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Velho e desdentado, mas com vontade de morderEnviado por luisnassif, qui, 01/12/2011 - 21:00
Autor:
Tomás Rosa Bueno Há uns dez anos, briguei com um amigo quando ele me disse algo neste mesmo estilo, mas acho que estou ficando velho. Acho que estou chegando à mesma condição que o Beethoven no concerto em Ré maior para violino, que podia celebrar o fim do velho mundo com a chegada das tropas revolucionárias do Napoleão à Alemanha e, ao mesmo tempo, lamentar a perda de tudo o que o aquele mundo tinha de gentil e cortês. O velho mundo, hoje, tem muito pouco e cada vez menos de gentil e cortês e, ao contrário, tem muito e cada vez mais de selvagem e grosseiro. Comparado ao mundo cuja perda Beethoven celebrava e lamentava, o nosso só dá motivos de lamento, e a vida de quase todos (e, por osmose solidária, a de todos) é nele ainda mais "solitária, pobre, repelente, brutal e breve" do que o Hobbes imaginava ser a do homem das cavernas. Algumas coisas, porém, como as coreografias do Jirí Kylián, algo da música do Steve Reich ou do Philip Glass, a música popular latinoamericana, o Steve Marriott cantando "Black Coffee" ou o Saramago descrevendo o mundo em "Viagem a Portugal" e as ladeiras ainda humanas de Lisboa, valem a pena viver para serem vistas. Assim como as muralhas de Cartagena e a Acrópole, monumentos de um mundo ainda mais antigo que hoje, até na sua "conservação", está sendo apagado da memória dos homens. Esse ex-amigo talvez tenha sido um pouco mais leniente consigo mesmo e com o mundo do que eu estaria disposto a tolerar, mas hoje posso dizer que, mesmo não estando de acordo com o que ele disse, posso entender por que o disse. Não vou, como ele, "usar o que me resta de vida para desfrutar de todo o pouco que este mundo ainda tem a oferecer", mas faço questão de usar o tempo que me resta para ver o máximo do que ainda é belo. Até, talvez (me engana que eu gosto?), para que o contraste com o lixo esmagador de todo o resto me faça ficar um pouco menos dividido do que o Beethoven quando o fim do mundo chegar.
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Comentários + votados
3
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Mathilde D'Antanho
02/12/2011 - 06:30
Constatação
09/02
Dos filhos do meu pai
Não há um que eu não trate de irmão.
Mas depois do rio ter cavado seu leito
O mesmo tanto que a árvore ergueu a rama,
E agora, que rio e árvore dobraram...
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Belas metáforas, Tomás!!!
José Antônio
No pedaço, alguém da arte de escrever, muito bom
OOO http://www.advivo.com.br/user/13544 Juriti do Cerrado http://www.advivo.com.br/user/7757 Tatu Bola http://www.advivo.com.br/user/3084 D http://www.advivo.com.br/user/7514 Spin http://www.josecarloslima.blogspot.com
o pensamento, as palavras e o ato. encadear é preciso, alguns conseguem.
você não pode vencer a morte, mas você pode vencer a morte em vida, às vezes. Charles Bukowski
Ele é otimista, além de tudo !
Nilson Fernandes
Heraclito
Se soubesses qual dos pensamentos agravou o mal
ou se fostes ao encontro de um destino traçado
ainda que mal compreendido
pensarias em responsabilidade
somos responsaveis pelo que pensamos
contemplação que não podes ter, lentidão
humanidade que recusas, opressão
fato incepulto.
Tomás Rosa Bueno,
Belo post e que mais uma vez me faz senti vaidoso quando relembro que já debati muito com esse cara.
Não sei de quem é o título "Velho e desdentado, mas com muita vontade de morder" que também é bonito e aqui vale lembrar o elogio que fiz para Luis Nassif pelo título do post "Movimentos incompreensíveis da Fazenda".
Interessante a chamada que Paulo Kautscher fez aqui neste post (É fácil de achar o comentário porque são dois, um enviado hoje, quinta-feira, 01/12/2011 às 22:21 e outro dez minutos depois) para um post mais antigo intitulado "O xadrez do Egito - 2" de domingo, 30/01/2011 às 00:07 com comentário seu provavelmente originado do post "O xadrez do Egito" de sábado, 29/01/2011 às 18:26 de comentário de Andre Araujo. Como Paulo Kautscher deixou o link para "O xadrez do Egito - 2" eu deixo o link para o post "O xadrez do Egito":
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-xadrez-do-egito
O Andre Araujo perde muito ponto nas manifestações preconceituosas dele, mas em alguns comentários em que ele controla o preconceito ele sempre traz informações bastantes instrutivas. Assim o post dele "O xadrez do Egito", apesar de preconceituoso, é bastante informativo e em alguns comentários ele soube deixar de lado o preconceito.
Os post sobre o Egito são posts do início da revolta árabe e ajudam a gente a entender o que está acontecendo no Oriente Médio. Já agora no final eu passei a conjeturar que o Ocidente resolveu não tomar partido contra os religiosos islamitas no Oriente Médio. Eles (O Ocidente) só querem explorar o petróleo. Em vez de apoiar ditadores eles deixam por conta dos islamitas escolherem o regime que eles querem adotar desde que deixem o ocidente explorar o petróleo. O único problema é no Afeganistão onde o Taleban é muito forte.
Clever Mendes de Oliveira
BHm 01/12/2011
Clever,
Vejo o nosso André Araujo como um desses artistocratas e intelectuais (tinham e bastante) na época da Revolução Francesa: não entendiam e não gostavam daquele mundo novo em formação. Apesar disso, anos depois um deles foi visitar uma jovem república, e vislumbro nela o que ninguem até esta época tinha visto, nem os intelectuais desta jovem república. Era Alexis-Henri-Charles Clérel, vicomte de Tocqueville, reverenciado até hoje naquela jovem república, os Estados Unidos da America.
Temos que cuidar bem dos nossos artistocratas intelectuais, eles podem nos ajudar a entender este mundo novo, apesar dos defeitos deles (os aristo) e dele (o tal mundo novo).
Abraço,
Lionel
Belo, Thomás.
"Navegar é preciso, viver não é preciso"
Abraços
Assis Ribeiro
Constatação
09/02
Dos filhos do meu pai
Não há um que eu não trate de irmão.
Mas depois do rio ter cavado seu leito
O mesmo tanto que a árvore ergueu a rama,
E agora, que rio e árvore dobraram as distâncias
Em um lento afastamento mútuo,
Desses que ocorrem frente aos olhos
E não se vê
Se não a conseqüência,
Só que então imediata
Como uma revelação,
Encontro por aí velhos desconhecidos.
E novos desconhecidos
Nos olhos dos netos do meu pai.
E um desconhecido permanente,
De há pouco percebido,
Como espelho, refletido
Na imagem destorcida,
Que sei,
Não sou eu.
Dona Mathilde D’Antanho é minha tia-avó. Jamais cheguei a conhecê-la, nascida e falecida em Portugal, entre as décadas de 1910 e 1980. Paralelamente à vida de dona de casa cultivou a arte da escrita. Por vias transversas seus escritos chegaram a mim. Aos
Por favor, continue dividindo-os com a gente...
Copiei e colei o texto do Tomás, com os comentários do Mário César e da Mathilde. Retrato fiel e acabado de existências.
Desculpem-me, entrei por engano.
É que ao ler a manchete pensei que se tratasse de uma matéria sobre José Serra.
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