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Os acertos de conta no Dia dos PaisEnviado por luisnassif, dom, 08/08/2010 - 18:28Por Reinaldo "Se o Criador - o pai do Céu -, Deus, a grande Vida, o universo vivo e inteligente, o grande espírito do mundo, seja qual for o nome, esse que existe acreditemos nele ou não, onipresente, onisciente e onipotente..." Por que eu destruiria esta retórica falaciosa? Pela ausência de meu pai? Ele viveu 86 anos, fez suas escolhas (a maioria delas com absoluto erro, um dos quais resultou em mim) e morreu, não em paz! Deste almoço (o de hoje) ele não participa e não participará de nenhum outro. Lamento? Não! Seria um bom texto sem este placebo divino que alguns insistem em usar para justificar uma infinidade de escolhas (certas ou erradas) que resultaram no momento presente. Na qualidade (ou defeito) de filho poderia desconstruir este "almoço" em família, mas estou sem paciência com as fórmulas mirabolantes ou com as justificativas injustificáveis! Somos resultado de um processo. Ponto! Meu pai foi apenas um animal que cumpriu o papel que lhe cabia na perpetuação (ou tentativa dela) da espécie. Eu repito a fórmula, bem ou mal e me fiz pai da mesma forma. Meus filhos? Não sei ainda, mas espero que façam da mesma forma e aprimorem o gênero humano. E, a despeito do que me queiram imputar aqui, apenas espero que o façam sem que se considerem animais melhores que os outros ou que, sob a ótica religiosa, considerem-se "sui generis". Meu pai foi homem de bem. Espero continuar sendo e que meus filhos o sejam! O resto? O resto é uma foto amarelada, uma lembrança que parece resistir ao tempo e uma saudade daquilo que não ousamos ter feito quando deveríamos, ou do que fizemos quando era preciso...
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Comentários + votados
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Carlos Biasoli
08/08/2010 - 19:20
Eu não tive pai, fui adotado e muito mal tratado, hj me dedico a dar o amor e educação que não tive, aos meus filhos. Esse poema fiz pro meu promogênito, na verdade é um poema que mais serve...
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Reinaldo
08/08/2010 - 19:49
Fosse apenas um comentário no post mais abaixo [O almoço do Dia dos Pais - por Luiz Horácio] e eu passaria incólume, mas o Nassif achou por bem explorar o contraditório e pôs o que escrevi em...
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Sergio Saraiva
08/08/2010 - 20:10
Perdi meu pai aos 19, 20 anos, justamente quando começava a entendê-lo como homem, como companheiro. Não "troquei de mal com Deus por me levar meu pai" mas que ele me fez muita falta e até hoje faz....
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Dulce
08/08/2010 - 20:36
Não tenho contas a ajustar...só tenho lembranças amorosas.
Perdí meu pai aos 23 anos de idade...faz tempo!
Desde criança ouvia minha mãe contar que dos três filhos, desde o segundo meu...
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Cafezá
08/08/2010 - 21:01
O seu texto é muito belo, Reinaldo. Pungente e em que se percebe que foi escrito com os pés no chão. Você, talvez, estivesse num balanço, com os pés para o alto e com o vento nos cabelos, sendo...
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Jose Miguel Rasia
08/08/2010 - 21:36
Lendo o post do Reinaldo em veio a lembrança desse poema de nossa querida e doce Adélia. Que ela me perdoe se tem algum erro, mas estou com preguiça de conferir o livro.
"Certa vez meu...
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roubrdario diniz valerio
08/08/2010 - 21:42
Felizes os que puderam conviver muito com o seu. Perdi o meu quando tinha 9 anos . ue e mais cinco irmão mais novos. Mas a escola que estudei foi por indicação dele. Pasavamos de onibus em frente a...
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Adriano de Souza
08/08/2010 - 22:05
Pai é quem cria, não o doador de esperma. Infelizmente a sociedade brasileira, provavelmente influenciada por essas novelas onde o mais importante é saber de onde vieram os gametas, não tem noção da...
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Pedro M.
08/08/2010 - 22:17
Um belo depoimento, com a sinceridade que poucos tem!
Todos temos uma história de vida, ela é única e é a nossa história. Acho que estamos neste mundo exatamente para isso, acertar nossas contas do...
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Reinaldo
08/08/2010 - 22:52
Você me impressiona!
Acha mesmo que desejo impressionar alguém? Acredita na curta bobagem que escreveu? Patético, mas "graças a Deus" pela liberdade de expressão! Ops, esqueci que sou ateu!
Fala...
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Vantuil Barbosa Filho
08/08/2010 - 23:35
Pai Fábio Jr.Composição: Fábio Jr.
Pai! Pode ser que daqui a algum tempo Haja tempo prá gente ser mais Muito mais que dois grandes amigos Pai e filho talvez...
Pai! Pode ser que daí você sinta...
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Fr@ncisco
09/08/2010 - 01:54
Para animar a festa:
O Peru de Natal
Mário de Andrade
O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de conseqüências decisivas para a...
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Jair Fonseca
08/08/2010 - 22:29
Alaíde Costa arrepia discretamente, como sempre, nessa interpretação de Pai grande, de Milton Nascimento, acompanhada ao violão pelo próprio e por orquestra. Vídeo raro, ou ex-raro.
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Fuhgeddaboudit™
08/08/2010 - 19:07
O que o comentarista resumiu é, com certeza, algo muito mais profundo e complexo (o que ele deixou nas entrelinhas).
O mundo atual, não mais permite que existam, para todos, "o almoço...
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candido
08/08/2010 - 19:45
Gostei!Agora é só você para o divan....resolver esses seus problemas da infância!
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luisão
08/08/2010 - 19:58
Ooooorrrraaaaa, meu! Acho que te faltou hoje no almoço foi a costela macia que o meu genro fez na brasa, o maravilhoso bolo de morangos e abacaxi que a minha mulher fez, os brigadeiros maravilhosos,...
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Sanzio
08/08/2010 - 21:18
Ué, arregou porquê? Vai gastar dinheiro com psicanálise e se entender na vida, ou deixe de escrever bobagens só para impressionar.
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O que o comentarista resumiu é, com certeza, algo muito mais profundo e complexo (o que ele deixou nas entrelinhas).
O mundo atual, não mais permite que existam, para todos, "o almoço do Dia dos Pais" (o das Mães, ainda, consegue um percentual, bem maior, de equilibrada e verdadeira adesão - mas, não como no passado); e não sabemos o que nos reservará o futuro.
Isto, só a "Evolução da espécie", através dos espermatozóides vencedores, definirá.
O enígma está no fato de, esses espermatozóides campeões, serem, sempre, os mais fortes, mas, nem sempre, os mais inteligentes, e que dominem o equilíbrio e a razão.
Ou eu encontro um caminho ou eu o faço! Philip Sidney.
Eu não tive pai, fui adotado e muito mal tratado, hj me dedico a dar o amor e educação que não tive, aos meus filhos. Esse poema fiz pro meu promogênito, na verdade é um poema que mais serve pra mim do que qualquer coisa. Em seguida a maior música feita por um filho a um pai
Meu Maior feito
Por Carlos Biasoli
Eu, enquanto sentado nesse sofá
Soldado da Corneta enquanto todos dormem
Penso nos meus feitos futuros:
países a conquistar, clássicos a escrever, frases para posteridade
Quando vejo meu filho, (outro soldado da corneta)
que vem ao meu encontro
Ele me beija a face,
diz o quanto me ama; eu ser recíproco o admiro
Ele se deita ao meu colo e me pede:
Papai, pega meu tetê
Corro a cozinha, engenheiro perspicaz,
derramo água morna, duas colheres de leite em pó e uma de chocolate q ele tanto aprecia
Venho chacoalhando a mamadeira e lhe entrego com orgulho
Depois fico aqui ao lado, admirando com devoção,
a minha maior obra, o meu maior feito
Diogo Nogueira canta Espelho de João Nogueira
http://blogdobiasoli.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=547&Itemid=31
Nassif,
O que achou da entrevista de Boris Fausto, ao Estadão de hoje?
Veja aqui: http://migre.me/13gQQ
Triste.
Gostei!Agora é só você para o divan....resolver esses seus problemas da infância!
um belo acerto de contas, reinaldo.
e, fazendo uma garimpagem, me vejo muito diferente da maioria.
meu pai, meus pais... acho que minha história, uma história simples e banal, não serve de referência: sinto que, cedo, muito mais eduquei meus pais do que fui por eles educada... eles me queriam professora normalista (e era muito) e casada ainda menina. contrariei todas estas vontades. e eles tiveram tempo de sentir orgulho da minha teimosia! podia até ter sido melhor, mas foi o suficiente para inaugurar uma outra forma de ver o mundo...
Fosse apenas um comentário no post mais abaixo [O almoço do Dia dos Pais - por Luiz Horácio] e eu passaria incólume, mas o Nassif achou por bem explorar o contraditório e pôs o que escrevi em evidência. Agora me cabe esclarecer algumas coisas, antes que se evidencie a minha falta de tato com as palavras:
Levei bem mais de quarenta anos para compreender meu pai, mas temo que ele tenha morrido sem me compreender. Nascido e criado na roça ele conheceu seus primeiros sapatos aos 11 anos e cursou três anos naquelas típicas escolas rurais da década de 30. Saiu da roça (um trabalho de sol a sol) para tentar a sorte no Rio de Janeiro, trabalhando na manutenção da Estrada de Ferro Central do Brasil. Socar pedrras, carregar dormentes e trilhos etc. Contava ele que trabalhou na via férrea durante os jogos da Copa de 1950. Talvez tenha sido o mais perto que chegou do Maracanã. Era um homem sem cultura, mas também sem medo do trabalho. Foi quando cometeu seu primeiro grande erro e voltou para o interior de Minas, onde conheceu e casou-se com minha mãe. Sou produto deste erro (o casamento), assim como sete de meus oito irmãos. Em 1972 ele trocou um vício (o álcool) por outro (a religião). Foi afastado da família em 1974, com separação e divórcio, mas continuou sendo um rude homem de bem. Ainda questiono sua aceitação da religião como norma de vida (sua religião e suas normas). Voltamos a viver sob o mesmo teto anos depois, mas algo havia se rompido nos anos de distanciamento e pouco nos conhecemos. Teve seus bons momentos de orgulho (ainda que poucos) e continuou a vida, sem uma nova esposa até 1999, quando teve incentivo de membros de sua igreja para cometer seu segundo grande erro, que foi casar-se novamente com a mesma mulher, 25 anos depois!
Preciso sair com meus filhos agora... então, resumo:
Quando meu pai teve um AVC em 2007, veio morar comigo. Foi quando o conheci realmente e percebi o homem admirável que era. Eu o carregava no colo, dava-lhe banhos constrangedores e ajudava-o a se vestir. Recuperou-se muito bem, convivendo comigo, minha mulher e filhos, além de ter reconquistado a atenção dos demais filhos e netos. Foi num almoço de domingo, aos 85 anos que ele confessara jamais ter comido um morango antes daqueles que saberoou com os olhos mareados... Esse era o pai que eu descobrira.
Lamento que minha esposa tivesse descoberto e operado um câncer na mesma época, fato que o fez recusar meu insistente pedido para que vivesse na casa ao lado da minha. Menos de um ano depois ele faleceu (é uma outra história). Tivemos nossas diferenças, mas seu maior erro resultou em mim! Então, nestes domingos há uma certa reflexão existencialista e eu gastaria milhares de páginas para tentar explicar!
Mas, repito: Meu pai foi um homem de bem e morreu de paixão! Foram suas escolhas e ele exerceu o direito de fazê-las!
Abraços a todos!
Um belo depoimento, com a sinceridade que poucos tem!
Todos temos uma história de vida, ela é única e é a nossa história. Acho que estamos neste mundo exatamente para isso, acertar nossas contas do passado e no presente construírmos um outro futuro.
Para muitos, descobrir os valores dos nossos pais, pode parecer ser tardiamente, mas creio ser um engano, porque vale mesmo é a lição que tiramos disso tudo. E a melhor lição nesse caso é aprender a perdoar, acima de tudo, nós mesmos...
Parabéns Reinaldo, você escreveu um belo texto e ainda saber que seu pai foi ferroviário e trabalhou na mesma empresa que eu trabalhei a ex RFFSA me motivou a ler todos os comentários, inclusive o seu acima que achei excelente e esclarecedor.Abs.
webster franklin
Com o perdão da má palavra, um puta texto! Franco, sincero, forte. Eis tudo.
Leider Lincoln
Ooooorrrraaaaa, meu! Acho que te faltou hoje no almoço foi a costela macia que o meu genro fez na brasa, o maravilhoso bolo de morangos e abacaxi que a minha mulher fez, os brigadeiros maravilhosos, a cerva gelada e a onipresença do véio pai, que deve tá lá no purgatório, mas hoje deve ter subido um pouco prá festejá com a minha santa mãe logo lá prá cima. E ficaram sorrindo prá nós pelo nosso encontro amoroso.
Perdi meu pai aos 19, 20 anos, justamente quando começava a entendê-lo como homem, como companheiro. Não "troquei de mal com Deus por me levar meu pai" mas que ele me fez muita falta e até hoje faz.
Não sou espelho dele, sou na verdade antítese, mas não opositor. Meu pai deixou-me de herança a idéia de que o sonho é o que move o homem. Não deixou-me mais nada, tudo que ele tinha de material ao morrer eram poucos cruzeiros no bolso. Dei-os para os homens da funerária que me ajudaram a preparar o seu corpo para o enterro.
Ainda lembro do adágio que conduziu a sua vida: "no fim tudo dá certo, se ainda não deu certo é porque ainda não é o fim". Meu pai estava errado. Um dia foi o fim e tudo estava longe de estar certo.
Guardei sua lembraça e segui outro caminho.
A pergunta sobre se há Deus, verdade ou realidade - ou como se queira chamá-lo - jamais será respondida pelos livros, pelos sacerdotes, filósofos, cientistas ou salvadores. Ninguem e nada pode responder a essa pergunta, porem, somente vós mesmo, e essa é a razão por que deveis conhecer-vos. Só há falta de madureza na total ignorância de si mesmo. A compreensão de si próprio é o começo da sabedoria...
Como vedes, não podeis depender de ninguem. Não há guia, não há instrutor, não há autoridade. Só existe vós, vossas relações com os outros e com o mundo. e nada mais. Quando se percebe esse fato, ou ele produz um grande desespero, causador de pessimismo e amargura; ou, enfrentando o fato de que vós e ninguém mais sois o responsável pelo mundo e por vós mesmo, pelo que pensais, pelo que sentis, pela maneira como agis, desaparece de todo a autocompaixão. Normalmente gostamos de culpar os outros, o que é uma forma de autocompaixão...
J. Krishnamurti - Do livro - Liberte-se do Passado.
Não tenho contas a ajustar...só tenho lembranças amorosas.
Perdí meu pai aos 23 anos de idade...faz tempo!
Desde criança ouvia minha mãe contar que dos três filhos, desde o segundo meu pai queria uma menina. A cada "cantada" em que concordava com mais uma gravidez, era esperando "A" menina de meu pai. Ríamos muito com esta história.
Diziam que eu tinha vindo para a vida, a CONVITE, PELA INSISTÊNCIA dêle :)
Saber disso, desde tenra idade, deu-me A SEGURANÇA de ser amada.
Isso foi MUITO POSITIVO para toda a minha vida ADULTA.
Andar na garupa de um cavalo em disparada, "vale" 5 anos. Viajar sentada no banco de trás de um jipe, enforcando o pai em um abraço, "vale" 6 anos. Sentir-se AMADA pela vida inteira, "NÃO TEM PREÇO". :))
O Pai é o primeiro homem da vida das meninas...quando deixa boas lembranças...todos os outros homens do mundo deveríam agradecer... ;))) com certeza não encontrarão uma "encrenqueira" no futuro.
Perdoem-me...mas hoje está liberado colocar o coração no teclado :)
Abs.
O seu texto é muito belo, Reinaldo. Pungente e em que se percebe que foi escrito com os pés no chão. Você, talvez, estivesse num balanço, com os pés para o alto e com o vento nos cabelos, sendo empurrado por seu pai, quando teve o primeiro ímpeto de escrever esse testemunho maravilhoso. Deve ter pensado que quando crescesse escreveria uma boa homenagem ao seu pai. Seu pai pode ter dado um empurrão mais forte que fez com que você caísse no chão. Daí a impressão de que é um texto escrito com os pés fincados na realidade. Também pode ter ralado os dedinhos no solo, machucando as unhinhas. Mesmo assim, manteve o desejo de escrever a homenagem. E que sensacional homenagem você produziu.
Seu pai perpetuou a espécie e você é um produto maior desse grandioso gesto animal. Lá estava você, ainda incipiente, no plano do seu pai. Lançado no universo, com a colaboração da sua mãe, para ser livre e um dia escrever esse texto realisticamente perfeito. Não foi um erro seu ou do seu pai. Afinal, ele sequer sabia que você estava lá. E você, em compensação, também não sabia que sairia dali. O destino implacável os uniu vida afora. Pai e filho, com todas as vicissitudes que esse relacionamento engendra. O filósofo Blaise Pascal filosofou:
Por que nasci na hora, no dia, no mês, no ano, no século do milênio em que nasci...Por que não em outra data...Algém me responda, por favor! Me façam essa caridade!
São os mistérios da vida, Reinaldo. E você tocou nesse mistério e o tirou de letra, nas letras desse seu fabuloso texto. Ao escrever sobre o real, você mostrou que ama o seu pai. Foi uma atitude de amor.
E feliz dia dos pais.
Ué, arregou porquê? Vai gastar dinheiro com psicanálise e se entender na vida, ou deixe de escrever bobagens só para impressionar.
Você me impressiona!
Acha mesmo que desejo impressionar alguém? Acredita na curta bobagem que escreveu? Patético, mas "graças a Deus" pela liberdade de expressão! Ops, esqueci que sou ateu!
Fala sério!
Psicanálise?
Acho que é pouco satisfatório!
No caso, a terapia bioenergética do Lowen...
Lendo o post do Reinaldo em veio a lembrança desse poema de nossa querida e doce Adélia. Que ela me perdoe se tem algum erro, mas estou com preguiça de conferir o livro.
"Certa vez meu pai pintou a casa
de vermelho alaranjado.
Era como ele sempre dizia:
vivíamos numa casa constantemente amanhecendo"
(Adélia Prado)
Felizes os que puderam conviver muito com o seu. Perdi o meu quando tinha 9 anos . ue e mais cinco irmão mais novos. Mas a escola que estudei foi por indicação dele. Pasavamos de onibus em frente a Escola tenica Federal de Minas Gerais (atual Cefet) e elle disse: quando tiver tiver idade vc estudara aqui. estudamos eu e todos os meus irmãos. Nos seus ombros particiei de meu primeiro comicio politico na Praça da Central em Belo Horizonte O palanque emuldurado por enrme retrato de Getulio Vargas. Nas eleições ele de terno para ir votar. me ensinou amr omeu país.
Pai é quem cria, não o doador de esperma. Infelizmente a sociedade brasileira, provavelmente influenciada por essas novelas onde o mais importante é saber de onde vieram os gametas, não tem noção da verdadeira paternidade.
Muitos filhos são resultados de acidentes, e é difícil se enxergar como um acidente, mas é isso, um acidente. O que faz alguém realmente se tornar pai, na minha opinião, é o papel que terá na vida do filho.
pois é, eu me sinto uma minoria lendo esse texto e alguns comentarios, meu pai me deu amor e carinho, mas também soube me repreender quando foi preciso, trabalhou duro para poder dar uma boa educação para mim e meu irmão, não me lembro de nenhuma atitude dele que eu pudesse reprovar ou questionar, se bem que sou da epoca em que pais e professores eram para ser respeitados.
Raras foram as vezes que ele me bateu, e eu mereci todas elas, me mostrou o bom caminho, e tento segui-lo, hoje ele fez questão de fazer o almoço, e estava bom, porque estava com ele e meus familiares. Um simples almoço em familia,
"A verdade é a melhor camuflagem. Ninguém acredita nela." Max Frich
Não pude deixar de notar esta postagem, até porque sou daqueles que não gosta de dias comerciais. Gosto de meu pai do jeito que é e demonstro esse amor todos os dias. Ele sabe que eu não ficar desejando feliz Dia dos Pais é justamente uma forma de protesto silencioso contra a artificialidade e a hipocrisia dessas ocasiões.
Consigo ter com ele uma naturalidade que não tenho com minha mãe tão afeita a formalidades. Reconheço ser coisa rara, uma vez que o mais comum seria que os filhos se ligassem à mãe e as filhas, ao pai. Para minha mãe, se não desejamos feliz Dia das Mães ou dos Pais, é como se fôssemos as piores pessoas do mundo, mesmo que sejamos os primeiros a ajudar aqueles que de nós precisam. E quantas não foram as vezes em que precisamos ajudar...
Vejo meu pai e noto o quão difícil a vida dele foi. Foi arrimo de família, pagou sozinho a hipoteca da casa de seus pais tão simples, recusou ir morar em outro país justamente por causa dessas duas pessoas simples e de pouca escolaridade que o puseram no mundo e mais uma série de coisas. Demorou para ter filhos, mas quando os teve foi extremamente dedicado. Apesar de ter muito trabalho, sempre arranjava um tempinho para ser pai, seja passeando de carro com as crianças e botando em dia a conversa, seja lendo historinhas antes de dormir, entre outras tantas coisas. Os bons exemplos que dele tive foram úteis para ser quem sou.
Foi nervosinho umas boas décadas de sua vida, até descobrir que tinha um desequilíbrio hormonal. Repôs o que seu corpo não produzia direito e imediatamente deu para ver a alma doce que não conseguia se expressar por causa da fisiologia alterada. Hoje pergunto a ele sobre quantas devem ter sido as vezes em que ele explodiu com alguém e que era puramente a tal descompensação e ele me responde que não quer nem saber. Imagino que o faça sofrer. Por recomendação da médica dele, fui fazer exame de dosagens hormonais e, graças a Deus, sou alguém normal nesse campo. Ao menos ele me ensinou, sem querer ensinar, a identificar quem tem problemas que nem ele e como agem. E é impressionante o quão em cima é o acerto.
Apesar de acometido por alguns males crônicos, ele é quem menos me dá preocupação, em que pese fazer tudo normalmente, dentro de uma rotina típica de aposentado. Cuida direitinho da saúde, ainda que ande meio encanado com umas coisas. Agora deu de não querer dirigir, em que pese tê-lo feito sem maiores problemas recentemente e não haver qualquer contrarrecomendação médica. Tudo bem que ele não gosta de dirigir, mas quando trintão viajou de carro para Assunção com minha mãe, sendo que ela não dirige.
E esse é o pai que tenho. Acho injusto desejar-lhe feliz Dia dos Pais, até porque para mim isso é todo dia. Ele sabe que pode contar comigo e eu com ele.
Rastreado 24 horas/dia via patrulha ideológica
Alaíde Costa arrepia discretamente, como sempre, nessa interpretação de Pai grande, de Milton Nascimento, acompanhada ao violão pelo próprio e por orquestra. Vídeo raro, ou ex-raro.
Pai Fábio Jr.Composição: Fábio Jr.
Pai!
Pode ser que daqui a algum tempo
Haja tempo prá gente ser mais
Muito mais que dois grandes amigos
Pai e filho talvez...
Pai!
Pode ser que daí você sinta
Qualquer coisa entre
Esses vinte ou trinta
Longos anos em busca de paz...
Pai!
Pode crer, eu tô bem
Eu vou indo
Tô tentando, vivendo e pedindo
Com loucura prá você renascer...
Pai!
Eu não faço questão de ser tudo
Só não quero e não vou ficar mudo
Prá falar de amor
Prá você...
Pai!
Senta aqui que o jantar tá na mesa
Fala um pouco tua voz tá tão presa
Nos ensine esse jogo da vida
Onde a vida só paga prá ver...
Pai!
Me perdoa essa insegurança
Que eu não sou mais
Aquela criança
Que um dia morrendo de medo
Nos teus braços você fez segredo
Nos teus passos você foi mais eu...
Pai!
Eu cresci e não houve outro jeito
Quero só recostar no teu peito
Prá pedir prá você ir lá em casa
E brincar de vovô com meu filho
No tapete da sala de estar
Ah! Ah! Ah!...
Pai!
Você foi meu herói meu bandido
Hoje é mais
Muito mais que um amigo
Nem você nem ninguém tá sozinho
Você faz parte desse caminho
Que hoje eu sigo em paz
Pai! Paz!...
Vi este post tardiamente...Já não é dia dos pais. Mas quero falar do meu.
Meu pai é meu homônimo. Ou sou dele, sei lá. Foi ator, dramaturgo, escritor e diretor de teatro e cinema em SP. Por força de suas convicções - era anarquista, mas convivia lado a lado com socialistas, trotskistas, marxistas no Teatro de Arena, no antigo Centro Cultural e na cena artística de São Paulo - teve uma postura contrária ao Golpe de 64. Quase foi preso no Sindicato dos Bancários na data fatídica da repressão (junto com tanta gente), mas conseguiu se livrar por milagre. Não era revolucionário, muito menos uma ameaça: era um intelectual (com todos os prós e contras que tal alcunha carrega) que escrevia bem. Só. Foi preso em 1968, no DOPS, quando do AI-5. Ficou duas semanas lá, nunca falou o que ocorreu lá dentro, mas tremia toda vez que via um PM na rua. A vida inteira. Ficou na lista negra do rádio, da TV, e acabou fazendo filmes eróticos e pronográficos na Boca do Lixo, para sobreviver (é só digitar no Google o nome dele e está a filmografia lá). Minha infância não foi fácil por isso, passei algumas privações, o peso do custeio da vida ficou para minha mãe (hoje professora aposentada). Não chorei sua morte (o que foi errado) e só o entendi algum tempo atrás: nos amou do seu jeito, da forma que entendeu ser a melhor para expressar sua emoção (não trazia dinheiro, mas levava um café com leite na minha cama, toda manhã). Foi um avô maravilhoso para meu filho (hoje com 17 anos). Por isso, reproduzo um poema que escrevi para ele, depois de reconhecer que, depois do Golpe de 64, ele foi uma mera sombra, pálida reprodução do notável homem que poderia ter sido:
Título: Em Abril (In Memoriam)
Em abril
Meu mundo morreu
Minha vida ruiu
Deixei de existir.
Em abril
Desvaneceu
Sucumbiu
O sonho de um porvir.
Em abril
Ninguém esqueceu
O que se perdeu
E eu busquei pra tudo um elixir.
Em abril
Morreu a esperança
Mataram a criança
Que era o futuro que poderia existir.
Em abril
Fechou-se a cadeia
Inexorável teia
Que amarrou meu futuro existir.
Em abril nasci, vivi e morri.
Waldyr Kopezky
Para animar a festa:
O Peru de Natal
Mário de Andrade
O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de conseqüências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.
Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a idéia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.
Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a idéia de fazer uma das minhas chamadas "loucuras". Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de "louco". "É doido, coitado!" falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.
Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras":
— Bom, no Natal, quero comer peru.
Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.
— Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania... Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo...
— Meu filho, não fale assim...
— Pois falo, pronto!
E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.
Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus "gostos", já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.
Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a... culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:
— É louco mesmo!...
Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado:assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.
— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!
Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só-pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus... Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.
— Eu que sirvo!
"É louco, mesmo" pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo de um pedaço admirável da "casca", cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:
— Se lembre de seus manos, Juca!
Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.
— Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!
Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos... Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.
Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.
Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.
— Só falta seu pai...
Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:
— É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente... (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.
E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que "vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai", um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.
Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever «felicidade gustativa», mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.
Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!
A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor... Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de "bem-casados". Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.
Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!...
Reinaldo, voce procure ler um livro psicografado por Divaldo Franco ou Chico Xavier, que fale sobre processos de resgates cármicos.
Tudo nessa vida é ação e reação, mais cedo ou mais tarde. É lei científica, de equilíbrio e conservação da energia, que é tudo, inclusive massa, já descoberto pelo homem.
Voce fez a sua parte, cuidar do seu pai e ele, não cometeu erro ao gerar voce. Se foi pouco ou muito, os atropelos da existência, todos nós cometemos.
Às vezes, sofremos muito, por analisar e conluir, acerca de alguns acontecimentos da vida, situações que quase sempre, não conhecemos todos os fatores que atuaram sobre eles
Deus, existe, porque coisa alguma surge do nada, nem a "combustão expontânea" é tão expontânea assim, o big bang, se ocorreu, foi de algum potencial para fazê-lo.
Siga em frente com otimismo, o futuro, a Deus pertence....
Sdc
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