Toda a Ilusão do Mundo em "O Fundo do Coração"
Enviado por Wilson Ferreira, sex, 03/02/2012 - 17:33
À época do seu lançamento o filme "O Fundo do Coração" (One From the Heart, 1982) foi fracasso de crítica e de público e motivo da falência do diretor Coppola. Ninguém entendeu nada. Não é para menos, pois o filme estava à frente da sua época: um musical romântico hiper-estilizado e metalinguístico reproduzindo Las Vegas em estúdio com um assombroso número de cenários antevia a sensibilidade atual onde, com a proliferação das tecnologias das imagens e virtualização do real, passamos a conviver com a suspeita de que o mundo possa ser uma ilusão fabricada, como um gigantesco estúdio. Parece que Coppola anteviu "Show de Truman" e "Matrix".
Depois de passar 16 meses na selva filmando “Apocalipse Now” preocupado com clima, luz solar e precisão histórica, Coppola procurou, nas suas palavras, um “antídoto”. Em uma época onde os grandes estúdios procuravam poupar dinheiro filmando em locações externas e fora dos EUA, Coppola decidiu reinventar o sistema de estúdios de Hollywood indo na contra-mão: filmar uma estória totalmente em um estúdio onde o diretor pudesse controlar todos os elementos de produção e linguagem.
O resultado foi o filme “O Fundo do Coração” onde, dentro dos estúdios American Zoetrope, criou-se uma Las Vegas sintética através de um número assombroso de cenários, inflacionando o orçamento de produção numa proporção inversa ao da recepção do público e crítica que não entendeu a proposta de Coppola. Resultado: a falência e um intervalo forçado nas atividades do diretor.
Se em “Apocalipse Now” Coppola já havia flertado com o tema da estilização do real (a forma como a guerra do Vietnã era estilizada pelos soldados e governo americano até se transformar em um delírio lisérgico e místico como no enlouquecido personagem do Coronel Kurtz vivido por Marlon Brando), em “O Fundo do Coração” ele mergulha de cabeça no “abismo das aparências” criando uma curiosa fábula sobre a ilusão do mundo e do próprio cinema.
Se Las Vegas já é, ela mesma, uma gigantesca estilização e simulação do real (pirâmides e torres Eiffel convivem com navios piratas envoltos em neon e luzes feéricas), como o cinema pode reproduzir em estúdio uma estilização da estilização? Coppola chega ao paroxismo para descrever a ilusão do mundo e o mundo da ilusão: se o casal protagonista mora, vive e passa por uma prova de fogo no relacionamento numa cidade que é inteira uma simulação, seus sonhos e aspirações também podem ser igualmente ilusões porque inspirados em vitrines, luzes e fotografias.
Coppola com Gene Kelly no estúdio Zoetrope
durante as filmagens de "O Fundo do Coração"
Ao som da brilhante trilha musical de Tom Waits que pontua a narrativa, o filme descreve os desencontros de Frannie (Terry Garr) e Hank (Frederic Forrest). Ela uma vitrinista de uma agência de turismo que monta paisagens exóticas em cenários de papelão baseados em fotografias de lugares exóticos. Seu sonho é viajar, ir para ilhas do Pacífico Sul. Ele, um boa praça que trabalha numa espécie de ferro-velho fora da cidade nas bordas do deserto de Nevada. Seu sonho: comprar a casa onde moram. Ela, alimenta fantasias escapistas e românticas e ele prefere a realidade, ter um patrimônio e garantir o futuro.
Em pleno feriado norte-americano de 4 de julho eles se separam após uma briga e conquistam uma independência repentina e a possibilidade de cada um seguir seus planos e buscar novos companheiros. Porém, a separação não tarda a mostrar seu lado ambíguo e controverso, apresentando-se ao mesmo tempo odiada e desejada.
A Ilusão do Mundo
O filme parece explorar três níveis na narrativa. O primeiro nível, metalinguístico: quando do lançamento em 1982 a promoção do filme fazia questão de destacar o fato de ser uma produção inteira em estúdio e um filme musical altamente estilizado como uma linguagem autoparódica do gênero. No detalhismo de cada plano percebemos o caráter cenográfico de fachadas e objetos, além de a narrativa e montagem não serem realistas: muitas quebras de eixo de câmera e ausência de continuidade entre planos; a utilização de imagens sobrepostas para demonstrar que, mesmo distantes, Frannie e Hank permanecem próximos através do pensamento.
Em outras palavras, Coppola quer que o espectador tenha consciência que os protagonistas vivem em um mundo ilusório, cenográfico, hiperreal. Embora Hank seja o personagem que quer se apegar à realidade (ele quer ter a posse definitiva da casa pensando no futuro do casal), seu mundo está em pedaços. Ele trabalha em um ferro velho, como se tentasse se segurar nos destroços de realidade que resta no mar da ilusão do mundo.
A sequência em que Hank rege uma sinfonia de luzes e buzinas dos carros velhos empilhados num depósito enquanto a atriz circense Leila (Nastassja Kinski) se equilibra na corda bamba é uma daquelas que merece entrar para a história do cinema. Leila (a ilusão criada por Hank para tentar se esquecer de Frannie após a briga – “sou uma garota do circo, é só piscar que desapareço”, afirma Leila) anda na corda bamba enquanto Hank, de forma desengonçada, tenta mostrar a “sinfonia da realidade” para sua ilusão.
E o ferro-velho fica nas cercanias de Las Vegas, diante do deserto de Nevada, ou seja, diante do vazio e a desolação da realidade. “Bem vindo ao deserto do real”, como diria Morpheus em “Matrix”.
Dessa maneira chegamos ao segundo nível da narrativa de “O Fundo do Coração”: o mundo já é uma ilusão. Os protagonistas trabalham e vivem em Las Vegas. A certa altura Hank confessa para seu amigo Moe (Harry Dean Stanton) o quanto as luzes de Las Vegas o incomodam. Elas parecem tornar tudo “fake” e as pessoas em meras ilusões.
Se Coppola em recente entrevista falou que “O Fundo do Coração” estava à frente do seu tempo e que “influenciou a música e o vídeo e algumas inovações que usamos hoje para produzi-los” (veja “Viva Las Vegas! Francis Ford Coppola on One From The Heart” disponível em http://www.digitalbits.com/articles/interviews/ffcoppola/ffcoppolainterview.html), talvez o seu fracasso de crítica e de público à época se deva a uma sensibilidade atual que ainda o público não possuía naquela época: a desconfiança gnóstica de que a realidade é uma ilusão fabricada, uma sensibilidade cuja origem está na proliferação das tecnologias de produção de imagens, digitalização e virtualização do real.




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