Para Que Serve a Ética?

A palavra “ética” é fácil de ser dita, mas difícil de ser praticada e compreendida. Sempre a exigimos quanto às atitudes de alguém, e cheios de empáfia reclamamos a sua falta em vários contextos da vida em sociedade, como por exemplo, na política, na religião ou nos relacionamentos interpessoais. O primeiro grande problema da ética é que ela tende a ser sempre terceirizada, ou seja, o problema da falta de ética é sempre problema do outro. Eu? Não! Eu sempre faço a minha parte... É muito comum as pessoas se excluírem quando se trata de uma reflexão ética.

O que se mostra atualmente é que a aplicação concreta dos preceitos da ética está no campo do impossível, é uma utopia, não passa de uma mera abstração e só existe no mundo da intencionalidade. Para muitos, não há como ser ético se o outro não o é. O bem comum não existe. Acreditam que para um “se dar bem” o outro tem que “se dar mal” e que sempre prevalece a lei do mais forte ou daqueles que têm mais poder. Por isso, não ser ético, desprezar a moral seria uma espécie de antídoto diante do comportamento imoral do outro ou da própria sociedade. Na verdade, falta reflexão, falta pensamento crítico, falta entender o que é ética. Esses e outros problemas não excluem a ética – ela será sempre uma referência para um comportamento responsável e consciente, indispensável para a convivência humana. Na ética, essa construção é que está em jogo.

Afinal, qual é a diferença entre moral e ética? Impõem-se aqui algumas definições, consideravelmente abertas e flexíveis, para não engessar desde o princípio esta análise. A etimologia não poderia nos guiar nessa tarefa: os termos ta êthé (em grego, os costumes) e moraes (em latim, hábitos) são semelhantes. Contudo, apesar deste paradoxo que a análise etimológica nos revela, há que se operar uma distinção entre a ética e a moral. A primeira é mais teórica que a segunda, pretende-se mais voltada a uma reflexão sobre os fundamentos da segunda.

Assim, poderíamos dizer que a ética é a reflexão sobre a melhor forma de agir de acordo com as circunstâncias e o contexto, visando o bem comum. Já a moral, está voltada para o cumprimento das regras que a sociedade adota como definindo o que é certo ou errado, o proibido e o permitido, o que pode e o que não pode ser feito. A moral seria o “cumpra-se”. Já a ética é o “pense”.

Pois bem, há uma crise moral e ética nesta modernidade, a qual é muito bem definida pelo pensador contemporâneo Zygmunt Bauman como “modernidade líquida”. Para ele, vivemos em um momento em que a sociabilidade humana experimenta uma transformação que pode ser sintetizada nos seguintes processos: a metamorfose do cidadão, sujeito de direitos, um indivíduo em busca de afirmação no espaço social; a passagem das estruturas de solidariedade coletiva para as de disputa e competição; o enfraquecimento dos sistemas de proteção estatal contra as intempéries da vida, gerando um ambiente de permanente incerteza; a colocação da responsabilidade por eventuais fracassos no plano individual; o fim da perspectiva do planejamento a longo prazo; e o divórcio e a iminente separação total entre poder e política. Tudo isso afeta significativamente o campo da ética e da moral.

Assim, Bauman nos aponta que vivemos num momento em que as referências tradicionais desapareceram, em que não sabemos mais exatamente quais podem ser os fundamentos possíveis de uma teoria ética. Por exemplo, atualmente, o que é que nos permite dizer se uma lei é justa ou se as ações do Poder Judiciário estão sendo cumpridas e executadas adequadamente perante todos? Se as políticas públicas de assistência social, como por exemplo, o bolsa família, as cotas para minorias (negros, pobres, indígenas) são o melhor caminho a ser seguido? Se o modelo de política econômica em voga está condizente com as regras morais e éticas? Além disso, as evidências de corrupção estão cada vez mais explícitas. Não há consenso quanto a estes temas.

De certa forma, essa relatividade interpretativa, subjetiva, desencadeia uma crise de valores e produz um vazio absoluto tanto na moral quanto na ética. Assim, estamos mergulhados nesse niilismo, essa relação com o “nada”, ou seja, um modelo de pensamento e comportamento, recorrente no tempo e no espaço, que nega a existência do absoluto, quer como valor, quer como a própria ética.

O niilismo é um termo empregado por Nietzsche para designar o que considerou como o resultado da decadência européia, a ruína dos valores tradicionais consagrados na civilização ocidental, já no século XIX, que continua cada vez mais forte nesta pós-modernidade. O niilismo caracteriza-se pela descrença generalizada em um futuro ou destino glorioso da civilização, que coloca o futuro da humanidade em dúvida, opondo-se, de certa forma, à ideia de progresso dos valores. Esse conceito nega a crença em um referencial absoluto, que é o fundamento metafísico de todos os valores éticos e sociais da tradição.

O niilismo nietzschiano propõe, no entanto, a busca de novos valores que sejam “afirmativos da vida”, da vontade humana, superando os princípios metafísicos tradicionais e a “moral de rebanho” da religião massificada, os valores das instituições, da elite dominante e de tudo que é determinado num sentido ideológico de dominação e, assim, situando-se “para além do bem e do mal”.

Pois bem, alguns filósofos consideram a moral como “condição suficiente da virtude”. É o caso de Sócrates e Platão, que admitem a maldade como resultado da ignorância. Não basta, porém, conhecer o dever para cumprí-lo, é necessário ainda o esforço da vontade para subordinar a sua própria conduta rumo ao mesmo. Outros filósofos, como Rousseau, concluíram quanto à inutilidade prática da moral como ciência, com a convicção de que bastam “a consciência e as boas inclinações” para conduzir nossos atos ao caminho do bem.

Sem dúvida, nosso senso moral inato pode nos levar a praticar boas ações. Mas é inegável que o conhecimento das normas do dever facilita o seu cumprimento. A ciência moral mostra, com clareza, os princípios que deve orientar nossa conduta e justifica, racionalmente, o dever que devemos cumprir, evitando que nossa ação seja dominada pelas reações instintivas, de revolta pela configuração de mundo em voga, de não ser ético como um instrumento de defesa, ou mesmo, pelos impulsos da afetividade e pelos sofismas da paixão.

Além disso, a aplicação dos valores ou princípios da moral e a ética são complementos indispensáveis para encararmos todos esses problemas do mundo contemporâneo. O progresso, o desenvolvimento das tecnologias, o advento e ascensão dos meios de comunicação digitais e da cultura são supérfluos e até prejudiciais, se paralelamente não melhorarmos o homem e encaminhá-lo, de alguma forma, à pratica do bem. A ciência somente contribui para o engrandecimento do homem e da sociedade como um todo quando os valores morais e a ética estiverem em vista. Por isso, já dizia Sócrates, com razão: “Todas as ciências, sem a ciência do bem, seriam mais nocivas do que úteis”. Assim, devemos repensar o que estamos fazendo com o nosso presente e definirmos um possível futuro onde o bem esteja em pauta. A moral e a ética são os instrumentos para a nova perspectiva de vida melhor em todos os sentidos.

 

Luiz Claudio Tonchis é Educador e Gestor Escolar, trabalha na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, é bacharel e licenciado em Filosofia, com pós-graduação em Ética pela UNESP e em Gestão Escolar pela UNIARARAS. Atualmente é acadêmico em Pós-Graduação (MBA) pela Universidade Federal Fluminense. Escreve regularmente para blogs, jornais e revistas, contribuindo com artigos em que discute questões ligadas à Política, Educação e Filosofia.

 

Contato: [email protected]

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