Declaração de ex-atleta sobre Black Blocs é retrocesso

No momento em que os currículos dos cursos de formação policial, no país, vêm sendo voltados para as bases doutrinárias de uma nova polícia, democrática e cidadã, como um legítimo instrumento de proteção da sociedade e muito menos de pura e simples repressão, a recente declaração do ex-atleta Ronaldo Nazário, uma celebridade do esporte, membro do Comitê Organizador da Copa do Mundo, portanto um importante formador de opinião, sobre o modus operandi da polícia contra a ação dos Black Blocs - "Acho que tem que baixar o cacete neles"-, é sem dúvida um retrocesso em termos de uma nova concepção de atuação policial, mormente num estado democrático de direito. Um incentivo indireto ao uso indiscriminado da força do Estado para reprimir manifestantes, ainda que estes sejam radicias, desordeiros e anárquicos. Uma inoportuna declaração, sem dúvida.

    É preciso entender que o monopólio do uso da força do Estado, através de seu organismo policial, não é sinônimo de arbítrio e uso indiscriminado desta força que terá que ser moderada, proporcional e seletiva. A missão precípua da polícia é proteger a sociedade, preservando a ordem pública, restaurando a ordem quando necessário, reprimindo atos delituosos, sempre nos limites da lei, identificando e prendendo suspeitos e criminosos, tudo sob a égide do respeito aos direitos civis, independentemente de raça. credo, sexo, sexualidade, condição cultural ou social.     Polícia não é sinônimo de força justiceira e força bruta. É sim um instrumento de proteção social e fiscal da lei.O perigo de lamentáveis declarações como esta, de quem não estará certamente no meio de um confronto em via pública, no momento ardente de tensão e perigo, é o incentivo ao excesso do uso da força e o arbítrio do modus operandi policial, que têm levado, permanentemente, integrantes das instituições policiais, às barras dos tribunais, onde muitos são condenados por seus atos impensados, encerrando inúmeras carreiras.      O Brasil vive, às vésperas da Copa do Mundo um período de pré-tensão social, onde não se sabe até onde  poderão chegar as manifestações mais radicais.  Porém há que se ter em mente que sem polícia.cidadã, justiça e imprensa livre não há democracia. Sem o uso proporcional, moderado e seletivo da força a polícia se torna um simples instrumento do abuso de poder, do arbítrio e da violência do Estado. Aprenda-se.   Milton Corrêa da Costa é tenente coronel da reserva da PM do Rio de Janeiro    

Nenhum voto

Postar novo Comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
CAPTCHA
Esta questão é para testar se você é um visitante humano e impedir submissões automatizadas por spam.
CAPTCHA de imagem
Digite os caracteres exibidos na imagem acima.