O poder dos fazendeiros e jagunços do MS

Por Assis Ribeiro

Da CartaCapital

Violência no campo 

Vem aí a versão rural das UPP’s

Por Fernando Vives

Os morros urbanos do Rio de Janeiro não são os únicos lugares do Brasil que precisam ser ocupados pelo poder público. O Mato Grosso do Sul acaba de nos dar um exemplo claríssimo de que, em várias regiões do País, quem manda não é o governo. Faz a lei quem tem mais dinheiro. E jagunços.

Índios protestam por direito ao uso de terra em áreas de conflito em Mato Grosso do Sul. Foto: Cimi

No último domingo 27, o secretário de Articulação Nacional da Secretária-Geral da Presidência da República, Paulo Maldos, visitou um acampamento indígena das comunidades guarani  kaiowá. A região foi palco de sangrentas disputas entre os produtores rurais da região e os indígenas, com baixas e intimidação sobre estes últimos – ao menos três seguem desaparecidos. Em jogo, os processos de demarcação de terras indígenas em disputa na região de Amambaí, cobiçadas pelos fazendeiros, que estão na Justiça.

Ao sair das comunidades, Paulo Maldos e sua equipe foram cercados por jagunços, que pediram o documento de todos os que estavam na comitiva (e repare aqui a inversão de valores: homens armados pediram os documentos a uma autoridade pública nacional). Segundo a Presidência declarou ao jornal Folha de S. Paulo, os jagunços fotografaram, filmaram e xingaram os índios que acompanhavam Paulo Maldos.

“Tinha gente protegida sendo filmada. Eles demoraram para entender que a Presidência da República e a Força Nacional de Segurança estavam presentes no local. Eu saio daqui preocupado com a segurança dos indígenas e adverti a ele (o jagunço) que, se algo ocorresse com as pessoas filmadas, ele seria investigado”, disse Maldos, ao O Globo.

O cacique Nísio Gome, morto em ação de jagunços em fazenda sul-mato-grossense. Foto: Conselho da Aty Guasu

Integrantes da Força Nacional de Segurança foram chamados à região para escoltar a comitiva do governo. Após vários atos de intimidação, o enviado da Presidência conseguiu seguir viagem para Dourados, maior cidade da região.

É claro que o Mato Grosso do Sul não é um estado totalmente dominado por milícias de fazendeiros que se consideram acima da lei. Mas lá, sobretudo na região de Amambaí, o poder público, quando chega, é intimidado. A região, como outros lugares do território nacional, transformou-se ao longo dos anos em grandes zona de exclusão judiciária e da autoridade pública. Se o poder público é ameaçado, imagine os índios que lutam pelo direito de viver em suas terras ancestrais. Daqui a pouco vão precisar instalar UPPs, as unidades de polícia pacificadora, entre uma fazenda e outra para o poder público poder visitar as localidades.

O caso da comitiva de Paulo Maldos é só mais um, e certamente não será o último. Ou o Estado traça um plano para se fixar, de vez, no local e se colocar à frente dos interesses particulares locais, ou noticiaremos eternamente casos obtusos como esse. E sem índios para contar a história.

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14 comentários
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Alan Souza

Agora vejam só: se intimidam um enviado da Presidência da República, protegido pela Força Nacional, imaginem o que não fazem com os índios...

 

Demóstenes Torres na cadeia: uma campanha pelo bem do Brasil!

 
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manosil

´Nassif, em São José dos Campos, a prefeitura em conluio com uma juiza de direito estão colocando em panico uma ocupação de mais de 10.000 pessoas (Pinheirinho), pressionando pela desocupação dos sem teto. Faz mais de 8 anos que eles estão lá.

Já tinha sido prometido que o poder publico iria regularizar o acampamente, mais de uma hora pra outra aparece uma juiza não se sabe de onde e pede para a policia expulsar mais de 10.000 pessoas incluindo mulheres, crianças e velhos.

Seria muito bom se voce buscasse informações e abrisse para o país. Só lembrando SJC é governado pelo PSDB a quase 16 anos.

 
 
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grazie

 

Vi o depoimento de Paulo Mendes ontem na tv local, isso tudo representa a certeza da impunidade. As rondas e ameças continuam, e nada da sociedade sul-matogrossense ficar revoltada e realizar mobilizações... é mais fácil ser solidário ao índios distantes, é mais fácil ser solidário a causa de Belo Monte, não que não seja legítima, mas quando a questão indígena é no próprio quintal o discurso muda rapidinho, lamentável, mas real, vide o caso da Raposa Serra do Sol, alguém viu mobilizações pró, numa das melhores ações que esse governo realizou? Digo mobilizações e campanhas favoráveis pelos grandes setores, sociedade e mídia... me cansa essa revolta seletiva, me cansa tanta hipocrisia.

 
 
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marcelo arruda

Aqui no Mato Grosso do Sul é impossível se colocar contra os interesses dos agricultores e pecuaristas. É um suicídio, político, para os que têm alguma ambição nesse sentido, e financeiro, para os meios de comunicação. A indignação causada em grande parte do Brasil  com o desaparecimento (morte) dos três indígenas - dentre os quais um cacique - passou longe das nossas bandas. Aqui, incrivelmente, esse tipo de acontecimeno, para a estupefação de qualquer ser pensante, esse tipo de evento é celebrado. Seguem os links de duas matérias reproduzidas hoje nos principais sítios virtuaisde notícias do MS, com versões diametralmente opostas da contida na matéria da CArta CApital. 

http://midiamax.com.br/noticias/778078-presidente+sindicato+rural+iguatemi+sua+versao+sobre+acusacoes+agressao.html

http://www.campograndenews.com.br/cidades/sindicato-rural-de-iguatemi-rebate-acusacoes-e-nega-ameacas-a-indios

Aqui, o Governador não se indignou; os deputados, federais e estaduais, nada disseram de importante - todos incluídos, que fique bem claro, tanto os do PSDB e DEM, como seria de esperar, como os do PT; os Desembargadores do TJ não se manifestaram, a própria OAB/MS, que tanto gosta de se posicionar, não fugiu das declarações protocolares.

É triste. Mas é como a banda toca nessa terrinha.

 
 
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Tio Almir da Bahia

Eu mesmo,  junto de toda minha  família (pai, mãe e 6 irmãos) em 1972 , fomos  expulsos dali pertinho  (Noroeste do Paraná)  pela  ação de jagunços que  tomaram o sítio de meu pai na  mão-grande ( em virtude do conchavo com os  grileiros  e cartórios da região), pois  nosso documento de compra ds  terras  era "fraco".         Já  nesta  época, eu, uma  criança  de 8 anos , era  acostumado a  transitar por  entre  jagunços fortemente armados com suas  espingardas e  carabinas  e  também pelo intenso contrabando de peças de máquinas, pneus  e  eletrônicos  vindos do Paraguai.

Meu pai preferiu se refugiar na casa de um irmão na periferia de Sampa ( V. Brasilândia ) a  expor  suas  crianças  à violência do local.  Terrível,  faroeste americano era  exemplo de  cidadania  perante o que ocorria por  lá.

E  pelo jeito,  as  coisas  continuam "iguar-qui-nem" os  maus  velhos  tempos....Êita  raça  humana, não tem mais jeito não!   Só mesmo o armagedon  para  corrigir  este defeito do  gênesis !   Que  as  bactérias  que  ressurgirem sejam mais  justas  do que nossa  raça  superior !!!

 

"Quanto melhor é o homem, menos maldade vê nos outros" Cicero.

 
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DavidMazeltov

Será que se eu procurar no youtube vou achar algum vídeo de "globais" liderados pelo Marcos Palmeira defendendo os indígenas que estão sendo ameaçados e mortos por jagunços? Haverá alguma atriz repetindo que temos uma das piores divisões de terra do mundo... do planeta?

 
 
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Francisco von Hartenthal

Muito boa a sugestão de se instalar UPPs em áreas assim. Tá aí uma ideia que merece ser mantida circulando.

 
 
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Eduardo Petrucci Gigante

Essa é a verdadeira razão das campanhas de desarmamento. Evitar que a população em geral possa responder a qualquer abuso do capitalismo. E pelo mesmo motivo as forças de segurança também não tem equipamentos atualizados e em quantidade suficiente.

 
 
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IV AVATAR

É assim no MA, TO, PA, PI, MS. Primeiro demonizam os movimentos sociais e pessaos que lutam por seus direitos ou estão em suas terras. O passo seguinte é, para usar uma expressão do pastor Malafaia contra os gays, descem o porrete. É o nosso caldo de cultura brasilis, com a ajuda de lideranças religiosas, claro, há exceções, a Pastoral da Terra tem feito um bom trabalho, muitos integrantes da CPT foram mortos por causa disso, o Pe. Josimo por exemplo

 
 
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Luiz Seixas

Até o Jânio de Freitas, na Falha de spaulo, ficou indignado com a falta de reação ao desplante e atrevimento desse jagunços fdps:

http://www.advivo.com.br/blog/luiz-seixas/violencia-depende

 

LS

 
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Aldo Cardoso

 

Senhor Deus, Criador do Céu e do Infinito, da Terra e de tudo quanto neles existe, como cada um de nós haveremos de responder diante de Ti pelas nossas ações e/ou omissões praticadas aqui, face as minhas limitações para agir de modo concreto com vistas a por um fim nessas atrocidades contra os donos primitivos do solo onde habitamos, ao pedir-Te perdão pela parte que me cabe, confesso publicamente o meu constrangimento e vergonha por sermos um país de autoridades insensíveis, omissas e macomunadas, que lavam as mãos no seu dever de proteger, como Tu ordenas, o direito e a vida dos seus habitantes mais vulneráveis, que colhem a ruína e a morte por nelas confiarem.

 
 
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Alan de F. Brito

Caros,

Sou jornalista em MS, mais precisamente correspondente na cidade de Dourados e tenho acompanhado de perto a situação dos indígenas guarani-kaiowá, mais ainda após a morte do líder Nísio Gomes. Gostaria que se possível Luis Nassif, ter algumas informações sobre o caso e a visita de Paulo Maldos melhor esclarecidas e informadas aqui no Advivo:

- A comitiva da presidência e dos ministérios foi à região de IGUATEMI no domingo, local que não o mesmo onde houve o ataque de jagunços no dia 18 de novembro, que culminou com o desaparecimentodo corpo do líder guarani-kaiowá, Nísio Gomes.

- Na região de Iguatemi, mais precisamente no acampamento indígena Tekoha Pyelitoi-Kue Mbarakay, em meados de agosto deste ano foi atacado por jagunços também, mas não há registro de morte de indígena neste evento, porém a truculencia dos 'milicianos' levou os indígenas a se embrenharem matagal adentro, onde permanecem até hoje.

- Foi na saíde deste acampamento que o onibus com os indígenas guarani-kaiowá que participaram do Aty Guasu (Grande Reunião das lideranças guarani) foi parado, não só por jagunços, mas também pelo secretário de Obras do Município e Presidente do Sindicato Rural. Além disso o próprio prefeito de Iguatemi chegou a ser chamado ao local. Eles filmavam os indígenas e os ameaçavqam desconhecendo a presença da Força Nacional e de representantes da presidência da república. "Eles achavam que spo tinha índio e FUNAI", disse pra mim uma liderança que estava no local, demonstrando o claro desrespeito que os fazendeiros da região tem com o orgão do Ministério da Justiça (FUNAI).

- Já nesta quarta-feira (30), em marcha, mais de 400 indígenas e representantes do governo federal, entre eles a assessora da presidência da Funai, Rosângela Barros, e o secretário nacional, Paulo Maldos, foram ao acampamento Tekoha Guaiviry, na região de Amambai/Aral Moreira. Esse sim foi o acampamento onde Nísio tombou perante os tiros desferidos por milicianos.

- Tekoha quer dizer 'Terra Sagrada' ou 'Terra Ancestral' e para os indígenas guarani-kaiowá, tem um significado maior do que aquilo que se pode produzir com ela. Os guarani, como o estudado e descrito pelo professor Bartolomeu Meliá, tem a terra (Tekoha) o lugar onde exercem seu estilo de vida que ele chama de 'Bien Vivir', estilo que preconiza a armonia entre homem, terra, mata, rios, animais e o espírito, sem pressa, sem acúmulo de riquezas.

- Nos últimos anos a região que vivia do binômio 'Boi-Soja' vive agora uma mudança econômica trazida com a chegada de mais de 20 usinas de açucar e alcoól. Devidamente estudado, há de se compreender a degradação social trazida pela cultura da cana-de-açucar em todo lugar onde se instalou, apesar do crescimento econômico.

- No caso da região sul de MS não é diferente, onde boa parte da mão-de-obra das usinas do setor sucro-energético é indígena. Além disso, às terras que são reivindicadas para demarcação e estão em processo de estudo desde 2007 após TAC - Termo de Ajuste de Compromisso - firmado entre MPF e FUNAI,  são às mesmas arrendadas por fazendeiros para a produção da cana. Ou seja, agora além de lutar contra o gado e a soja, os indígenas se veem obrigados a conviver com as imensas culturas de cana que estão gerando alta lucratividade para esses fazendeiros.

- 'UPPs' nas aldeias não é tão novidade. No dia 10 de junho foi deflagrada a Operação Tekoha, baseada na Reserva Indígena de DOurados (a mais populosa do Brasil). A operação contava na época com as polícias Federal, Militar, Civil e membros da Força Nacional, e tinha por objetivo diminuir os indíces alarmantes de crimes nas aldeias da região. Hoje apenas a Força Nacional continua na Operação Tekoha e restrita à reserva indígena de Dourados. Estuda-se a implantação de Polícias Comunitárias nas aldeias do Sul do Estado. Mas é um processo mais demorado, pois deverá contar comtreinamento não só do ponto de vista policial como do ponto de vista cultural.

- A violência contra indígenas em MS concentra mais da metade da violência contra indígenas de todo o país. De 2003 até 2010 foram 255 mortes de indígenas em MS. Desde de 1983 (28 anos antes da morte de Nísio Gomes) quando morreu a lendária liderança MArçal de Souza, diversas lideranças foram assassinadas em frente às suas comunidades ou simplesmente desapareceram, sempre em reocupações de terras tradicionais.

- Assim como nas favelas do Rio, a atuação de milícias e grupos de extermínio tem sido uma constante para as comunidades indígenas. Ameaçados, cercados, com seus direitos vilipendiados e suas lideranças exterminadas, um verdadeiro genocídio tem se firmado no estado que é no Brasil originalmente guarani - Uma das amiores nações indígenas, estando presentes na Bolívia, Paraguai, Argentina, Uruguai e em diversos estados brasileiros, sendo que MS abriga a maior parte dessa população no Brasil.

Espero ter contribuido um pouco para esclarecer a situação e fomentar o debato.

 Saludos!

Alan de F. Brito

Jornalista

 

 

 

 
 
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Assis Ribeiro

Alan, tenho preocupação com a causa indígena, como com as demais minorias, mas não sabia que a situação era tão grave e alarmante. Obrigado pelas informações.

Sua matéria merece um post para que todos tomemos conhecimento destas atrocidades.

 

Assis Ribeiro

 
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maria utt

Atenção, isso não tem nada a ver com nenhum ministro do supremo. A jurisdição dele é um estado ao norte.

 
 

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