Os desafios da melhoria da gestão pública

Coluna Econômica - 07/02/2012

Nos últimos anos, o movimento pela qualidade entrou definitivamente na área pública, estimulando governantes – governadores, prefeitos e diretores de autarquia – a buscar o aprimoramento da área.

Os ensinamentos nessa área são expressivos, a começar do desafio inicial – dispor de bons dados consolidados sobre o universo que se quer trabalhar.

Por exemplo, foi iniciado um trabalho em Goiás. O governador Marconi Perillo queria reduzir os índices de criminalidade. Na hora de levantar as estatísticas, percebeu-se que o zoneamento da Polícia Civil era diferente da Polícia Militar. Portanto, a ação conjunta seria ineficaz.

Acabaram fazendo como em Pernambuco. Dividiram Goiás em áreas de segurança, cada qual com um coronel responsável. E sugeriu-se o modelo de Pernambuco, onde o governador Eduardo Campos preside reuniões semanais com todo mundo, Policias Civil e Militar, pessoal técnico, de perícia, Corpo de Bombeiros etc.

A sangria na política monetária

Coluna Econômica - 06/02/2012

Vamos ampliar um pouco mais a discussão sobre a relação Selic-PIB, retomando o tema da última coluna.

A maneira como a Selic impacta a economia lembra muito o uso de sanguessugas para o uso da sangria no tratamento de saúde. Se contasse para um médico como a Selic atua sobre a economia, haveria denúncia ao Conselho Federal. 

A idéia central de uma política monetária é atuar sobre o nível de atividade. Se a economia está aquecida, há risco de aumento de preços. Aumentam-se os juros para reduzir a atividade e, com isso, aliviar a pressão sobre preços. E vice-versa. Se a economia está desaquecida derrubam-se os juros para estimular a atividade econômica.

Na prática, ocorre o seguinte.

O Banco Central aumenta a Selic: 

1. O efeito sobre o canal de crédito é mínimo. Um comentarista do Blog (www.luisnassif.com.br) comentou que a cada aumento da Selic seu banco aumenta as taxas de juros.

A ficção da política monetária

Coluna Econômica - 03/02/2012

Vamos retomar o tema da coluna de ontem.

Como funciona a política monetária:

1. A cada fechamento do dia, os bancos trocam reservas entre si para fechar a conta. A taxa de juros dessas operações é dada pelo CDI (Certificado de Depósito Interbancário) diretamente afetado pela taxa Selic, a chamada taxa básica da economia fixada pelo Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central).

2. Tornando o dinheiro mais caro no interbancário, pretende-se que a elevação de custo impacte a taxa de juros na ponta, aquela que vai para o cliente de banco.

3. Com a taxa mais cara, teoricamente o consumidor vai consumir menos, devido ao encarecimento de crédito, e a empresa vai comprar menos, devido à redução de estoques, reduzindo os preços. E vice-versa.

Imagens: 
A ficção da política monetária

Falta uma política bancária ao país

Coluna Econômica - 02/02/2012

Ex-economista chefe da Febraban (Federação de Bancos do Brasil), Roberto Troster escreveu para o jornal Valor Econômico provavelmente o mais importante artigo sobre política monetária.

O título é "A "Copomização" do debate do sistema bancário" e se refere ao hábito entranhado de se discutir a política monetária somente através da taxa Selic (a taxa referencial de juros do Banco Central) sem analisar a ponta, isto é, a maneira como a taxa impacta a economia real.

A taxa Selic é mero instrumento para o BC atuar sobe o mercado de crédito. Ela é eficaz ou não dependendo da maneira como impacta o mercado. Sem essa análise, a taxa Selic torna-se quase uma abstração.

Constata Troster que uma Selic a 9% ou a 12% não faz a menor diferença para o tomador de empréstimo.

A estratégia política de Dilma

Coluna Econômica - 01/02/2012

Nas últimas semanas, povoaram os jornais análises sobre o atual momento político. Foi quase uma consagração a posteriori (pelos jornais) da habilidade política de Lula, reconhecida em matérias no Estadão, Folha.

Mas se Lula foi uma espécie de Pelé da política brasileira contemporânea, Dilma Rousseff tem se revelado um Coutinho.

Para se entender a sinuca de bico da atual oposição, é necessário um mergulho no Brasil pós-Sarney.

As ideias políticas, no país, quase sempre acompanharam com alguma defasagem as grandes ondas internacionais.

A Constituição de 1988 foi o grande documento a sinalizar os novos valores que acompanhariam o país nos anos seguintes.

FHC se livra do carma Serra

Coluna Econômica - 31/01/2012

Dias antes da entrevista que concedeu ao The Economist – na qual dizia que Aécio Neves deveria ser o próximo candidato do PSDB à presidência e responsabilizava José Serra pela derrota de 2010 – o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso teve uma conversa com diplomatas.

Segundo o Correio Braziliense, nessa conversa ele disse que sua “cota de Serra já deu”. Dias depois da entrevista, segundo Jorge Bastos Moreno, de O Globo, Serra teria dito que “Fernando Henrique está gagá”.

Chega ao fim o maior erro político de FHC.

A relação entre ambos foi alimentada por dona Ruth Cardoso que, em dezembro de 1994 convenceu o marido a nomear Serra Ministro do Planejamento. FHC já conhecia suficientemente o parceiro para identificar suas fraquezas. Mas cedeu ao apelo da esposa.

As mudanças globais em tempo real

Coluna Econômica - 29/01/2012

Pela primeira vez na história, o mundo assiste em tempo real a uma crise econômica global, o desmonte das ideias centrais que prorrogaram a vida do velho modelo e as primeiras sementes plantadas para o nascimento os novos tempos.

As crises anteriores davam-se no espaço restrito das altas finanças. Havia uma redoma impedindo que o conhecimento acumulado transbordasse para o mundo da política, da incipiente opinião pública da época e mesmo dos economistas não familiarizados com o mundo financeiro.

A defesa que Celso Furtado fez da política monetária de Rui Barbosa - a maneira como implementou o papel moeda na economia - focalizou apenas o princípio legitimador - criar crédito para a industrialização - não o modo de operação - uma esbórnia ampla beneficiando aliados financeiros, que acabou comprometendo todo o modelo.

Políticas sociais para reinventar o capitalismo

Coluna Econômica - 27/01/2012

Mais influente colunista de economia do planeta, em sua última coluna Martin Wolff – do Financial Times – relaciona “Sete Lições  Para Salvar o Capitalismo”. Trata-se, provavelmente, do mais importante documento até agora gerado pelo advento da crise econômica. E explica a razão de Lula ter se convertido em um dos líderes mais influentes da atualidade e o Brasil em modelo de desenvolvimento.

Primeira lição: acabar com o mito da estabilidade inerente.

Períodos de estabilidade e prosperidade plantam as sementes da crise futura, ao abrir espaço para o endividamento crescente, visando aproveitar as oportunidades de lucro.

Segunda lição: dando um jeito nas finanças.

O sistema financeiro precisa ser supervisionado como um todo. O governo e suas agências - incluindo o Banco Central - atuaram como força desestabilizadora, antes da crise. Os BCs reagindo com extrema agressividade a recessões incipientes e os governos estimulando o endividamento familiar. Erros que não podem ser repetidos.

Terceira lição: desigualdade e desemprego.

FHC decreta o fim de Serra

Coluna Econômica - 26/01/2012

Na segunda-feira, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso concedeu uma entrevista ao blog do The Economist. Na terça-feira a entrevista foi reproduzida pelos principais jornais.

Nela, FHC rompe com limitações emocionais, reconcilia-se com sua biografia e ajuda a salvar o que resta do PSDB: rompe politicamente com José Serra, através de um diagnóstico duro:

A revolução da informação no Estado brasileiro

Coluna Econômica -25/01/2012

Talvez porque o tema gestão pública não seja devidamente compreendido pela mídia, passou com pouco destaque o início de uma verdadeira reforma de Estado brasileira, ocorrida na última reunião ministerial presidida por Dilma Rousseff.

Lá, foi solicitado a cada Ministro que, no prazo de seis meses, prepare o sistema de informações online do seu Ministério, para acompanhamento das ações em tempo real.

Mais da metade da reunião girou em torno do tema.

A pedido de Dilma, o Secretário Executivo do Ministério da Previdência, Carlos Eduardo Garbas, apresentou o sistema de indicadores da pasta, que permite saber, em tempo real, quantas consultas estão sendo realizadas no dia, até aquela hora, quantas pericias sendo feitas em cada unidade de serviço.

Depois, coube ao ainda Ministro da Educação Fernando Haddad mostrar o sistema de monitoramento da sua pasta.

A tragédia de Pinheirinho

Coluna Econômica - 24/01/2012

O episódio de Pinheirinho - em São José dos Campos - mostra o extremo despreparo do setor público brasileiro para tratar questões sociais.

Em geral, prefeitos que comandam ações de erradicação de favelas são bem avaliados por seus eleitores, pela suposta “limpeza” de área. Não passam de despreparados, montados em prefeituras sem planejamento que, antes do desfecho, permitiram o aparecimento de favelas ao não levaram adiante programas habitacionais.

O caso de Pinheirinho entrará para os clássicos da má gestão pública de municípios.

Desde 2002 a área é disputada. Tentaram-se várias ações de reintegração de posse. Nenhuma prosperou. Gradativamente parte da área passou a ser ocupada por sem-tetos que, com esforço próprio, ergueram suas casas, organizaram sua vida, colocaram seus filhos em escolas, suas crianças em creches, estabeleceram relações amigáveis com a vizinhança.

A falta de ousadia do governo Dilma

Coluna Econômica - 23/01/2012

Por que os países perdem o bonde da história?

A lógica é mais ou menos recorrente. O tempo da história nacional é muito mais longo que o prazo do mandato dos governantes. Decisões estratégicas levam anos para se consolidar, mostrar sua lógica, ganhar corações e mentes. O reconhecimento se dá através da história, não de imediato.

Já os governantes pavimentam sua gestão por marcas próprias, pessoais, que sejam captadas imediatamente pelo eleitorado e pela opinião pública.

Em alguns momentos, casa o discurso com o rompimento de paradigmas. Foi assim quando Vargas (assessorado pelo Sr. Crise) rompeu com a inércia financeira da República Velha; quando JK completou o ciclo da indústria de base estatal com a atração de multinacionais; quando Fernando Collor brandiu o discurso da abertura e da desregulamentação que rompeu com a inércia pós-Geisel; e quando Lula desfraldou a bandeira das políticas sociais universalistas, civilizando a irracionalidade fiscal pós-Marcílio Marques Moreira.

A armadilha da zona do conforto pegou o governo Dilma

Coluna Econômica - 20/01/2012

No melhor momento, desde que assumiu, o governo Dilma Rousseff está prestes a cair em uma armadilha terrível: o da chamada zona do conforto.

Praticamente não existe mais oposição. José Serra tornou-se um personagem patético, quase um vulto andando de noite pelo Twitter disparando mensagens óbvias e sem repercussão.

Depois de bater no teto superior, a inflação começa a refluir, reduzindo as ansiedades nessa área. Apesar da crise mundial, há condições do país atravessar com poucos danos aparentes a próxima temporada de crise.

Em céu de brigadeiro, o comandante sempre tende a relaxar, a descuidar-se do futuro e justamente no meio da maior janela de oportunidade que o país dispõe desde os anos 70.

Há uma explosão no preço das commodities, garantindo provisoriamente as contas externas; o mercado inteiro ganhou uma dimensão nunca vista; a médio prazo, tem o pré-sal para permitir ao governo dormir um pouco mais sobre os louros presentes… e futuros.

Com o fim da era Sarney, a vez do Maranhão

Coluna Econômica - 19/01/2012

Um fenômeno pouco analisado é a mudança de guarda no nordeste, com o fim de velhos coronéis e velhas oligarquias e a entrada de uma nova geração.

Em alguns momentos, a mudança de guarda permitiu transformações relevantes trazidos pela própria alternância de poder.

No Ceará, em 1986 a vitória de Tasso Jereissatti permitiu essa alternância. O mesmo ocorreu no Piauí, com a alternância entre Hugo Napoleão e Wellington Dias, e em Sergipe, com João Alves rompendo a oligarquia Franco.

No Maranhão houve apenas o hiato de dois anos da gestão Jackson Lago, derrubado pelo poder político influindo no poder judiciário. Sem alternância, só restou aos grupos econômicos o alinhamento com os interesses do grupo político. Houve o atrofiamento do empreendedorismo.

O jogo de damas da política econômica

Coluna Econômica - 18/01/2012

Um dos maiores erros da análise econômica é levantar dados do momento e projetá-los para o futuro – sem a devida avaliação dos ciclos históricos ou da dinâmica da economia.

Lembro-me de um seminário que participei na cidade de Santander, Espanha, em 2002, promovido pela Universidad Menendez Pelayo. Presentes jornalistas da imprensa financeira espanhola, acadêmicos e representantes de multinacionais espanholas que tinham vindo para o Brasil.

Na época, vivia-se a grande crise Os jornalistas malhavam sem dó suas multi, por terem ido investir o dinheiro das velhinhas da Espanha em “republiquetas corruptas”.

Os jornalistas brasileiros reagimos. Mostramos o vício de mercado de pegar uma situação momentânea e projetar por anos. Fizeram isso nas primeiras privatizações das quais participaram as espanholas e passaram para os leitores a ideia de que haveria um crescimento exponencial permanente. Depois, na primeira crise, projetaram os dados do momento para prever a bancarrota.