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Os protestos em Londres, por Naomi KleinEnviado por luisnassif, qui, 18/08/2011 - 12:20
Por Webster Franklin
Da Carta Maior Os saqueadores do dia contra os saqueadores da noite
Claro que os tumultos de rua em Londres não foram protesto político. Mas o pessoal dos saques noturnos com certeza absoluta sabe que suas elites passaram o dia dedicadas aos saques diários. Saques são contagiosos. Alimentados por um sentido patológico de ‘direitos adquiridos’ pelos ricos, o grande saque global está em andamento à luz do dia, como se nada houvesse a esconder. Mas há, sim, temores ocultados. No início de julho, o Wall Street Journal, citando pesquisa recente, noticiava que 94% dos milionários temiam “a violência nas ruas”. O artigo é de Naomi Klein. Naomi Klein - The Nation Leio comparações entre os tumultos em Londres e em outras cidades europeias – vitrines quebradas em Atenas, carros incendiados em Paris. E há paralelos, sem dúvida: uma fagulha lançada pela violência policial, um geração que se sente esquecida. Esses eventos foram marcados por destruição em massa, com poucos saques. Mas tem havido saques em massa em anos recentes e acho que temos de falar também deles. Houve em Bagdá, logo depois da invasão norte-americana – um frenesi de destruição e saques que esvaziou bibliotecas e museus. Também em fábricas. Em 2004, visitei uma fábrica de refrigeradores. Os trabalhadores tinham saqueado tudo que havia ali de aproveitável, empilharam e incendiaram. No armazém ainda havia uma escultura gigantesca de placas de metal retorcido. Naquela ocasião, os noticiários entenderam que teria sido saque altamente político. Diziam que aquilo exatamente seria o que aconteceria sempre que um governo não é considerado legítimo pelos cidadãos. Depois de ter assistido durante tanto tempo ao espetáculo de Saddam e filhos roubarem o que conseguissem e de quem conseguissem roubar, os iraquianos comuns sentir-se-iam, então, merecedores do direito de também roubar um pouco. Mas Londres não é Bagdá e o primeiro-ministro britânico David Cameron não é Saddam. Assim sendo, nada haveria a aprender dos saques em Londres. Mas há exemplos no mundo democrático. A Argentina, em 2001. A economia em queda livre e milhares de pessoas vivendo em periferias destruídas (que haviam sido prósperas zonas fabris, antes da era neoliberal) invadiram e saquearam supermercados de propriedade de empresas estrangeiras. Saíam empurrando carrinhos abarrotados dos produtos que perderam condições para comprar – roupas, aparelhos eletrônicos, carne. O governo implantou “estado de sítio” para restaurar a ordem; a população não gostou e derrubou o governo. Na Argentina, o episódio ficou conhecido como El Saqueo – o saque[1]. É exemplo politicamente significativo, porque a palavra aplica-se, na Argentina, também ao que as elites do país fizeram, ao vender patrimônio da nação à guisa de ‘privatizar’, em negócios de corrupção flagrante e enviando para o exterior o produto das ‘privatizações’, para, em seguida, cobrar do povo obediência a um brutal pacote de ‘austeridade’. Os argentinos entenderam que o saque dos supermercados jamais teria acontecido sem o saque anterior, muito maior, do próprio país; e que os reais gângsteres estavam no governo. Mas a Inglaterra não é a América Latina e, na Inglaterra, não há tumultos políticos – ou, pelo menos, é o que nunca se cansam de repetir. Os jovens que devastaram ruas em Londres são crianças sem lei, que se aproveitam de uma situação, para roubar o que não lhes pertence. E a sociedade britânica, diz-nos Cameron, tem ojeriza a esse tipo de gente mal comportada. Disse, e com ar sério. Como se os ‘resgates’ massivos dos bancos jamais tivessem acontecido, seguidos imediatamente do pagamento de escandalosos bônus recordes aos altos executivos. Depois, as reuniões de emergência do G-8 e do G-20, mas quais os líderes decidiram, coletivamente, nada fazer para punir os banqueiros por esse ou aquele crime, além de também nada fazer para impedir que crises semelhantes voltem a acontecer. Em vez disso, cada um daqueles líderes nacionais voltou aos seus respectivos países para impor sacrifícios ainda maiores aos mais vulneráveis. Como? A receita é sempre a mesma: despedir trabalhadores do setor público, fazer dos professores bodes expiatórios, cancelar acordos previamente firmados com sindicatos, aumentar as mensalidades escolares, promover rápida privatização de patrimônio público e reduzir aposentadorias e pensões. – Cada um que prepare a mistura específica para o país onde viva. E quem lá está, na televisão, pontificando sobre a necessidade de abrir mãos desses “benefícios”? Os banqueiros e gerentes de empresas de hedge-fund, claro. É o Saqueo global, tempo de saques imensos! Alimentados por um sentido patológico de ‘direitos adquiridos’ pelos ricos, o grande saque global está em andamento à luz do dia, como se nada houvesse a esconder. Mas há, sim, temores ocultados. No início de julho, o Wall Street Journal, citando pesquisa recente, noticiava que 94% dos milionários temiam “a violência nas ruas”. Aí, afinal, um medo compreensível. Claro que os tumultos de rua em Londres não foram protesto político. Mas o pessoal dos saques noturnos com certeza absoluta sabe que suas elites passaram o dia dedicadas aos saques diários. Saqueos são contagiosos. Os Conservadores acertam quando dizem que os tumultos nada têm a ver com os cortes. Mas, sim, têm muito a ver com os cortados que os cortes cortaram. Presos longe, numa subclasse que infla dia a dia e sem as vias de escape que antes havia – um emprego no sindicato, educação barata e de boa qualidade –, eles estão sendo descartados. Os cortes são um sinal: dizem a todos os setores da sociedade que os pobres estão fixados onde estão – como dizem também aos imigrantes e refugiados impedidos de ultrapassar fronteiras nacionais cada dia mais militarizadas e fechadas. A resposta de David Cameron às agitações de rua é tornar literal e completo o descarte dos mais pobres: fim dos abrigos públicos, ameaças de censura e corte das ferramentas de comunicação social e penas de prisão absolutamente inadmissíveis; uma mulher foi condenada a cinco meses de cadeia, por ter recebido um short roubado [e hoje, 17/8/2011, dois homens foram condenados a quatro anos de prisão, por incitarem tumultos pela internet, apesar de não se ter provado que sua ‘incitação’ levou a alguma consequência (NTs, com informações de Guardian emhttp://www.guardian.co.uk/uk/2011/aug/17/facebook-cases-criticism-riot-sentences)]. Mais uma vez a mensagem é clara contra os pobres que incomodam: sumam. E sumam em silêncio. Na reunião “de austeridade” do G-20 em Toronto, os protestos viraram tumultos e vários carros da polícia foram incendiados. Nada que se compare a Londres 2011, mas o suficiente para deixar-nos, os canadenses, muito chocados. A grande discussão naquela ocasião era que o governo havia consumido $675 milhões de dólares na “segurança” da reunião (e ninguém conseguia sequer impedir o incêndio de carros da polícia). Naquele momento, muitos dissemos que o novo e caríssimo novo armamento que a polícia havia comprado – canhões de água, canhões de som, granadas de gás lacrimogêneo e munição revestida de borracha – não havia sido comprado para ser usado contra os manifestantes nas ruas; que, no longo prazo, aquele equipamento seria usado para disciplinar os pobres que, na nova era de ‘austeridade’, seriam empurrados para a perigosa posição de pouco terem a perder. Isso, precisamente, é o que David Cameron absolutamente não entende: é impossível cortar orçamentos militares ou policiais, no mesmo momento em que você corta todos os gastos públicos. Porque, se o estado rouba os cidadãos, tirando deles o pouco que ainda têm, pensando em proteger os interesses dos que acumulam muito mais do que qualquer ser humano precisa para viver, é claro que deve esperar o troco ou, pelo menos, deve esperar resistência – seja a resistência de protestos organizados, seja a resistência das ondas de saques. Não é propriamente problema político: é problema matemático, físico. [1] Ver, sobre esse período, Memoria del Saqueo, filme de Fernando “Pino” Solanas, Argentina, 2004. Pode ser baixado de http://docverdade.blogspot.com/2009/03/memorias-do-saque-memoria-del-saqueo.html [NTs]. Fonte: Tradução: Coletivo Vila Vudu
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Comentários + votados
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Clério - MG
18/08/2011 - 13:23
Que boquinha mais bunitinha, sô! E que ânsia...pra dizer algo.
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Eduardo Petrucci Gigante
18/08/2011 - 14:26
Quem sabe o Governo Dilma leia essa reportagem. E pense um pouco que, enquanto aumenta a dívida interna simplemente aumentando os juros básicos, enquanto permite que o real seja...
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Marcos C. Campos
18/08/2011 - 18:52
ô "mané" tu tá muito desinformado:
Doutrina do Choque ... já leu ? Então leia.
o site da Jornalista decente que , com raras exceções, não se encontra no mundo de hoje.
http://www.naomiklein.org/main
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Webster Franklin
18/08/2011 - 19:27
Caro Alfredo,
Concordo com seu comentário.
Quando em 1981 uniram-se EUA e Inglaterra comandados por Ronald Reagan e Margareth Tatcher deram início ao processo de gobalização na economia mundial...
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t tonucci
18/08/2011 - 12:32
A imprensa podre da enfase à declaração de presidente da bolsa de NY sobre corrupção. Nem sei como comentar tamanho farisaismo.
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Artaud
18/08/2011 - 13:33
Os ricos saqueiam tudo o tempo todo. Os pobres, assim que eventualmente tem uma chance, também saqueiam.
A diferença é que os ricos fazem a coisa com calma, elegância e bons modos. Já os pobres... É...
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A imprensa podre da enfase à declaração de presidente da bolsa de NY sobre corrupção. Nem sei como comentar tamanho farisaismo.
Que boquinha mais bunitinha, sô! E que ânsia...pra dizer algo.
Os ricos saqueiam tudo o tempo todo. Os pobres, assim que eventualmente tem uma chance, também saqueiam.
A diferença é que os ricos fazem a coisa com calma, elegância e bons modos. Já os pobres... É aquela tristeza de sempre: balbúrdia, quebra-quebra, falta de educação completa (Afinal, como bem diz a senhora Klein, "Londres não é Bagdá" e "a Inglaterra não é América Latina").
Até para saquear é necessário um certo aplomb, um certo je ne ce qouis. Quando é que os pobres vão entender isso? Quando é que essa gente simples, pura e mal vestida vai atinar com isso?
Mesmo em países exóticos e distantes como o Brasil, por exemplo, existem pessoas que saqueiam de maneira civilizada. Nunca se soube de alguém por lá que rouba dinheiro público. Não! Não existe isso nos trópicos. Lá as pessoas de bem "desviam" dinheiro público. Jamais roubam. Quando muito, "se apossam". Quem duvidar basta ler a imprensa lá deles para verificar.
MAF
Artaud (belo nome!)
È "je ne sais quoi" (não sei o que). Fora isso concordo 200% com vc!
Tens razão, caro Lionel. Obrigado.
MAF
Estamos proximos de uma nova Bastilha. Tudo começou e vai terminar assim. Cabeças vão rolar, de pobres e ricos.
Saudoso Robespierre...
Teremos outro soluço revolucionário? É possível enteder a "Terreur" pelo ângulo da turba? Podemos entender por que foram cortadas tantas cabeças? Os manuais de história nos ensinaram a História do modo errado?
Não são os mesmos que criam sempre as mesmas condições para novos Roberpierres, Dantons, et outros?
Seria a internet a nova Enciclopédia? as redes sociais os novos iluministas?
Vamos repetir a dose 220 anos depois? Versão 2011?
Quem sabe o Governo Dilma leia essa reportagem. E pense um pouco que, enquanto aumenta a dívida interna simplemente aumentando os juros básicos, enquanto permite que o real seja sobrevalorizado, perdendo-se o ganho no aumento de preços das commodities, quer engessar a folha de pagamento da união até 2013.
Aproveitando o post para colocar o vídeo da entrevista de Darcus Dowe com legendas em português.
Como as Tvs fazem a manipulação de opinião
Entrevista da BBC com Darcus Dowe, escritor e jornalista, sobre as manifestações populares no Reino Unido.
Incrível observar que a jornalista da BBC (uma das redes de notícias mais independentes do mundo), tenta conduzir as respostas de Dowe, tenta desmoralizá-lo, e insiste durante toda a entrevista em dar a atender que as manifestações sociais que estão ocorrendo tem caráter subversivo.
Prestem atenção ao sofrimento do escritor ao se referir aos absurdos cometidos pelos “brancos” contra as minorias.
É assim no ocidente, qualquer manifestação popular por aqui, o sistema diz que tem caráter subversivo, terrorista, enquanto lá no mundo árabe nas mesmas manifestações o sistema diz que são democráticas. Dois pesos e duas medidas.
Esse vídeo já tinha sido discutido no excelente blog do Nassif, abaixo vou linkar o endereço, e que manifestei minha opinião. É só clicar em cima.
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-desabafo-do-intelectual-indiano-na-bbc
Assis Ribeiro
Assis,
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.
É certo que os acontecimentos de Londres e de outras cidades inglesas não podem ser entendidos como meras ações de grupos de "arruaceiros', "delinquentes" ou que tais...
Houve uma explosão de violencia urbana que deve ser levada em consideração.
Nem mesmo os eventos promovidos por torcedores violentos (nas derrotas, mas também nas vitorias...) com saques, brigas, roubos, quebra-quebras e enfrentamentos com a policia devem ser rotulados assim.
Afinal, os torcedores-brigões não são delinquentes nem marginais, embora estejam, naquele momento fazendo algo contrario à lei, e que deve ser reprimido.
Está claro também, repito, que os acontecimentos de Londres devem servir de alerta para as autoridades corrigirem rumos, efetivarem mudanças, ouvindo e atendendo mais a população da periferia, especialmente os jovens.
Mas dizer que os jovens londrinos ( e das cidades outras) participaram de "manifestações", dar a eles o "stautus" de manifestantes, é, a meu ver, um exagero.
Quem eram os lideres?
Contra o quê protestavam?
O que pediam? Algum slogan, pelo menos... Um Discurso, um panfleto, um misero cartaz...?????
Observe que coloco tudo no passado porque é isso mesmo: passou ( espero...).
Vou um pouco mais longe. Comparar os MANIFESTANTES ( aí sim, com todas as letras maiusculas...) da Siria, de tel aviv, do Egito ou mesmo do nosso vizinho Chile com os jovens ingleses chega a ser uma OFENSA para os primeiros.
Ao contrario dos britanicos os jovens que estão ( ou estiveram) nas ruas nestes locais não o fazem em busca de um par de tenis, uma roupa de griffe ou alguns jogos de video game. Apesar de confrontarem as policias locais ( as vezes sofrendo verdadeiro massacre!!!) não o fazem pelo prazer que todos os jovens tem ( Eu já fui jovem. Tenho filhas e neto jovens...) pela aventura, pelo perigo, pela "adrenalina".
Os jovens da Siria e das outras ditaduras arabes saem às ruas para protestar, para expressar o que pensam ser o melhor para seus povos!.
Da mesma forma os estudantes do Chile. Estão nas ruas por uma educação melhor para todos naquele pais!
Não, amigo...
Se há pontos em comum entre os acontecimentos de londres e destes outros paises, o que os diferencia é tão marcante, tão decisivo, que os aparta definitivamente: Trata-se da INTENÇÃO, do QUERER, muito além da MOTIVAÇÃO.
Os motivos das revoltas até podem traçar uma semelhança entre elas ( e nem mesmo isso está muito claro), as pancadarias, os disturbios, sem duvida as aproxima.
Mas enquanto nos outros lugares as respostas estão claramente postas E TODAS SE ENCAMINHAM PARA O INTERESSE COMUM, no caso ingles resta a perplexidado do "PRA QUÊ"? ( e as respostas que vão surgindo não são nada lisongeiras para os "manifestantes ingleses").
Mais respeito com os que querem muito mais que um simples par de tenis de uma loja da moda, ou mesmo exercer o "poder" e usufruir o "prazer" de bater num velho até a sua morte.
Pernambuco falando para o mundo!
Grande Irmão, um artigo com pensamento divergente.
A sementes e os semeadores da violência
Por Boaventura de Souza Santos.
Vale a sua leitura, para que a gente possa compreender onde estão as raízes de tal violência:
Os motins na Inglaterra são um perturbador sinal dos tempos. Está a ser gerado nas sociedades um combustível altamente inflamável que flui nos subterrâneos da vida coletiva sem que se dê conta.
Esse combustível é constituído pela mistura de quatro componentes: a promoção conjunta da desigualdade social e do individualismo, a mercantilização da vida individual e coletiva, a prática do racismo em nome da tolerância, o sequestro da democracia por elites privilegiadas e a consequente transformação da política em administração do roubo “legal” dos cidadãos. Cada um dos componentes tem uma contradição interna.
Quando elas se sobrepõem, qualquer incidente pode provocar uma explosão de proporções inimagináveis. Com o neoliberalismo, o aumento da desigualdade social deixou de ser um problema para passar a ser a solução.
A ostentação dos ricos transformou-se em prova do êxito de um modelo social que só deixa na miséria a maioria dos cidadãos porque estes supostamente não se esforçam o suficiente para terem êxito.
Isso só foi possível com a conversão do individualismo em valor absoluto, o qual, contraditoriamente, só pode ser vivido como utopia da igualdade, da possibilidade de todos dispensarem por igual a solidariedade social, quer como agentes dela, quer como seus beneficiários.
Para o indivíduo assim construído, a desigualdade só é um problema quando lhe é adversa; quando isso sucede, nunca é reconhecida como merecida. Por outro lado, na sociedade de consumo, os objetos de consumo deixam de satisfazer necessidades para as criar incessantemente, e o investimento pessoal neles é tão intenso quando se têm como quando não se têm.
Entre acreditar que o dinheiro medeia tudo e acreditar que tudo pode ser feito para obtê-lo vai um passo muito curto. Os poderosos dão esse passo todos os dias sem que nada lhes aconteça. Os despossuídos, que pensam que podem fazer o mesmo, acabam nas prisões.
Os distúrbios na Inglaterra começaram com uma dimensão racial. São afloramentos da sociabilidade colonial que continua a dominar as nossas sociedades, muito tempo depois de terminar o colonialismo político. Um jovem negro das nossas cidades vive cotidianamente uma suspeição social que existe independentemente do que ele ou ela seja ou faça.
Tal suspeição é tanto mais virulenta quando ocorre numa sociedade distraída pelas políticas oficiais da luta contra a discriminação e pela fachada do multiculturalismo.
O que há de comum entre os distúrbios da Inglaterra e a destruição do bem-estar dos cidadãos provocada pelas políticas de austeridade comandadas por mercados financeiros? São sinais dos limites extremos da ordem democrática.
Os jovens amotinados são criminosos, mas não estamos perante uma “criminalidade pura e simples”, como afirmou o primeiro-ministro David Cameron.
Estamos perante uma denúncia política violenta de um modelo social e político que tem recursos para resgatar bancos e não os tem para resgatar a juventude de uma vida sem esperança, do pesadelo de uma educação cada vez mais cara e mais irrelevante, dados o aumento do desemprego e o completo abandono em comunidades que as políticas públicas antissociais transformaram em campos de treino da raiva, da anomia e da revolta.
Entre o poder neoliberal instalado e os amotinados urbanos há uma simetria assustadora. A indiferença social, a arrogância, a distribuição injusta dos sacrifícios estão a semear o caos, a violência e o medo, e os semeadores dirão amanhã, genuinamente ofendidos, que o que semearam nada tem a ver com o caos, a violência e o medo instalados nas ruas das nossas cidades.
Assis Ribeiro
Caro Webster:
O texto de Naomi Klein é irreparável.
A grande mídia internacional, da qual a nossa apenas reverbera, faz questão de considerar os conflitos de Londres como obra de arruaceiros, algo bastante longe da verdade. Tal tipo de conflito está ocorrendo em diversos países na zona do euro, realmente uma zona, e os líderes ainda não demonstram qualquer preocupação com os verdadeiramente atingidos neste tsunami de acordos de dívida por parte de diversos países incapazes de honrar compromissos assumidos com os credores, as famílias.
A dupla Sarkozy-Merkel, com o apoio do BCE, insiste por uma solução que visa o bem estar dos bancos em primeiro lugar, ao ponto de conseguirem verbalizarem sobre a real possibilidade de perda de parte da soberania daqueles países, no meu entendimento um tapa na cara daquelas sociedades.
Nesta semana as autoridades européias injetaram U$ 30 bi na Itália e Espanha, emitindo um claro sinal sobre a precária situação econômica que estes dois países se encontram, dando a entender que ambos e, de trivela, os bancos credores estão na base do quebra não quebra, pois U$ 30 bi pro patropi, hoje, é troco graças a Lulalá.
Até hoje não foi possível alcançar solução para nenhum daqueles países em dificuldades, nem mesmo para a Grécia, o primeira na linha, e sempre pelo mesmo motivo- a insistência suicida dos credores na manutenção de cláusulas contratuais impossíveis de serem absorvidas por sociedades já em enormes dificuldades. Parece óbvio que a manutenção desta receita ainda desejada pelos tais líderes -$$$ sendo canalizado para o setor financeiro, em detrimento de aumento ou manutenção de atividade econômica, logo, maiores taxas de desemprego, provocará distúrbios cada vez mais agressivos.
Nos EUA, onde o roteiro é parecido, a demanda por votos em 2012 pode vir a alterar o atual contexto, bastante prejudicial a um povo americano já repleto de problemas outrora impensáveis. Para o bem ou para o mal, o fato é que o mundo está mudando, e nada indica que tais mudanças serão virtuosas.
Como a jornalista cita ao final do ótimo artigo - não é propriamente problema político: é problema matemático, físico.
Caro Alfredo,
Concordo com seu comentário.
Quando em 1981 uniram-se EUA e Inglaterra comandados por Ronald Reagan e Margareth Tatcher deram início ao processo de gobalização na economia mundial, com os pressupostos do estado mínimo, o mercado senhor dos anéis tudo resolveria, privatizações a qualquer custo, enfraquecimento dos sindicatos, redução do sistema de controle de capitais etc..., tudo supostamente para "reduzir custos e desenvolver a economia mundial.
A partir daí criaram o monstro e perderam o controle sobre ele. Esqueceram a mãe natureza onde os recursos naturais são finitos, onde a exploração indefinida desses recursos não é sustentável, gerando verdadeiras guerras nas disputas por esses recursos. Aliado a tudo isso, prevaleceu o poder econômico e a ganância dos ricos nas sucessivas crises econômicas, onde os "restos a pagar" vem sendo debitado nas costas dos mais fracos ou seja, nas costas das populações desses países e o que se vê é a criatura voltando-se contra o criador.
Abs
webster franklin
Naomi quem?
Klein.
ô "mané" tu tá muito desinformado:
Doutrina do Choque ... já leu ? Então leia.
o site da Jornalista decente que , com raras exceções, não se encontra no mundo de hoje.
http://www.naomiklein.org/main
Assis,
Creio que não está aqui em discussão o "recado" que deve ser tirado desse evento.
Até concordo, ao menos em parte, com o diagnostico do Boaventura, ainda que não seja eu tão "cartesiano" nas relações causa/efeito, nem tão catastrofista...
Mas a minha discordancia reside especificamente nessa postura de ver os jovens ingleses como ativos porta-vozes de algo.
Não são!!!
É natural que aqueles contrarios ao "sistema" ( seja lá o que isso for...), como parecde ser seu caso, torçam por mudanças.
Mas é muito perigoso achar legitimo, justificavel, tudo que eventualmente possa ir de encontro a ele (o sistema).
Em retribuição ao importante artigo do Boaventura Souza repasso uma entrevista de um Sociologo Europeu que não acredita haver desejo de reais mudanças por parte dos jovens, avidos por tenis, roupas, perfumes...
Observe que o sociologo também reconhece que o acontecido deve ser levado em consideração.
Mas, insisto, não como uma "manifestação"...
………………………………………
“LONDRES – Um dos mais influentes acadêmicos europeus, já descrito por alguns comentaristas mais entusiasmados como o mais importante sociólogo vivo da atualidade, o polonês Zygmunt Bauman viu nos distúrbios de Londres uma aplicação prática de suas teorias sobre o papel do consumismo na sociedade pós-moderna. Um assunto que o acadêmico, radicado em Londres desde 1968, quando deixou a Polônia após virar persona non grata para o regime comunista e por conta de uma onda de anti-semitismo no país, explorou bastante em conjunção com as discussões sobre desigualdade social e ansiedade de quem vive nas grandes cidades.
Aos 85 anos, autor de dezenas de livros, como “Amor líquido” e “O mal-estar da pós-modernidade”, Bauman não dá sinais de diminuir o ritmo. Há cinco anos, no lançamento de “Vida para Consumo”, uma de suas obras mais populares, fez uma turnê por vários países. Em entrevista ao GLOBO, por e-mail, ele afirma que as imagens de caos na capital britânica nada mais representaram que uma revolta motivada pelo desejo de consumir, não por qualquer preocupação maior com mudanças na ordem social.
- Londres viu os distúrbios do consumidor excluído e insatisfeito.
O GLOBO: O quão irônico foi para o senhor ver os distúrbios se concentrando na pilhagem de roupas e artigos eletrônicos?
ZYGMUNT BAUMAN: Esses distúrbios eram uma explosão pronta para acontecer a qualquer momento. É como um campo minado: sabemos que alguns dos explosivos cumprirão sua natureza, só não se sabe como e quando. Num campo minado social, porém, a explosão se propaga, ainda mais com os avanços nas tecnologias de comunicação. Tais explosões são uma combinação de desigualdade social e consumismo. Não estamos falando de uma revolta de gente miserável ou faminta ou de minorias étnicas e religiosas reprimidas. Foi um motim de consumidores excluídos e frustrados.
O GLOBO:Mas qual a mensagem que poderia ser comunicada?
BAUMAN: Estamos falando de pessoas humilhadas por aquilo que, na opinião delas, é um desfile de riquezas às quais não têm acesso. Todos nós fomos coagidos e seduzidos para ver o consumo como uma receita para uma boa vida e a principal solução para os problemas. O problema é que a receita está além do alcance de boa parte da população.
O GLOBO:Trata-se de um desafio a mais para as autoridades na tarefa de acalmar os ânimos, não?
BAUMAN: O governo britânico está mais uma vez equivocado. Assim como foi errado injetar dinheiro nos bancos na época do abalo global para que tudo voltasse ao normal – isso é, as mesmas atividades financeiras que causaram a crise inicial – as autoridades agora querem conter o motim dos humilhados sem realmente atacar suas causas. A resposta robusta em termos de segurança vai controlar o incêndio agora, mas o campo minado persistirá, pronto para novos incêndios. Problemas sociais jamais serão controlados pelo toque de recolher. A única solução é uma mudança cultural e uma série de reformas sociais. Senão, a mistura fica volátil quando a polícia se desmobilizar do estado de emergência atual.
O GLOBO:Jovens de classe baixa reclamam demais da falta de oportunidades de trabalho e educação. O senhor estranhou não ter visto escolas pegando fogo, por exemplo?
BAUMAN: Qualquer que seja a explicação dada por esses meninos e meninas para a mídia, o fato é que queimar e saquear lojas não é uma tentativa de mudar a realidade social. Eles não se rebelaram contra o consumismo, e sim fizeram uma tentativa atabalhoada de se juntar ao processo. Esses distúrbios não foram planejados ou integrados, como se especulou no início. Tratou-se de uma explosão de frustração acumulada. Muito mais um porquê que um para quê.
O GLOBO:Mesmo o argumento de protesto contra os cortes de gastos do governo não deve ser levado em conta?
BAUMAN: Até agora, não percebi qualquer desejo mais forte. O que me parece é que as classes mais baixas querem é imitar a elite. Em vez de alterar seu modo de vida para algo com mais temperança e moderação, sonham com a pujança dos mais favorecidos.
O GLOBO:Mais problemas são inevitáveis, então?
BAUMAN: Enquanto não repensarmos a maneira como medimos o bem-estar, sim. A busca da felicidade não deve ser atrelada a indicadores de riqueza, pois isso apenas resulta numa erosão do espírito comunitário em prol de competição e egoísmo. A prosperidade hoje em dia está sendo medida em termos de produção material e isso só tende a criar mais problemas em sociedades em que a desigualdade está em crescimento, como no Reino Unido. ”
Pernambuco falando para o mundo!
Necolima,
aí você me pegou. Sou fã do pensamento de Bauman.
Mais o quero afirmar é que tantos as manifestações no Reino Unido, como as dos países arabes, Egito, Espanha, Chile, na cidade de Winscosin, enfim as manifestações recentes que estão abrangendo o mundo, assim como aquelas da década de 60, expressam insatisfações diversas e que sempre levam a uma evolução.
As manifestações populares se forem reprimidas com violência irão reagir com violência. E quem estará certo?
Assis Ribeiro
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