O valor da alegria e o jornalismo

Por Andre Luis

Muito a propósito, o jornalista Flávio Gomes publicou esta semana no seu site, a seguinte coluna:

Do Grande Prêmio

Vale, e muito 

Que direito tem alguém de ir aos jornais ou à TV e dizer para uma criança de 11 ou 12 anos que sua alegria, sua felicidade, não vale nada?

Flavio Gomes

Aí, aos 44 do segundo tempo, o rapaz de nome Ananias fez o gol, e meus moleques pulam como nunca, gritam como nunca, abraçam o pai e os desconhecidos na arquibancada, e têm o diazinho mais feliz de suas vidas.

Aí abro os jornais no dia seguinte, e ouço as rádios e as TVs, e leio e ouço e vejo que esse campeonato não vale nada, que os grandes estão cheios de tédio, que isso tudo acabe logo para começar o que importa, o que vale.

E então percebo que estão, estamos, talvez, totalmente descolados da realidade. Como assim, não vale nada?

Vou contar uma historinha.

Meus meninos têm 12 e 11 anos. Vão aos jogos do seu time desde quando não conseguiam andar direito e eu tinha de carregar cada um num braço, e subir os degraus até lá no alto, porque eles gostavam de ver aquele campo enorme, um mundo novo e verde estava se revelando, com onze de cada lado, e uma porção de gente assistindo, e gritando, e xingando. Aprenderam a assistir, a gritar, a xingar, a cantar, aprenderam as regras sozinhos, tomaram posse daquele mundo que, no começo, era apenas uma imensidão verde que se via lá do alto, do último degrau.

Domingo, na arquibancada quente, de cimento, havia dezenas, centenas de garotinhos como eles. E eu vi seus olhinhos brilhando. E ouvi do meu mais novo, já no carro, voltando para casa, que ia dormir mais leve.

E vêm os escribas e os locutores do alto de seus púlpitos e de sua pequenofobia para afirmar que não, isso não vale nada.

Que direito tem alguém de ir aos jornais ou à TV e dizer para uma criança de 11 ou 12 anos que sua alegria, sua felicidade, não vale nada? Quem foi que nos deu, a nós jornalistas esportivos, essa prerrogativa divina e sacra de dizer a uma criança qual o tipo de coisa pela qual vale a pena ficar feliz e chorar de alegria?

Eu vi os olhinhos dos meus meninos brilhando. Discretamente, um deles até enxugou algumas lágrimas. Eu até chorei, pai, disse no carro, e o outro disse que não chorou, mas quase.

Elas, essas lágrimas, valem muito. Mais do que todos os reais versus barcelonas desta e das próximas semanas, e de todos os que ainda hão de acontecer até o fim dos tempos.

Elas valem mais do que as cifras repletas de zeros que os jornais e as TVs brandem quando tratam do preço de um ganso, ou do valor de uma arena (arena?), ou dos direitos de transmissão.

Sobram números frios aos meus colegas, mas falta a eles o calor de uma arquibancada de cimento duro num domingo de sol. Falta a eles, e tem faltado a muita gente, olhar nos olhos de uma criança quando ela vê o goleiro do seu time subir no alambrado para olhar nos seus olhinhos. Falta ver de perto um garotinho arrancar a camisa suada e abraçar o pai com a cabecinha colada no peito junto ao distintivo.

Ninguém tem o direito de dizer que isso não vale nada. Ninguém tem o direito de dizer a uma criança que sua felicidade não vale nada, só porque ela eclodiu de repente num estádio antigo num torneio menor, e não diante de uma tela de LCD, com transmissão em HD, numa arena climatizada igualzinha às dos videogames.

A vida real, o futebol de verdade, não está num playstation, nem pode ser visto em HD. Na vida real, os olhinhos das crianças brilham no cimento duro da arquibancada quando seu time faz um gol, e dizer que aquele gol não vale nada é coisa de quem não está entendendo mais nada.

* Hoje peço licença à minha meia-dúzia de leitores para falar de futebol, da minha Portuguesa. Não creio que ficarão tão zangados. F1, de novo, só no dia 8 de maio. Teremos bastante tempo para falar dela até lá.

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5 comentários
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Márcio Xavier

Grande "merdinha" Flávio Gomes.. um dos melhores jornalistas esportivos do país.

Seu tuiter é um dos mais divertidos da rede ainda por cima.

 
 
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Francisco Ernesto Guerra

Sou fã incondicional do Flávio Gomes, excelente jornalista esportivo e dos poucos torcedores da Portuguesa Desportos. Acompanho ele na ESPN Brasil e no blog pessoal dele.

A grande imprensa tem o triste hábito de desvalorizar os campeonatos estaduais e sabemos bem  o porquê: Trata-se de dinheiro e o maior interessado é a globo, para quem o esporte é apenas negócio e o objetivo é a copa liberdadores, esquecendo a finalidade primordial do futebol que é o lazer e o entretenimento para a população.

Flávio Gomes retratou bem nos filhos a emoção daqueles que vão ao estádio assistir o espetáculo. Quem nunca foi, não sabe o que está perdendo.

 
 
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alex augustti

Flávio: a crônica esportiva virou "um grande business" .

Os caras ganham dinheiro com "merchan", ganham dinheiro "mexendo com política";

Ganham dinheiro "esquetando jogadores" para uma eventual venda;ganham dinheiro fazendo "cálculos matemáticos" que não levam a porra nenhuma;

Ganham dinheiro fazendo prognósticos que nunca acontecem, ganham dinheiro "espinafrando" jogadores que não tem valor para eles; ganham dinheiro "julgando jogadores" como se fossem juízes; tem gente que já foi da crônica e hoje ganha dinheiro vendendo jogadores...

As vezes tiram um sarro, zombam. Quando o time deles perde, falam em alto e bom tom "o juiz é ladrão". O técnico é uma merda, tá na hora de sair!

Hipócritas, dizem para nós que eles não "têm time" ... heheheh

Jornalismo esportivo que é bom: ZERO

Então, estes caras que a gente vê na TV, ouve no Rádio e o lê em Blogs e Jornais, estão acima do bem e do mal. São capazes de erguer a carreira de um jogador que não joga nada. Quando cismam, são capazes de destruir um bom jogador. Agem como uma Orquestra.

São os deuses da crônica esportiva. Infelizmente, nossos filhos para eles não tem importância. 

Não passa pela cabeça destes jornalistas que a meninada de hoje (tenho um de 12) é o público pagante de amanhã.

 
 
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Moacir Teles Maracci

Explêndido o seu texto, Flávio Gomes. Nunca visitei seu twiter, raramente leio seus artigos, pois fórmula 1, só quando acontece um GP  e assim mesmo quando há alguma coisa inédita (!). Pensando um pouco sobre seu texto,  começo achar que o tal bullyng (chacota não é mais fácil de pronunciar?) já começa com as agressões a esses sentimentos puríssimos próprios das crianças pelos "entendidos".

 
 
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Wesley Bispo

Dois chatos comunistas que vivem usufruindo do capitalismo. Os dois se merecem!

 
 

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