Porção individual

PORÇAO INDIVIDUAL

                                   12/04

E se por fim eu reconhecesse que você não virá?

E se, então, eu não saísse às ruas nessa procura

Desnecessária,

Que ao final só me conduzirá ao mesmo de ontem?

Se eu não contasse com seu lugar à mesa,

Se não houvesse, como não há, razão para contigo

Ou teu, ou nosso,

Conosco, nós ou você?

E se eu, finalmente, eu, desse razão ao espelho,

Olhasse em volta e

Enxergasse que não há motivo ou porquê;

Que tudo está bom como está,

Que, para um, o que existe já dá,

Que não há pretexto para uma mesa,

nem toalha de mesa, nem copo, nem taça;

E que, logo, são dispensáveis  a  meia-noite,

O bom natal ou o ano bom,

Já que tudo é simples, único, individual?

Se no término da mão pendente só restasse a madrugada de amanhã

Com o sol já nascente,

Não haveria véspera de nada,

E, portanto, não haveria a espera por algo,

que, afinal, não existe, nem existirá.

Só mais um dia, outro dia,

Nenhum significado especial

Que o somar inútil do tempo

Em inexorável contagem regressiva.

E se ao fim e ao cabo, eu, sempre eu, decidisse

Reservar lugar para um,

Para então descobrir,

Que tudo é assim mesmo,

Que vida não é substantivo coletivo?

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