AS AGRURAS DO ETANOL
Enviado por Luree laivs, qua, 04/05/2011 - 11:29Quase todos aqueles que escrevem sobre a história do etanol no Brasil se repetem nos mesmos pontos e, portanto é desnecessário abordar aqui a historia do Proálcool e suas consequências inglórias nos idos de 1989.
Hoje voltamos a nos deparar com uma situação semelhante, e dizemos semelhante para não dizer igual, mas vale dizer que uma repetição de eventos que se julgava não aconteceria devido a um novo elemento figurante importante na história recente do etanol, a tão decantada tecnologia flex fuel. Desta se dizia o milagre dos peixes uma vez que não havendo etanol, como em 1989, não haveria problemas, o feliz motorista poderia voltar a abastecer seu veículo com a velha e conhecida gasolina.
E tudo foi sendo tocado como num passe de encanto e louvor ao biocombustível e suas vantagens, principalmente no quesito ambiental, e a possibilidade de esse biocombustível dominar o mundo da mobilidade sustentável a partir da bem estruturada produção brasileira.
A cada seminário, congresso, encontros, palestras, dissertações e teses universitárias os louvores ao etanol se multiplicaram de forma exponencial, com apresentações magníficas de usinas completamente integradas ao mundo moderno da sustentabilidade, algumas até produtoras não só de etanol, mas também de água além de supressoras líquidas de gases de efeito estufa, modelos matemáticos perfeitos de consumo e produção, enfim toda uma parafernália de convencimento acoplada logicamente à maravilha tecnológica do veículo flex.
Quem ousasse questionar números, áreas de plantio, quantidade absurdas produzidas e o veículo flex era sempre visto com desconfiança e mesmo com respostas oscilando entre o irônico e o ácido, ficando sempre na incõmoda posição de contestador sem causa.
A ÚNICA chegou abrir um escritório nos Estados Unidos e contratou um lobista para atuar junto ao congresso americano contra as barreiras impostas ao etanol brasileiro que não conseguia em grande escala penetrar nesse mercado.
Na extensão da crise de 2008 e uma sucessão de eventos que não foram previstos, mas que eram constataveis até pela sua repetição histórica, tais como seca, excesso de chuvas, preço elevado do açúcar, nos deparamos novamente com o fantasma de 1989.
Alguns dizem, não há importância, afinal os carros são flex, podem usar gasolina. Verdade pode-se usar gasolina. E ela está disponível? Alguém estoca gasolina para caso não haja etanol? Existe capacidade de abastecimento de toda a frota com gasolina proveniente da refinaria nacional? E o preço? E a logística?
Não é muito segredo que a indústria automobilística fabrica o veículo flex com um stand by do velho motor a gasolina de sobreaviso pronto para entrar e ação, caso seja chamado de volta.
Também não é segredo que a tecnologia flex carrega em sua arquitetura, uma ineficiência difícil de ser equacionada a custos moderados. Assim dos cerca de 20 bilhões de litros de etanol produzidos para combustível, entre 15 e 20% é queimado sem produzir trabalho útil.
Algo em torno de 3 a 4 bilhões de litros, o que traduzidos em reais chega-se a mais ou cinco bilhões queimados nos motores se produzir aquilo que se espera de um veículo, movimento.
A perplexidade tomou conta do governo atual já que o presidente Lula foi o embaixador da boa causa do etanol mundo afora acreditando na redenção dos usineiros que, aliás, hoje já não são como os fabricantes de rapadura de antigamente, vestem ternos elegantes, circulam em altas rodas internacionais, associados com a Shell, Total, BP, Petrobrás etc. Mas como o uso do cachimbo faz a boca torta, velhos e antigos vícios permanecem no DNA do agora chamado pelo nome pomposo de “Setor Sucro Energético”.
A atual crise, além de colocar em dúvida a capacidade deste setor de comprometimento com políticas nacionais, o que fez com que o Brasil importasse etanol justo dos Estados Unidos, e para isso tendo até que mudar a especificação do produto, fez também com que se importasse gasolina já que não havia a mesma disponível como reserva em caso de falta de etanol.
O governo reagiu, decretou o etano um combustivel, tirando-lhe o status de produto agrícola (falta combinar os deuses da chuva e da seca e com as eventuais pragas que possam atingir as lavouras de que a cana não é produto agrícola).
Feito isto passou a competência de regulagem do etanol para a ANP.
Resolvido? Quem poderá responder?
Algumas questões devem ser colocadas;
O que pode fazer a ANP, estabelecer cotas mínimas de produção de etanol por usina?
Amarrar os novos financiamentos a garantia de produção de etanol?
E como ficam os preços pagos ao produtor, haverá garantia de preço mínimo?
Esse preço mínimo remunerará os custos crescentes, uma vez que salários tendem a subir? (embora a produção esteja cada vez mais tecnificada)
O parâmetro básico de etanol a 70% do preço da gasolina será o balizador?
A gasolina acompanhará preços internacionais?
O pré-sal pode diminuir os custos e preços da gasolina e, portanto empurrar o limite de 70% do preço de etanol para baixo?
A tecnologia diesel para carros pequenos poderá ser aprovada no congresso e liberada para motores de baixa cilindrada, tornando estes, concorrentes do ineficiente flex fuel?
A indústria automobilística concorrerá com importados a gasolina de baixo valor (chineses) e eficiência mais elevada?
Há mais muito mais dúvidas, e eu não sei como responde-las, por isso solicito a aqueles que tenham respostas e até mais dúvidas que entrem em contato.
Meu email luree.laivs@gmail.com. Esse é um bom debate a ser levado a frente.
Luree Laivs



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