Paulo Vanzolini, especialist em cobras e lagartos e sambista

Autor: 

César Ades, Paulo Vanzolini e Robert Trivers

Paulo Vanzolini ladeado por César Ades e Robert Trivers (à dir.), no final da conferência do último, em 4 de agosto de 2010

Paulo Vanzolini, especialista em cobras e lagartos, e sambista

"Ai olho de cobra mansa, ai boca de fruta brava."
"Leilão", samba rural de Paulo Vanzolini

A cultura brasileira, científica, musical e poética, perdeu no domingo, 28 de abril, um de seus mais ilustres representantes, o herpetologista e sambista Paulo Vanzolini, aos 89 anos,  um "especialista em cobras e lagartos", como ele dizia.

Vanzolini formou-se em medicina pela USP em 1947. Durante a faculdade começou a participar do ambiente boêmio da cidade de São Paulo e a se apresentar com outros estudantes. Em 1945, aos 21 anos, compôs "Ronda", que só viria a ser gravada em 1953. Em 1951 tornou-se Ph.D. em biologia pela Harvard University, EUA. No mesmo ano, voltou a São Paulo e publicou um livro de poesias.

Em 1963, tornou-se diretor do Museu de Zoologia da USP e em 1967 foi lançado o disco "Onze Sambas e uma Capoeira", no qual grandes nomes do ambiente musical de São Paulo à época interpretam suas músicas, entre os quais, Chico Buarque, Luís Carlos Paraná e Cláudia Morena.

Teoria dos refúgios

Em 1970, publicou artigo em parceria com o americano Ernest Williams sobre a especiação do lagarto anolis. É desse período sua parceria com o geomorfologista Aziz Ab'Sáber em estudos corroborativos do que viria a ser a teoria dos refúgios, também desenvolvida pelo ornitólogo e biogeógrafo alemão Jürgen Haffer. Segundo a teoria, a grande variedade de espécies na Amazônia se explicaria pelo isolamento de animais em ilhas (os refúgios) de mata nos longos períodos de seca provocados pelas glaciações. Continuou a dirigir o Museu de Zoologia até 1994. Durante sua gestão o acervo do museu aumentou de 1.200 para 170 mil espécimens.

Em 1979, lançou o disco "Paulo Vanzolini por Ele Mesmo", no qual interpreta suas músicas. A caixa com quatro CDs "Acerto de Contas de Paulo Vanzolini" foi lançada em 2003, com um panorama de sua obra músical, que também inclui parcerias com Toquinho, Eduardo Gudin, Roberto Riberti e outros compositores.

Vanzolini publicou dois artigos na revista "Estudos Avançados". O primeiro foi Paleoclimas e Especiação em Animais da América do Sul Tropical (edição nº 15, ago.-dez./1992). O segundo foi por ocasião da edição da nº 22 (ago.-dez./1994) da  revista, comemorativa dos 60 anos da USP. Como não poderia deixar de ser, Vanzolini contribui com o texto Museu de Zoologia, no qual destaca a importância do museu para a zoologia brasileira.

A última participação de Vanzolini em atividades do IEA foi quando compareceu para assistir a conferência de seu velho amigo o biólogo e psicólogo americano Robert Trivers, em agosto de 2010. No final da conferência, Vanzolini, Trivers e o então diretor do IEA, César Ades, foram para um bar perto da Cidade Universitária tomar cerveja e "conversar sobre isso e aquilo", como diria Adoniram Barbosa.

Breve comentário: Paulo Vanzolini foi (é) quase uma unanimidade, uma figura humana doce, amável e ímpar, eu diria que ele sabia que, "o saber não é nada mais do que a gente sabe", pois num mundo hoje em que se questiona as bases de nossa civilização (o conhecimento): "o saber esta se tornando obsoleto?", o fato é que, "não existe saber mais ou saber menos, o que existe são saberes diferentes", e esse é um assunto, que o mundo científico, as intituições da ciências, pouco entende. "Não é sem razão que Alvin Gouldner declara que é necessário “abandonar o pressuposto muito humano, mas elitista, de que os outros crêem movidos por interesses, enquanto que eles (cientistas) crêem em obediência aos ditames da lógica e da razão”.

Eu tenho lado cara pálida, "Adeus a Razão", pensamentos, sentimentos, percepções, memórias, experiências, sensações, comunicações,....e até a razão, que a imaginação aceita, porém, a razão não aceita a imginação: Música, artes, cultura popular milenar, poesia, literatura, cinema e até ciência, a ciência não vai resolver os problamas do mundo, mas pode e deve ajudar, a salvação da lavoura é pela cultura. A técnica vem desde o pré-humano, a ciência não criou a técnica, muito pelo contrário, a evolução é tentativa e erro à milênios, "a contribuição milenar de todos os erros". A teoria se cria e se usa, e geralmente depois, quando serve para explicar, quando não serve mais, se muda a teoria por outra,....., "o fazer precede o saber, que precede o ensinar", e la nave vã. "A escola não é o mundo e não pode fingir sê-lo" (Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro).

Sds,


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