Os 60 anos de "O Petróleo é Nosso", por Mino Carta

Por Webster Franklin

Da CartaCapital

Sessenta anos depois

Por Mino Carta

"O petróleo é nosso". Esta batalha os vetustos donos do poder perderam. Foto: José Vieira Trovão / Ag. Petrobras

Há 60 anos, estudante de Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, cheguei a me sentir pessoalmente atingido pelos editoriais dos jornalões. Mania de grandeza, a minha. A velha e sempre nova academia tornara-se um centro importante das manifestações que agitavam o País consciente à sombra do lema “O Petróleo É Nosso”. Bandeira altiva e justa, desfraldada na perspectiva de um futuro que imaginávamos muito próximo. A mídia reagia enfurecida, clamava contra tamanho atrevimento, forma tola de nacionalismo a ignorar a nossa incompetência e nossos compromissos internacionais.

Os jornalões mastigavam fel diante de um duplo desafio: contra as irmãs do petróleo e, pior ainda, contra o império americano em plena Guerra Fria, contra aquele Tio Sam chamado pelo Altíssimo a nos defender da ameaça marxista-leninista. Era a irredutível vocação de súdito-capacho pronunciada com a pompa do estilo cartorial, próprio dos editoriais daquele tempo, e deste até.

Nos jornais de hoje leio que a direção da Petrobras foi trocada pela presidenta Dilma, insatisfeita com a gestão e determinada a controlar mais de perto o desempenho da estatal. Onde será que os perdigueiros das redações colhem informações? Antes de incomodar meus pacientes botões, anoto a observação de um amigo: “Na própria reunião de pauta”. Ou seja, antes de sair a campo, o perdigueiro sabe, pela ordem da chefia, o que haverá de contar aos amáveis leitores.

Da boca de Lula já ouvi a seguinte consideração: “Se o presidente da República conta no máximo com oito anos de mandato, por que o diretor de uma estatal deveria ter mais?” A troca da guarda na Petrobras estava decidida há tempo, mas a presidenta Dilma não tem motivo algum de insatisfação a respeito da gestão de José Sergio Gabrielli. É do conhecimento até do mundo mineral que, sob o comando de Gabrielli, o valor de mercado da Petrobras fermentou de 14 bilhões de dólares para 160, o pré-sal foi descoberto e o Brasil tornou-se o 11º produtor de petróleo do mundo. Segundo The Economist, por essa trilha chega a quinto até 2020.

As pedras sabem também que Dilma Rousseff, depois de ocupar a pasta de Minas e Energias no primeiro mandato de Lula, ao assumir a Casa Civil passou a acumular a presidência do Conselho de Administração da Petrobras e manteve estreita ligação com Gabrielli. Talvez a mídia nativa continue aquém do mundo mineral. Reconheça-se, contudo, a sua coerência. Ao longo dos últimos 60 anos, o petróleo ficou claramente nosso e a Petrobras tornou-se uma realidade empolgante, mas a mídia não mudou. Em relação a estas questões, a sua contrariedade se mantém, além de transparente, patética.

Por 60 anos a fio, os barões do jornalismo não perderam a oportunidade de tomar o partido do Tio Sam e das irmãs do petróleo até ensaiar a revanche ao propor a privatização da nossa estatal. Devemos atribuir a um milagre o fato de que Fernando Henrique não tenha atendido aos insistentes, poderosos pedidos. Certo é que a tentação o roçou perigosamente. Quem sabe caiba um agradecimento especial a Nossa Senhora Aparecida se os editorialões acabaram por cair no vazio.

Agrada-me recordar 1952 e aquele fervor juvenil. Ali nasceu a Petrobras com a chancela de Getúlio Vargas, figura contraditória de estadista manchada pelo período ditatorial e valorizada pela visão do futuro, partilhada, por exemplo, pela juventude do Largo de São Francisco. Getúlio era então o presidente eleito, empenhado em firmar os caminhos da industrialização inaugurados por obras como Volta Redonda, as Leis do Trabalho, a criação do salário mínimo. A imprensa só enxergava então os riscos da mudança, ameaça para tudo aquilo que representava. A Petrobras seria mais um pecado getulista, a ser pago, juntamente com os demais, pelo tiro que ecoou no Catete na manhã de um dia de agosto de 1954. Ocorre-me que o desespero do suicida tenha aflorado com prepotência ao perceber a resistência insana dos vetustos donos do poder e ao imaginar por isso um futuro bem mais distante do que esperavam os moços do Largo.

Nenhum voto
4 comentários
imagem de Andre Araujo
Andre Araujo

A questão do Petroleo é Nosso deve ser vista dentro do contexto macro mundial e não somente como um caso paroquial brasileiro. A partir do fim da Segunda Guerra começou a desenhar-se o novo mapa do petroleo mundial, como novos atores, as companhias estatais de petroleo. Não foi só no Brasil.

Hoje segundo Daniel Yergin, dono da  Cambridge Energy Associates, a maior consultoria de petroleo do mundo e autor de livros fundamentais sobre o setor, 89% das reservas de petroleo são de empresas estatais, que já são as maiores no ranking, começando pela ARAMCO,  tambem a NIOC do Irã, a PEMEX, do Mexico, a PDVSA, da Venezuela, as russas que são semi-estatais, a SINOPEC chinesa a ECOPETROL colombiana, a SONANGOL de Angola, a SONATRACH da Argelia, a KUWAIT OIL, do Kuwait,  empresas irmãs da Petrobrás, nascidas por volta da mesma época, com exceção da Pemex, que é anterior à Segunda Guerra, sem esquecer da famosa ENI italiana, que nasceu não por causa de reservas e sim para o refino e a exploração fora da Italia, sendo pioneira no aumento dos roylaties para 50%, quebrando a tradicional regra de 27.5% das majors.

A Petrobras nasceu dentro dessa onda e tornou-se uma empresa de nivel mundial, lamentavelmente atingida por uma politização extemporanea no fim do governo passado, ao ser objeto de  uma capitalização desastrosa, mal formulada, sem logica, que fez a companhia perdeu enorme valor de mercado, dificultando suas futuras captações e revertendo uma otima percepção de governança corporativa independente. Foi um retrocesso que quebrou uma trajetoria de ascensão da Petrobras ao ranking das grandes petroliferas mundiais e apenas mostrou um cor politica que pensava-se ter sido afastada no longinquo passado. A politização já vinha antes, com a exploração eleitoral do pre-sal, vendido como maná, algo que a Petrobrás como empresa nunca fez, com sua postura conservadora no anuncio de reservas. Outros sinais de politização foram a aceitação passiva dos demandos demagogicos do governo Morales sobre os interesses da Petrobras na Bolviia , a aceitação passiva da expulsão da Petrobrás nas explorações concessionadas na Venezuela e no Equador e a manutenção da participação venezuelana na refinaria de Pernambuco, apesar da Venezuela não ter cumprido absolutamente nada de seus compromissos com a construção da refinaria, não obstante continua sócia no papel, com 40%, sem ter colocado um unico centavo, tudo por causa de uma politica  que privilegia companeirismos ideologicos, contra a vontade e os interesses da propria empresa.

O ""petroleo é nosso" ficou muito para trás, hoje a Petrobrás explora petroleo nos EUA, aonde tambem tem refinarias, tem grande rede de postos na Argentina, é sócias de explorações pelo mundo afora,  é uma empresa moderna e globalizada, apesar dos arranhões das tentativas permanentes de puxa-la para o pantano da politica, contudo a corporação já tem musculatura e alma para resistir a esses assaltos à sua integridade.

É bom tambem registrar que a luta do ""petroleo é nosso" não foi só da esquerda demagogica, a UDN, bastião da direita da época, deu seu voto decisivo à criação da Petrobrás e uma de suas refinarias, a de BH, tem o nome de um dos lideres udenistas da época, Gabriel de Rezende Passos.

 

 
 
imagem de André LB
André LB

  AA, com todo o respeito que seu conhecimento pede, o contexto internacional foi bem nuançado em cada país por elementos locais. Em outras palavras, sabendo-se do caso apenas pelo que você escreveu eu seria levado a imaginar que toda a briga resumida pelo lema "o petróleo é nosso" foi travada contra... ninguém. Bastaria deixar fluir o tempo e naturalmente haveria uma empresa nacional de petróleo. Isso deixando de lado que entre a constituição de uma PETROBRAS, uma ARAMCO e uma SONANGOL não há apenas a diferença de alguns anos, mas mesmo de contexto histórico. Em comum, apenas a procura por garantir ao território que abriga tal riqueza algo mais que umas migalhas.


  Dito isso, discordo da sua visão quanto ao tal uso político da PETROBRAS como fato estranho. Oras, sempre que se fala em bilhões, quando não centenas de bilhões, fala-se também em política. Ou o modo como partes da Petróleo Brasileiro S.A. foram privatizadas durante o período FHC não foram manipuladas de forma política? Toda uma condução prejudicial dos rumos da PETROBRAS durante o mesmo período não foi fruto de escolhas políticas? Só alguém muito ingênuo para achar que se pode mexer com dinheiro grosso de forma apolítica - se é que a política está ausente de algum campo, mesmo de seus comentários.


  Em tempo: minhas boas-vindas por sua volta a este espaço, mesmo que eu discorde de 99% do que diz. Espero que não se ausente outra vez quando o assunto "Privataria" voltar à baila, após o início do ano legislativo.

 
 
imagem de Tio_Zé
Tio_Zé

Quá quá quá. Qualquer santelmo de boteco opina sobre petróleo agora. Nem a escolinha do professor raimundo faz melhor. Este blog não precisa de análises de palpiteiros de plantão. Assim não tem seriedade que se sustente.

Ora veja

 
 
imagem de Nilo
Nilo

deve ser vista dentro do contexto macro mundial.... Esse contexto continua o mesmo, países colonizadores tentando se apoderar das riquesas de outros países com a ajuda de políticos locais corruptos representantes das elites, com pensamento de colonizado. O resto é bobagem

 
 

Postar novo Comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
CAPTCHA
Esta questão é para testar se você é um visitante humano e impedir submissões automatizadas por spam.
CAPTCHA de imagem
Digite os caracteres exibidos na imagem acima.

Faça seu login e aproveite as funções multímidia!