leia mais »

O potencial do Brasil

Boa entrevista do Sérgio Dávila, correspondente da Folha nos EUA, com Parag Khanna, autor de “O Segundo Mundo - Impérios e Influência na Nova Ordem Global” (clique aqui).

Pontos principais:

Segundo Mundo – ele define como segundo mundo os países que estão sabendo como lidar e se beneficiar com a crise global. “Os países de Segundo Mundo são os que têm divisões internas, com características de Primeiro Mundo e de Terceiro Mundo, como China e Brasil”.

A força do Brasil - A força do país está em sua economia diversificada, não só baseada nos recursos naturais mas também muito industrializada e com inovações em alguns setores. (...) Programas como o Bolsa Família, por exemplo, são inovadores e difíceis de implantar. Na verdade, não encontrei nada similar, com tamanho sucesso, em nenhum outro lugar do mundo, com exceção talvez da China. Os dois países estão criando um mercado interno muito forte por conta disso.

Ambições – o que diferencia Brasil da China, é que os chineses têm ambição de se tornarem superpotência, e  o Brasil não. A importância do Brasil se deve ao fato de ter se tornado umn país chave para o sucesso de qualquer país desenvolvido.

Diplomacia brasileira - Acho o Itamaraty incrivelmente sofisticado, a maneira com que lida com questões de comércio.

O “soft power”  americano - Com o agravamento da crise, será cada vez mais difícil contar com corporações, ONGs, entidades beneficentes e assistência internacional -instrumentos de "soft power" que a política externa norte-americana usa para compensar a estratégia militar, que é um fracasso.

O novo capitalismo - Um capitalismo como o europeu, isso é inegável. Um modelo de capitalismo de Estado, bem regulado, mas bem dirigido, com grandes e importantes indústrias. Leia mais »

Sarkozy e o Brasil

Entrevista por e-mail de Nicolas Sarkozy a Clóvis Rossi, da Folha (clique aqui). Comprova, primeiro, a maneira homogênea e objetiva com que as lideranças européias estão ocupando o espaço político para enfrentar a crise. Reforça o que o primeiro-ministro britânico Gordon Brown declarou a um grupo restrito de lideranças - entre os quais Lula - em uma das reuniões reservadas do grupo do G20: não se trata apenas de uma crise econômica (como pretende a maioria dos analistas norte-americanas) mas de uma crise no seu sentido amplo, de valores, de hábitos, de modo de pensar o mundo.

É curioso também - embora não seja novidade - a maneira como analisa o papel de Lula no cenário global, em contraposição ao provincianismo extremo de parte majoritária da análise política midiática.
Seja por sua intuição, seja pela visão estratégica do Itamarati, Lula tem idéias claras e simples sobre a inserção do país no mundo e na América Latina - muito mais claras, aliás, do que suas idéias sobre o Banco Central.

Aliás, quando se compara o discursos de Felipe Gonzales, agora os de Sarkozys e Brown, com aquele que era desenvolvido por FHC, percebe-se a diferença nítida entre a visão do Estadista e a do intelectual dispersivo. Os estadistas têm discurso simples, onde conseguem identificar o centro da questão, as idéias-força dos novos momentos. O intelectual não-estadista faz embaixadas no meio campo.

A seguir, trechos da entrevista. A manchete destaca a afirmação de Sarkozys em relação ao Brasil: "Ninguém resolve problemas hoje sem o Brasil, diz Sarkozy"

Na abertura, Clóvis Rossi minimiza: Claro que tal reforma tem que incluir o Brasil: "Quem pode imaginar hoje poder resolver os problemas do mundo sem países como a China, a Índia e, é claro, o Brasil?" Leia mais »