Abaixo a presidenta Dilma!
Enviado por Tomás Rosa Bueno, ter, 02/11/2010 - 09:27Essa história de chamar a Dilma de "presidenta" sempre me incomodou. Como precedente, diga-se que a Real Academia da Espanha, autoridade máxima da língua espanhola, aprovou recentemente o uso de "presidenta". Contudo, e que me perdoem os acadêmicos e as acadêmicas reais da Espanha, há nas nossas línguas neolatinas uma certa lógica que deve ser seguida, não como camisa-de-força, mas justamente para conservar os mecanismos que tornam possível a sutileza das variações semânticas. Abandonar essa lógica é empobrecer a língua.
Esses substantivos terminados em "ente" são, na verdade, uma forma de gerúndio. Presidente é quem tem a tarefa de presidir, aquele ou aquela que está presidindo, assim como residente é aquele ou aquela que está residindo e afligente é aquele ou aquela que está afligindo, e fico aflito com a ideia de um gerúndio com gênero.
Quando a Dilma for presidenta, o Lula será ex-presidento?
Os nossos dicionários de supermercado, como por exemplo o Houaiss ou o Aurélio, que se vendem pela quantidade e não pela qualidade dos seus verbetes e que abonam as suas definições com artigos de jornal ou nem isto, limitando-se a dar um exemplo de uso saído da cabeça do assistente de lexicógrafo responsável pelos verbetes entre "presa" e "priaca", reconhecem ou reconhecerão em breve o uso de "presidenta", no afã de ter verbetes em maior número e mais "modernos" que o concorrente. E os membros da Academia Brasileira de Letras, cujo maior sonho é encontrar uma editora que lhes dê a incumbência de fazer mais um dicionário para ser vendido no Carrefour entre um livro de autoajuda e o último sucesso do Paulo Coelho, deverão em breve incluir o monstrengo no Vocabulário Ortográfico. Mas não por isto "presidenta" será menos improcedente - ou, perdão, improcedento.



Seu argumento me parece bem convincente.
Gostei muito de seu artigo, simples, direto, objetivo, cheio de "elipses mentais". A ironia, o bom humor e a cultura são irmãos siameses. Presidente deve prevalecer, apesar das imputadas concessões populistas dos dicionaristas. Parabéns.
Cesar Nunes (cesar@profcesarnunes.com.br)
Gostei!! Meus ouvidos se incomodam a cada citação de "presidenta".
Me lembro, em uma entrevista ao JN, o Bonner perguntou a Dilma se ela queria ser chamada de presidente ou de presidenta e ela respondeu a ele que achava presidenta incorreto, bem como não existe motoristo como masculino da palavra, mas acreditava que talvez presidenta, não fosse incorreto, embora soasse meio feio.
O que acho interessante é que os telejornais, quando vão falar alguma coisa da Argentina, referem-se à presidente Cristina Kirchner.
No entanto, o autor dos livros Português Prático e Guia Prático da Nova Ortografia, o professor Paulo Flávio Ledur avalia que seria importante ouvir a opinião de Dilma sobre a questão. Para ele, a forma presidenta é a mais adequada:
— A mulher está assumindo posições novas na sociedade. Embora se aceite a forma feminina em professora, doutora, juíza, e em outras não, eu defendo uma forma única. É claro que num primeiro momento, nós estranhamos porque é novo, mas é uma questão de hábito. A língua se faz pelo uso. Na medida em que o uso se consagra, a estranheza desaparece.
Na Argentina, houve discussão semelhante quando Cristina Kirchner se apresentou como candidata. Com a resistência ao uso da palavra presidenta pelos meios de comunicação, ela bradou em um discurso como queria ser chamada se eleita.
— Presidenta! Comecem a se acostumar. Presidentaaa... e não presidente! — disse, esticando a letra a.
É isso!! Com o passar do tempo e a forma como ouvirmos, acabaremos nos acostumando, seja como presidente ou como presidenta!
Flávia
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