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O processo de municipalização da educaçãoEnviado por luisnassif, sex, 03/02/2012 - 12:27
Por Erick M
Da Revista Educação Iniciado na década de 90 e ainda não consolidado, processo de municipalização deixou grande parte dos municípios à deriva com a falta de recursos e de infra-estrutura; clareza do regime de colaboração entre os entes federados se faz cada vez mais necessária Paulo de Camargo "O poeta municipal discute com o poeta estadual qual deles é capaz de bater o poeta federal. Enquanto isso, o poeta federal tira ouro do nariz." Escrita na década de 30, a poesia de Carlos Drummond de Andrade, intitulada "Política literária", cumpre o papel de ilustrar o processo de municipalização das escolas brasileiras ao longo dos últimos 15 anos. Desde a publicação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), em 1996, as diferentes instâncias federativas responsáveis pela educação brasileira vêm se engalfinhando em um complicado jogo de puxa e empurra, que nada tem a ver com qualidade de ensino. Se é verdade que a proporção de alunos do ensino fundamental sob a responsabilidade dos municípios dobrou, chegando a 60% do total, o processo ainda está longe de se completar. Pior: os recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), principal combustível da adesão das cidades aos convênios de municipalização, têm data para acabar - 2020 - e não existe uma discussão madura nem sobre a partição de recursos, nem sobre o modelo de colaboração que deve existir entre o governo federal, estados e os 5.565 municípios brasileiros. Esse é um retrato sucinto de um processo crucial para qualquer sistema educativo. Afinal, quem deve fazer o quê para administrar uma rede de escolas públicas onde hoje estudam 32 milhões de crianças e adolescentes? É um debate tão importante que deveria estar na pauta do dia de todos os governantes, principalmente às vésperas das eleições municipais. Toca em aspectos centrais da vida republicana: a relação entre os entes federativos, a autonomia dos municípios, a divisão do bolo tributário, as desigualdades regionais, a democratização da participação social, e, principalmente, o desenho de um projeto de nação que, cada vez mais claramente, passa pela construção de um sistema educacional estável, capaz de fazer frente às demandas do século 21. Histórico No campo da educação, a participação municipal quase sempre foi inferior à dos estados. O Brasil experimentou em quase 50 anos, entre 1889, final do Império, e 1930, fim da primeira República, um vertiginoso crescimento nas matrículas do ensino primário, que passaram de quase 259 mil para 2 milhões. Contudo, até pelo menos 1932, como se vê na tese de doutorado "Município, Federação e Educação: história das instituições e das ideias políticas no Brasil", da pesquisadora Gilda Cardoso de Araújo, o município respondia por 17% das matrículas - menos do que a rede privada. A partir de então, fica mais claro pelas estatísticas disponíveis que os municípios começam a aumentar proporcionalmente sua participação, que bate em 30% no final dos anos 40 - percentual que permanecerá estável até tempos recentes. A década foi marcada, não por acaso, por um vigoroso movimento municipalista, com a criação da Associação Brasileira de Municípios, que tinha entre outras bandeiras influenciar a Constituição de 1946 (para garantir maior autonomia) e outra velha conhecida dos brasileiros: a reforma tributária. O movimento foi vitorioso ao conseguir mudanças na repartição do bolo, mas com a ditadura militar instaurada em 1964, o pêndulo volta, e as conquistas dos municípios regridem, com a centralização dos poderes na União. Ventos de mudança Na redemocratização do país, portanto, o tema voltava com força. A rediscussão do pacto federativo tinha ingredientes como a busca de um modelo no qual a sociedade pudesse ter mais participação nas decisões dos governantes, numa espécie de reação alérgica à gestão centralizada em Brasília. Do outro lado, existia também uma clara pressão de organismos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), pela difusão de um conceito de Estado mínimo, que suscitava o medo das privatizações e do fim do ensino público gratuito. Não acontecia só no Brasil, é verdade. O Chile viveu, a partir de 1980, um acelerado processo de municipalização, que agora se encontra em crise (veja texto na pág. 32). Nos Estados Unidos, a busca da descentralização chegou mesmo ao âmbito da escola, com grande autonomia. Contudo - daí a relevância de uma visão histórica -, os países também têm diferentes formas de organização federativa. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde os distritos cuidam da educação como uma espécie de delegação, o governo federal tem poder para intervir em uma escola municipal, algo impensável no Brasil. O que se viu, desde então, foi o desenrolar de um novelo repleto de nós, em que ninguém se arrisca a mexer. O tema ressurge no artigo 7º do Plano Nacional da Educação (PNE), mas sem o destaque e a clareza que merece: "a consecução das metas do PNE e a implementação das estratégias deverão ser realizadas em regime de colaboração entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os municípios". Não há qualquer menção à maneira como essa parceria acontecerá na prática. Dos 12 artigos que antecedem as metas, conforme o texto original do projeto de lei, este foi o que mais recebeu propostas de emendas - um total de 95. Boa parte das emendas tentavam definir com mais precisão o que seria o regime de colaboração, e foram rejeitadas pelo relator Ângelo Vanhoni. O argumento usado por ele é o de que elas extrapolam os limites do PNE ao tratar da regulamentação do regime de colaboração - o que deveria ser feito, segundo ele, por instrumento legal específico - ou ao criar obrigações para os poderes em um texto sem força para isso. Pelo que parece, o PNE trará novidades para os impasses vividos por União, estados e municípios, que não são poucos. Projeto inacabado O perfil traçado pelo IBGE mostrou também que os municípios de maior porte populacional caminharam bem mais rápido inicialmente, até por já terem uma rede financiada com recursos próprios. Porém, à medida que os municípios com menos de 20 mil habitantes buscam maior autonomia, a municipalização avança também entre as pequenas cidades - que representam mais de 90% do total. É importante lembrar que os problemas aumentam na proporção da fragmentação dos municípios brasileiros. A autonomia plena concedida pela Constituição de 1988 foi um dos fatores que contribuíram para um explosivo crescimento do número de cidades, que se manteve praticamente estagnado na década de 1970, e depois pulou de 3,9 mil, em 1980, para 5,5 mil em 2000. Hoje, há mais de 800 pedidos protocolados para a criação de novos municípios. Municipalização ou "prefeitorização"? Em muitos outros lugares, a municipalização se tornou o que o pesquisador Vitor Pissaia, secretário de Educação da pequena Cândido Rodrigues (SP) e mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), chama de "prefeitorização". Ou seja, a transferência de responsabilidades aos municípios não prevê recursos suficientes e tampouco apoio técnico para enfrentar a gestão de uma rede complexa, que exige diferentes expertises, quer sejam administrativas, quer sejam pedagógicas. Segundo ele, o secretário trabalha sozinho, sem contar com equipe pedagógica, e acaba virando um apagador de incêndios (leia texto abaixo). Para Pissaia, essa precariedade foi um dos fatores que estimularam o grande crescimento dos sistemas apostilados, que oferecem aos prefeitos um pacote de serviços que suprem as diversas lacunas enfrentadas pelas cidades. A maior parte dos municípios estudados por ele em sua dissertação do mestrado havia adotado sistemas para, de certa forma, suprir o desamparo pedagógico. A lista de problemas não para por aí, lembra Cleuza Repulho, secretária municipal de São Bernardo do Campo e presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais (Undime). "Na maioria das vezes, recebemos prédios em situação extremamente complicada", conta. Além disso, a disparidade salarial entre os professores das redes estaduais e dos municípios muitas vezes requer uma complementação pelo município, como ocorre em sua cidade. As cidades também acabam arcando com despesas para suprir as lacunas deixadas pelo estado, como o transporte e a merenda escolar. Para Cleuza, isso faz com que a questão dos recursos seja mais grave do que a falta de pessoal técnico. "Com dinheiro se contrata gente", argumenta. Hoje, na redistribuição de recursos feita pelo governo federal, os municípios recebem em uma espécie de "moeda-aluno". Ou seja, cada aluno matriculado na Educação Básica representa um valor a ser recebido pela prefeitura. Para José Marcelino Pinto, essa forma de cálculo induz a distorções. Ainda que a prática tenha sido aprimorada, do Fundef de 1996 para o Fundeb de 2006, ela deveria ser enriquecida com a adoção de outros critérios de cálculo. "Do modo como está, leva a uma política de encher sala de aula com alunos-fantasmas", critica Marcelino Pinto, que trabalhou no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e se deparou com diversas tentativas de prefeituras para inflar os números e, assim, engordar o orçamento. A adoção do critério Custo Aluno Qualidade (CAQi) ao PNE, proposta pelas organizações sociais e aceita por Vanhoni, pode ser um passo positivo.
Mais evidências "No Sul, municipalizar a educação não significou autonomia de gestão nem independência financeira. É um processo que vem de cima para baixo, de forma muito semelhante no conjunto dos municípios, como se não houvesse diferenças sociais, econômicas e políticas entre os municípios e regiões", diz. O diagnóstico não é diferente do encontrado por Pissaia, para quem as mudanças de critério do processo devem começar pela própria definição do IBGE e do Inep, que chamam de pequenos municípios aqueles com menos de 20 mil habitantes. Para ele, há uma grande diferença de realidade entre esses e aqueles que têm menos de 10 mil habitantes - esses, sim, de fato pequenos, como argumenta em seu estudo. É o caso de Cândido Rodrigues, que possui apenas 2.668 habitantes. "No município de maior porte, quando o secretário precisa de um engenheiro, tem um só para educação. Se precisa de um contador, há um contador específico para isso, e o RH, idem. No pequeno, você não tem a estrutura, e é duro cuidar de tudo", relata. O argumento de Pissaia, somado ao medo de descontinuidade do Fundeb, vem se constituindo em uma das principais justificativas utilizadas por prefeituras em todo o país para postergar o plano de carreiras para os professores e para implementar o piso salarial mínimo docente estabelecido por lei. Dados do Plano de Ações Articuladas (PAR), do MEC, apontam que apenas 43% (ou quase 2.400) das cidades brasileiras apresentam plano de carreira para os profissionais do magistério. Para o levantamento, foram ouvidos 5.532 dos 5.565 municípios. Além disso, a Confederação Nacional dos Municípios (CNM) vem afirmando constantemente à imprensa que o piso nacional docente "quebrará os municípios". Um levantamento feito pelo órgão em 2011 em 1.851 cidades revelou que pelo menos 622 pagavam salários inferiores ao estabelecido pela lei. Em contrapartida, é possível perceber que as prefeituras e secretarias municipais pouco entendem da estrutura burocrática do MEC, que oferece programas específicos de auxílio às redes. Na busca de apoio para enfrentar os desafios de sua secretaria de Educação, Pissaia acabou por liderar um grande movimento em sua região, mobilizando outros secretários para aproveitar as portas abertas por programas como o Levantamento da Situação Escolar, e o PAR, que alguns de seus colegas sequer conheciam. Quadro semelhante vem à tona quando o assunto é a suplementação de verba da União destinada aos municípios que não conseguem arcar com o custo do piso nacional docente. Até agosto de 2011, nenhum deles havia recebido o benefício - o problema é a falta de adequação das redes aos critérios exigidos pelo MEC para o repasse de verba. Uma reportagem publicada na edição 22 da revista Escola Pública ("Piso incerto") levantou o caso da cidade de Cedro (PE), que precisaria providenciar o demonstrativo de gestão plena para ter o pedido de suplementação aprovado. "Precisamos comprovar que os recursos serão gerenciados pela própria secretaria de Educação, mas isto ainda é feito pela prefeitura", contou Maria de Fátima Sedrim, secretária de Educação, à revista. Regime de colaboração Arthur Fonseca Filho, do Conselho Estadual da Educação de São Paulo, defende que o regime de colaboração deveria ir além do que se discute hoje. Arthur, que já foi secretário municipal da Educação em Sorocaba, espanta-se com a duplicação das redes em diversas cidades. "Num mesmo município, há escolas trabalhando com currículos, metas e políticas diferentes, o que não faz nenhum sentido", lembra. "A capital São Paulo é o mais típico exemplo disso", complementa. Para ele, uma proposta realmente efetiva de colaboração deveria incluir os planos estaduais de educação e a definição de expectativas de aprendizagem válidas em todo o território nacional. Há quem prefira, mesmo, um passo em outra direção, como é o caso de José Marcelino - que não está sozinho, e foi antecedido por uma respeitável linhagem de pesquisadores contrários à municipalização, como José Mário Pires Azanha e Luiz Antônio Cunha. Para ele, são igualmente falsas as premissas que vinculam municipalização a melhor gestão e à participação social. "A tradição predominante das cidades não é a da democracia, mas do coronelismo, e não parece que o processo tornou a escola mais próxima da população", contrapõe Marcelino. Para ele, seria melhor convergir para um sistema público único no âmbito do estado, mas com base municipal democratizada, com intensa participação dos conselhos municipais de educação. "O que não dá é termos 5 mil sistemas de ensino diferentes", defende. Foco no aluno É justamente essa a conclusão de um relatório elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) com base nos resultados da edição de 2009 do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). O estudo aponta que o caminho para a qualidade de ensino passa pela instituição da autonomia (no caso, a ponta do sistema seria a escola), mas que não há um modelo único a ser seguido. Países como Coreia do Sul e Finlândia (com médias de 541 e 543, respectivamente, na prova, em uma escala de 0 a 600), distribuem as tarefas de maneira mais ou menos centralizada entre escolas, autoridades regionais ou nacionais. Em um contexto de tantas indefinições, pelo menos um dado é consensual. Da forma como vem acontecendo em muitos estados, a municipalização vem gerando, sim, uma malha burocrática que se caracteriza pela baixa sinergia, pela duplicidade de esforços e pela escassez de racionalidade administrativa. Quem perde é o aluno - um brasileiro que nada tem a ver com as confusões legais que o país acumula ao longo de sua vida republicana. Deborah Ouchana, de Cândido Rodrigues (SP)
Cândido Rodrigues é um pequeno município localizado a 354 km de São Paulo. Assim como em outras cidades do interior paulista, a primeira visão que se tem do município é a de uma praça rodeada por árvores, banquinhos e casas onde o silêncio impera. Algumas ruas abaixo da Praça do Cristo encontra-se uma das únicas três escolas do município: a Escola Municipal Rizzieri Polletti. Logo na entrada da escola, uma sala com o nome "Secretaria da Educação" pintado em letras coloridas em cima da porta chama a atenção. Era lá que o antigo secretário de Educação trabalhava, mas, desde que assumiu o cargo em 2005, Vitor Hugo Pissaia abriu mão do espaço para que a coordenação pedagógica pudesse usá-lo. Hoje, a secretaria de Educação fica em uma sala ainda menor, nos fundos da escola, em frente ao refeitório dos alunos. Pissaia não encontra dificuldades para abrigar sua equipe pedagógica, já que ele é o único funcionário presente na folha de pagamento do órgão. "A secretaria não tem nem orçamento próprio. É tudo centralizado na prefeitura. Quando precisamos de recursos, enviamos solicitações aos setores competentes, para a aprovação do prefeito", diz.
Como está instalado na escola, o secretário acaba assumindo outras funções. "Faço alguns trabalhos que não são inerentes à pasta. Cuido bastante da parte pedagógica, e não de gestão", conta Pissaia, que chegou até a participar dos Horários de Trabalho Pedagógico Coletivos (HTPCs ), destinados a diretores, orientadores pedagógicos e professores. Para suprir as necessidades de seu município, Pissaia aposta em projetos de leitura e escrita feitos anualmente sobre temas da região, além da adoção de um sistema apostilado. Para a realização de um desses projetos, ele criou e desenhou "A turma do limo" (o limão é a base da economia da cidade), cujos personagens retratam figuras que predominam no município. A partir das ilustrações do secretário, os alunos criaram histórias que foram publicadas em um livro patrocinado, em grande parte, pelos comerciantes da cidade.
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Comentários + votados
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Rodrigo Kredens
03/02/2012 - 13:00
Penso que a educação precisa ser uma política de Estado. Deve ser estável e imune às mudanças relativas à alternância no comando do Poder Executivo dos entes federados. Para tanto não seria má idéia...
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Marcos Dantas
03/02/2012 - 15:31
Já fui secretário do MEC e minha passagem por lá me ensinou: uma das principais causas do desastre da educação brasileira é a municipalização e, mesmo, estadualização. Escrevi um livro sobre isso,...
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Waldyr Kopezky
03/02/2012 - 22:11
Vou contar uma historinha que já contei aqui - mas sempre é bom relembrar:
Em 1994, encerrava-se um ciclo de dez anos que a UNESCO havia determinado para seu programa de auxílio para a erradicação...
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Waldyr Kopezky
03/02/2012 - 22:13
Voltando a falar da atual estrutura e atribuições dos governos na Educação Pública - de acordo com a Constituição de 1988, ela está dividida mais ou menos dessa forma:
- rede de creches e pré-escola...
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DanielQuireza
03/02/2012 - 12:35
Se sob os estados já está péssima imagina então se municipalizar, ai ferra tudo de vez.
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Se sob os estados já está péssima imagina então se municipalizar, ai ferra tudo de vez.
@DanielQuireza
Penso que a educação precisa ser uma política de Estado. Deve ser estável e imune às mudanças relativas à alternância no comando do Poder Executivo dos entes federados. Para tanto não seria má idéia criar um Sistema Único de Educação, hierarquizado, regionalizado com financiamento tripartite (União, Estados e Municípios) de acordo com as possibilidades de cada um destes entes. Indispensável também as instâncias de controle social, funcionando de verdade, com a definição de planos de educação por estas instâncias. As instâncias de controle social devem ser compostas por pelo menos 50% de cidadãos que usam ou que tenham filhos que usem o sistema público de educação e os outros 50% divididos entre os gestores, trabalhadores do sistema.
É preciso entender que as melhorias na educação pública, devem ser operadas na ponta, ou seja no ente que oferece e gerencia o serviço diretamente. Para isso é preciso um investimento pesado e contínuo e principalmente voltado para a instituição do ensino em tempo integral. Urgente se faz uma reformulação da grade curricular e dos conteúdos. As questões de saúde(planejamento familiar, prevenção ao uso de drogas, educação sexuall, auto cuidado), meio ambiente, trânsito, direitos e garantias fundamentais do cidadão, deveriam acompanhar os estudantes desde a mais tenra idade. Urgente também a necessidade do desenvolvimento da inteligência dos estudantes, além de um acesso maior ao esporte e a manifestções culturais e artísticas.
Não é tão difícil. Mas leva tempo e precisa de empenho dos gestores públicos e principalmente dos cidadãos. Ao invés de buscar informações sobre o BBB da grobo, começar a gastar esse tempo em conhecer as pessoas em quem se vota.
excelente comentário , para acrescentar , eliminar na educação publica as empresas privadas , principalmente as de sistemas de apostilas que lucram e muito corrompendo prefeitos , que mesmo tendo pouco recursos , recusam material de melhor qualidade gratuito do governo federal para fazer convênio com estas empresas a revelia e contra a vontade de pais e mestres. uma dessas empresas que presta serviços no brasil todo é do paraná , eé muito agressiva para obter contratos nas prefeituras usando de todos os meios possíveis e imagináveis para entregar um material de péssima qualidade , ela começõu com o psdb de são paulo e em prefeituras do dem e do pps .
Penso que deva se pensar em um sistema equânime onde cada ente federativo tenha obrigações adequadas às suas possibilidades.
Uma lei, por exemplo, de âmbito federal, que obrigasse o município e o estado a cumprir uma progressiva melhora dos índices avaliativos seria, ao menos, uma tentativa de coibir um problema que foi tocado no texto, mas não desenvolvido; qual seja a corrupção localizada, quer no desvio de verba, quer na inflação do número de alunos para receber maiores verbas.
O que não podemos, como querem alguns, é justificar a inação do poder maior, o federal, em modificar de cima para baixo esse sistema, como só a ele caberia fazer. Desde Lula, o Planalto tem uma maioria razoável no Congresso para operar emendas à Constituição.
Já fui secretário do MEC e minha passagem por lá me ensinou: uma das principais causas do desastre da educação brasileira é a municipalização e, mesmo, estadualização. Escrevi um livro sobre isso, enviado, até agora, para três editoras, a espera de que alguma delas me responda positivamente. A educação pública precisa ser federalizada, as carreiras de professores precisam ser assumidas pela União e passar a receber salários decentes, a quantidade de escolas precisa ser racionalizada, o currículo precisa ser padronizado (com espaço, claro, para variações locais) e o sistema de avaliação deve ser nacional. A política municipal não tem qualquer interesse na qualidade da educação até porque um povo melhor educado não elegeria a grande maioria dos vereadores e prefeitos que existem por aí. Educação, para essa gente, não é prioridade, no máximo interessa para indicar correligionários e cabos eleitorais para cargos em escolas. A Educação pública precisa ser declarada estratégica para a Nação e assim ser tratada. Não é assunto de interesse municipal, é assunto de interesse nacional. Mas quero ver que presidente da República ousaria fazer essa autêntica revolução em nosso ensino, enfrentando todo o tipo de pressão política paroquial, corporativa e, inclusive, de centenas de ONGs e consultorias que ganham muito dinheiro vendendo "soluções de qualidade" para os municípios, soluções entretanto que nunca melhoram a qualidade do ensino (afinal, não vão matar a galinha de ovos de ouro, né?)
Concordo. A ideia era boa mas não funcionou. Deve mudar.
Daniel, já ferrou.
O governo maquia, a imprensa tendenciosa mente, o povão não se interessa. O professor quando fala é "coorporativista", ser coorporativista só é criminoso para os professores, segundo o senhor Gilberto Dimenstain.
Vou contar uma historinha que já contei aqui - mas sempre é bom relembrar:
Em 1994, encerrava-se um ciclo de dez anos que a UNESCO havia determinado para seu programa de auxílio para a erradicação mundial do analfabetismo. Desde 1984 (e pelos dez anos seguintes), o Brasil recebeu uma boa quantia anual do órgão das Nações Unidas para investir na sua rede de ensino público e torná-la mais eficaz, qualificando seus profissionais, modernizando sua estrutura e atraindo mais crianças para as salas de aula. Varios países ao redor do mundo também tiveram este estímulo por parte da UNESCO.
Porém, a partir de 1994 o programa passaria para sua fase dois - a de condicionar os repasses de dinheiro à apresentação pelos governos de dados estatísticos que comprovadamente mostrassem um avanço nos sistemas de ensino público do país - aumento de crianças na primeira série, médias de notas adequadas, diminuição na porcentagem de repetências, evasão de alunos e por aí vai.
O recém-eleito governo de FHC (e não por culpa dele, neste momento) não tinha em mãos resultados que mostrassem melhoras e bons números, em quase nenhum índice educacional - e corria o risco de ver a "torneira" da UNESCO fechar-se para o Brasil. Além disso, toda a rede de ensino público estava passando por mudanças profundas, fruto do novo processo de reorganização de responsabilidades das esferas de governo (mun., est. e federal) determinadas na recente Constituição Federal de 1988 e nas ainda mais recentes constituições estaduais (já aprovadas ou ainda em processo de formulação). O que fazer, então?
Numa reunião da presidência com vários membros do governo federal e dos estados, Mário Covas (gov. de SP) propôs uma solução mágica (coisa de político, mesmo!) para o iminente fim dos recursos internacionais - mas que se revelaria uma catástrofe completa com o passar dos anos: a Progressão Continuada! Pegava-se um sistema de ensino consagrado, de um educador respeitadíssimo (Paulo Freire), com um conceito inovador e humanista (o Construtivismo) e implantava-se isso na rede pública. Ninguém iria se opor a isso - fossem educadores, gestores da área educacional ou políticos.
E foi feito. Com isso implementado, os índices de aprovação foram às alturas, os de repetência quase zeraram e as avaliações (notas) tiveram também um crescimento exponencial - o relatório anual do MEC à UNESCO apresentado sob o novo sistema mostrava resultados excepcionais, e o órgão viu nele a justificativa para prosseguir com o envio anual ao País da verba de auxílio contra o analfabetismo. Bom, né?
Não. Foi um horror: a implementação do sistema construtivista (excelente, conceitualmente) quebrou com um regime e um modus operandi de décadas que condicionava a aprovação a um esforço do aluno para atingir um nível nas provas regulares, mensurado por níveis (zero a dez, A a D, o que fosse); agora, os critérios eram subjetivos (insuficiente, regular, bom e muito bom) que eram dados não mais pelo índice de acertos em exames periódicos (que foram abolidos, pouco a pouco) mas também numa avaliação mais ampla do educador, que levava em consideração ainda outros dados muito menos mensuráveis (participação em aula, interesse, envolvimento, comparecimento, socialização, etc.).
Pior: tal mudança teria de ter sido feita com a preparação prévia dos educadores para este novo sistema - que abolia não só os critérios, mas também as ferramentas de pressão e persuasão dos professores para incutir em seus alunos a necessidade do estudo regular e sistemático (bem como do necessário estímulo) para a superação das dificuldades e limites impostos pela instituição para a a passagem de ano. Todo mundo passava - não importava se havia aprendido ou não. Com o passar dos anos, tanto educadores quanto educandos começaram a nutrir pelo novo processo de ensino (e seus péssimos resultados efetivos) um desencanto que logo tornou-se indiferença e desdém.
O resultado dessa decisão foi que uma geração inteira de jovens foi irremediavelmente perdida para a nossa sociedade moderna; milhares de alunos passaram de ano sistematicamente sem saber sequer ler direito (houve uma matéria há pouco tempo na IstoÉ mostrando alunos da 8ª série em SP que não conseguiam ler as manchetes de um jornal) ou fazer uma simples conta de dividir. Do ponto de vista político, tal cenário era um ganho: tinham agora uma multidão de cidadãos iletrados que baseavam sua informação essencialmente em sistemas audiovisuais facilmente manipuláveis (rádio e TV), sem capacidade ou bagagem suficientes para discernir a realidade da informação apresentada ou as circunstâncias mais sutis da nova sociedade democrática recém-formada. Do ponto de vista social, isso era uma tragédia: essa multidão estava completamente fora do mercado formal de trabalho, constituindo-se num grupo que - mesmo estando próximo dos grandes centros e com o acesso aos aparelhos públicos de ensino e novas tecnologias (coisa que gerações predecessoras não tiveram acesso) - este não reunia qualificações para ascender para além das classes D e E da sociedade, condicionados a viver em agrupamentos humanos pífios (favelas) de condições sub-humanas, da mesma forma que seus pais e avós migrantes.
Gente, falei tudo isso para dizer que o sistema determinado pela Constituição de 1988 não tem retorno, tanto para a Educação quanto para a Saúde públicas. Pelo que foi perdido, vai levar um tempo para ser reconstituído. Abs.
Voltando a falar da atual estrutura e atribuições dos governos na Educação Pública - de acordo com a Constituição de 1988, ela está dividida mais ou menos dessa forma:
- rede de creches e pré-escola: rede e gestão administrativa (que atenda de forma conveniente à demanda citadina) sob a responsabilidade do Município;
- rede de ensino fundamental (antigo ensino básico ou Primário, da 1ª a 8ª/9ª séries): sob a responsabilidade do Município;
- rede de ensino médio (antigo colegial, da 1ª à 3ª séries): sob a responsabilidade do Estado; as instituições de ensino técnico (ETECs) - por serem de nível médio - também estão sob a gestão estadual;
- rede de instituições de ensino superior (faculdades/universidades): responsabilidade da União.
Acontece que tudo é um pouco mais complicado: em SP, o Governo do Estado gere entidades de nível superior (USP, UNESP e FATEC são alguns de inúmeros exemplos), em função delas terem sido criadas no começo do século passado e pioneiramente (como a USP, nascida numa época em que rede de ensino público de qualquer nível nem era imaginado), antes de 1988 e num Estado que podia arcar com tal investimento e custo de gestão (SP é a maior arrecadação e orçamento da Federação até hoje); SP também manteve algumas escolas da sua rede pública que continuam tanto com o ensino médio quanto o fundamental por tradição, nível de excelência ou absoluta incapacidade de determinada administração municipal encampar tal atribuição.
Percebam que SP tem tudo diferente: os demais estados possuem as TVs Educativas (TVEs), montadas há tempos pela União (não sei se todas ainda geridas por ela) - SP tem a TV Cultura, mantida pelo Estado e referência de qualidade; nos demais estados, há as universidades federais (UFRJ, UFRGS, UFPE, etc.) - em SP a USP é mantida pelo Estado e com ela o Instituto Butantã, O Hospital das Clínicas (todo um rol de instituições de altíssimo padrão - reconhecidas mundialmente!), criada muito antes da rede de ensino superior federal (a UNIFESP quase não tem espaço para atuar, aqui).
Citei tudo isso para dizer: não é por falta de estrutura ou dinheiro que a rede, os educadores ou o sistema de ensino público de SP estão sucateados: FOI A MALDITA PROGRESSÃO CONTINUADA! E não vai se resolver federalizando toda a rede pública! Como gerir (de Brasília) uma rede de instituições de ensino de um estado distante?
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