A Opinião e a Maldade

Atualmente, vivemos na era da informação, que molda a nossa concepção de mundo e afeta a nossa ação. Entretanto, informação não é sinônimo de conhecimento. Essa grande rede de informação contemporânea, possibilitada principalmente através das redes sociais, potencializou também a comunicação. Nunca as pessoas se comunicaram tanto. Nesse processo, cada vez mais, os indivíduos desejam externar de alguma forma suas opiniões. Emitem opiniões sobre tudo, tanto daquilo que se conhece quanto daquilo que se desconhece, pois basta acessar as redes sociais e verificar a abundância, porém, superficialidade, dos comentários emitidos sobre os mais diversos temas e acontecimentos.

Na grande maioria das vezes, esses comentários são pobres, simplórios e ingênuos. Comentam sobre tudo, desde das grandes tragédias até as coisas mais simples e corriqueiras, como por exemplo, a compra de um sapato. O problema não são os comentários em si, mas sim a qualidade dos mesmos, e ao invés de se informar, estudar, ler um bom livro, preferem disparar opiniões sem qualquer rigor racional e lógico.

É fácil emitir uma opinião, qualquer um pode fazê-lo, despreocupadamente. Mas não imaginam as consequências e as injustiças que os comentários equivocados podem produzir. Este tipo de conduta é por si imoral e antiético, pois pode distorcer os fatos e assim causar danos irreparáveis a terceiros.

Os renomados pensadores gregos da época clássica já faziam distinção entre opinião e conhecimento.

A opinião é um juízo baseado numa crença acerca da verdade de algo, entretanto, sem justificativa lógica ou exame mais crítico. Assim, a opinião é, portanto, sempre relativa a quem a sustenta e às circunstâncias em que é emitida. Segundo Kant (1724-1804): “A opinião é o fato de considerar-se algo como verdadeiro, tendo-se, no entanto, consciência de uma insuficiência subjetiva ou objetiva desse juízo”.  Dessa forma, a opinião é um conhecimento imediato e subjetivo, ou seja, não tem um valor universal, objetivo, e assim, pode ter ou não ter uma conexão com a realidade.

Já o conhecimento é um ato da vida psíquica que tem por efeito tornar uma informação ou objeto presente aos sentidos e à inteligência, ou seja, a apropriação intelectual de determinado campo empírico ou ideal de dados, tendo em vista dominá-lo e utilizá-lo. O termo conhecimento designa tanto a coisa conhecida quanto o ato de conhecer (subjetivo) e o fato de conhecer. O conhecimento é apoiado em informações adequadamente representadas.

O grande problema é que, muitas vezes, o receptor representa a informação de forma equivocada, a nível de senso comum, e assim a reproduz. As ideologias e os interesses contaminam o seu pensamento, tornando-o incapaz de enxergar a realidade de uma forma dialética. Ele passa ver as coisas a partir de “seu ponto de vista”, e assim, naturalmente rejeita as contradições. Nessas condições, ele terá crenças falsas e cometerá erros que o impedirão de possuir e transmitir o conhecimento verdadeiro. Ele não passa de um emissor de opiniões simplistas e ingênuas.

Em nossos dias, utiliza-se bastante o termo “dialética” para se dar uma aparência de racionalidade aos modos de explicação e demonstração confusos e aproximativos. Para Hegel (1770-1831), a dialética é o movimento racional que permite superar uma contradição. Não é um método, mas um movimento conjunto do pensamento e do real. De certa forma, a dialética permite ao homem acessar o pensamento complexo, para entender os fenômenos e as relações de força que determinam uma determinada situação, indo além das aparências.

A opinião, pelas suas características, pode ser preconceituosa, pois é uma crença admitida sem ser discutida ou examinada. É internalizada pelas pessoas sem se darem conta disso, influenciando seu modo de pensar e de agir. Seu preceito é constituído por uma visão inocente da realidade que produz as falsas crenças. E assim, sem nenhuma responsabilidade, são disseminadas com muita velocidade através das redes digitais.

Antes de emitir uma opinião, é necessário e urgente que as pessoas exercitem o pensamento, verifiquem os fatos, as informações, de uma forma mais neutra e dialética. É preciso o treino do “olhar” sobre a realidade para superar a ingenuidade produzida pelo olhar estereotipado, preconceituoso. Essas são as principais ferramentas para a superação da ignorância. A verdade, a justiça e a dignidade humana dependem disso.

 

Luiz Claudio Tonchis é Educador e Gestor Escolar, trabalha na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, é bacharel e licenciado em Filosofia, com pós-graduação em Ética pela UNESP e em Gestão Escolar pela UNIARARAS. Atualmente é acadêmico em Pós-Graduação (MBA) pela Universidade Federal Fluminense. Escreve regularmente para blogs, jornais e revistas, contribuindo com artigos em que discute questões ligadas à Política, Educação e Filosofia.

 Contato: [email protected]

 

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