Política ou polícia: as “lições de democracia da USP

Política ou polícia: as tais “lições de democracia”, novamente na USP.

Neste domingo de carnaval, 19 de fevereiro de 2012, mais uma vez a Tropa de Choque da Polícia Militar de São Paulo tomou a fresca da madrugada na Universidade de São Paulo [http://j.mp/yd0p10]. Chegou às cinco horas da manhã para desocupar meia dúzia de saletas que há quase dois anos eram ocupadas por estudantes que reivindicam aumento de vagas na moradia estudantil – o CRUSP –, distribuindo democraticamente violência, inclusive deixando sua marca em uma mulher grávida. Diz a polícia que apenas se utilizou da força necessária para se defender. Para uma polícia com longa lista de "mortes em conflito" e acusações de violações de direitos humanos, podemos deduzir que bala de borracha seja coisa leve.

Contrariamente à ocupação da reitoria, em novembro de 2011, não havia nenhum motivo que pudesse ser alegado “forte” para desocupação do prédio: o Moradia Retomada, definitivamente, não atrapalhava em nada as atividades burocráticas, administrativas ou pedagógicas da universidade. Não eram vagabundos, baderneiros, maconheiros, irresponsável, pelo contrário: conseguiam uma organização, e tinham um senso de responsabilidade – individual e coletivo – que a USP tem se mostrado falha em muitos aspectos. Mas a lei é a lei, dirão alguns, defensores da ordem e do progresso, ignorando que se a lei fosse a lei para sempre, a escravidão ainda estaria em vigência, e não teríamos tido FHC, Lula ou Dilma na condução do país, e sim Dom Luís Gastão Maria José Pio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orléans e Bragança e Wittelsbach – apesar que, com o pensamento político visceral que parece ser a regra hoje nestes tristes trópicos, muitos devem encarar esse futuro do pretérito como virtuoso.

Como no Brasil o que temos é um arremedo de segunda linha do programa Renda Básica Cidadã (ou Renda Mínima), vinculado ainda ao que (não) ganha uma pessoa, o auxílio estudantil se torna um imperativo não apenas do ponto de vista individual, como do próprio critério de excelência acadêmica: alguém preocupado com onde morar, ou morando precariamente, tende a ter dificuldades para se concentrar nos estudos. Inclusive nesses ranqueamentos que mídia e academia de país subdesenvolvido adoram, índice de desistência do curso é algo levado em conta.

Não é demais repetir, entretanto, que a universidade pública brasileira – as paulistas acima de tudo – é feita pela elite e para a elite, para a perpetuação da elite. Os órgãos de assistência à ciência, idem. Pretendo tratar em mais detalhes deste assunto em crônica posterior.

Na semana anterior foi noticiado parceria entre USP e SPTrans, para que haja um circular que faça o trajeto USP-Estação Butantã do metrô gratuitamente para alunos e funcionários. Primeiro aspecto a ser lembrado: originalmente deveria haver uma estação de metrô dentro do campus, ela não existe porque a universidade vetou – não imaginemos que seja um disparate de uma burguesia burra e preconceituosa as reações contra as estações em Higienópolis ou no Morumbi. Segundo ponto: já que a estação fica fora do campus e haverá uma linha que fará a ligação direta entre esses dois pontos, por que não estender a gratuidade a todos os que desejam ir até a USP, seja para pesquisar, para usar a biblioteca, para vender artesanato, para catar latinhas, para passear, para ir ao MAC? No que custará a mais para USP ou SPTrans cinqüenta pessoas ao invés de dez num ônibus? Contudo, sabe-se bem quanto custará a mais para essas pessoas. Isso para não falar no aspecto simbólico: apesar de não ser inibidor dessas pessoas sem direito legal ao templo sagrado do conhecimento freqüentarem-no, ter que pagar a integração com o ônibus, ou mesmo fazer uma caminhada de vinte minutos para chegar à USP, serve para deixar claro que não são bem vindas. Lugar de povo é na cidade; na USP, acadêmicos e pessoas em seus carros, em trânsito para os bairros nobres que a cercam.

Volto à questão inicial, a nova ação do Choque na USP. Ou melhor: a nova ação do Choque em ação de contestação política. Já é assustador notar que se trata de política deliberada – política de governo – do PSDB paulista massacrar (não, o termo massacre não é pesado) qualquer contestação política e social que não seja feita nas instâncias “apropriadas”: via representantes nas casas legislativas – nas quais, diante das manobras e dos acordos entre cavalheiros que ocorrem a rodo, contestações ou são abafadas, ou são risíveis. Ainda mais aterrador é esse padrão se repetir com tamanha naturalidade na USP, teoricamente centro de excelência da ciência e do pensamento tupiniquim. Apesar de não ser o reitor mais votado – Serra escolheu o segundo na lista tríplice –, Rodas recebeu votos: possuía apoio, portanto, quando assumiu o cargo. E ainda que seu apoio seja precário – e ele e seu grupo o administra muito mal –, houve poucas manifestações contundentes e em peso dos seus pares – professores da USP – pelas atitudes que vem tomando – desmandos que vão bem além da questão da ação policial.

Não se pode chamar Rodas de fascista, simplesmente – até porque o fascismo é um fenômeno político bem delimitado na história –, mas as semelhanças que ele guarda com o movimento do início do século são evidentes, e coadunam com a idéia de universidade defendida pela elite ilustrada e pela Grande Imprensa: o tecnocratismo levado ao extremo da negação radical da política – via perseguições internas ou via polícia. A passividade dos professores apenas reforça essa impressão. Não se trata aqui de encampar o tosco discurso “quem defende a universidade não deve ser punido”, afinal, não há um absoluto do que seja a defesa da universidade, mas saber que dissenção é parte da política e da ciência – goste-se ou não, ambas estão fortemente vinculadas. Assumir o debate e a negociação – que não devem ser confundidos, o primeiro com o é assim, entendeu?, a segunda com você faz do meu jeito e estamos todos bem – é fator vital para o crescimento da própria universidade, e até, quem sabe, para uma futura inserção de fato desta na vida quotidiana do país – inserção essa, espero, que não seja para calcular o gás mais agressivo sem ser letal, se é que ser letal de vez em quando não caia bem, a depender sobre quem.

 

São Paulo, 20 de fevereiro de 2012.

 

http://comportamentogeral.blogspot.com/2012/02/politica-ou-policia-as-tais-licoes-de.html

 

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54 comentários
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Fuhgeddaboudit™

REIVINDICAÇÕES, ESTUDANTES NORMAIS E ESTUDANTES PROFISSIONAIS.

Um pequeno detalhe que ninguém observou ou fingiu não observar.

Essa é a época, onde os alojamentos para estudantes da USP ficam às moscas, vez que a maioria prefere viajar para suas cidades, aproveitando os longos  feriados do Carnaval.

Reivindicação é mai do que validade; é um direito e truculência da Polícia é caso de Promotoria Pública e de cadeia para aqueles que abusam da “autoridade”.

 Aí, vem a pergunta: o que faziam naquele local não permitidos os “ESTUDANTES PROFISSIONAIS” se os alojamentos estavam às moscas.

PROVOCAÇÃO, BADERNA, ATO POLÍTICO APEQUENADO ???

Esta pergunta precisa ser respondida antes de criticar-se  a entrada da PM no local. Se houve abusos e truculências, isto é outro problema, passível de punição na forma da Lei. 

 

Ou eu encontro um caminho ou eu o faço! Philip Sidney.

 
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Lucas Gordon

Você parece não saber muito do que está falando. Eram moradores do Conjunto residencial que estavam ocupando salas que haviam sido tomadas do CRUSP e estavam sendo usada pela COSEAS e pelo Bando Santander até que os estudantes as tomaram de volta. Você mesmo afirma que estava às moscas e coloca isso como argumento... as pessoas morarem lá não é motivo suficiente para elas estarem no tal lugar? Você argumentar que todos os alunos que militam à esquerda são "estudantes profissionais" é tão raso quanto falar que Rodas é fascista e ficar por isso.

 
 
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Fabio SP

Segundo a sua conclusão, e sabendo que Rodas é fascista mesmo, ficamos sabendo que os estudantes são profissionais também..

 
 
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palomino

Pois é, Fábio, você talvez estivesse certo se o Rodas fosse "fascista mesmo"... Mas a gente sabe que o fascismo é algo de específico que aconteceu em um momento, em alguns lugares, e que chamar Rodas de fascista é apenas uma metáfora para dizer que ele é autoritário. Mas, na verdade, nem que o Rodas fosse "fascista mesmo", os estudantes seriam "profissionais". O que o Lucas disse é que chamar estudantes de "profissionais" é tão errado quanto chamar Rodas de "fascista", e não que o "fascismo" de Rodas implica o "profissionalismo" dos estudantes...

De qualquer modo, fossem os estudantes "profissionais" ou não, isso não dá razão à ação de Rodas e ao uso da PM para resolver o caso. O que importa, na minha opinião, é:

1. Faltam moradias. Isso é fato. A obrigação da reitoria é provê-las, e ela não a cumpre. Isso também é fato.

2. Os estudantes ("profissionais" ou não, seja lá o que se quer dizer quando afirmam que são "profissionais") têm direito às moradias que faltam. Estão lesados em seus direitos, portanto.

3. O fato de eles estarem na moradia no período de férias não muda em absolutamente nada os fatos acima mencionados.

4. A manifestação feita por eles tem caráter política e é legítima. Assim deveria ter sido tratada. O uso da força é, nesse caso, antidemocrático, haja abusos da polícia ou não.

 
 
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Valterlei

Tem direito a isso, tem dinheiro àquilo. A esquerda só sabe isso! Quem paga a conta nunca é levado em conta. Parece que o mundo tem que parar para meia dúzia de alunos profissionais terem todo o conforto para ler Foucault. 

Essas pessoas que se dizem estudantes - podem ser alunos, mas estudantes - na verdade privatizaram a USP, se imaginam donos do campus. Cursam qualquer coisa só para terem esses tais "direitos", e quando jubilam prestam outro vestibular, para as áreas menos concorridas, e dá-lhe novamente marcha e protesto. E aqueles que se formam na marra não querem perder a boquinha e se tornam funcionários públicos ali mesmo na USP, e dá-lhe mais marcha e protesto.

Para quem não sabe, 1968 já acabou! Faculdade é para estudar. Vadiagem, mesmo que com a roupagem de esquerditas, deve ser praticada em outro lugar.

 
 
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palomino

Valterlei, você está dando provas de que, definitivamente, não sabe o que se passa em uma universidade... Mas vamos lá. Você diz que só sabe disso, a esquerda: reivindicar direitos. Eu acrescendo: que bom. Porque, até onde sei, vivemos em um Estado de Direito. Você acha bom não ter direito a nada? Eu não.

Quanto à "sociedade que paga a conta para o aluno ler Foucault tranquilamente", isso tem nome: investimento em educação. Ninguém está comprando uma mansão com dinheiro público para os alunos lerem Foucault à beira da piscina. Estamos tentando garantir que o aluno possa estudar bem, com calma - com tranquilidade, sim, mesmo que para você isso de ter paz seja um absurdo -, para aprender bem e exerecer sua profissão, produzir intelectualmente, etc., com mais qualidade. Quem ganha? O aluno? De um ponto de vista muito estreito, sim. Mas quem vê melhor sabe que a sociedade ganha mais ainda. Melhores alunos são melhores profissionais, melhores pesquisas, melhores conhecimentos, que geram melhorias para todos nós.

De resto, toda essa coisa de que o aluno deixa de se formar para entrar de novo da faculdade e viver de moradia... Francamente, isso é delírio. Se tiver um caso desses, é um ou outro. Ninguém conseguiria viver assim, e se vivesse, teria a pior vida do mundo - porque, acredite, ninguém quer passar a vida toda na moradia da USP... E, se você acha que é mesmo uma bocada, uma bela mamada na teta do Estado, ué? Tá esperando o quê? Bora largar o emprego e prestar vestibular!

 
 
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Sergio Saraiva

Estudantes profissionais?

Fuhg, você anda lendo muito o RA e começou a acreditar nele?

Bom, segue um site onde você poderá se desintoxicar

http://www.oderson.com/educacao/estatistica/9-leigranden.htm

 
 
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Fuhgeddaboudit™

Quem é RA? 

O único R.A. que conheci foi um empreiteiro dos anos 60/80, como era chamado o Sr. ROBERTO DE ANDRADE (Controlador da Empreiteira Andrade Gutierrez e pai do atual CEO Sergio de Andrade, um dos Diretores e principais acionistas da Telemar). Ele era asim chamado para disfarçar o nome do maior cliente da Corretora e, depois, do Banco de Investimento Garantia, de propriedade de JPL - hoje ANBEV/INBEV e/outras. Ele é, de fato, a 1ª maior fortuna do país e a 7ª do Mundo),  Outro R.A. não conheço.

Se for blogueiro, não perco meu tempo em ler bobageiras de colunistas como merval ou blogueiros metidos a tudo saber. Eles, é que precisam me ler. O único jornalista e blogueiro a quem leio e RESPEITO, chama-se LUIS NASSIF, que me dá o direito de, aqui, expresar minha opinião. Meu apelido vale apenas para vocês; Ele sabe onde me encontrar. Não me escondo.

 

Ou eu encontro um caminho ou eu o faço! Philip Sidney.

 
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Sergio Saraiva

PROVOCAÇÃO, BADERNA, ATO POLÍTICO APEQUENADO ???

Assista e responda, parecem baderneiros?

 
 
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Gilson Garcia

Quando participei do movimento estudantil, e lá se vão mais de 30 anos, sob a ditadura militar, éramos desacreditados com o emblema de estudantes prosifionais. Isso fazia a abstrata ligação (suficiente aos desavisados) com subversão da ordem pública, comunismo, antinacionalismo, entre outros. No nosso grupo, ninguém era profissional. Os profissionais eram os infiltrados da Polícia Federal, que também eram estudantes. Aliás, burros de dar dó. Essa estória de estudante profissional ainda sensibiliza a direita? Depois de tanto tempo, não se atualizaram e criaram novos chavões mais modernos?


E ainda, na época tínhamos um terrível fantasma que assolava a sociedade - o DOPS, Departamento de Ordem Política e Social. Parece que a Polícia Militar de SP se especializou em combater os movimentos sociais. O DOPS na época era um calabouço de tortura, sem que ninguém soubesse o que acontecia no seu interior. Hoje atua a céu aberto, ainda "em nome da legalidade". P*Q*P*. Jovens, reajam!

 

Gilson Garcia

 
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Jotavê

Nós precisamos nos acostumar com a idéia de que repressão e democracia não são incompatíveis. Hà momentos em que a ação da polícia deve ser criticada - é o caso daquele estudante negro agredido gratuitamente por um policial. Há momentos em que a própria iniciativa de se resolver um problema apelando para a força policial é condenável, independentemente do modo como a polícia vá agir - é o caso do Pinheirinho. Há momentos em que a iniciativa de ser resolver um problema recorrendo à força policial seria justificável caso OUTRAS medidas complementares tivessem sido tomadas concomitantemente - não foi o que aconteceu na desocupação da Cracolândia, na qual os viciados foram simplesmente espalhados pela cidade, sem que nenhuma estrutura de apoio e recepção estivesse disponível ao lado da ação policial. Finalmente, há casos em que a ação policial é plenamente justificada. Foi o que aconteceu na invasão da Reitoria e foi o que aconteceu também na desocupação desse espaço dentro da Universidade. A ação da polícia foi perfeita. Fizeram muito bem, em ambos os casos, quando optaram por uma ação de surpresa, contando com maioria esmagadora de pessoal. Loucura seria avisar os moradores do CRUSP de que a desocupação ocorreria a tal hora, e levar um número pequeno de policiais. Está de parabéns a polícia, nesse caso. 

Afora tudo isso. Essas bobagens estudantis são simplesmente um emblema de esquerda sem nenhum conteúdo. Podem ser comprados a baixíssimo preço. A Folha de São Paulo, por exemplo, manda seus jornalistas mais esquerdistas para fazer a cobertura. Fica bem na fita. Posa de bacana, seduz a freguesia mais porra-louca com uma dose de "encanto radical". O que interessa, mesmo, passa ao largo. Só que, para a maioria da comunidade universitária, que tem que conviver com esses pentelhinhos truculentos, o assunto tem grande relevância, sim. Ninguém agüenta mais esses lunáticos. É por essas e outras que a direita vai ganhar o DCE daqui a algumas semanas. Gente estúpida!

 
 
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Chato Feliz

Concordo integralmente.

 
 
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Sergio Saraiva

O Jotavê é um funcionário da USP que tem problema com os alunos.

Aliás, professores que não gostam de dar aulas são bastante comuns na universidade, e nas escolas de modo geral.

Mas o caso do Jotavê parece ser diferente, deve ter tomado uma dura de um representante de classe e ficou traumatizado, por isso essa sua fixação em "estudantes truculentos", assim, espera que a PM obtenha pelo uso da borracha na cabeça dos alunos o respeito que o Jotavê não consegue obter pelo uso do exemplo e das idéias.

Ah! a pax romana, tão eficaz.

 
 
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Chato Feliz

Desconheço grandes professores nas principais universidades do planeta nos países que importam no planeta (EUA, Inglaterra, Japão, Alemanha, França) que gostem de dar aulas e aturar estudante. Os grandes pesquisadores desses países dão aulas plenárias apenas, o que significa que aparecem na frente dos estudantes meia duzia de vezes por semestre, e com palestras que são seus alunos de doutorado e/ou colaboradores (postdocs, prof assistentes) que fazem, pra 200, 300 estudantes de uma única vez, pra motivar. Um reitor de Harvard a uns anos tentou mudar isso e levou um chute épico no traseiro. Portanto, querer desqualificar um professor universitário por não ter paciência pra ser bábá de marmanjo é no mínimo engraçado. Eu diria tropical, dado as aberrações comportamentais que são valorizadas a sul do equador.

 
 
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Sergio Saraiva

Chamar de professor alguém que não leciona é cuspir na cara dos que realmente lecionam. 

Até técnico de futebol, que para ser engrandecido é chamado de "professor", tem quer dar a sua preleção.

A frase abaixo ouvi-a de FHC:

"quem tem competência faz pesquisa, quem não tem vai ser professor"

Viu como é grosseira e arrogante? Mas FHC é assim, grosseiro e arrogante.

Ele é um dos seus tais "professores" que dão aulas planetárias usando conteúdo desenvolvido por outros.

 
 
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Chato Feliz

Finalmente uma frase do FHC que subscrevo completamente, se é que ele realmente disse isso. Estudante universitário sem autonomia (ou ao menos sem a obsessão de conquistá-la) e dependente de professor-bábá não deveria ter entrado na universidade em primeiro lugar; professor-bábá, que se esconde atrás de aulas e do suposto amor dos estudantes pra fugir da pesquisa, não deveria ter entrado na universidade em primeiro lugar também. Universidade, ao contrário do que o pensamento dominante tropical parece advogar, é pro aluno ganhar (à custa de muito suor e lágrimas) independência e autonomia intelectual. Aprender a pensar por ele próprio, a descobrir por ele próprio. Instituição que dá a mão e carrega no colo tem outro nome, colégio, e é importante noutra fase da vida. Me mostre um (apenas um e eu fico feliz) centro superior importante de algum país que importe no mundo que não seja assim.

E eu acho engraçado que o FHC tenha dito isso porque o que ele autorizou foi justamente a abertura massiva de colejões em todo país, que contribuem imenso pra que cada vez mais e mais pessoal dos trópicos ache que professor universitário é uma bábá com título de doutor.

 
 
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Sergio Saraiva

Já vi que você não é muito chegado em uma sala de aula.

É um lugar desagradável para alguns. Entendo, professor tem que pesquisar conteúdo, preparar e ministrar aula. Durante as aulas uns alunos chato perguntam e é necessário responder e explicar. Orientar as pesquisas desses alunos. Depois ainda é necessário preparar, aplicar e corrigir as avaliações. 

Enfim, trabalhar é chato mesmo.

Mesmo assim, espero que o prédio onde você mora não tenha sido responsabilidade de um engenheiro calculista que aprendeu cálculo estrutural por iniciativa própria.

 
 
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Jotavê

Nossa... Que baixaria!

 
 
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Fabio SP

Explique melhor "uma dura dos estudantes"?

Existem tropas de choque dos estudantes também?

 
 
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Sergio Saraiva

Pelo que apanham da polícia, os estudantes da USP estão em um grau de agressividade abaixo de camelô da 25 de março, muito longe de torcida organizada e a anos luz de uma tropa de choque.

Na verdade, pensndo melhor, não chegam nem a nóias da Cracolância. Esses, ao menos, atiram umas pedrinhas em carro da Globo. Esse estudantes não, somente apanham, igual ao povo do Pinheirinho.

O que não impede o Jatovê de ter lá com eles seus delírios persecutórios.

 
 
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Jotavê

Nassif,

Esse tipo de comentário é inadmissível num espaço público como este. É uma calúnia, antes de mais nada. Uma mentira deslavada. Acima de tudo, porém, expressa uma total incapacidade de entrar num debate de idéias e de expressar suas opiniões de maneira civilizada. Não é concebível que um espaço como este seja aviltado por esse tipo de manifestação. Se alguém tem opiniões diferentes da minha, basta expressar a discordância, argumentar com civilidade. Por que partir para o ataque pessoal? 

 
 
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Jotavê

Difamação só dói quando incide sobre o NOSSO nome. Vergonha!

 
 
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Gilgamesh

Exatamente, Jotavê. Você pode chamar os "estudantes" de "porra-loucas", "pentelhinhos truculentos", "lunáticos", "estúpidos". Mas quando alguém te critica, aí você apela para a necessidade da "argumentação com civilidade", diz que é "incapacidade de entrar num debate de ideias". Puro dois pesos e duas medidas, pura desonestidade intelectual. Aliás, bem semelhante à cobertura que a mídia, os jornais, a Globo etc. fazem da USP: só se vê um lado da questão e se desqualifica todo o resto pela "violência", por "ser contra a lei" e outras platitudes.

Pelas suas outras participações aqui no blog, em geral acho que você escreve bem, tem uma boa capacidade argumentativa, embora em geral discorde de suas opiniões. Mas o Sérgio Saraiva tem razão: com a USP existe algo que te torna o mais raivoso, o mais traumatizado, o mais grosseiro e desonesto dos participantes. Não sei a causa, nem quero saber: só não espere que ninguém perceba isso e que todos aceitem caladinhos suas grosserias, só porque elas não citam nominalmente alguém...

 
 
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Jotavê

Você acha que a minha vida pessoal e profissional é assunto para ser trazido à discussão num blog de política? Eu sou por acaso TEMA da discussão aqui? Tenho críticas às posições dos ESTUDANTES que invadiram a reitoria, e não a respeito de Fulano ou Sicrano. Critico o posicionamento POLÍTICO de um GRUPO de pessoas. Não estou caluniando ninguém. Onde é que você está com a cabeça? Como é que pode se dispor a defender uma atitude como essa? Isto aqui é um espaço público. Não é mesa de bar, nem porta de banheiro. Um mínimo de ética, pelo amor de Deus... Depois, quando o Reinaldo Azevedo faz a mesma coisa, lá do outro lado do muro, vocês ficam se descabelando. É errado fazer isso. Cada um de nós, individualmente, não pode ser atacado. Se temos um argumento, pomos na roda. Se não temos, pomos o rabinho entre as penas e acompanhamos a discussão. Que história é essa de dizer que não dou aulas? Estamos mesmo decididos a substituir o argumento pela calúnia? 

 
 
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Gilgamesh

Se você não entendeu, eu não estava concordando com o argumento de que "você não dá aulas"; apontei apenas que seu posicionamento em relação aos assuntos da USP em geral é violento e grosseiro, mas disse que não me interessava saber a razão disso, apenas percebia os efeitos muito claramente. A minha crítica foi que os termos com que você se referiu aos estudantes também são grosseiros, estúpidos e não devem ser aceitos em uma discussão civilizada, ainda mais pela carga de generalização e estereotipagem que carregam. Mas pela sua resposta, parece que você acha que a crítica a um grupo, sem citar nomes, pode ser violenta e abusar de adjetivos, mas não a crítica a uma pessoa em particular (especialmente se for você). Tendo a achar o contrário: é mais justificável uma ofensa a alguém que é citado nominalmente e pode se defender e dizer que é uma calúnia, como você o fez aqui, do que falar mal de "grupos" mal definidos e amorfos, em que você rotula as pessoas como quiser.

 
 
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Gilgamesh

"Eu nao tenho nada contra estudande ou faculdade alguma"


É até possível, mas pelo jeito que escreve tem tudo contra estudar...

 
 
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Sergio Saraiva

Jotavê,

uma opinião contrária de um colega seu:

"Professor Luiz Renato Martins, da ECA/USP, fala sobre a desocupação do CRUSP pela Tropa de Choque no sábado de Carnaval (19 fev 2012)"

 
 
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Jair Fonseca

Outra opinião, contra a polícia na USP. Vinda de um dos mais importantes (e melhores) professores e pesquisadores do Brasil, além de intelectual militante, com atuação política importante, até sua aposentadoria. Sempre coloco isso aqui, quando o tema é esse.

 
 
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palomino

Jotavê, claro que há situações em que, para o bem da democracia, a força policial deve ser acionada. Mas esse não é o caso do que vem ocorrendo na USP. O grupo que faz suas reivindicações no campus não causa tantos problemas a ponto de serem necessários batalhões de operação especial, centenas de policiais, helicópteros, etc., para combatê-lo. E não falamos, ao contrário do que seu comentário fez crer, de meia dúzia de pessoas que fazem a comunidade acadêmica de refém. Rodas não foi eleito reitor, como todos sabem, mas empossado num processo antidemocrático que contrariou a vontade da maioria dessa comunidade acadêmica. Há um percentual majoritário de alunos que apoiam a PM na USP, é verdade; mas cumpre lembrar que cerca de 45% dos alunos, na pesquisa que eu vi há algum tempo, é contra a presença da PM lá - ou seja, quase metade dos alunos, contingente expressivo demais para que a questão se resolva na borrachada. É verdade que a maioria dos alunos votou contra a ocupação da reitoria, e que foi um erro ocupá-la sem ganhar a votação. Mas sabemos bem que a violência na desocupação não foi contra os que ocupavam a reitoria, simplesmente, mas contra todos os que se opõem à PM. Se não fosse assim, o que explicaria a operação ser tão cinematográfica? Foi um claro ato de intimidação a todos os opositores, e não só aos que ocupavam a reitoria.

Essa repressão à contestação das atitudes da reitoria é um problema sério. Se nego a um grupo específico o direito ao protesto, abro o precedente negá-lo a qualquer grupo. E é isso o que vemos em São Paulo: o esmagamento sistemático de todo protesto. Professores em greve, marcha da maconha, marcha pela liberdade de expressão, marcha contra o aumento das tarifas de ônibus, moradores da cracolândia, etc., todo mundo entrou na borracha. E não adianta dizer que nada disso tem a ver com o que ocorre na USP, porque tem, sim. Rodas é só o representante do PSDB, escolhido a dedo em atitude antidemocrática de Serra, para aplicar a política do partido na universidade. Aplica lá o que o governo estadual aplica cá.

 
 
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Jotavê

Palomino,

Invasões de prédios não têm (a meu ver) legitimidade prima facie (como têm, por exemplo, as decisões de um governo democraticamente eleito). Isso não quer dizer que não tenham legitimidade nunca. Às vezes, têm, sim. Mas é sempre uma legitimidade ad hoc, essencialmente ligada a uma circunstância específica. Veja o caso da invasão da reitoria na Federal de Rondônia, por exemplo. A população do estado (que financia com seus impostos a universidade) e a comunidade universitária inteira viram naquele ato de força dos estudantes uma manifestação legítima. A causa era reconhecida como justa por todos, e a reitoria acabou cedendo.

O que tem acontecido na USP é que os estudantes pretendem que manifestações mais ou menos violentas (envolvendo o uso da força física) tenham uma legitimidade prima facie que elas não têm. Quero dizer o seguinte. Os estudantes se desobrigam de olhar em volta e perguntar se a comunidade acadêmica (e a população do estado de São Paulo) empresta uma legitimidade ad hoc àquelas reivindicações específicas. O reitor e o governador, do outro lado, percebem que os invasores são odiados pela população e pela maioria da comunidade acadêmica, e tiram proveito da situação. Mandam a polícia agir, e saem por cima, rindo de ás a ás com os dividendos políticos conseguidos à custa da molecada.

Não tenho acompanhado a discussão da moradia estudantil ultimamente. A decisão de investir dinheiro público em mais moradias estudantis é uma questão de prioridade orçamentária. Eu não daria prioridade a isso. Há um número razoável de alojamentos na USP.  Qualquer centavo que estivesse sobrando na área da educação, eu investiria, hoje, no ensino fundamental - é lá que temos carências verdadeiramente monumentais. É preciso, a meu ver, estabelecer critérios muito estritos para o uso da moradia estudantil. A primeira exigência é condicionar a permanência ali a um desempenho acadêmico acima da média. Financiar um estudante que não consegue aprovação apesar do financiamento público que recebe é, num país como o Brasil, uma enorme injustiça com as milhões de pessoas que gostariam imensamente de ter uma oportunidade como a dele. 

É isso, se não me engano, que a população que odeia os invasores da reitoria da USP percebem. Os estudantes sabem que são odiados, e se atiram de cabeça na aventura, achando-se donos da razão. Desprezam as pessoas, dizendo que elas são "desinformadas", "manipuladas", e coisas do gênero. Essa avaliação acaba sendo percebida com clareza por todos, e a revolta fica maior ainda. Quando a polícia chega, e tira os estudantes do prédio à força, a reação dos que assistem à cena pela TV é perfeitamente previsível: "Bem feito!"

 
 

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