Juninho e as drogas

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(baseada em baseados reais)

 

                O pai de Juninho, um velho roqueiro das antigas e sua mãe, ex-hippie e ex-adepta do amor livre, não ficaram nada surpresos ao ver, no quarto do filho, um garoto estudioso e pacato, as primeiras bitucas de baseado. Não havia, até então, motivos para preocupação.

                Meses depois de ingressar na faculdade, entretanto, o quadro mudou. O primeiro indício foi o sumiço do relógio novinho em folha, presente de aniversário dos padrinhos de Juninho. Como o garoto sempre fora, de fato, muito pacato, consideraram que tinha crédito de sobra e até se envergonharam pela leve suspeita de que havia algo errado com o rapaz. Mas, em seguida, outra situação suspeita: Juninho sumiu com a grana que havia sido destinada para o pagamento do carnê do IPTU, sem dar explicações.

                As suspeitas ficaram ainda mais fortes quando começou a aparecer com algumas amizades novas, uma gente assim, de cabelos e barba aparados, camisas de gola e mangas compridas. Cumprimentavam todo mundo, na entrada e na saída, distribuíam “bons dias” e “senhor” e “senhora” o tempo todo. Falavam “fiquem com Deus”, “abenç[email protected]”, “na graça do Senhor” e outras expressões como nunca vimos lá em casa. Ah! E nunca faltava uma bíblia sob cada sovaco suado.

                Com o tempo, Juninho começou a nos repreender por certos atos do cotidiano doméstico, como falar palavrões, arrotar ou peidar. Insistia em ler versículos da Bíblia no café da manhã e nos recriminava a cada copo de cerveja.

                Logo os vizinhos começaram a se queixar por serem acordados de manhã cedo pelos rapazes, dizendo que estavam visitando-os para levar a “palavra de Deus”. “Um saco” – diziam. Além disso, segundo eles, os rapazes andavam pedindo “contribuições financeiras” também, de casa em casa.

                Os pais de Juninho já haviam lido, algumas vezes, que o consumo de entorpecentes poderia levar ao uso de outras drogas mais pesadas, mas sabiam que o garoto não se meteria com coisas tipo crack ou oxi. Jamais suspeitariam algo tão pesado como Igreja da Adoração Divina. A situação era grave e pedia medidas enérgicas.

                Juninho foi enviado para uma clínica de reabilitação. A família passou meses sem notícias, pois os médicos acharam o caso bastante grave, exigindo o isolamento em uma cela solitária. A administração da clínica precisou retirar o rapaz do convívio com os colegas, devidas às constantes tentativas de extorquir os pacientes e aliciá-los para cerimônias religiosas.

                A abstinência provocou alucinações, encontros com seres sobrenaturais, etéreos. Via também demônios por todos os cantos, dizia que todos, na clínica, estavam possuídos e iriam queimar no inferno. Juninho foi tratado com doses cavalares de Nietzsche, Marx, Godard, Foucault, reggae, filmes eróticos e rock progressivo. Foi obrigado a escrever mil vezes, no caderno, a frase “a religião é o ópio do povo”. A leitura de “O Anti-Cristo”, como medida extrema, exigiu que o paciente fosse fortemente imobilizado.

                Hoje, Juninho sabe que é um adicto, evita o contato com certas práticas e certos locais e exibe, orgulhoso, aos amigos, as fichinhas coloridas que indicam os exatos dois anos, oito meses e vinte e cinco dias longe do vício do fanatismo. “Aleluia, Se... ops... éééé... Puxa! Que sorte!” – diz orgulhoso.

 

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