Bodó-land(1)

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Bodó-land[1]

      Manaus, morada dos "cabocos", sistematicamente adulterada pelos invasores bellepoquianos, com seus programas de europeização, faxinas étnicas e igarapés ajardinados.             Manaus outrora bela e faceira, cidade construída em 1669, com o forte de São José do Rio Negro, às margens do enorme rio, homônimo ao dito forte.             A indígena Manaós absorveu, entretanto, alguns maus costumes de seus invasores bárbaros e, da tradição ancestral de retirar o látex de suas belas seringueiras, quis fazer fortuna e tornar-se “próspera e desenvolvida”.          Uma vez salva de seu próprio desvario desenvolvimentista, graças aos prósperos seringais, na Malásia, de propriedade dos biopiratas ingleses, que se impuseram como concorrentes mais fortes na produção da borracha, nossa Bodó-land sofreu a segunda invasão bárbara.           A segunda invasão bárbara foi iniciativa do próprio governo federal e implementada a partir da idéia colonialista do Planalto Central de que era preciso “povoar” esta “terra de ninguém”, “viabilizar uma base econômica” na Amazônia Ocidental.          E assim instalaram-se centenas de indústrias-chupins em busca das benesses prometidas e, com elas, vieram milhares de migrantes em busca de emprego.   Bodó-land incha. Dos originais 300 mil habitantes em 1970, salta aos 800 mil em menos de quinze anos. Manaus edemaciou-se e de seus igarapés jorrou pus.
         Hoje, os mentores desta balburdia querem debelar a infecção e, muito embora sejam eles próprios os agentes infecciosos, pensam poder extirpar o tecido infectado. Mas a septicemia já produz quadro grave. O paciente está em coma.
             Bodó-land tem a segunda pior situação de miséria entre as capitais, de acordo com o Índice de Desenvolvimento Familiar (IDF), também está entre as capitais mais violentas do Brasil, além de possuir a maior taxa de mortalidade infantil do Estado do Amazonas. Dentre tantas causa, esta situação ocorre graças à um precário sistema de esgoto, que cobre apenas 11% da cidade, além de um péssimo sistema de tratamento de água, capaz de cobrir apenas 30% dos cerca de 200 bilhões de litros que os manauaras consomem. Bodó-land ainda cobra bem caro por isso. Cobra a quarta tarifa mais cara do Brasil por metro cúbico de água. Defeitos no sistema linfático da cidade? Pois o sistema sanguíneo, digo, transporte coletivo, também está bastante obstruído e danificado. Bodó-land possui, com toda a certeza que nossa vida de gado é capaz de proporcionar, o pior sistema de transporte coletivo do Brasil.             E a sãopaulização continua! Empreiteiros e empresários do transporte coletivo continuam a ditar o destino dos recursos da Bodó-land, o 4° maior PIB brasileiro. Próxima parada: Copa do Mundo!
[1] O termo anglicanizado faz referência ao bodó, peixe também conhecido como “cascudo”, em outras regiões do país (Terra dos Bodós). Além disso, a escolha da língua inglesa busca homenagear um dos inspiradores deste manifesto, Chico Science, que usou esta língua em seu nome artístico, apesar dos protestos de Ariano Suassuna.

 

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