A Semente do Amor

O mundo virtual que se estabeleceu através das redes sociais, como, por exemplo, o Facebook, é um fenômeno que mudou completamente as relações sociais. Nele, o que é virtual emula o real, ou seja, pode representar as mesmas sensações do mundo real. As interações virtuais são fascinantes porque, ao mesmo tempo, reúnem, pela tecnologia, o intangível e o potencial, o que, muitas vezes, se manifesta numa experiência subjetiva de imersão.

Na filosofia de Aristóteles (384-322 a.C.), a noção de potência opõe-se à de ato, caracterizando o estado virtual do ser. O ato é o fato de uma coisa existir na realidade, ou seja, um ser em ato é um ser plenamente realizado. Já um ser em potência é apenas um devir – uma possibilidade de vir a ser, como por exemplo, a planta é o ato da semente, a qual permanece em potência enquanto não for plantada e germinar.

Pois bem, através das interações propiciadas pelas ferramentas digitais se tornou possível o contato com pessoas desconhecidas que, talvez, seria improvável em outras circunstâncias da vida. Abriu-se um leque de possibilidades de comunicação e de acesso ao pensamento do outro e troca de ideias nos mais diversos interesses comuns. Assim, as redes sociais tornaram-se uma grande potencialidade para a possibilidade desse vir a ser, ou seja, o mundo virtual permite o estabelecimento de amizades, namoros, e até a concretização de casamentos.

E por falar em relacionamentos, o namoro e o sentimento afetivo de amor na internet estão ligados ao desejo. O desejo, no sentido filosófico, é uma tendência especificamente humana, distinta da simples necessidade. Assim, o Eros de Platão (c.427-348 ou 347 a.C.) que enfatiza o objeto “sobrenatural” do desejo, é o amor dos belos corpos levando a alma a elevar-se ao amor do bem inteligível. Eros é o amor na forma de desejo. E este desejar é muito mais que querer, é querer tudo: é uma atitude mental que representa os elementos simbólicos de um fim almejado. Quem mantém um relacionamento afetivo nas redes, se for verdadeiro, sincero, está no campo da potencialidade, o que representa uma possibilidade de realização do que é imaginado.

Com o advento das redes sociais inverteu-se o processo da construção do amor: ele se inicia na contemplação, ou seja, não com os olhos do corpo, mas os com olhos da alma. Só depois, parte para a realidade física, na presença dos corpos. Fora da rede, na vida real, o amor se processa de forma contrária. Inicialmente, se realiza a partir da atração física, no contato e, só depois, numa fase mais elevada, se atualiza na fase contemplativa. Na teoria platônica, o amor não é prisioneiro da matéria, pois quando se ama alguém, se ama além do que se vê. Ama-se, inclusive, o que não se vê, ama-se também o que não é tangível, já que as coisas que tocamos não duram, mas o amor, este sim, perdura.

Para Platão, a contemplação é um estado de espírito passivo aplicado a uma ideia, uma espécie de amor teórico. A teoria ou a contemplação é a visão pela alma, um ato de fixar o espírito sobre o inteligível, o objeto de desejo, sem um outro fim a não ser o de gozar sua presença e de melhor conhecê-lo. Uma fusão de almas.

No relacionamento virtual as interações afetivas se dão através da contemplação, uma espécie de representação mental da realidade. A presença física não existe, por isso, não é possível sentir a “aura”, a energia do outro, como também, não é possível ter-se o toque, a troca de olhares e de carícias, tão importantes no relacionamento amoroso. No entanto, a evolução tecnologias digitais intensificam as relações virtuais, aguçando as fantasias contemplativas e, de certa forma, mantém vivo o interesse sexual de ambos, mantendo acesa a chama do desejo.

Os recursos de multimídia disponibilizados através de vários aplicativos possibilitam que mais de um dos sentidos dos interlocutores sejam afetados. A comunicação agora vai muito além de palavras digitadas, pois já é possível compartilhar arquivos, e há as câmeras digitais que reproduzem a voz e imagens ao vivo e a cores, em tempo real. Assim, os canais de comunicação virtual realmente ajudam a criar e manter os vínculos afetivos.

No entanto, o mundo virtual nem sempre é um mundo perfeito, sempre existe um risco iminente de sermos vítimas dos canalhas virtuais. Nas redes, as pessoas podem ser elas mesmas, ter uma identidade real e serem verdadeiras, sinceras. Por outro lado, permitem que as pessoas escondam-se atrás de suas máscaras, com os objetivos mais diversos, incluindo a prática do mal, mentindo e manipulando suas vítimas, talvez visando simplesmente satisfazer suas fantasias de dominação.

O amor é uma palavra que na sua expressão mais profunda exige um cuidado ético. Para os poetas é a fonte de inspiração, mas para o conquistador leviano, o qual é movido pelo simples desejo da conquista, é apenas uma estratégia para efetivar a dominação. Por outro lado, na sua expressão verdadeira e sincera, é sempre impreciso e confuso, mesmo quando sincero, e muitos já se perderam em suas próprias promessas de amor. A semente do amor plantada no Facebook ou por outros meios digitais é para aqueles que estão livres e prontos para viver um amor possível.

 

Luiz Claudio Tonchis é Educador e Gestor Escolar, trabalha na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, é bacharel e licenciado em Filosofia, com pós-graduação em Ética pela UNESP e em Gestão Escolar pela UNIARARAS. Atualmente é acadêmico em Pós-Graduação (MBA) pela Universidade Federal Fluminense. Escreve regularmente para blogs, jornais e revistas, contribuindo com artigos em que discute questões ligadas à Política, Educação e Filosofia.

 Contato:  [email protected]

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