Refletindo sobre uma pedagogia ecológica

Autor: 
Por Sônia Aranha

Trabalho com educação formal, isto é, com escola de Educação Básica,  há exatos trinta e dois anos e depois de todo esse tempo e de ter entrado no século XXI, tenho tentado pensar em um modo de dar a ela um novo significado.

Sim, porque trabalhar na ou com a escola, nesses últimos anos, tem sido um desafio e tanto, já que há um abismo entre as crianças e jovens do século XXI e a estrutura e funcionamento da escola do século XIX que a cada novo dia de labuta escolar cresce em profundidade e extensão.

Diante de tal situação, em um primeiro momento, cogitei a possibilidade de eliminá-la da sociedade. Não se escandalize. Esse pensamento não é meu, tampouco é original. Bem antes de mim um filósofo, Ivan Illich, já havia escrito a respeito em sua famosa obra Sociedade sem Escolas (1971).

Para ilustrar abaixo segue um resumo em forma de vídeo, muito simplista diante da obra, mas nem por isso desinteressante, a respeito das idéias do Ivan.

Mas como propor isso para uma sociedade brasileira tão careta e conservadora que ressuscitou nestas últimas eleições a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade?

De modo que, considerei pensar de outro modo, mantendo a escola ainda por alguns anos até ela se definhar por si só em função das novas formas de aprendizagem e ensino que se propagam a partir do advento da internet.  Porém mantê-la  à luz de um outro paradigma. Daí me veio a possibilidade de construir uma pedagogia que eu chamaria de ecológica, em um primeiro momento, que trará consigo, pensou eu, conceitos e fundamentos que se encaixam melhor com o momento social/político da pós modernidade.

E assim tenho feito desde 2008, mas por inúmeros impedimentos, estou parada no meio desta reflexão e preciso continuá-la de algum modo. De modo que resolvi postar aqui  momentos deste meu processo intelectual que quiçá encontre contribuições dando-me maior ânimo para continuar.

Pois bem.... inicio dizendo que a pedagogia ecológica tem sido forjada por inúmeras pessoas em diferentes lugares. Acredito, no entanto, que a mais expressiva delas seja o Fritjof Capra, autor dos famosos livros O Tao da Física e o Ponto de Mutação e , sobretudo o mais recente, o Alfabetização Ecológica. Outra importante contribuição é a do educador ambientalista David Orr que escreveu o Alfabetização Ecológica e o A Terra em Mente ambos são diretores do Centro para Ecoalfabetização localizado em Berkley Califórnia Estados Unidos da América.

O grande objetivo da pedagogia ecológica parece ser o de construir um mundo sustentável a partir do conhecimento da natureza, daí a ênfase da alfabetização, no sentido de saber o b-a-bá da botânica, da zoologia, enfim, dos processos que regem o ambiente natural que estamos imersos.

Provavelmente há diferenças entre as diversas propostas para   designar um ensino/aprendizagem que utilize o termo ecológico  (alfabetização ecológica, a pedagogia ecológica, a eco-educação ,    ecoeducador ), todavia,   penso que existe consenso em relação a necessidade de se construir uma visão de mundo sistêmica na qual conceitos como teia dinâmica de relações, multiplicidade, interconexão e probabilidade , são absolutamente importantes para fazer um contraponto  com a  nossa confortável visão de mundo  mecanicista/newtoniana que não dá mais conta de explicar a complexidade do mundo.  

Assim, proponho no próximo post, lembrarmos, mesmo que de forma breve, a origem da visão de mundo mecanicista/newtoniana para compreendermos o quanto ela se distancia de uma visão de mundo sistêmica que poderá vir a ser um novo paradigma para orientar uma nova escola.

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9 comentários
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Ivan Moraes

Concordo com tudo.  Evidentemente a escola nao vai algum dia muito cedo ser substituida por "alguma outra coisa" porque ela ainda eh fabrica de diplomas que conseguem empregos.

Pra mim, definitivamente eu incluiria a teoria das narrativas nas escolas a partir dos 10 anos de idade, desde que seja encaixado em estudo comparativo com varias outras teorias.  Sem estrutura de aprendizado, o que se aprende eh conhecimento solto e sem nexo.  Acho que eu tenho um lugar pra encaixar toda coisa que eu "aprendo", narrativamente falando.  Posso nao me aprofundar em nada (e que interesse eu teria?), mas ter uma visao de campos de conhecimento eh essencial, e isso eu tenho, por causa de teoria comparativa.

Que, por sinal, nao eh um campo que sequer existe ainda.  Ele tem que ir pra escola primeiro pra depois existir (!).

 

Voto distrital de merda, vai sumindo do Brasil, e leve seus "religiosos" e espioes mediaticos porque o Brasil nao eh casa da sua sogra.

 
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Sônia Aranha

        Ivan, que ótima lembrança a sua sobre as narrativas de modo a tecer uma rede de conexões com outras áreas do conhecimento! Obrigada pela dica! Abraços

 
 
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Lucas Jerzy Portela

Iva Ilich é fundamental

 

é dele a melhor análise sobre a questão da mobilidade como expropriação (no sentido marxista) de tempo e espaço. Está no livro Apocalipse Motorizado, que saiu no Brasil pela Coleção Baderna da Editora Conrad. 

 
 
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Sônia Aranha

             Oi Lucas, obrigada pela dica. Ainda não li o livro indicado , mas farei isso para compor melhor a minha reflexão. Conto com você nos próximos posts! Abraços

 
 
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Vitor Gaspar

Também concordo plenamente, e acrescento à lista de propostas de novos modelos educacionais os Circulos de Cultura de Paulo Freire, onde se propunha que o aprendizado se daria em circulos de cultura constituídos pelas relações entre as pessoas na comunidade, os circulos seriam um espaço do aprendizado e da construção de propostas para solucionar conflitos que envolvem a comunidade. Inclusive, o ProFEA, Programa Nacional de Formação de Educadores Ambientais, tem como base das suas propostas a constituição de circulos de cultura; tanto as Com-Vidas (Comunidades de aprendizagem e qualidade de vida nas escolas) quanto os Coletivos Educadores tem a intencionalidade de propiciar espaços para construção conjunta de saberes e soluções.

Outra proposta interessante de modelo escolar é a Escola da Ponte, onde o processo educativo é feito por meio de vivências e projetos, sendo que os educadores tem o papel fundamental de ser o mediador da aprendizagem que se dará pela experiência pessoal.

 
 
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Sônia Aranha

               Vitor, tenho conhecimento da Escola da Ponte, boa lembrança . Um pessoal daqui de Campinas, muitos anos atrás, esteve lá, e houve um intercâmbio bacana, uma amiga participou. Agradeço também a dica dos círculos de cultura do Paulo Freire. Círculos são ótimos, não? Eu penso que um espaço de construção do saber ,democrático e criativo deveria inclusive contar com uma arquitetura diferente da do paralelograma, das coisas retangulares e somando ao que o Paulo Freire disse,  os círculos, em si, são ótimos. Abraços e obrigada

 
 
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Leo V

Sobre o tema, há esse texto de Ivan Illich:

A Ecopedagogia e os Commons

http://passapalavra.info/?p=26983

 

Sobre o texto Energia e Equidade, de Ivan Illich, apontando em comentário anterior referenido-se ao livro Apocalipse Motorizado, pode-se encontrar aqui: http://brasil.indymedia.org/media/2008/04//417244.pdf

 
 
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Sônia Aranha

   Obrigada!! Abraços

 
 
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José C. Neto

O tema educação é amplo, para contribuir com a discussão, afirmo que no Brasil existem excelentes educadores. Pode-se estudar a metodologia do  Profº Euripedes Barsanulfo de Sacramento - MG, com  suas aulas passeios, nas matas, rios e cachoeiras, dava aulas de astronomia, filosofia, isto em meados de 1910, mereceu tese de Mestrado de Alessandro Biguetto, temos também José Pacheco que foi diretor da Escola da Ponte de Portugal e mora no Brasil e divulga os métodos da Ponte, inclusive está indo frequentemente visitar Sacramento para melhor conhecer a metodologia de Eurípedes  Barsanulfo. Tião Rocha, mineiro de Araçuaí que tem uma metodologia baseada no aprendizado do cotidiano das crianças, com aulas ao ar livre, e também temos um curso de Pós -Graduação na Uniube Universidade de Uberaba em Expressão Ludocriativa ministrada por Raimundo Dinello e Luciana Cauhi, metodologia esta que contempla, as áreas do folclore, música, teatro, artes plásticas e jogos (não estruturados), mas brincadeiras usadas pelas próprias crianças.

 
 

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