Serra e o genérico de Aécio

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Da Folha

No laboratório de Serra

Se a escolha do vice já foi tão espinhosa, como haveria de ser a montagem de seu ministério?

Há muitas teorias para explicar a derrota da seleção na África do Sul. Dou a todas o crédito da minha ignorância. Qualquer uma é razoável; o fiasco brasileiro não constitui, provavelmente, a notícia mais enigmática destes dias. Acho mais intrigante o processo de escolha do vice na chapa de José Serra, que deu no deputado Índio da Costa (DEM-RJ).

Recapitulando. Foi uma sequência de rumores e balões de ensaio, de hipóteses e fórmulas mágicas, formando uma verdadeira escalação de futebol.

Aécio Neves, Francisco Dornelles e Álvaro Dias; Jarbas Vasconcelos, Itamar Franco e José Roberto Arruda; Kátia Abreu e Tasso Jereissati; Valéria Pires Franco, ex-vice-governadora do Pará, e Patrícia Amorim, presidente do Flamengo. Não pensaram no Belluzzo? É um time para Dunga nenhum botar defeito.

ns dias a mais e o próprio Dunga poderia ter sido cogitado. Aplaudiram-no em sua volta ao país; é popular; é sério; é realista; sua ficha, ao que consta, é limpa; veste-se com apuro, não gosta de demagogia e já não promete muita coisa.

Ademais, Dunga não deve ter críticas à exploração do pré-sal, nunca falou em plebiscito sobre a pena de morte, e há de considerar radical demais a proposta de multar os cidadãos que deem esmolas na rua. Três pontos que o tornam mais moderado, ou menos exótico, do que Índio da Costa.

Multar quem dá esmolas! Em matéria de Estado policial, creio que nunca se imaginou ameaça tão severa contra as classes privilegiadas.

Brincadeiras à parte, o problema da escolha de um vice nunca é fácil de resolver. Há sempre a questão dos palanques estaduais, o tempo na TV, a composição com os demais partidos da aliança.

Provavelmente, tudo ficou mais complicado para o PSDB por alguns motivos de ordem política e outros de ordem pessoal.

Passo rapidamente pela questão política. A candidatura Serra hesita entre a identidade puramente oposicionista (Álvaro Dias reforçaria isso) e o perigo de confrontar-se com a popularidade de Lula. A situação partidária força uma aliança à direita (Dornelles e Kátia Abreu seriam os nomes adequados), mas o clima predominante é redistributivista e pró-Estado, e o próprio Serra se sente desconfortável quando levado a defender o oposto.

O vice do tucano, assim, teria de ser precisamente alguém que não significasse nada, que não inclinasse a balança para nenhum lado.

A questão não é apenas política, mas também pessoal. Fulano? Não suporta Serra. Beltrano? Serra não o engole.

Ninguém é bom o bastante para que Serra o aceite, e ninguém é tão ruim que não possa rivalizar com ele.

Fico lembrando a velha história do casamento da Dona Baratinha, com fita no cabelo e dinheiro na caixinha, recusando um a um os pretendentes ao noivado. A mensagem psicanalítica do conto infantil não é outra senão a da fobia ao sexo; haveria em Serra, incrivelmente, algo como uma fobia à política, ou pelo menos à negociação política, à convivência política. Não o recrimino; talvez seja apenas um individualismo levado ao extremo.

Tanto, que ele se dispõe a acumular o cargo presidencial com o de superintendente da Sudene, e não sei com que outro ministério. Imagino que gostaria também de ser o secretário do Planejamento e presidente do Banco Central. Se a escolha do vice foi tão espinhosa, como haveria de ser a montagem do ministério?

Entendo melhor, assim, o estranhíssimo e desastrado conselho de Serra à Índio da Costa, recomendando-lhe que tivesse amantes, desde que com discrição. Traduzindo em termos políticos, Serra não acredita na fidelidade dos aliados, mas espera que não apareçam, que fiquem à sombra, que não existam.

Índio da Costa quase não existe. Olho suas fotos: é um belo rapagão moreno, não muito diferente de Aécio Neves, com a vantagem de não ser Aécio Neves.

O enigma se dissolve: é como se ele fosse um similar, ou um genérico, de Aécio. Trata-se do remédio sem marca para os males de Serra. Famoso hipocondríaco, foi o tucano quem criou os medicamentos genéricos, e não por coincidência: nenhum nome próprio, nenhuma marca conhecida, nenhuma singularidade identificável pode subsistir ao lado de Serra. Surge então Índio da Costa, o vice de todos os vices, prontinho do laboratório. É só engolir. 

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55 comentários
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Mario Abramo

Marcelo Coelho, que é um cara que normalmente gosto de ler, comete duas barbaridades nesse último parágrafo:

"O enigma se dissolve: é como se ele fosse um similar, ou um genérico, de Aécio. Trata-se do remédio sem marca para os males de Serra. Famoso hipocondríaco, foi o tucano quem criou os medicamentos genéricos, e não por coincidência: nenhum nome próprio, nenhuma marca conhecida, nenhuma singularidade identificável pode subsistir ao lado de Serra. Surge então Índio da Costa, o vice de todos os vices, prontinho do laboratório. É só engolir.  "

Primeiro, atribuir ao Serra a "criação" do medicamento genérico, que é uma mentira deslavada.

Segundo, e mais importante, reforça o preconceito contra o genérico, como se fosse um medicamento de segunda linha. Se a analogia fosse correta, o Índio da Costa deveria ter o mesmo "princípio ativo" dos outros vices, apenas despido do merchandising. E o que acontece é exatamente o contrário.

[]s

Mario

 

"Eu quase de nada não sei. Mas desconfio de muita coisa" Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

 
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Clever Mendes de Oliveira

Mário Abramo (qua, 07/07/2010 às 08:37),

Excelentes suas observações. Gosto muito do Marcelo Coelho e iria restringir o meu comentário a fazer uma referência às boas análises que ele faz e, evidentemente, mencionar que os medicamentos genéricos não são criação de José Serra. Você foi além e viu outra crítica a se fazer à análise de Marcelo Coelho, pois chamar Índio da Costa de genérico equivaleria dizer que Índio da Costa é igual aos outros sem merchandizing (Embora um dos problemas dos genéricos tenha sido a propaganda).

Pena que os arquivos antigos do blog do Luis Nassif tenham desaparecidos, pois já tendo comentado bastante sobre isso, bastaria agora copiar e colar. Resumindo lembro que o Decreto dos Medicamentos Genéricos foi da época de Itamar Franco. Como decreto não tem força de lei, as empresas não se comprometeram com o decreto. José Serra como ministro da Saúde patrocinou a regulamentação por lei. A lei para ser aceita pelos laboratórios teve que fazer concessões. A legislação criou dificuldades para se fazer o genérico. Do ponto de vista da saúde pública está correto, mas os laboratórios de marcas ganharam muitos trunfos. O custo dos genéricos ficou altíssimo. Se o laboratório da marca fizer uma pequena alteração, o medicamento genérico tem que passar por todo o processo de novo. Isso, entretanto, não é o problema com o genérico. O problema foi a propaganda maciça custeada pelos cofres públicos, sendo que as empresas são na sua maioria localizadas no Estado de São Paulo (90% das importações de medicamentos são feitas por empresas de São Paulo) e com outro gravame. O brasileiro já por si hipocondríaco tornou-se mais ainda com a propaganda que ainda acirrou a tendência a automedicação do brasileiro. A automedicação leva a aumento da resistência dos vetores transmissores das doenças que se procura combater. Problema que mais recentemente o governo percebeu quando teve que fazer um controle rigoroso no combate a febre suina.

Quanto as escorregadas de Marclo Coelho penso que ele não teve segundas intenções. E recomendo a leitura de um comentário que eu enviei em 10/01/2009 às 20h47 para o post "O adeus a Samuel Huntington" de 30/12/2008 às 05h03 no antigo blog do Pedro Doria em que eu transcrevo um trecho de um artigo de Marcelo Coelho publicada na Folha de S. Paulo de 05/04/2006 em que ele corrige a minha memória sobre um episódio envolvendo Cláudio Lembo, FHC e Samuel Huntington.

Clever Mendes de Oliveira

BH, 07/07/2010

 
 
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Gunter Zibell - SP

Clever, se lembrar do nome do post pode procurar pelo Google que aparece a versão salva em cache.

 

Em 2012 pense, vote, faça um Brasil anti-homofóbico!

 
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Gunter Zibell - SP

Exemplo. Se vc procurar com "decreto + genericos + clever + nassif" aparece um link para "O Marqueteiro de Serra". Mas esse é o link para a página quando estava ativa, não vai abrir.

Mas faz-se uma segunda pesquisa com "marqueteiro + serra + clever" e aí aparece link para a página onde estava seu comentário, basta clicar em cache. Não sei se esta é a que procura, mas é uma onde vc fala a respeito:

http://bit.ly/9XiRdz

Abs.

 

 

Em 2012 pense, vote, faça um Brasil anti-homofóbico!

 
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Clever Mendes de Oliveira

Gunter Zibell (qui, 08/07/2010 às 00:15 e qui, 08/07/2010 às 00:22),

 Obrigado pelas dicas. Lá em "O marqueteiro de Serra" de 14/10/2009 às 07:00 em comentário que enviei em 15/10/2009 às 21:16, eu disse: "O que a Google faz pela gente!". Aqui, parodiando-me posso dizer: "O que o Gunter Zibell faz pela gente!".

E como é que se faz para fazer o link assim de forma tão resumida?

E vieram a calhar suas dicas porque comprometi com Cristiano Romero do Valor a justificar (Com pedidos de desculpas, é claro) algumas criticas que eu fiz a ele em posts aqui no blog do Luis Nassif. O compromisso foi feito em razão de comentários que ele, despojado, atencioso e humildemente, enviou para o post "A crise de 2005, 5 anos depois" de 23/05/2010 no blog de Na Prática a Teoria é Outra em seguida a ter eu lá também feito críticas a ele e mencionado as críticas que havia feito aqui no blog na Ig do Luis Nassif. Só que para responder eu precisaria acessar os posts antigos de Luis Nassif. Agora penso que vai ser possível.

E mais uma vez obrigado.

Clever Mendes de Oliveira

BH, 08/07/2010

 
 
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Vera das Alterosas

hehehe, muito bem observado pelo Mário. Ficaria certinho se ele tivesse usado a palavra similar. Remédio pode ser de marca ( ou referência) , genérico ou similar. Quem tiver curiosidade de ver as definições aqui.

Sabe o problema qual foi? Aécio era o de marca e Serra, cego de vaidade, não quis cumprir papel, agora sim, de genérico. (aliás não foi ele quem lutou tanto pelos genéricos?)

Ao final, sobrou mesmo foi o Indio, mero similar. Mas similar a qual? Ao de marca ou ao genérico? De qualquer forma, de marca, genérico ou similar, a diferença entre o veneno e o remédio está apenas na dose e pelo visto, o psdb errou na dose.

 
 
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Silvio Torres

Ah, esses colunistas blasés. Desmontam um enigma e já no ato constroem outro na minha cabecinha de mineiro: "belo rapagão moreno (ops!), não muito diferente de Aécio Neves, com a vantagem de não ser Aécio Neves." Caro Nassif, você que é um verdadeiro Édipo quando se trata de imprensa paulista, decifra essa prá gente....rs

 
 
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Chico Pedro

"...Com a vantagem de não ser Aécio Neves..."

.

Com a vantagem de não importunar.

 
 
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Hamilton

Não muito diferente na aparência física.

 
 
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Mário Lúcio de BH

"...Com a vantagem de não ser Aécio Neves..."

Porque o Aécio seria um candidato a presidente Melhor do que ele.

 
 
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Carlos Magno

Isso saiu mesmo na Folha?!

 
 
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Edson Joanni

Que o Genérico se manifeste! Estamos todos ansiosos por saber o que ele pensa, nem que de maneira genérica, tipo assim, sei lá...

 

Nem SOPA nem PIPA! Abaixo a censura na Internet!

 
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jura

Não só que ele se manifeste, mas que ele se apresente por inteiro, inclusive em debates com os demais candidatos a vice.

Está na hora de termos debates entre vices também, como nos EUA. Se é pra copiar o marketing eleitoral deles, vamos copiar direito.

 
 
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alvaro cesar willy guimarães

 

Nassif,

Você não vai  colocar um post a respeito dos bastidores da saída ou expulsão do Heródoto Barbeiro do comando do Roda-Viva da TV Cultura. Coitado, este sentiu na pele a bílis do Serra, esta é minha opinião. Mas queremos detalhes. Por favor, nos informe.

 
 
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Luiz Gonzaga da Silva

A Marília Gabriela foi contratado para o lugar dele. Com isto, passará a trabalhar em três canais de televisão. Um canal da TV aberta, SBT, um fechado, GNT, e um entreaberto, Cultura.

 
 
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José Carlos Lima

Sou mais o hexa da cidadania, o Brasil continuar avançando, Luz para Todos, PSF, empregos,

 

Grato,

Spin (link)

 
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Mauro Nogueira

Fico imaginando se o Serra se elege presidente e uns meses depois como dizem "parte desta pra melhor". O Brasil vai ficar na mão de um moleque!!

Parece exagero, mas é uma questão que tem de ser pensada quando se escolhe um vice presidente.

 
 
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ascanio correia

Não quero nem imaginar a posibilidade deste ''indio'' algum dia assumir a presidencia.

 
 
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Rui Daher

Não sei se Marcelo Coelho ainda é casado com Maria Rita Kehl, a brilhante psicanalista. Se for, não há dúvida que ela o ajudou nesse ótimo texto.

 
 
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Hamilton

Texto perfeito. Mas não tão perfeito como Serra pensa ser.

 
 
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renato

Vice bom é o Temer. Esse exemplo de desinteresse e dedicação ao país!

Aliás, acho que deveriam ter chamado direto o Sarney, já tem experiência

como vice e como presidente. Diga-se de passagem, nos deixou um legado

tão edificante.

 
 
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Jair Fonseca

Que primor de ironia!

 
 
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Hamilton

Talvez você não acredite. Mas o Índio é muito pior que o Temer. Para você ver como estamos.

Em compensação, tem uma outra candidata com um vice muito bom.

 
 
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Rato

Esse soco no queixo saiu na Folha mesmo??

Acho que começou o desembarque.

 
 
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Ulisses

Por que insistem em tentar rotular ao Serra programas que ele não fez? Genéricos, programa da AIDS, seguro desemprego! Não está na hora de desmascarar este pseudo visionário?

 
 
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Sanzio

Agora vai (do blog do Azenha)

Re: Serra e o genérico de Aécio
 
 
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Axel

Mais (ou menos) que um genérico. Um rémedio que não interferirá no processo eleitoral, mas resolverá as patologias politicas de Serra. Um Placebo.  

 
 
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cleber tomaz

S o faltava essa ,querer colar na campanha do Serra o fracasso da seleção , vamos e venhamos , como diria o bem amado , já há quem diga que foi o tremendo pé frio do nosso presidente , que nos seus oito anos de governo não teve o prazer de ver o Brasil campeão .

 
 
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bruno_vix

não foi o Serra que criou os genéricos..

 
 
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Ubaldo

O Serra criou a Lei dos Genéricos sim. E inaugurou a primeira fábrica.

O Sr diz que não foi o Serra e ponto final.

Se não foi o Serra, quem foi????????

 

 

 
 

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