Os garis e a síndrome de Boris Casoy

Por JB Costa

Após Pinheirinhos, mais uma matéria para comprovar o quanto o homo sapiens é tudo, menos sábio.

Da Folha de S. Paulo

Estudo detalha 'invisibilidade' dos garis

Pesquisa do Dieese revela que 25% dos funcionários da área de limpeza na cidade relatam casos de preconceito
'Tem hora que me sinto pior do que o lixo que carrego', diz faxineira; entre garis, 42% relatam discriminação

UIRÁ MACHADO
DE SÃO PAULO

Maria, 50, acorda antes das 4h para não chegar atrasada. Toma ônibus, trem e metrô e demora quase três horas no trajeto entre sua casa e o hospital onde trabalha como auxiliar de limpeza.

Ao chegar, tira a roupa "normal" e veste o uniforme com o qual passará as próximas oitos horas de seu dia. A partir daí, ela conta que as pessoas a olham de forma diferente, com menosprezo.

"Tem hora que me sinto pior que o lixo que carrego", afirma Maria, que pede para não ser identificada.

Ela diz ter superado um episódio recente de perseguição -um funcionário do hospital sujava o chão sempre que ela limpava.

Carlos Barbosa, 35, é gari há sete anos e gosta do que faz: "Eu limpo a cidade. A rua está toda cheia de lixo. A gente passa e olha para trás. Ver tudo aquilo bonitinho, limpinho, é um orgulho".

Mas, assim como Maria, Carlos também sente o desprezo ligado a sua profissão. "É como se não existisse naquele momento, só por causa da roupa de gari."

ANÔNIMOS

Maria e Carlos são típicos trabalhadores da área da limpeza na cidade de São Paulo. São negros, pobres e convivem diariamente com casos de discriminação.

Pela primeira vez, o perfil desses "trabalhadores invisíveis" será conhecido. O Siemaco (sindicato que representa a categoria) lançará amanhã um estudo inédito sobre os cerca de 100 mil responsáveis pela limpeza e conservação de São Paulo.

A pesquisa, conduzida pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), ouviu 1.851 coletores de lixo, varredores, auxiliares de limpeza, jardineiros.

Segundo Moacyr Pereira, presidente do Siemaco, eles são invisíveis aos olhos da maioria das pessoas.

"Eles são considerados invisíveis. Muitos reclamam que nunca são chamados pelo nome", diz.

De acordo com a pesquisa, 1 em cada 4 pessoas que trabalham com limpeza em São Paulo já sofreu discriminação. Entre os garis, esse percentual é maior. Chega a 42%.

Os números do preconceito, no entanto, também podem ser ainda maiores do que a pesquisa aponta.

Em conversa com a Folha, Maria e uma colega -que trabalha com ela no mesmo hospital- são questionadas sobre casos de discriminação.

A primeira reação de ambas foi dizer que não havia; "só coisas normais".

Mas normal como?

"Se está no elevador, a pessoa te vê e não entra. Se está no refeitório, não senta na mesma mesa. Se a gente pede licença, faz que não ouve. Não chama pelo nome, não pede por favor, todo mundo acha que pode mandar na gente", explicam.

No livro "Homens Invisíveis -Relatos de Uma Humilhação Social", de 2004, o psicólogo Fernando Braga da Costa relata a experiência de quase uma década trabalhando com garis.

Numa das primeiras vezes que Fernando vestiu o uniforme, o então estudante caminhou pela USP e passou por colegas e professores. Ninguém o reconheceu.

Confira a rotina desses trabalhadores que relatam preconceito

folha.com/no1036959

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Assis Ribeiro

O título da materia.

 

Assis Ribeiro

 
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Marcos RTI

Essa matéria é de 2003, de um estudo que virou o livro "Homens Invisíveis".

Os Invisíveis
Por Plínio Delphino 10/06/2003 às 14:29

"Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível"

Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da "invisibilidade pública". Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social

O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são "seres invisíveis, sem nome".

Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da "invisibilidade pública", ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa.

Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida: "Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência", explica o pesquisador.

O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. "Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão", diz.

Apesar do castigo do sol forte, do trabalho pesado e das humilhações diárias, segundo o psicólogo, são acolhedores com quem os enxerga... E encontram no silêncio a defesa contra quem os ignora.


DIÁRIO VERMELHO - Como é que você teve essa idéia?

Fernando Braga da Costa - Meu orientador desde a graduação, o professor José Moura Gonçalves Filho, sugeriu aos alunos, como uma das provas de avaliação, que a gente se engajasse numa tarefa proletária. Uma forma de atividade profissional que não exigisse qualificação técnica nem acadêmica. Então, basicamente, profissões das classes pobres.

DIÁRIO VERMELHO - Com que objetivo?

Fernando Braga da Costa - A função do meu mestrado era compreender e analisar a condição de trabalho deles (os garis), e a maneira como eles estão inseridos na cena pública. Ou seja, estudar a condição moral e psicológica a que eles estão sujeitos dentro da sociedade. Outro nível de investigação, que vai ser priorizado agora no doutorado, é analisar e verificar as barreiras e as aberturas que se operam no encontro do psicólogo social com os garis. Que barreiras são essas, que aberturas são essas, e como se dá a aproximação?

DIÁRIO VERMELHO - Quando você começou a trabalhar, os garis notaram que se tratava de um estudante fazendo pesquisa?

Fernando Braga da Costa - Eu vesti um uniforme que era todo vermelho, boné, camisa e tal. Chegando lá eu tinha a expectativa de me apresentar como novo funcionário, recém-contratado pela USP pra varrer rua com eles. Mas, os garis sacaram logo, entretanto nada me disseram. Existe uma coisa típica dos garis: são pessoas vindas do Nordeste, negros ou mulatos em geral. Eu sou branquelo, mas isso talvez não seja o diferencial, porque muitos garis ali são brancos também. Você tem uma série de fatores que são ainda mais determinantes, como a maneira de falarmos, o modo de a gente olhar ou de posicionar o nosso corpo, a maneira como gesticulamos. Os garis conseguem definir essa diferenças com algumas frases que são simplesmente formidáveis.

DIÁRIO VERMELHO - Dê um exemplo.

Fernando Braga da Costa - Nós estávamos varrendo e, em determinado momento, comecei a papear com um dos garis. De repente, ele viu um sujeito de 35 ou 40 anos de idade, subindo a rua a pé, muito bem arrumado com uma pastinha de couro na mão. O sujeito passou pela gente e não nos cumprimentou, o que é comum nessas situações. O gari, sem se referir claramente ao homem que acabara de passar, virou-se pra mim e começou a falar: "É Fernando, quando o sujeito vem andando você logo sabe se o cabra é do dinheiro ou não. Porque peão anda macio, quase não faz barulho. Já o pessoal da outra classe você só ouve o toc-toc dos passos. E quando a gente está esperando o trem logo percebe também: o peão fica todo encolhidinho olhando pra baixo. Eles não. Ficam com olhar só por cima de toda a peãozada, segurando a pastinha na mão."

DIÁRIO VERMELHO - Quanto tempo depois eles falaram sobre essa percepção de que você era diferente?

Fernando Braga da Costa - Isso não precisou nem ser comentado, porque os fatos no primeiro dia de trabalho já deixaram muito claro que eles sabiam que eu não era um gari. Fui tratado de uma forma completamente diferente. Os garis são carregados na caçamba da caminhonete junto com as ferramentas. É como se eles fossem ferramentas também. Eles não deixaram eu viajar na caçamba, quiseram que eu fosse na cabine. Tive de insistir muito para poder viajar com eles na caçamba. Chegando no lugar de trabalho, continuaram me tratando diferente. As vassouras eram todas muito velhas. A única vassoura nova já estava reservada para mim. Não me deixaram usar a pá e a enxada, porque era um serviço mais pesado. Eles fizeram questão de que eu trabalhasse só com a vassoura e, mesmo assim, num lugar mais limpinho, e isso tudo foi dando a dimensão de que os garis sabiam que eu não tinha a mesma origem socioeconômica deles.

DIÁRIO VERMELHO - Quer dizer que eles se diminuíram com a sua presença?

Fernando Braga da Costa - Não foi uma questão de se menosprezar, mas sim de me proteger.

DIÁRIO VERMELHO - Eles testaram você?

Fernando Braga da Costa - No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca... Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo, pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, é claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse: 'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?'

E eu bebi. Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.

DIÁRIO VERMELHO - O que você sentiu na pele, trabalhando como gari?

Fernando Braga da Costa - Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angústia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar não senti o gosto da comida. Voltei para o trabalho atordoado.

DIÁRIO VERMELHO - E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?

Fernando Braga da Costa - Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se estivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.

DIÁRIO VERMELHO - E quando você volta para casa, para seu mundo real?

Fernando Braga da Costa - Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador. Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma coisa.

(Este texto foi retirado do site da Ouvidoria da Petrobras)

 
 
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Marcos RTI

Essa entrevista também é muito boa.

"A produtora do Jornal Nacional que queria me convencer sobre a importância de dar entrevista. Ela dizia: “Você vai falar para 50 milhões de pessoas”. Mentira. Quem vai falar é o Jornal Nacional, não eu."
   
Do Responsabilidadesocial.com
Publicado em: 27/06/2003
Fernando Braga da Costa

O psicólogo formado pela Universidade de São Paulo Fernando Braga da Costa, 27 anos, tornou-se figura notória na mídia a partir do final de 2002. Correntes circularam pela Internet com seus relatos sobre os momentos que passou ao assumir o uniforme a vassoura de gari por oito anos. Atônitos, os internautas e demais pessoas que souberam da história por meio de jornais, revistas e tevês, começaram a escrever para o jovem pesquisador, que neste ano já está estudando o doutorado em psicologia social. “Eu me emocionei muito com algumas cartas e telefonemas que recebi”, diz Fernando que, apesar de toda a fama repentina, mantém os pés firmes no chão e conhece o verdadeiro propósito de toda a sua experiência. O perfil desta semana vem, excepcionalmente, no formato de entrevista, para que os leitores possam conhecer mais a fundo o depoimento de Fernando. Confira abaixo:

1) Responsabilidade Social: Como foi a experiência de se disfarçar de gari por oito anos?

Fernando Braga da Costa: Tudo partiu de uma matéria (Psicologia Social II) da faculdade na qual os alunos do segundo ano de psicologia precisavam se engajar numa tarefa proletária exercida por pessoas de classes pobres. Eu escolhi trabalhar com gari, pois é a profissão mais rejeitada pelas pessoas em geral. Quando as pessoas, mesmo no senso comum, se referem à profissão de gari ou de lixeiro, é sempre como a profissão mais desqualificada que existe. Falam coisas do tipo: “Fulano não serve nem para ser lixeiro”, ou “Se eu tivesse que trabalhar de gari, preferia ser assaltante, bandido”. A gente ouve isso muito por aí. Na hora que me propuseram o trabalho, foi a primeira profissão que me veio à cabeça. Então, eu vesti o uniforme todo vermelho, boné e camisa e comecei a participar do grupo que varria o campus da USP. Chegando lá e apesar de não ter dito uma só palavra sobre minha origem, eu percebi que os garis sacaram que eu não era um novo gari contratado. Digo isso, por vários motivos, mas especialmente porque eles tinham uma atitude de me proteger, ao fazer pequenas coisas como: a vassoura mais nova sempre tinha que ficar comigo, eles não queriam que eu fizesse trabalho de enxada ou com a pá e impediam que eu viajasse na caçamba da caminhonete (pois os garis vão na caçamba como se fossem ferramentas), eles queriam que eu fosse na cabine. O que explicaria isso? Só depois de muita insistência minha é que eles deixaram eu ir atrás com eles. Logo no primeiro dia, eu passei por um ritual de passagem muito especial. Paramos para tomar café, mas não existia caneca, apenas uma garrafa térmica com a bebida. Havia um clima estranho no ar, os garis mau conversavam comigo, pois sabiam que eu era de outra classe. Um deles foi até o lixo e pegou duas latinhas de refrigerante. Cortou a latinha pela metade e serviu o café ali mesmo, naquela caneca improvisada, suja e grudenta. Eu nunca gostei de café, mas intuitivamente senti que deveria tomá-lo, mesmo sabendo que aquela latinha estava no lixo, onde passa barata, rato, tudo. No momento em que empunhei a caneca, todos eles pararam para me assistir. Ficou um silêncio enorme no ambiente. E bebi. A partir daí, a indiferença deles e a ansiedade no ambiente evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada e a brincar. Foi um rito de passagem mesmo.

2) RS – Como você era antes dessa experiência? Você cumprimentava as pessoas que ocupam esse tipo de funções?

FBC – Sim. Isso sempre foi uma coisa muito dolorida para mim. Eu não entendia porque as pessoas não eram tratadas como seres humanos. Para mim, sempre foi uma situação constrangedora, enigmática. Então, quando surgiu essa oportunidade, eu agarrei e fui agarrado por ela. Eu sempre vivi num bairro de classe média alta, num condomínio de prédios onde crianças e adolescentes que eram acostumados a maltratar porteiros, faxineiras. Então foi uma coisa que sempre me chamou a atenção.

3) RS – Como foi que você resolveu ultrapassar a perspectiva de fazer apenas uma matéria (que dura um semestre) se disfarçando como gari e partiu para oito anos de experiência?

FBC – Eu comecei essa pesquisa em 1994 e nos dois primeiros anos eu não fui semanalmente trabalhar como gari. Estive lá num período mais esporádico. Então, a partir de 96, eu ia duas, três vezes por semana trabalhar com o pessoal. Eu tive um primeiro dia de trabalho como gari com experiências muito importantes. Uma delas, em particular, foi a seguinte: uma certa vez, quando estava trabalhando como gari, tive que passar pelo Instituto de Psicologia da USP – passei pelo térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, pela biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, em frente à lanchonete, e tinha muita gente conhecida. O pessoal passava como se estivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém, em absoluto, me viu ou olhou para mim. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse. Fui almoçar e voltei para o trabalho atordoado. Foi naquele momento que senti na pele a coisa da invisibilidade social. A minha intenção inicial era estudar a humilhação social, porém, a invisibilidade passou a ser algo que se apresentava com muito mais força na minha pesquisa, era um campo de trabalho inédito. Invisibilidade é um conceito que eu formulei. Não existia isso. É uma coisa que todo mundo vê e ninguém fala. Isso fez com que eu procurasse meu professor antes de terminar meu trabalho. Na época, eu procurava me engajar em algum trabalho de iniciação científica e eu perguntei: “Tem como eu estudar isso?”. E o professor disse: “Tem, só que você vai ter que ficar trabalhando de gari”. Fiquei feliz quando ele disse isso, porque era o que eu mais queria. Então esse trabalho ganhou um status extra-curricular. Era uma coisa assim, eu tinha muito prazer em estar com eles e eles, por sua vez, sempre que me encontravam pelo campus da universidade, me perguntavam: “E aí, Fernando? Quando é que você volta? Você não vai mais trabalhar com a gente?”. Eles se ressintiam da minha ausência. Aí, fui ficando. A experiência se prolongou porque trouxe muitos frutos para mim.

4) RS – Suscintamente, como você pode definir qual o objetivo central desse trabalho. Ele é estritamente acadêmico ou vai além disso?

FBC – Não. Ele é um trabalho inclusive com características nada acadêmicas. Ele é um texto que se tornou muito literário. São histórias que eu conto, e a partir das histórias surgem as interpretações sobre os fenômenos psicossociais. Ele é um texto que em si você vai reconhecer poucos aspectos de uma estrutura acadêmica rígida. Na verdade, eu sempre me ative a essa questão do tipo: “Será que ninguém vê que ali tem gente?”. Eu quero chamar a atenção das pessoas, sacudir suas estruturas. Mas, ao mesmo tempo, tem traços científicos muito bem definidos. Quando comecei o projeto era uma coisa assim de denúncia bem ingênua. Mesmo quando eu questionava as coisas, eu fazia de forma muito pouco estruturada. E a grande modificação, o grande progresso que eu tive em todos esses anos aconteceu quando eu percebi que os fatos falam por si. Eu não preciso ficar dizendo assim: devemos tratar os garis com mais humanidade. Em nenhum momento eu digo isso. Chacoalhar as pessoas é importante sim, mas é melhor deixar que o próprio fato interpele a pessoa.

5) RS – Você está escrevendo um livro sobre isso?

FBC – Depois que o trabalho começou a ter repercussão, eu comecei a receber muitos e-mails perguntando onde é que se compra o livro. Eu defendi o trabalho em novembro de 2002, então eu não tive nem tempo de pensar em publicação. O que eu fiz foi apresentar o trabalho de dissertação de mestrado à editora da USP e requeri a publicação do livro. Mas esse pedido foi feito apenas na semana passada. Não sei como as coisas vão ocorrer daqui para a frente. Temos que esperar.

6) RS – Como é que você se sente com toda a repercussão que o seu trabalho tomou?

FBC – Tem muita coisa acontecendo. Se eu digitar meu nome na Internet aparecem ‘trocentas’ coisas hoje. Não tem como controlar. Me ligaram sábado passado dizendo que o Luciano Huck falou da minha pesquisa no programa dele, porque parece que tinha um gari participando das provas e ele comentou que tinha um psicólogo com uma pesquisa assim, tipo elogiando. Então, eu me sinto assustado, porque as pessoas têm me ligado de Manaus, Aracajú, Rio Grande do Sul. Eu não imaginava que fosse ter repercussão uma coisa dessas. Eu imaginava que ia fazer esse trabalho muito mais para me satisfazer pessoalmente do que academicamente, porque o encontro com os garis foi um encontro personalizado, curativo para mim, muito importante. Teve um jornalista que me ligou para uma reportagem e me contou a seguinte história: “Eu estava na pós-graduação lá na PUC em Porto Alegre quando entrou uma faxineira na sala de aula, já com alguns alunos e ninguém falou com ela. Eu lembrei do que você disse e falei boa noite para ela. Ela ficou muito contente, até sorriu para mim. Então pergunto: era isso que você queria com sua pesquisa?”. Na hora que ele contou isso, me senti comovido porque as pessoas estão registrando o sentido mais nobre desse trabalho. Outra pessoa de Goiânia me contactou dizendo que havia assistido minha entrevista TV Educativa. Ele se ateve muito ao momento em que o entrevistador me perguntou se em algum momento eu me senti psicólogo dos garis. No programa, eu respondi que de maneira alguma, que eles sim que tinham sido meus psicólogos. Eles me curaram de algumas doenças burguesas, entre outras coisas. E esse cara de Goiânia me escreveu, por e-mail, dizendo que tinha sido catador de papel e hoje já tinha feito universidade, era bem de vida, mas tinha vergonha de dizer para os amigos que tinha sido catador de papel. E quando ele viu minha entrevista, disse que ficou com vergonha porque não sabia o nome do porteiro do prédio dele. Naquele momento mesmo, ele desceu somente para perguntar o nome do porteiro do prédio. Então assim, esse tipo de repercussão, por mais diminuta que seja é uma repercussão maravilhosa, porque todo psicólogo tem esse interesse humano. Então, não me interessa coisas como, por exemplo, a produtora do Jornal Nacional que queria me convencer sobre a importância de dar entrevista. Ela dizia: “Você vai falar para 50 milhões de pessoas”. Mentira. Quem vai falar é o Jornal Nacional, não eu. Vai meu nome lá, como especialista que fala em razão daquilo e tal, mas é um alcance banalizador da experiência. Quando o pessoal da imprensa entra em contato comigo, tento deixar claro que o interesse parte deles para mim. Eu não quero aparecer por causa da pesquisa, entende? Porque tem jornalista que liga e acha que eu tenho que abrir as pernas, e dar entrevista como se estivesse me vendendo. É disso que eu tenho medo.

7) RS – Como você se sente em relação a todo esse processo, emocionalmente falando, com relação à experiência em si, à sua relação com os garis, e com relação ao feedback das pessoas nos últimos tempos?

FBC – De fato, tudo aquilo que me fez estar com eles e mesmo quando estou escrevendo a respeito disso, é um momento quando entro num estado que não é meu estado de vigília normal. A cada dois minutos escrevendo sobre essa experiência, me são exigidos outros 10 minutos chorando. Eu já tive, várias vezes, de parar de escrever ao lembrar dos fatos, pois é uma experiência emocionalmente carregada. Acho que eu comecei a perceber melhor os meus comprometimentos, assumi mais de perto as minhas dificuldades, reconheci melhor as muletas nas quais a gente se apóia e nos torna pessoas muito vazias. Quando me refiro que a experiência me curou de doenças burguesas, estou me referindo a diferença de visões. Exemplo: quando eu chegava lá de manhã cedo para trabalhar com eles e olhava aquele céu azul, bonito e elogiava a beleza desse céu, eu percebia que eles ficavam num silêncio absurdo. Eu não entendia aquilo. Até que um dia sentei num ponto de ônibus com um dos garis e ele virou-se para mim e disse: “Nossa, Fernando, dá uma olhada para o céu”. Aí eu olhei e tava aquele céu de brigadeiro, como dizem, azulzinho, às 7 da manhã o sol já ardia. E ele completou: “Nossa, o tempo tá ruim, hein?”. Aí é que eu me toquei, que para essas pessoas é tudo muito relativo. Aquele céu azul é maravilhoso para quem está trabalhando dentro do escritório com ar-condicionado. Mas para eles é sinônimo de esforço e desgaste redobrado. Então, me habituei a me questionar sobre a realidade dessas pessoas. E me dei conta de muitas outras convenções burguesas. Me referi muito mais a essa percepção, do que a coisas materiais. Eu não sou contra o conforto e a tecnologia, mas acho que a tecnologia deveria servir à todo mundo e não a apenas meia dúzia.

8) RS – Você consegue traçar um paralelo entre sua pesquisa e uma atitude que envolva Responsabilidade Social?

FBC – Me chateia ver que a estrutura acadêmica deixa de produzir algo relevante. Tem trabalhos feitos só para ficarem parados, simplesmente tomando poeira na estante da biblioteca. Eu conheço muitas pesquisas que não servem absolutamente para nada, e que não têm um propósito em si. Portanto, penso que quando há uma associação muito verdadeira entre a ação do pesquisador e a pesquisa em si, a gente pode dizer que existe responsabilidade social nisso.

Daniela Guima

 
 
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Assis Ribeiro

Em 2008, na Itália, os garis entraram em greve. Apenas uma semana depois  o aumento de  ratos e doenças já era visível.

Garis tão importantes na sociedade quanto juízes, médicos, domésticas, etc.

O mundo é interligado, a interdepência é real. Todos temos a mesma importância.

 

Assis Ribeiro

 
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Kid Prado

"...Garis tão importantes na sociedade quanto juízes, médicos, domésticas, etc..."


Será assim mesmo? Os juízes, por exemplo, tem dois recessos mais um período de férias por ano. Mas nós não chegamos a perceber a ausência deles. Mas se os lixeiros não aparecem por dois dias, todos percebemos prontamente.

 

Kid Prado

 
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Marcos RTI

Frases de 2002

- Os brasileiros têm duas opções: Votar em Sartre (FHC) ou escolher um encanador. (Ruth Escobar)

- A Ruth Escobar pode passar a vida inteira sem um sociólogo, mas não pode passar sem um encanador. (Lula)

 
 
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Roberto

Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador. Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe.


 
 
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Daniel Campos

As pessoas em geral são doutrinadas para automaticamente abanar o rabo para as "castas superiores"* e desprezar as "castas inferiores"*. É tão automático que se você questiona o porquê a pessoa simplesmente não consegue dizer a razão, dado que ela realmente não sabe ou acha saber (coisas como dizer "sou superior porquê sou advogado").

E isso não é trivial de se corrigir... Os que já são adultos praticamente já estão "perdidos" (Pavlov's_dogs), só as crianças podem ser educadas diferentemente. E como se isso não fosse ruim o bastante, os "que mandam de fato" nesse planeta têm todas as razões do mundo para manter tudo como está.

 

*Entre aspas porquê na realidade ninguém é superior ou inferior aos outros, as pessoas é que pensam o contrário.

 
 
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flipe

Uma nova visão para a condição pública tem de ser pensada e colocada em prática, as classes devem ser extintas e a remuneração não deve ser pautada só pelo estudo, mas também pelo impacto que dada função gera na sociedade, uma equipe de garis salva mais vidas que qualquer equipe de médicos, logo os garis deveriam receber mais ou igual aos médicos.

 

A estrutura atual, "quem estuda mais ganha mais" é a política dos ricos e poderosos, que fazem de tudo para que a maioria e aqueles que querem que fique a margem não possam crescer pois não conseguem estudar ou não conseguem estudar tanto quanto, é uma política de segregação e manteneção de classes para servirem como escravos.

 

Estas en la diabla metiejo kien mi ŝatas labori.

 
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ruyacquaviva

Quando houve aquele episódio com o execrável Boris Casoy, algumas pessoas (incluindo claro toda a trollagem tucana) disseram que estávamos fazendo uma "tempestade em copo d'água", mas este post tão oportuno mostra que o caso é bem outro.

O preconceito de classe é um dos mais arraigados na nossa sociedade. Estudando a História de nosso PAís encontramos as fortes raízes culturais desse preconceito. O episódio Casoy foi um momento onde esse preconceito aflorou de forma peremptória e cabia sim um efetivo e enfático repúdio, além de uma demonstração inequívoca de solidariedade a essa profissão, bem como a todas as outras profissões que são igualmente alvo de preconceito.

Uma das formas das pessoas tentarem se valorizar é desvalorizando os outros. Isso é mais preemente entre aqueles desprovidos de valor próprio e que portanto ficam restritos a essa forma de auto-indulgência. E aí tudo pode ser desculpa para atacar seu semelhante e tratá-lo como diferente. Raça, nacionalidade, religião, classe social e até mesmo profissão.

Acho importante refletirmos sobre como é importante rechaçar com a devida ênfase as manifestações de preconceito, para chegarmos a construir uma sociedade mais justa.

 
 
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Douglas Portari

Caros,

Essa realidade é comum a diversas profissões.

Assim como garis, sepultadores também sentem essa invisibilidade - e até aversão. Percebo isso em um projeto que venho tocando, ainda em fase inicial, com entrevistas com trabalhadores do Brasil.

Chama-se Dicionário Ilustrado de Ofícios - http://dicionariodeoficios.blogspot.com/.

Mesmo nos casos em que o trabalhador tem consciência da importância de seu ofício, o discurso hegemônico, depreciativo e, consequentemente, as pobres condições de trabalho e reconhecimento, geram um automenosprezo.

Abraços,

Douglas Portari

 
 
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Maria do Carmo Zanini

Eu aprendi cedo, muito cedo, a olhar as pessoas nos olhos e tratá-las com o merecido respeito. Como dizia a dona Alzirinha Pratti, de Sertãozinho/SP: "Depois de morto, todo mundo fede igual".

 
 
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Kid Prado

No caso do mencionado Borris CCCasoy, ele já fede muito mesmo estando vivo. Não conheço nenhum comentarista ou locutor de TV que seja tão asqueroso quanto ele. Olha que tem muitos fedorentos nesta atividade por aí, mas o orelhudo da UDR/Band extrapola!

 

Kid Prado

 
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Alan Souza

Trabalho na Esplanada dos Ministérios, coração da Administração Pública Federal, e posso afirmar que existe, sim, gente que nem sequer olha para o pessoal da limpeza, que é toda teceirizada. Eu cumprimento a todos, alguns que são mais antigos eu conheço pelo nome, sei de detalhes das suas vidas pessoais, sei que tem filhos, que estudam e almejam melhorar de vida. Enfim, convivo com eles, da mesma forma que com os servidores de carreira. Na verdade, convivo melhor com eles do que com alguns colegas da carreira...

Mas isso não é exclusivo do pessoal da limpeza. Talvez pelo trabalho que fazem, eles sejam mais ignorados que os demais. Mas terceirizados em geral (inclusive administrativos) e estagiários são vistos por algumas pessoas como inferiores - isso quando são vistos.

Ora, por que estou falando de terceirizados e estagiários? Eu mesmo sou servidor de nível superior, concursado, com 16 anos de casa e cargo de chefia, e eu mesmo sou ignorado por certos colegas, que foram alunos meus quando entraram no Serviço Público, nos cursos de formação da carreira! Se ignoram a mim, imagina aos terceirizados, estagiários e ao pessoal da limpeza! 

O problema, concluo eu, é o ser humano mesmo, que é feito de barro ordinário...

 

Demóstenes Torres na cadeia: uma campanha pelo bem do Brasil!

 
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Fátima Sá

Sempre que passo por um gari, cumprimento-o ... e sempre recebo  em troca um sorriso de bom dia, boa tarde. 

 
 
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Durvaldisko

Curiosamente no Rio de  Janeiro,garis   são  até  estrelas dos desfiles  de escola samba.Dão  show  à parte     no intervalo  ,entre  uma e outra.

Será a praia ou a falta  dela?Síndrome  de Av..Paulista? Ou    a tradicional arrogância  burguesa?

 
 
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Daniel Campos

E dando uma cutucada na ferida... A sociedade é capaz de perfeitamente sobreviver sem advogados, desembargadores e assemelhados. Demoraria um bom tempo para a falta deles ser percebida pela população (afinal a nossa justiça é uma tartaruga manca e com preguiça).

Mas se os garis e a turma da limpeza desaparecerem, na semana seguinte a cidade estaria - literalmente - um caos. Uma cidade não sobrevive muito tempo sem garis.

É algo a se pensar, não?

 
 
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Murdok

Na minha cidade tenho um grande amigo que é gari. Homem honesto,  trabalhador e inteligente.


A sindrome do Boris Casoy deve atingir pessoas que ainda não acordaram para os novos tempos.

 
 
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Glauber

Eu acho que nos estamos discutindo na verdade um traco da cultura brasileira, que eh fundamentada na ideia da Casa Grande e da Senzala. Nos nunca vimos trabalhadores bracais como iguais, mas tao-somente como uma classe inferior de trabalhador.

 

"Toda unanimidade é burra." Nelson Rodrigues

Obs.: mas nem todo ceticismo é inteligente.

 
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jc.pompeu

microconto para twitter e orquestra de 140 toques

da vida que nos toca


37.

 

Apitos, gritarias, cheiros, azedumes, motores, risadas...Penso feliz. O caminhão de lixo passa na rua. Até quando darão conta de tanto lixo?

 

jc.pompeu, mar 2011




 

análise recente do DNA: 32% africano, 25,48% europeu, 22,78% indígena, 6,06% indo-árabe, 4,99% caucasiano, 4,36% judeu, 2,57% pantroglodita, 1,76% de genes perdidos ou não-funcionais.

 

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