Os sinais trocados de Brasil e EUA

Do Valor

Inflexão brasileira e desilusão dos EUA

Marcio Pochmann
30/09/2010

Nesta primeira década do século 21, os dois maiores países do continente americano convivem simultaneamente com modelos bem distintos de promoção do desenvolvimento. Enquanto os Estados Unidos registram sinais crescentes de relativa decadência mundial, o Brasil apresenta desempenho econômico e social favorável e promissor para os próximos anos.

Da posição de 14ª economia global em 2000, o Brasil ocupa, atualmente, a 8ª colocação, podendo, daqui a seis anos, situar-se entre os cinco maiores Produtos Internos Brutos do mundo.

Essa constatação, contudo, diverge profundamente da diversa realidade vivida pelas duas grandes economias no final do século passado. Nas décadas de 1980 e 1990, por exemplo, os Estados Unidos surfaram satisfatoriamente na onda neoliberal de abertura econômica e financeira global. De grande centro produtivo mundial dos últimos 150 anos, os Estados Unidos foram passivamente aceitando, desde o governo Reagan, o deslocamento de suas principais atividades econômicas por meio das redes de produção global e da terceirização das fontes produtivas de suas grandes corporações transnacionais para diferentes regiões geográficas mundiais, sobretudo asiáticas. 

m isso, a marcha estadunidense permitiu que o custo de vida de sua população permanecesse baixo por constante importação de produtos estrangeiros a substituir a produção nacional. Ademais da sofisticação dos novos e criativos mecanismos de financeirização de sua economia, houve a difusão do endividamento das famílias, permitindo a formação de grandes bolhas insustentáveis de expansão da riqueza fictícia sem correlação com a produção interna. A opção pela riqueza sem produção gerou uma zona de conforto socioeconômico sustentada por gradual ampliação da desigualdade de renda. Entre 1980 e 2001, por exemplo, o grau de desigualdade na repartição da renda estadunidense cresceu 24,2% (índice de Gini).

Durante esse mesmo período de tempo, o Brasil manteve-se prisioneiro das opções que fez para enfrentar a crise da dívida externa do início da década de 1980. Com o abandono do projeto nacional-desenvolvimentista iniciado ainda na década de 1930, o país assistiu ao avanço da regressão econômica e social. Entre 1980 e 2000, o Brasil decresceu da 8ª para a 14ª colocação na economia mundial, subindo da 13ª para a 3ª posição no ranking mundial do desemprego. 

O baixo dinamismo econômico, permeado por altas taxas de inflação, desorganização das finanças públicas e desmantelamento do setor público gerado pelas medidas neoliberais de privatização e focalização do gasto social, colocou o país em posição destoante da dos Estados Unidos. Mesmo assim, a tardia submissão do Brasil ao neoliberalismo fez avançar também a macroeconomia da financeirização da riqueza, sugadora de recursos orçamentários para o reduzido contingente de proprietários de títulos públicos.

A grande crise global de 2008 permitiu observar o quanto as trajetórias de desenvolvimento dos Estados Unidos e do Brasil divergem. Diferentemente do verificado durante as duas últimas décadas do século XX, o Brasil encontra-se em posição superior à dos estadunidenses. Um bom indicador disso pode ser percebido pelo comportamento recente da taxa de pobreza, uma vez que nos dois últimos anos os Estados Unidos a viram crescer 14,4%, enquanto no Brasil a proporção de pobreza no total da população caiu 17,3%. Até 2003, entretanto, a trajetória da pobreza não parecia se distinguir muito entre os dois grandes países do continente americano. Somente a partir de 2004 o sentido da evolução das taxas de pobreza se diferenciou positivamente para o Brasil, sobretudo na crise global de 2008.

Em grande medida, a inflexão brasileira assenta-se na convergência política recente em prol da prosperidade social-desenvolvimentista. A defesa do avanço da produção nacional, compartilhada por políticas distributivas e de sustentação do Estado de bem-estar, permite combinar satisfatoriamente a redução da pobreza e da desigualdade da renda do trabalho. Nos Estados Unidos, contudo, a emergência de uma nova retomada da macroeconomia da financeirização da riqueza tende a desiludir os anseios por mais produção e menos pobreza e desigualdade de renda.

Marcio Pochmann é presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Unicamp. Escreve mensalmente às quintas-feiras. 

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12 comentários
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Eduardo Faria

Agora pela manhã, saiu uma reportagem bacana Na National Públic Radio sobre as eleições brasileiras. Alguém ouviu?

 
 
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narcelo s

O cara já começa errando na geografia. O maior país das Américas é o Canadá.

 
 
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Alberto G

narcelo, é muita má vontade sua. É claro que o artigo se refere as duas maiores economias do continente, não à sua extensão geográfica.

 
 
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Livio

Creio que ele estava falando maiores países em termos de economia.

 
 
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João Rafael

Que os EUA estão numa crise e o Brasil vivendo dias melhores é fato. Mas há que se relativizar este descompasso por outras medidas, pois a "pobreza", nos dois países, é algo bastate diferente. Ou não?

Um abraço 

 
 
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Roberto Takata

Os dois maiores em população, né? Canadá é maior do que o Brasil: em área e economia.

[]s,

Roberto Takata

 
 
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Otto

Não, em economia o Brasil já é a segunda potência da Américas. Terceiro território, segunda população e sgunda economia.

 
 
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Guilherme LUPS

E em termos de "terras úteis" é a maior área do mundo.

 
 
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cleber cartacho tomz

Os EUA ainda seram uma das maiores potencias do mundo por muito tempo , pois todos os avanços técnologicos do mundo partiram de la , principalmente ligadas a informática , a exploração do espaço , e agora as novas fontes de energia limpa , alternativa para o petróleo qe comprovadamente esta superado , e nos aqui apostando todas nossas fichas no pré sal .

 

 
 
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Neno Fogaça

O pré-sal é fonte não só de energia, mas também de tecnologia. Através e a partir dele o Brasil terá como investir pesadamente na tecnologia. Além disso, nosso país é rico em TODAS as fontes renováveis.

Mas se é atrasado investir no pré-sal quem sabe deixamos para os americanos explorá-lo.

Ah, antes de me esquecer, as guerras do Iraque e o domínio militar nos países do oriente médio são para aumentar sua tecnologia renovável e limpa, né.

E os EUA não serão (seram?!?!) por muito tempo detentores do poder mundial.

 
 
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cleber cartacho tomaz

Caro amigo, queiramos ou não os Americanos ainda são nossos maiores parceiros, muito maiores do qua IRÃ , Venezuela , Bolivia, estes com os quais nossa diplomacia tem se entendido melhor , e te digo mais nos EUA, ainda é o destino de muitos Brasileiros que para la vão a procura de trabalho e pra cá mandam seus dolares , então não se entende esta ogerisa com os EUA, parece coisa da ala radical do PT que aind esta presa aos principios comunistas , que a própria Russia abandonou a muito tempo .

 
 
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mariazinha

O maior desastre dos EUA é estar atrelado a Israel; serão levados à destruição pela saga de Israel sanguinário. O castigo de Israel será o castigo dos buches.

 
 

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