Como desinformar, em onze etapas fáceis
Enviado por Tomás Rosa Bueno, qua, 16/06/2010 - 06:59Como desinformar, em onze etapas fáceis:
[Publicado originalmente em 1º de junho de 2010]
1. A Agência Internacional de Energia Atômica emitiu um relatório sobre as atividades nucleares do Irã que ainda é sigiloso, até ser examinado pelo Conselho de Segurança da ONU.
2. Esse relatório foi vazado em todo ou em parte à agência Reuters.
3. O material vazado pode – ou não - ser um reflexo fiel do que está no original.
4. Segundo o material vazado, a AIEA pode ter dito que o Irã tem 2,5 toneladas UBE (urânio de baixo enriquecimento), enriquecido a 3,5%.
5. O UBE não é "material de bomba".
6. Para ser útil na confecção de bombas, o UBE precisa ser enriquecido de 3,5% a mais de 90%.
7. Segundo todos os relatórios da AIEA sobre este assunto, o Irã não tem tecnologia para enriquecer urânio ao nível necessário para fazer bombas, mais de 90%.
8. Segundo todos os relatórios da AIEA sobre este assunto, o Irã não está desviando nenhum material nuclear para aplicações desconhecidas.
9. Segundo todos os relatórios da AIEA sobre este assunto, o estoque de material físsil do Irã está plenamente controlado, até o último quilo.
10. Segundo todos os relatórios da AIEA sobre este assunto, as instalações nucleares conhecidas do Irã são plenamente monitoradss e de jeito nenhum poderiam ser usadas para fabricar secretamente uma bomba.
11. As 2,5 toneladas de UBE que o Ira teria poderiam ser usadas para fazer bombas se:
a. os iranianos soubessem como fazer;
b. sabendo como fazer, eles tivessem como passar da teoria à prática;
c. conhecendo a teoria e dominando a prática, eles conseguissem driblar a vigilância por tempo suficiente para fazer, testar e tornar operacional uma bomba nuclear;
d. resolvidos (a), (b) e (c) acima, o Irã de fato quisesse fazer uma.
Vejam bem, em nenhum momento a AIEA, considerando que o relatório vazado corresponda ao original, sequer falou a palavra “bomba”, nem mencionou suspeita alguma, preferindo como sempre falar em “pontos a esclarecer”.
Agora como fazer para espalhar informações falsas sobre o programa nuclear iraniano sem estar de fato mentindo, e ainda citar a ONU como fonte?
No caso da imprensa brasileira, é facílimo: basta copiar da americana, traduzir, dar uma cor local e publicar (mas eles já aprenderam a aplicar o mesmo método às questões “internas”). No caso da matriz, não é tão primário, mas ainda é fácil: basta ignorar (1), (2) e (3), ir diretamente de (4) a (11), pular (11a), (11b), (11c) e (11d) e pimba!, a manchete está pronta: "ONU diz que Irã pode fazer duas bombas nucleares". Ou "ONU diz que Irã tem combustível para duas bombas nucleares", ou até "Irã prestes a ter bomba nuclear."
Simples, não? E é isso mesmo que eles fazem.
Depois desse bombardeio, saem pelas ruas perguntando às pessoas o que deve ser feito para impedir que os iranianos tenham uma bomba nuclear. E 78% delas dizem "aplicar-lhes sanções", 42% preferem "bombardeá-los" enquanto 33% indicam "invadi-los."
======Nota de 16/06:
O relatório oficial já está disponível aqui.



Meu caro Tomás:
Lendo o seu texto fico a me perguntar se o André Araujo
não seria um membro do Mossad infiltrado. rs rs
:-) Só hoje vi isto.
Mas, para ser agente de qualquer serviço desse tipo e especialmente do Mossad, imagino que seja preciso ter um pouco mais de discernimento. Por outro lado, ele pode estar disfarçando, e é um agente de desinformação.
Vai que ele dá uma resposta brilhante, estou aguardando... sentado...
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