2101: O agreste paulista

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                Eliseu arrancava com raiva e má vontade o couro do teiú que caçara depois de algumas horas debaixo do escaldante sol do verão paulista. Rodeara a cerca da fazenda dos Matarazzo, olhando com inveja para aquele reduto, aquele oásis encravado em pleno semiárido sudestino, os rebanhos de bois gordos, cabras e avestruzes suculentos, as frutíferas, o café e a roça de aipim verdejantes.

                Sonhava em aventurar no próspero nordeste, terra que, desde a década de 2050 acolhera e transformara em celebridades muitos de seus ex-vizinhos do Capão Redondo. Eliseu era bom de versos e de grafite, como a maioria dos habitantes dessa região. Sonhava estar em cima de um palco, mandando um rap pra uma multidão empolgada, como muitos dos ídolos de seus pais: Criolo, Emicida, Inquérito, MV Bill, Racionais.

                Enquanto sonhava mal via o raquítico teiú desaparecer, destroçado por sua numerosa família famélica, seus oito filhos vivos e sua esposa, grávida do nono. Pensara em ralhar com os filhos que, roendo até os ossos do bicho, deixaram apenas um pouco do molho no fundo do prato. Não tinha energia para gastar com aborrecimentos. Entornou a seca farinha sobre o prato quase vazio e comeu sem água, o que aumentou sua sede.

                Buscar água era outra tarefa custosa e demorada. Genival, o filho mais velho, havia esquecido de realiza-la, como de costume. Como Eliseu tinha sede, não lhe restou alternativa a não ser gastar um pouco de sua escassa energia mandando o garoto ao Morumbi, bairro fantasma que ainda abrigava algumas fontes de água salobra, remanescentes de antigos poços do que fora, no século passado, uma região próspera.

                Dois dos quatro filhos do casal morreram de fome, os outros dois, de doença. Os irmãos vivos sabiam que os quilômetros percorridos a pé em busca de água exauriam, desgastavam e poderiam ser fatais para a sobrevivência deles. Foi por isso que MC Seco, o segundo filho do casal, arrumou suas trouxas e, sem contar a ninguém, partiu para o nordeste. Pensou em deixar um bilhete para os pais, mas sua escrita era péssima, pois mal pudera frequentar a escola.

                Passados dez anos, MC Seco havia conseguido tocar rap em algumas praças da periferia do Recife, disputando espaço com centenas de jovens paulistas que se aglomeravam nas capitais nordestinas, sonhando em ganhar projeção, fazer shows nos disputados espaços de hip hop, gravar um e-álbum e sair da pobreza.

                O grosso do seu sustento vinha, entretanto, de outras atividades. Lavava carros, fazia grafites nos muros dos bacanas em troca de comida ou algum dinheiro, era contratado para agitar o som de festas da classe média pernambucana. Trabalhava muito e ganhava pouco, apenas o suficiente para sobreviver. Pensava em mandar algum dinheiro para a família, mas nunca sobrava nada. Sentia-se feliz, apesar disso.

                Só abandonava o bom humor por causa da zombaria, da chacota, das humilhações que sofria cotidianamente por ser paulista. Quando ouvia um “E aí, paulista?” sabia que a frase carregava preconceito e que o apelido, em sua nova terra, estava ligado a uma ideia de indolência, de preguiça, de falta de inteligência, mas, como era pobre e vivia numa terra estranha, mal respondia às provocações.

                Quem dera se a zombaria se resumisse a isso, mas bastava que cometesse um erro no trabalho que havia alguém a dizer: “putz, só podia mesmo ser paulista” ou, o que é pior “olha o branquelo já fez uma paulistada”. E mais: qualquer coisa considerada de mal gosto, na cidade, tinha a fama de ser uma “paulistada”. “Olha a cor desse carro, que cafona, credo, fizeram uma paulistada com ele”! Se quisesse tirar uma sonequinha depois do almoço, depois de ter lavado carros durante toda a manhã, lá vinha o patrão: “Acorda aí, ô paulista! Ô povo preguiçoso!”.

                MC Seco se lembrava do tempo relatado por seu avô, de tanto preconceito que, como negro e nordestino tivera que aturar na antiga e próspera São Paulo do século XX e ruminava baixinho num canto: “Acho que conheço essa novela!”.

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