A Bunda

Autor: 

 

                Não havia quem não olhasse: aquela bunda firme, bem destacada da cintura, arrebitada. Por baixo de calças jeans, vestidos, camisões largos, roupas pretas, saias, shorts e, claro, de biquíni, olhares indisfarçáveis, deleitados. Só uma pessoa a odiava: Luciana, a dona.

                Filósofa, com doutorado em uma das mais importantes instituições do país, pós-doutorado na Inglaterra, autora de inúmeros livros, consultora do Ministério da Cultura, capoeirista, baterista, integrante de um grupo de maracatu, cozinheira de mão cheia, capaz de fazer pratos europeus sofisticados e feijoadas comparáveis às da Vicentina. Para sua desgraça, nenhum destes atributos era capaz de desviar a atenção das pessoas de sua bunda.

                A criança doce e meiga, criada na fazenda com seus avós, logo cedo, aos doze anos, percebera o fardo que carregava em seu corpo. Sua bunda era assunto familiar, ainda que sob forma eufêmica: “A Lu já tá com corpo de moça” “Hum! Essa menina vai dar trabalho”. Luciana não conseguia deixar de perceber em que parte do seu corpo repousavam os olhares de avós, tios, irmãos e primos, sempre que seu nome era pronunciado.

                Primeiro quis se esconder, tornou-se tímida, retraída. Aos dezenove, percebendo que a estratégia não funcionava, tentou a segunda cartada: chamar a atenção para suas mãos. Aprendeu técnicas de ilusionismo. Pura ilusão, por melhor que fosse, o centro das atenções continuava sendo o seu amaldiçoado par de glúteos.

                Na faculdade dedicou-se a entender seu problema. Leu Simone de Beauvoir, Foucault, Hannah Arendt, Rosa Luxemburgo, curtiu Frida Kahlo, Pagu e Violeta Parra. Sua revolta só aumentou diante de cada apalpadela não consentida, de cada olhar machista. Incursionou pelo lesbianismo, mas logo percebeu que suas companheiras, além de possessivas, também valorizavam excessivamente a sua bunda. A cada vez que cedia a uma cantada que versava sobre seus olhos, seus cabelos, sua inteligência, decepcionava-se por descobrir que suas namoradas eram igualmente apaixonadas por suas nádegas.

                Tornou-se amarga, cerrou os dentes e não sorria mais para ninguém. Ao final do pós-doutorado pôs em prática um plano radical, que já cultivava há alguns anos, um plano que talvez trouxesse seu sorriso de volta, que poderia fazer com que Luciana se apaziguasse com a humanidade. Submeteu-se a uma cirurgia plástica, retirando 70% do volume que portava no traseiro e que tanto a incomodava.

                Assim que recebeu alta foi às ruas fazer um teste. Passou pela frente de oficinas mecânicas, construções, saiu à noite, frequentou bares, forrós, danceterias e concluiu que a cirurgia havia sido um sucesso. As cantadas, fiu-fius, piscadas e sorrisos reduziram-se drasticamente e as poucas tentativas foram menos acintosas do que antes. Na universidade deliciou-se ao ouvir a conversa, quase sussurrada, de um grupo de rapazes:

- Maior gata essa doutora, hem?

- Pois é, pena que não tem bunda!

                Luciana sempre sonhou ser pouco atrativa para estes que, no passado, a reduziam a um belo traseiro. Mutilada, passou a ser olhada no rosto, nos olhos, conheceu gente incrível, conseguia andar tranquila nas ruas. Luciana sem-bunda foi reconhecida como mulher, inteligente, sensível, talentosa. Luciana voltou a sorrir.

Média: 5 (1 vote)

Postar novo Comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
CAPTCHA
Esta questão é para testar se você é um visitante humano e impedir submissões automatizadas por spam.
CAPTCHA de imagem
Digite os caracteres exibidos na imagem acima.