Uma previsão das revoluções tunisiana, egípcia e espanhola, feita em 2007

28/05/2007 13:49

Comentários enviados a um jornalista que não quer ver

I
As formas assumidas pelo "movimento estudantil do Século XXI" na ocupação da reitoria da USP estão em linha com movimentos similares em todo o mundo, cujas raízes estão em experiências históricas de democracia direta como a Comuna de Paris, os sovietes russos (os verdadeiros, não o arremedo deles no capitalismo de Estado), as comunas camponesas da Espanha republicana e muitas outras; e, neste novo século, cada vez mais presentes em todo o mundo.

Assim como está mais presente e atuante, também, a censura a qualquer menção a movimentos desse tipo. Alguém sabe, por exemplo, do papel que os "shoras", conselhos de trabalhadores, tiveram na derrubada do xá do Irã, no longínquo ano de 1978? Ninguém jamais se perguntou o porquê do açodamento francês em enviar o aiatolá Khomeiny ao Irã? Alguém soube que em 2001, e por mais de dois anos, na região da Cabília na Argélia, assembléias de aldeia e de bairro conhecidas como "aarouch" ("aarch" no singular, procurem no Google se não acreditarem em mim) expulsaram de suas cidades e aldeias a polícia, o exército e todos os partidos políticos, e dominaram completamente a vida social por meio de assembléias democráticas onde não havia direção formal e não se permitia a ninguém falar em nome do movimento se não fosse lendo um documento discutido e aprovado por todos? Ou, aqui mesmo ao lado, na Argentina, onde o movimento espontâneo do "Que se vayan todos" derrubou o de la Rúa e depois, organizado em assembléias de bairro cujos princípios de funcionamento democrático eram igualmente radicais e que se reuniam nas esquinas de Buenos Aires e em todas as cidades grandes e médias do país, derrubou mais dois presidentes, impediu um terceiro de governar por mais de dois anos e finalmente ditou grande parte da agenda de um quarto, o Kirchner? Ou alguém aqui acha que o Kirchner, do centro peronista, tomou todas as medidas que tomou contra o FMI da cabeça dele? Alguém ouviu dizer que em Oaxaca, no México, uma "Asamblea Popular de los Pueblos de Oaxaca" nos mesmos moldes democráticos das anteriores expulsou o governador, a polícia e todos os deputados do estado e foi o governo efetivo por seis meses, até a entrada do exército na cidade, há apenas três ou quatro meses? E que o movimento, apesar da presença das forças armadas na capital, continua dominando parte da cidade e praticamente todas as demais cidades do estado?

E nem uma única linha sobre estes grandes movimentos, dois deles praticamente aqui ao lado, apareceram na grande (ou na pequena) imprensa brasileira, nem de qualquer parte do mundo. Graças a essa censura, nem um desses movimentos espantosamente semelhantes sabia da existência dos outros (e é provável que haja e tenha havido outros, também ocultos). E, no entanto, eles continuam aparecendo, sempre com as mesmas características democráticas radicais; e com cada vez maior freqüência. Já estava na hora de aparecerem também no Brasil. Se este de agora, de que a imprensa fala inadvertidamente por se tratar de um embaraço para o Serra e de uma aparente novidade (mas já começa a caluniar) vai ter "filhotes", se vai ou não servir de inspiração para outros aqui mesmo, ainda é cedo para dizer. Mas ele com certeza faz parte de uma tendência mundial, e não vai simplesmente desaparecer, por mais que se tente ocultá-lo, caluniá-lo e, em última instância, esconjurá-lo.

II
Em resumo, e aproveitando o gancho do comentário do Virgílio, o que está em curso na USP é apenas *mais uma* manifestação do movimento que vai além do óbvio e desastroso fracasso do modelo liderança/liderados de atuação política. É uma resposta a esse fracasso. Não se trata, portanto, de "falta de parâmetros", mas de outros parâmetros, distantes demais da percepção dos que se aferram ao velho modelo que, mais que estrebuchando, já está fedendo.

Comparar os ocupantes da reitoria da USP aos maoístas reciclados do MST, com o modelo "longa marcha" de uma liderança tanto mais irresponsável quanto mais informal for, que apenas disfarça e dilui a velha dicotomia entre pensadores e executantes, é não entender que a principal característica deste novo movimento é justamente rejeitar o conceito de liderança, substituindo-o pelo da responsabilidade coletiva e partilhada, pelo anonimato e o combate ao estrelismo. É o modelo "fuenteovejuna" de movimento social.

Os que insistem em vinculá-lo às formas antigas de perpetuação do poder poderão talvez confundir as coisas, e antes de mais nada a si mesmos, por algum tempo. Mas o movimento veio para ficar. Já há dois anos, foi prefigurado no exemplar movimento dos secundaristas de Salvador contra o aumento das tarifas dos ônibus, coordenado via celulares e sem qualquer liderança visível (nem invisível). Vamos vê-lo em outras ocasiões, cada vez mais articulado, cada vez mais ousado.

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