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quarta-feira, 15 de julho 2009
O Biscoito Fino e a Massa - Idelber Avelar
Machado de Assis e a música: "O machete"
A história vocês conhecem: Inácio Ramos recebe do pai, “músico da imperial capela”, rudimentos de música. Faz-se exímio executor e um rabequista de primeira categoria. Depois veremos que sua queda não é alheia a essa limitação frequente nos artistas de Machado: a de saber copiar e executar, mas quase nunca criar. Já rabequista, Inácio continua buscando um instrumento que corresponda às “sensações da alma”, quando é cativado pelo violoncelo de um músico alemão em excursão no Rio. Torna-se violoncelista e começa a viver a oposição entre o “simples meio de vida”, a rabeca tocada por dinheiro, e “sua arte”, o violoncelo, para o qual reservava “as melhores das suas aspirações íntimas”. Ele tem isso em comum com Pestana, o criador de Um homem célebre, que é capaz de conseguir para si uma grande fatia do mercado compondo polcas, mas sempre fracassa em seus desejos de ser um músico erudito, um sonatista. Esse tipo de dilema atravessa toda a obra de Machado. No caso da música, ele vai ficando mais agudo na medida em que avança o processo de amaxixamento da polca.
Inácio Ramos é o músico erudito condenado à tristeza tropical. Tocava “a rabeca para os outros, o violoncelo para si, quando muito para sua velha mãe”. O narrador registra a presença da mãe como única figura a dar entrada no espaço de execução da “arte pura” de Inácio. Ao executar sua elegia à mãe falecida, diante da mulher Carlotinha, oito dias depois de casado, a “mocinha de dezessete anos, parecendo dezenove” se lança à celebração com gritos de “lindo, lindo”. Inácio se ofende, como se a mulher houvesse incompreendido a profundidade e a melancolia da peça. Onde Inácio queria o descanso e o luto, Carlota era puro entusiasmo. Onde ele queria coqueiro, ela era revólver. Embora os dois personagens ainda não saibam, esse descompasso entre a recepção real da música e a recepção idealizada pelo artista erudito nacional já anuncia a chegada do terceiro, do tocador de machete, do homem que vem da rua.
Um par de transeuntes, Amaral e Barbosa, estudantes de Direito em férias no Rio, ouvem o violoncelo de Inácio e lançam gritos de “bravo, artista divino!” Só numa visita subsequente Amaral menciona que o amigo Barbosa também é músico. Vale citar o diálogo de Inácio com Barbosa como registro do horizonte de expectativas de um violoncelista encontrando pela primeira vez a cultura popular:
- Também! exclamou o artista
- É verdade, mas um pouco menos sublime do que o senhor, acrescentou ele
sorrindo.
- Que instrumento toca?
- Adivinhe.
- Talvez piano. . .
- Não.
- Flauta?
- Qual!
- É instrumento de cordas?
- É.
- Não sendo rabeca . . . disse Inácio como a esperar uma confirmação.
- Não é rabeca, é machete.
Esse diálogo é importante porque revela um dado chave: Inácio é músico e vive no Rio de Janeiro no fim da década de 1870, mas simplesmente não possui registro de instrumentos de cordas além dos usuais na música burguesa de salão. Ele passa ao largo do processo vivo de constituição de uma linguagem musical brasileira através das rodas de chorões, já em estágio avançado na década de 70. Esse é o processo que, em diálogo com as sonoridades afro-brasileiras -- chamadas no século XIX pelo nome genérico de batuque --, levaria à constituição do primeiro gênero popular urbano brasileiro: o maxixe.
A escolha do instrumento de Inácio não poderia ser mais contrastante com o cavaquinho (podemos aqui usar “cavaquinho” e “machete” como termos intercambiáveis, apesar de algumas diferenças, de afinação inclusive). O violoncelo é um instrumento que, na segunda metade do século XIX, já indicia uma música erudita algo ancilosada e melancólica, em descompasso inclusive com as preferências da elite. A polca já era a música de preferência da elite carioca desde logo depois da sua chegada ao Rio, em 1845. Quando Inácio convida Barbosa para uma demonstração no cavaquinho, trata-se quase que de um chamado a uma exibição folclórico-etnográfica que não mereceria o nome de arte.
Para Machado, o problema é que essa arte, ao contrário daquela do performático cavaquinho, já se encontra divorciada da experiência. O machete de Barbosa passa a fazer sucesso e ser conhecido da vizinhança, em saraus estimulados por Carlotinha, que “não cessava de o elogiar em toda parte” . Arma-se o contraste entre Inácio e Barbosa: o artista que se relaciona com a autoria alheia como a dos “mestres” versus o artista que executa composições de autoria próxima, pessoal, coletiva ou desconhecida, mas sempre com liberdade de improvisação sobre elas. O corpo está sempre presente nas apresentações de Barbosa.
Depois do regresso de Amaral e Barbosa a São Paulo, chega a notícia de que eles estariam de novo no Rio por três dias. Aí o leitor já tem elementos para adivinhar o fim. Amaral fica o período combinado e volta. Barbosa adoece e recebe uma carta que “lhe obriga a ficar algum tempo”. Quando Amaral retorna para visitar o casal nas férias seguintes, só encontra Inácio com o violoncelo, uma criança de alguns meses ao pé do instrumento, “dominada ao que parece pela música” e ouve o relato da boca do próprio Inácio: “ela foi-se embora, foi-se com o machete. Não quis o violoncelo, que é grave demais. Tem razão; o machete é melhor”. Como notou Wisnik em seu trabalho, as duas frases finais do conto replicam a fórmula do melodrama: “A alma do marido chorava mas os olhos estavam secos. Uma hora depois enlouqueceu”. O que Wisnik não diz é que essa fórmula – o enlouquecimento ao final – é sempre utilizada no melodrama com personagens femininas.
Tenho com meu amigo e mestre José Miguel Wisnik uma diferença importante na leitura do conto. No seu “Machado Maxixe”, Wisnik afirma que o relato “supõe e promove a identificação positiva com o mundo representado pelo violoncelo, em clara oposição ao mundo representado pelo cavaquinho” (p. 25). Ou seja, meu querido amigo lê no conto um lamento pela queda da arte erudita. Eu já acredito que quando o narrador fala de “arte celestial”, afeita às “sensações da alma” para designar o violoncelo, ou quando, em discurso indireto livre, coloca-se na cabeça de Amaral para perguntar que rivalidade era aquela entre a arte e o passatempo?, há uma nítida ironia. Há um sorriso de canto de lábios. Há um gesto: olha aí, meu chapa, chegou a arte da rua. A obra de Machado de Assis, que foi com frequência acusada de ignorar as classes populares e apresentar um quadro “elitista” do Brasil do Segundo Império, nos ofereceu o esboço de um mapa da constituição de um campo genuinamente popular e urbano na música brasileira.
Ano passado, em New Orleans, meus alunos e amigos Alex e Camila presenciaram uma inesquecível experiência: eu e o querido Zé Miguel nos sentamos, às 4 da manhã, ao fim de uma festa em minha casa, para reler o conto e decidir quem tinha razão. Como fui eu o encarregado de ler o conto em voz alta para todo o público, manipulei a intonação das palavras descaradamente em prol da minha interpretação. Mesmo assim, é óbvio, não resolvemos nada.
Está aberto, pois, o espaço para o bate-papo sobre o conto. A única regra é que você não pode se desculpar por não ser especialista em literatura.
http://www.idelberavelar.com/archives/2009/07/machado_de_assis_e_a_music...
Maxixe, de Chiquinha Gonzaga
Voz: Beth Carvalho
Piano: Maria Teresa Madeira
Clipe que encerrava cada capítulo da Minissérie Chiquinha Gonzaga, exibida em 1999, pela Rede Globo de Televisão. Em 2008, foi lançada em DVD, mas os clipes foram cortados.
Mais informações sobre Chiquinha Gonzaga, acesse www.chiquinhagonzaga.com
Chiquinha Gonzaga - Atraente (1914)
CHORONAS - CORTA JACA (Chiquinha Gonzaga)
Maxixe
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
O Maxixe (também conhecido como Tango brasileiro) é um tipo de dança de salão brasileira criada pelos negros que esteve em moda entre o fim do século XIX e o início do século XX. Dançava-se acompanhada da forma musical do mesmo nome, contemporânea da polca e dos princípios do choro e que contou com compositores como Ernesto Nazareth e Patápio Silva. Mas o maior nome na composição de maxixes foi, sem dúvida, o da maestrina Chiquinha Gonzaga.
Teve a sua origem no Rio de Janeiro na década de 1870, mais ou menos quando o tango também dava os seus primeiros passos na Argentina e no Uruguai, do qual sofreria algumas influências. Dançada a um ritmo rápido de 2/4, notam-se também influências do lundu, das polcas e das habaneras.
Tal como o tango, este estilo foi também exportado para a Europa e Estados Unidos da América, no início do século XX.
O samba e a lambada são dois exemplos de danças que devem algumas contribuições de estilo ao Maxixe.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Maxixe
Atraente - As Choronas - Chiquinha Gonzaga
julianacdc | 13 de maio de 2008
Francisca Edwiges Neves Gonzaga, mais conhecida como Chiquinha Gonzaga, (Rio de Janeiro, 17 de outubro de 1847 — Rio de Janeiro, 28 de fevereiro de 1935) foi uma compositora e pianista brasileira.
Foi a primeira chorona, primeira pianista de choro e também a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil. No Passeio Público, há uma herma em sua homenagem, obra do escultor Honório Peçanha.
A necessidade de adaptar o som do piano ao gosto popular valeu a Chiquinha Gonzaga a glória de se tornar a primeira compositora popular do Brasil. O sucesso começou em 1877, com a polca Atraente, aqui tocada pelo grupo "As Choronas"
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