O ovo da serpente da linguagem racialista

Por José Roberto Militão

      Nassif,
       uma reflexão chamando a atenção e denunciando a gravidade do uso da linguagem racial no blog por pessoas que se dizem contra o racismo.

abraço,
J. Roberto Militao.

“ PRETO é cor; a “raça” é negra”? Alimentando o ovo da serpente.

No combate ao racismo é imperiosa a desconstrução da linguagem de pertencimento racial. No espaço de uma semana, em dois tópicos, sucessivos e concorridos debates na internet sobre racismo no portal LUIS NASSIF ocorreu o uso abusivo em mais de duzentas vezes, da classificação racial dos pretos e pardos na condição racial de “negros” (`19/02, ´Preconceito sutil é mais forte e perpetua o racismo´; e 18/02, ´O DNA dos “Negros” e Pardos brasileiros´,)  http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/preconceito-sutil-e-mais-forte-e-perpetua-racismo.

Ficou obvio o uso da linguagem racialista é fonte do racismo que queriam combater. O perfil dos debatedores, sem dúvida, é de humanistas não racistas. A maioria reconhece a contundência do racismo sutil, tão bem exposto no texto de ANA MARIA GONÇALVES denunciando o cartunista ZIRALDO, com provas textuais, da prática do racismo na linguagem que uniu, com o intervalo de um século, dois expoentes da literatura infantil: ZIRALDO do sutil ´Menino Marron´ resolveu sair às ruas no carnaval de 2011 determinado a propagar a defesa pública da literatura com odiosa pregação racista e eugenista de MONTEIRO LOBATO, mentor intelectual de um plano de genocídio da raça negra proposto no livro ´O Presidente Negro´, a “solução final” para erradicar a “raça inferior”. http://www.cartamaior.com.br/templates/analiseMostrar.cfm?coluna_id=4967.

Na condição de escritores para crianças, ambos utilizaram com maestria da poderosa arma da linguagem para a sedução às suas crenças, da fértil mente e frágil alma. ARISTÓTELES, em a Política, afirma: somente o humano é um "animal político", isto é, social e cívico, porque somente ele é dotado de linguagem. Os outros animais possuem voz e com ela exprimem dor e prazer, mas o humano possui a palavra (logos) e, com ela, exprime o bom e o mau, o justo e o injusto. Exprimir e possuir em comum esses valores é o que torna possível a vida social e política e, dela, somente os humanos são capazes. É isso: a linguagem capacita o homem, para o bem ou para o mal. A identidade política da ´raça negra´, em vez da cor preta, expresso no slogan, é uso perverso e irresponsável da linguagem que consolida a crença racial, semente de mais e mais racismo. Qualquer identidade racial é odiosa.

No combate ao racismo é essencial o pressuposto da igualdade humana a partir da única espécie humana. Consiste, ainda, na negativa, reiterada, de qualquer ´raça´ humana. A espécie é única, formada por 6 bilhões de indivíduos diferentes. Por isso é assustador a naturalidade de quase todos, sem receio e sem respeito à linguagem, política e conceitualmente, corretas (LPCC), utilizarem-se da imposição arbitrária da alcunha racial “negros” para designação dos afro-brasileiros. Isso é alimentar o ovo da serpente. Essa designação racial não nasceu no meio e costumes dos afro-brasileiros. Ela foi construída na academia no século 20, sob a forte influência da eugenia, do racismo e da guerra-fria, influentes no meio intelectual.

Os afro-brasileiros jamais praticaram a definição de uma identidade política como pertencentes à raça negra. A nossa narrativa histórica é de repudio a esse pertencimento racial. Basta ver, desde o século XVII, que a resistência e busca da liberdade não se fez por ´negros´. Não há registros de Quilombos ou Irmandades de “negros”. As terras ocupadas foram e ainda são “terras de pretos”. Na organização social foram milhares de Irmandades, Igrejas e Cemitérios de “HOMENS pretos”, “HOMENS pardos” e “Pretos Novos”. Na umbanda, a reverência é ao “preto-velho”. Nossos avós eram homens e mulheres de cor. Jamais foram “negros”. Essa é a verdadeira narrativa dos afro-brasileiros que merece respeito. Queremos e exigimos ações afirmativas para o combate às discriminações e a neutralização de exclusões injustas e almejamos a promoção estatal de oportunidades iguais, porém, sem o sacrifício do conceito da igualdade espécie humana e sem a violação da nossa própria dignidade. É isso o que pensam 2/3 dos afro-brasileiros conforme a única pesquisa específica realizada no Rio de janeiro em 2008 (CIDAN/IBPS), que por expressiva maioria de 63%, superior à que, sem questionamentos, elege líderes mundiais LULA, DILMA e OBAMA, rejeitam leis raciais.   http://www.ibpsnet.com.br/descr_pesq.php?cd=83

       A CRIAÇÃO DA ´RAÇA NEGRA´
       Em nossa língua histórica da palavra ´negro´ significa o acatamento da classificação racial: o escravo era de ´raça inferior´ e não significava a cor da pele. O “negro” poderia ter qualquer cor, por acaso conjuntural, foram os pretos. Até 1755 os índios eram “negros da terra”. A palavra define a atribuição aos pretos do pertencimento a uma raça inferior, assim designada pelo racismo no século 18. Todavia, os afro-brasileiros jamais acolheram a identidade “negra”. Contra essa linguagem há o império de princípio essencial da pesquisa antropologia: é que a narrativa do “nativo” nunca está errada. O observador não detém verdade superior para ser imposta: tem o dever de ouvir e, com humildade, respeitar e entender como verdade absoluta a narrativa e a consciência do grupo nativo. É a doutrina da neutralidade absoluta exigido na coleta de narrativas, palavras e expressões características da mentalidade do grupo para a compreensão da sua visão do mundo. O que a academia tem feito ao nos classificar como raça negra é violar tal princípio para impor aos afro-brasileiros auto-declarados pretos e pardos uma falaciosa classificação racial de “negros” que historicamente não narramos. Se, portanto, a condição de “negro” não tem a origem na narrativa do grupo é uma imposição exterior, artificial, falsa, uma fraude intelectual.

Não se trata aqui, de simples questão semântica. Nem se trata de super dimensionar a chatice da LPCC. Trata-se de reconhecer a linguagem como edificadora ou demolidora da pretensão política de ideais mais nobres e, os escritores, em especial os que semeiam para jovens, de LOBATO a ZIRALDO, cientes disso. JOAQUIM NABUCO, no prefácio de ´O Abolicionismo´ (1863) anuncia a sua aspiração maior: “Quanto a mim, julgar-me-ei mais do que recompensado, se as sementes de liberdade, direito e justiça, que estas páginas contêm, derem uma boa colheita no solo ainda virgem da nova geração” (p.2; abril de 1.863). A oposição ao racialismo estatal exige que na articulação de políticas públicas de combate ao racismo é preciso considerar essa poderosa força da linguagem. Nas referidas centenas de comentários no portal, os afro-brasileiros foram designados por ´negros´ para milhares de leitores que reproduzirão a falsidade. Se legitimada essa linguagem, o racialismo estará institucionalizado.

Na internet, esses debatedores representam bem a síntese do Brasil mais lúcido e esclarecido, o que é agravante: são formadores de opinião e, pelo perfil, estão quase todos empenhados na edificação de uma sociedade mais justa e igualitária. Entretanto se utilizam de uma linguagem racista viciada pela designação imposta pelos ideais do racismo. Hoje, em qualquer trabalho acadêmico e nos reiterados discursos de defensores da raça estatal, manipulam-se as estatísticas e no grupo racial de “negros” está contida a arbitrária soma de brasileiros que se definem perante o IBGE como pretos e pardos. A tal “raça negra” é decisão burocrática distintas da narrativa. O grave disso é que está consagrado na Lei 12.288/10, ´Estatuto da Igualdade Racial´. Sobre o tema, DEMETRIO MAGNOLI denuncia: “Com que direito o Estado rouba-lhes a voz (de pretos e de pardos) e as declara “negros”? Há uma armadilha na linguagem. Ela consiste em batizar os indivíduos com o nome de uma raça. A prática, repetida à exaustão, cria a ilusão de que existem raças “branca” e “negra”, tanto quanto as montanhas, rios, lagos e espécies biológicas .(http://noracebr.blogspot.com/2009/11/o-que-ha-num-nome.html). Entrementes, no livro, ´Uma Gota de Sangue´ (2009), MAGNOLI a despeito da convicta motivação de combate ao perigoso racismo estatal, nos designa como população “negra” com o atenuante de manter a palavra sob aspas. Como visto ao utilizar a linguagem racialista mesmo que seja com a saudável intenção de repúdio ao racismo, mesmo quem deseja destruí-lo, apóia-se, por descuido, na lógica semântica do racismo conceitual que alimenta a própria crença racial e sua hierarquia implícita.

Outro exemplo disso ocorre na literatura acadêmica ou não. Nos livros, traduz-se as palavras designativas da identidade dos afro-americanos, black people ou afro-americans, como se fosse a população ´negra´, palavras que não são sinônimas nem no inglês ou em português. Em nenhuma resenha se faz uma crítica para o erro crasso. Afinal, a palavra ´negro´ foi escolhida pelo racismo para definição da raça inferior pelo seu relevante e sinistro significado. Tem a mesma raiz etimológica de nekrós (sem vida, morte, cadáver = necro, necrotério, necrose, necrofilia etc) definidoras do que não tem vida, não tem luz ou é relativo à morte. “Negro” designava o escravo em geral, reservando aos índios serem “negros da terra” até o édito “Directório do Índio” (1.755) de Marquez do Pombal. Então, proibia a escravidão indígena e vedava sua designação por “negro”. O ato visava sua inclusão na sociedade civil e atendia a interesses do Rei, porém, já se fundava nas teorias do iluminismo sobre a origem e fundamento da igualdade humana (APEB, m.603, fl.20v) http://www.histedbr.fae.unicamp.br/navegando/artigos_frames/artigo_073.html. Ao mesmo tempo a designação dos pretos pela alcunha de “negros”, servia ao racismo para restringir a força dos ideais iluministas não contemplando com direitos humanos essa “raça” inferior.

Aliás, em nome do combate ao racismo exige-se da academia um esforço na correição disso: essa linguagem tem sido fonte do neo-racialismo que exige tanto esforço para ser contido. Não são os pretos e os pardos que se auto designam ´negros´. Primeiro foi o racismo em seu nascedouro. Depois o Estado acolheu, no auge da divisão racial dos humanos, através do ´Directório´ explicitando em seu artigo 10: ´negro´ é designação indigna, infamante e degradante, proibida de ser empregadas aos índios, a quem S. Majestade reconhecia a inteira humanidade, pois reservada aos ´pretos´ da Costa de África, diz a letra da lei pombalina. Até então os africanos traficados, eram humanos da cor preta, de quem o racismo vem retirar a humanidade e lhes atribuir a condição de raça negra, a raça inferior. Um dos primitivos sentidos da palavra “negro” era “escravo". Por isso a palavra é ofensiva em países africanos e Estados Unidos, onde é empregada a palavra black que literalmente corresponde à palavra preto, ao invés de niger (negro).

               O ´OVO DA SERPENTE´
               A parábola do ´Ovo da Serpente´, consagrada em filme, refere-se ao período entre a 1ª e 2ª guerra mundial, em que as potências ocidentais flertaram e conviveram com a ameaça do nascimento do nazismo. Os ovos das serpentes são transparentes e basta colocá-los de frente à luz do sol, para ver os filhotes em formação: o nazismo e seu racismo estavam sob a luz do sol. Com a onda de pertencimento racial imposta aos afro-brasileiros estamos diante de ovos da serpente.
               A academia, após a 2ª guerra e os desafios do combate ao racismo nazi-fascista, foi quem introduziu nos livros, nas teses e nas pesquisas o ´negro´ como um objeto racial. A academia não o fez por mal, quase sempre. O fez, numa época em que se acreditava em raças e até mesmo que o pertencimento racial poderia ser uma manifestação política positiva. Florescia a guerra fria e a disputa entre os aliados vencedores da 2ª guerra. O império capitalista e o império comunista disputavam corações e mentes. FLORESTAN FERNANDES, marxista, considerava a identidade ´racial´ para compreensão da questão da exploração de ´Raça & Classe´: “preconceito e a discriminação raciais estão presos a uma rede da exploração do homem pelo homem e que o bombardeiro da identidade racial é  o requisito da formação de uma população excedente destinada, em massa, ao trabalho sujo e mal pago...” (Florestan, 1989, p.28). CLOVIS MOURA, comunista, importante sociólogo afro-brasileiro, ideólogo do MNU nos anos 1970, acreditava na identidade racial para a consciência política de luta dos “negros”. No século 21, o antropólogo KABENGUELE MUNANGA e outros intelectuais abandonam a lição primaz da antropologia consagrada na absoluta neutralidade, contrariam a narrativa histórica dos afro-brasileiros, induzindo o equivocado entendimento da imposição da identidade racial, municiando ativistas do neo-racialismo estatal, alterando identidades censitárias e tripudiando sobre a mestiçagem, para se contrapor à verdade sociológica de Gilberto Freyre: a nossa mestiçagem é cordial. A doutora FATIMA DE OLIVEIRA, médica, afro-brasileira e militante contra o racismo, é categórica: “O BRASIL É UM PAÍS mestiço, biológica e culturalmente... No contexto da mestiçagem, ser negro possui vários significados, que resulta da escolha da identidade racial que tem a ancestralidade africana como origem (afro-descendente). Ou seja, ser negro, é, essencialmente, um posicionamento político, onde se assume a identidade racial negra.” (Ser negro no Brasil; http://historiaemprojetos.blogspot.com/2008/11/neste-texto-mdica-feminista-ftima-de.html.
               As universidades, através do uso irresponsável da linguagem racial, produziram uma monstruosidade: uma geração de afro-brasileiros militantes da raça estatal, alguns bem intencionados, brincando com a metáfora, alimentar o ovo da serpente através do uso político de uma identidade racial fraudada, sementes de ódios raciais. Para isso os defensores da identidade racial desconsideram a sabedoria do saudoso MILTON SANTOS, para quem, nos diferenciando da sociedade norte-americana, afirmava, assustado com os rumos tomados pelo movimento negro: “a nossa miscigenação e tolerância relativa é algo virtuoso e deveria ser um ponto de partida para os afro-brasileiros, o que não pode ser desprezado; não gosto do tratamento separado; quero ser apenas brasileiro como outro qualquer...”.  http://www.youtube.com/watch?v=xp9_fPuYHXc

               PRETO É COR; a ´raça´ é NEGRA?
               Ao contrário do que pensam os racialistas, o combate ao racismo não tem vínculos ideológicos com a luta de classes sendo, portanto, desnecessária a tal ´identidade racial´ oriunda de guerra fria. Não há mal algum na designação da cor dos humanos: preto, branco ou pardo, é simplesmente a cor da pele. Isso não é raça. Se a pessoa de pele branca é designada ´branca´, por que não ´preta´ a pessoa da cor preta? O que não pode continuar é o uso dessa linguagem racial reprodutora da classificação racial, sendo praticado por quem, de fato, queira destruir a crença racial. Essa verdade está contida, de forma inversa, na campanha racialista conduzida por ONG´s de afirmação racial: ´preto´ é cor; a ´raça´ é negra. Essa campanha e outras, apoiadas nos vícios da academia e financiadas por Foudacion´s norte americanas, negam a humanidade da cor de pele e visam impor aos afro-brasileiros o pertencimento a uma identidade racial ´negra´ dissidente da narrativa do próprio grupo social.
               O fato é que HUMANOS DE COR é afirmação da humanidade. A atribuição da condição de “negro” é classificação racial sonegadora da nossa condição humana, o que configura na violação da própria dignidade humana. Estudos respeitáveis confirmam a nossa desconsideração racial. Em 1953, ORACY NOGUEIRA (Tanto preto Quanto branco, USP) já constatava a nossa identidade pela apenas pela cor (marca) e, em 2009 na UnB, para desencanto dos defensores da identidade racial e da própria autora, a doutora FRANCISCA CORDÉLIA (Brasileiros não reconhecem sua identidade racial) chegava à mesma conclusão em suas pesquisas de doutorado. Nós, brasileiros, pretos e pardos, não temos e não queremos nenhuma identidade racial. http://www.unb.br/noticias/bcopauta/index2.php?i=567

               A LINGUAGEM RACISTA e a DIGNIDADE HUMANA
               O objetivo da linguagem do racismo é dizer que a cor da pele indica um falacioso pertencimento de origem à inferioridade congênita da ´raça negra´. Quem aceita essa definição comunga com o ideal do racismo e sonega aos pretos e pardos a dignidade humana. Nessa questão da linguagem, não se pode levar em grande consideração o discurso de militantes racialistas afro-brasileiros, vítimas que são da Síndrome de Estocolmo ao assimilarem a lógica do opressor. Porém, parte significativa, constituída por uma rede de intelectuais seduzidos pelos financiamentos de Foudacion´s e de agências norte-americanas, organizados em ONG´s e em cargos públicos para a defesa do pertencimento à “raça negra” estatal, sabem o que estão fazendo na adoração aos ovos: eles precisam dos filhotes da serpente. Para as Foudacion´s, fertilizadoras dos ovos, o que interessa é nos dividir em “raças” e nos igualar ao que há de pior nos Estados Unidos, nos retirando aquilo que MILTON SANTOS diz ser condição virtuosa.
       Nesta questão da linguagem definidora da identidade dos afro-brasileiros a qualificação da narrativa étnico-antropológica, se racial, vai alterar a própria identidade nacional, cabendo, pois, à academia e intelectuais em geral, fontes propagadoras do conhecimento, zelar pela precisão da linguagem e do conceito nela contida. A academia há de reconhecer seu equívoco na construção desta “raça negra” num marco contextual de trauma e guerra fria, traduzido em pertencimento racial: a maioria de afro-brasileiros não queremos esse pertencimento racial.
       O resultado desse ovo da serpente com a crença ´racial´ e atitudes racistas, de lado a lado, será a violação da dignidade humana dos afro-descendentes, especialmente das crianças e adolescentes que aprendem e não acatam o pertencimento a uma ´raça inferior´. É o que se revela na tragédia social que está afetando aos afro-americanos, conhecida como o niilismo social, denunciada por intelectuais como THOMAS SOWELL, CORNELL WEST, KELVIN GRAY e BARACK OBAMA: neste 2.011, nos EUA, com um presidente afro-descendente, de 40 milhões de afro-americanos, 2,5 milhões de afro-americanos estão nas prisões ou sob custódia da justiça, ou seja 6% da população afro. Embora sejam apenas 12% da população, representam 65% dos presos. Entre os jovens de 16-28 anos a tragédia tem dimensão absurda: 50% dos jovens, do sexo masculino, estão presos ou cumprindo sentenças criminais. Entre a meninas, a gravidez adolescente, as afro-americanas representam 70%. Tais números revelam um futuro desastroso para os afro-americanos. Nós não podemos desejar isso a nossos filhos e netos. Em vez de ensinar o ódio, devemos lhes ensinar o amor, conforme NELSON MANDELA: "Ninguém nasce odiando outra pessoa  pela cor da pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar." (Nelson Mandela)
       Destarte, tal identidade e pertencimento racial, como mecanismo de políticas públicas raciais, são geradoras de ódios e inibidores de harmonia social. MALCOLM X, o mais radical ativista afro-americano, compreendeu isso e abandonou a luta racial para fazer a pregação politizada contra o racismo. Num de seus últimos discursos, ponderava: a estratégia do racismo foi nos retirar a inteira humanidade. Agora, lutemos pela reconstrução da nossa dignidade de humanos. Lutamos por nosso direito de humanos. Escreveu sua ´Carta de Meca´ renunciando à política da luta racial afirmando que, doravante, a luta seria contra a miséria e não a luta racial: "Eu estarei com qualquer um, não me importa a sua cor, desde que você queira mudar a condição miserável que existe nessa terra". Foi executado por PRETOS racialistas. O doutor MARTIN LUTHER KING, reconhecido com o prêmio Nobel da Paz pregando a derrubada das leis de segregação de direitos raciais e lutando para que seus filhos fossem respeitados pelo caráter e não pela cor da pele tinha por fundamento um princípio ético fundamental contra o estado racialista: "Uma lei injusta é uma lei humana sem raízes na lei natural e eterna. Toda lei que eleva a personalidade humana é justa. Toda lei que impõe a segregação é injusta porque a segregação deforma a alma e prejudica a personalidade." (1963, Carta da Prisão de Birminghan). Foi executado por BRANCOS que acreditavam em raças e em direitos separados.

São Paulo, 22 de fevereiro de 2011.
José Roberto F. Militão, advogado.
Ativista contra o racismo de qualquer matiz.

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103 comentários
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Weden

 

Militão, acho você um homem brilhante.

Mas nesse espaço, pelo menos, nunca vi um artigo seu sobre o racismo contra os negros.

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Eu sei que outros colegas do blog exageram nas suas posições.

Mas não deixa de ser incrível como nunca se volta contra o racismo contra esse povo tão sofrido.

Não faltam oportunidades. Recentemente, um jogador de Volei foi humilhado em quadra por ser negro; há casos de espancamentos contra negros em shoppings, há incríveis casos de desrespeito ás religiões afro-brasileiras, há uma forte discussão sobre bullying racial.

Gostaria de saber muito das suas opiniões firmes e sérias contra esse tipo de coisa.

Mas quando estes tristes acontecimentos se dão, só percebo silêncio...

Só uma bandeira com você? Lutar contra o que você chama de o "racismo dos negros", quando defendem as cotas?

Quem só lê suas opiniões acha realmente que vivemos numa democracia racial e negrada vai acabar estragando tudo.

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Obs. Há pessoas que falam muito mal dos antibióticos. Esquecendo-se das infecções.

 

 

 
 
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Sergio Saraiva

Waden,

creio que você não entendeu muito bem as colocações do Militão.

Esse batalhador da igualdade, não reconhce a raça negra e nenhuma outra raça, apenas a espécie humana composta de seres de todas mas matizes.

Isso não significa que o texto não seja mais um libélo contra a discriminação.

Ao contrário, muito ao contrário.

 
 
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LEN

Sérgio, com todo o respeito a você e ao militão, o texto não pede para abolir a distinção de espécies pela cor da pele, o que ele pede é para mudar a referência de negros para pretos, o que discordo respeitosamente. Chamar de preto na minha opinião não resolve o problema do racismo sutil, apenas troca uma designação pela outra, se ele opinasse pela extinção dessas designações e proposse que apenas nos referenciarmos por "humanos" seria uma solução mais politicamente correta.

O problema é que acho que chamar de negro é uma colocação menos agressiva, se você for reparar nas denúncias de racismo, geralmente o agressor usa a palavra preto e não negro: "preto safado", "preto fedido" e outros "elogios" dessa monta. Eu me sentiria incomodado de ter que chamar alguém de preto, pela educação que tive, não chamo nem de negro quando não me refiro a raça, quando me refiro a individuos a questão étnica não entra. Eu como a maioria dos brasileiros me considero mestiço, tenho no meu DNA a genética dos indios da amazônia em longinquos antepassados. O Brasil deveria assumir essa condição de predominancia mestiça e de área de convivência pacíficas de raças.

 

Visitem o Blog Ponto & Contraponto. Twitter: @len_brasil Robozinho do blog: @pontoXponto

 
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Leider Lincoln

Ao invés de combater o rascismo vem o cidadão e dis que muita gente, que ele mesmo reconheceu não apenas não ser racista, como combatentes do racismo, somos racistas por que usamos linguagem inapropriada.

A falta do que fazer _que neste caso não existe, pois há muitos Rebollas da vida_ leva mesmo alguns infelizes a fazer m*. E pior, eu sei quem é o Militão, ERA um de meus ídolos. Mas não tem como respeitar alguém com um senso de discernimento tão baixo.

MILITÃO: são os "Rebollas", estúpido! Depois você até pode tentar implantar a sua visão higienista e "apropriada", mas por enquanto, há coisas demais que REALMENTE precisam ser feitas...

 

Leider Lincoln

 
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adauto

 

Então, na visão dele, os racialistas venceram.

Pois para nós, já que concordo inteiramente com você, o significado da palavra "preto", que seria digamos, a que não traria nenhuma carga negativa, é muito mais ofensiva do que a palavra 'negro", que conforme ele esplicou, tem na sua origem a intenção da separação das raças, superiores e inferiores.

Mas quem não sabe disto, é racista também..?

 
 
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Carlos C

Olá, falo de Portugal. Interesante este tema, lembra-me um episódio que aconteceu comigo há pouco tempo com um grupo de pessoas de Africa:

Depois de uma sessão de cinema, comentava-se o filme. A minha interlucutora mais directa era branca-europeia (vive na Guiné Bissau onde trabalha numa ONG) e junto dela estavam alguns guineenses seus amigos.

Eu falava do filme e de repente fiquei atrapalhado, pois queria fazer uma pergunta sobre uma personagem que era descendente de naturais de Africa (ou natural de Africa) e de repente tinha que decidir qual a palavra mais adequada para o descrever sem ferir sensibilidades.

Era a única personagem do filme que não era branca-europeia, mas hesitei um pouco... ainda pensei utilizar a expressão "africano", mas esta não parecia a mais adequada no contexto do filme, a acção situava-se na Europa e não era clara a naturalidade ou nacionalidade da personagem e afinal estava a falar junto de pessoas que tanto etnicamente como de nacionalidade eram africanos. Acabei por utilizar a expressão "o músico", já que era essa a ocupação da personagem. A minha pergunta era até relativa ao intrumento que ele tocava. Pensei que tinha sido uma boa opção e dei um salto quando a minha interlucutora me retorqiu:

O preto?

Depois virou-se para um dos seus amigos e perguntou com toda a naturalidade: X (nome), qual era o intrumento que o preto tocava?

O seu amigo, um senhor guinense com um tom de pele particularmente escuro (como é frequente entre os naturais da Guiné) respondeu também com toda a tranquilidade á pergunta, identificando o intrumento e prosseguindo a conversa entre todos.

Concluí que para estas pessoas que vinham de Africa, a expressão "preto" não era depreciativa, e era usada habitualmente, de forma neutra. Na verdade parecia ser usada por eles com bastante mais naturalidade do que eu normalmente ousaria.  Cumprimentos, Mário

 

 
 
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J.Roberto Militão

 


           Carlos,


           Obrigado pelo relevante depoimento. Os pretos africanos querem ser simplesmente pretos, tais como os pretos brasileiros não devem ser rotulados pela ´raça´ negra.


abraços,
Militão

 

José Roberto F. Militão, adv. OAB/SP

 
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Flavio M. Carvalho

A verdadeira raiz etimológica da palavra negro é Niger (do latim), e não Nékros (do grego)... NEGRO é o nome do grupo étnico de todos os brasileiros pretos e pardos. Contudo, eu me sinto melhor quando se referem a mim como negro, ao invés de preto. Não que haja algo errado com a palavra preto; é apenas uma preferência minha... NEGRO é o meu grupo étnico, e não a minha raça; porque a raça de todos os seres humanos é a raça HUMANA. 


 


Os Estados Unidos são uma nação de lingua ingleza; daí os afro-americanos terem mais facilidade de aceitar a palavra black (preto no idioma inglês), do que a palavra negro (que não é do idioma inglês pois foi adaptada do espanhol)... Por outro lado, o Brasil é um país de lingua latina (português), portanto, a palavra negro é adequada aqui e em qualquer outro país cujo idioma tenha se originado do latim. Aliás, as palavras ’negro’ e ‘preto’ são sinônimos na lingua portuguesa. 


 


O que é que está acontecendo? Alguns brasileiros estão tentando CRIAR TERROR EM CIMA DA PALAVRA NEGRO porque esta palavra foi escolhida para classificar os brasileiros pretos e pardos na mesma etnia; porque de fato são da mesma etnia pois existe toda uma afinidade genética e antropológica, e não apenas social e econômica como já vi em alguns sites sem compromisso com a verdade por aí. 


 


O Sr. Militão afirmou em seu texto que o Brasil é um país mestiço (Vejam só que asneira) ... Porém, enfatiza que os seres humanos são todos da mesma raça, que é a raça humana (Com isso eu concordo plenamente) ... Mas a falta de coerência está exatamente aí: Saber que somos todos da raça humana e, ao mesmo tempo acreditar em mestiçagem ente humanos; sendo que mestiços são criaturas geradas pelo cruzamento entre seres de RAÇAS DIFERENTES... É muita baboseira em um texto só! 


 


E pior... Na tentativa de dar força à sua ridícula tese, ele muda descaradamente as palavras dos dois grandes líderes afro-americanos (Martin Luther King Jr. e Malcolm X), dizendo que eles abandonaram suas identidades negras. MENTIRA DESLAVADA!!! ... Martin Luther King sonhava com um mundo onde as diferenças étnicas nunca fossem colocadas à frente do caráter das pessoas; mas orgulhava-se de sua cor/etnia, e elevava a auto-estima dos negros americanos por influenciá-los com esse orgulho. Contudo, procurou deixar bem claro que a sua luta não era contra os brancos ou qualquer outra etnia, mas sim por respeito e igualdade de direitos para os negros americanos... Martin Luther King nunca propôs uma igualdade condicionada à destruição de sua identidade. 


 


Malcolm X também nunca renegou à sua negritude. A verdade é que Malcolm, influenciado pelo que viu em sua viagem a Mecca, resolveu buscar uma militância mais humana. Ele abandonou aquela militância radical, em que chegava ao absurdo de chamar os brancos de demônios; mas nunca disse que estava abandonando sua identidade negra (ou “black”se preferirem)... Esta é a VERDADE!

 
 
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Orlando

Sérgio Saraiva

É óbvio que todos somos seres humanos. Mas não somos iguais. E não há nada errado nisso. As nossas diferenças é que nos tornam singulares e, sobretudo, contribuem para que nossas culturas/artes/histórias sejam tão diversificadas e ricas. Toda a natureza é composta dentro do conceito de opostos - homem/mulher, dia/noite etc. Diferentes, no entanto, complementares. Isto é, cada um ou cada etnia contribui para que - somados - sejamos mais criativos e melhores. Logo, somos, sim, diferentes. O que ocorre é que, não obstante diferentes, todos devemos ter o mesmo direito e serem tratados com respeito às suas diversidades. Isso não ocorre com no racismo.

O racismo existe em função de diferenças fisicas/cor ou culturais/religiosas. Isso entre seres humanos. No Brasil, isso ocorrre em função da cor/etnia diferentes. Mesmo assim continuamos todos humanos. Os negros mortos de forma violenta no Brasil, acho que o Milião se esqueceu deles, são igualmente humanos. Entrentanto, no Brasil, não são tratados, como todos os seres humanos...

Militão quando traz para o debate o sr Demétrio Magnoli, que é racista e vive na imprensa chamando negros de racistas/nazistas/terroristas, ele, Militão, demonstra    a quais forças ele, Militão está aliado. Não ao negro e muito menos à raça humana. Militão, na verdade, não gosta de ser negro e, por isso, quer que não haja negros [coisa feia e que não gosta] mas sim "seres humanos".

Somos todos seres humanos, repito, no entanto, não somos, todos os seres humanos, iguais. Falamos línguas diferentes, temos hábitos alimentares diferentes, temos culturas diferentes, temos nacionalidades diferentes. Enfim, isso [diferenças] nos torna, seres humanos - não obstante todas as nossas diferenças  - mais ricos e mais fortes e mais belos.   Enfim, seres humanos melhores.

Um abraço

 
 
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Neves

"É óbvio que todos somos seres humanos. Mas não somos iguais. E não há nada errado nisso".

Pois é, isto aí acima contraria de cara o que diz o princípio civilizatório da declaração abaixo:

"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade". - Artigo 1° da Declaração Universal dos Direitos Humanos

Seu problema reside nisso, você almeja uma sociedade desigual, sem fraternidade, desde que esteja ao seu alcance, a oportunidade favorável na desigualdade.

 
 
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Simone del Rio

Não aguento essa história de diferença mais. Somos iguais sim, todos diferentes em suas individualidades como a da impressão digital.

Somos iguais porque todos são diferentes. Grifei o verbo que anda fora de moda.

Reitero que não gosto da cor da pele  - branca, preta, amarela, vermelha, verde ou azul, -empregada como atributo do ser humano. Isso é aristotélico e não é herança desprezível. embora o estagirita tenha também seu calcanhar de Aquiles. Quem tem cor é biquini (amarelo, por exemplo), já dizia o poeta.

O único que transformou um "acidente" em "essência", já que se trata de definição, melhor de um conceito clássico, do " que é ser humano," foi o autor de "Alice no País das Maravilhas", com a aparição autônoma do sorriso do Gato de Cheshire.  

Minha bisavó,  também anti-filósofa e doce criatura, perdia a calma  habitual , quando  chamavam seus filhos de pretos; ensinava-lhes  a responderem que era "com papel branco que eles limpavam a bunda".  A lição de "igualdade" acabava em risos, nunca deu briga com os vizinhos, crianças também, mas ela concedia o passe para qualquer eventualidade. 

Adoro o Militão, muito, e ele sabe disso. Mas o artigo sobre o DNA só serviu para mostrar a incoerência do uso do termo "afro-descendente". Coisa de norte-americano que acha o DNA o tal.

Quanto ao racismo, tradução de um preconceito, que não é exclusividade  dos  "pretos, negros, blacks, crioulos, pardos",  e de uma manipulação histórica e social, infame ,  ou quiçá da maldade dos nossos iguais humanos, ele não se exaure na linguagem politicamente correta ou incorreta. Os danos são maiores e mais visíveis: pobreza, recusa de empregabilidade, humilhação pública, estigmas associados à criminalidade e à barbárie, ofensas, injúrias e assassinatos.  

A luta continua, não é Militão?

 

 

 
 
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Sérgio D.

Caro Neves, acho que você está enganado.

A declaração não diz em nenhum momento que os seres humanos são iguais. Diz que são iguais em dignidade e em direitos. Acho que você confundiu o negrito. É possível finalmente que as pessoas sejam completamente diferentes e ainda assim sejam iguais em dignidade e direitos. É óbvio, aliás, que as pessoas são diferentes (dã...). Mas enfim, não que eu considere que a Declaração  Universal dos Direitos Humanos seja rigorosamente um cânone do que é correto para a humanidade (não também que eu me oponha ao seu texto, mas simplesmente não o utilizaria como argumento definitivo para uma discussão).

Acho que você se enganou também em outra interpretação, ao dizer que o colega "almeja uma sociedade desigual, sem fraternidade, desde que esteja ao seu alcance, a oportunidade favorável na desigualdade". Leia nas entrelinhas do que ele e todos têm dito, e evite tentar adivinhar tanto sobre os sentimentos de seu colega simplesmente por sua  (de você) interpretação pessoal sobre o que ele escreveu em um comentário.

A todos os amigos do blog: aqui a maioria esmagadora defende os mesmos ideais, com diferença somente, na maioria das vezes, nos meios defendidos como mais adequados para alcançar esses ideais. Eu poderia discordar de muita gente aqui sobre o assunto racismo, mas de muitos poucos acharia realmente que não possuem boas intenções. E não venham me dizer que "de boas intenções o inferno está cheio" (aliás, seria uma colocação particularmente descontextualizada): entre boas intenções e bons resultados só existe uma distinção: se foi tomado ou não o caminho mais adequado. Só que assumindo que ninguém é dono da verdade, todos têm direito de defender o caminho que a si parece melhor.

 
 
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Fernando Régis

O Orlando foi preciso. Negar a raça é o caminho contrário para a busca da justiça em um sociedade multirracial. Aliás, os antropólogos e sociólogos embarcaram em uma canoa furada, com este discurso de que não há raças em nossa espécie. Isto não tem base biológica. Pena que os biólogos tenham se retirado desta discussão. Quem quer destoar neste tema delicado?

Mas o autor do artigo, em meio aos estragos que propaga, fala que os negros não tem identidade com o termo "negro". Fiz uma busca de um minuto na rede e encontrei: Banda Raça Negra, Banda Pagode de Mesa do Terra Brasil, com a linda música "um sorriso negro, um abraço negro..." Torcida Raça Rubro-Negra, e outras citações positivas.

Agora, pegar o Ziraldo de racista, essa é de doer.

 
 
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Ygor C.S.

Acredito que o autor e militante foi bastante preciso em algo de que não é preciso estudar para saber, mas apenas viver em meio à sociedade: é simplesmente artificial o enquadramento de pretos e pardos no Brasil como se formassem uma identidade étnica ou, pior ainda, racial de "negros". Isso não há. A maior parte dos pardos não se enxerga como integrantes de uma raça junto com os pretos e apartados dos brancos, mas precisamente como mestiços, a maior parte inclusive julgando descender de etnias cuja proporção ou importância na genealogia familiar não sabem nem precisar. Não há uma identidade separada, rígida e fixa que une de um lado pretos e pardos e, de outro, só brancos, mesmo porque os dados frequentemente divulgados tendem a colocar todos os pardos como "negros", confundindo isso com afro-descendentes, sem levar em conta que milhões desses pardos são caboclos que, individualmente, consideram-se fruto da mestiçagem de europeus com indígenas ou mesmo originados de outras etnias em que boa parte da população possui tez morena (árabes, por exemplo). Torna-se, por isso, bastante questionável esse artificialismo para inflar números e criar uma identificação que não há, a pretexto de combater o racismo e valorizar a "negritude" (termo que certamente nada significa, já que há com certeza uma cultura afrobrasileira da qual comungam negros principalmente, mas também muitos pardos e brancos, mas não há uma cultura associada a uma cor exclusiva no Brasil).

 
 
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J. Roberto Militão

          WEDEn e demais, saudações.

          Agradeço a gentileza das críticas que proporcionam uma auto-justificação pública. O WEDEN tem razão: não combato o racismo pontual., embora seja sempre solidário com a vítima. Como afro-descendente, sei e compreendo a dor do olhar, do gesto, do comportamento e das palavras racistas.  Não vejo a repressão como solução ao racismo.  Tenho profundo, epistolar e monumental desprezo pelo racista, e o considero um doente, vítima também. Ele é efeito da ideologia da divisão racial, da crença em ´raças´ e da hierarquia presumida na crença. Me dedico a luta maior,  na desconstrução do racismo como parâmetro do comportamento humano.

          Neste sentido, atuei nos debates pré-constituintes (1985-1988) para a  conquista da criminalização do racismo.  É o único ilícito penal tipificado na CF/88 que significa o repúdio da nação à diferenciação e discriminação em bases raciais  Promulgada a Constituição, passei a trabalhar e debater por Ações Afirmativas. Fui o relator do ante-projeto de um ´Estatuto de Promoção da Igualdade´, na OAB/SP (1994) que não era ´racial´, era um código de Ações Afirmativas sem o defeito de ´cotas racciais´.  Entreguei ao movimento negro e resultou no monstrengo do Estatuto da Igualdade ´racial´ que os racialistas apresentaram como projeto do Dep. Paim, depois Senador Paim. Você sabe o quanto nos custou  para retirar a segregação de direitos raciais na lei aprovada.

          Na constituinte, atuei para a outorga da titulação das terras dos remanescentes de quilombolas (discordo da forma como o movimento negro e a ABA - Associação Brasileira de Antropologia estão conduzindo o processo) e tenho debatido isso. Estão fazendo nas terras dos quilombolas igual fazem com terras indígenas o que não era o espírito inicial. Não entendo que sejam somente direitos culturais, e coletivos, como tem sido tratado. Entendo como direitos individuais e de caráter econômico, cuja deliberação se o título é coletivo ou não deve ser da comunidade. Tem sido imposto pelo INCRA e pela ABA a titulação coletiva e inalienável. As terras conquistadas deixam de ser dos quilombolas e são tituladas como ´concessão de uso´. São na verdade, ´terras da União´, e isso é uma fraude ao espírito da conquista - a mens legis -.  Essa forma, atende aos interesses corporativos de OnG´s e da ABA, não atende ao exercício do livre arbítrio dos donos da terra.

        Essa foi minha posição da 1a Comissão Especial (IPESP) para diretrizes na regularização de Quilomobos, no governo do estado de São Paulo Mário Covas (I995/96) que foi voto vencido. Em alguns casos, recomendo aos quilombolas o velho instituto do usucapião, pois ficam efetivamente titulares da propriedade.

        Como membro do Conselho Estadual, defendi políticas públlicas nas áreas de educação, saúde, trabalho e segurança pública de combate ao racismo e discriminações. Gosto e apoio atividades como as de MVBIll; do afroreggae; dos cursinhos pré-universitários que atuam para ´criar´ oportunidades, para induzir a auto-estima. Critico quando pedem privilégios raciais o que exige direitos ´raciais´.

        WEDEN, fico muito triste em cada notícia de um fato criminoso, de uma violência racial e lamento que estejamos falhando no combate ao racismo. Quem gosta disso são ONG´s que vibram em cada caso, ficam na torcida para que aconteçam, pois precisam fazer seus relatórios de atuação e justificação de financiamentos a projetos pontuais. É a mesma lógica de empresas de segurança: precisam do crime para ´vender´ seu produto. No caso, precisam de episódios racistas e estimulam até mesmo a provocação deles. Eu não gosto disso. Também não considero que a repressão seja a solução.  Defendo as Ações Afirmativas que visam neutralizar e erradicar as discriminações. A solução é a mudança da cultura. É isso que tenho feito, ao fazer a oposição à ´raça estatal´ - um sonho do racismo do século 19 e 20 - por entender que ela aprofunda a crença racial e produz, ainda mais, racismo.

       Enfim, com cuidado para não proclamar um vitupério, procurei dizer do conceito que conduz minha postura e convicções no combate ao racismo: estrutural e não tópico. Como soi acontece com quem faz, tenho cometido muitos equívocos e deles, retiro lições. Atuo conforme aprendi na juventude com a ´Idade da Razão´ de Sarte: não temos o direito de exercer o sagrado direito à omissão.

abraço, Militão.

 
 
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Leider Lincoln

Doutor, não nos acuse de ser omissos como nos acusou de ser racistas inconscientes, uma espécie de bebezinhos sem noção do certo e do errado. O caráter absolutamente bizantino das suas palavras foi demonstrada clara e inequivocadamente na FSP de hoje com o caso clubes paulistanos x babás. Esta é a luta, doutor.

E outra, esse negócio de afro-descendente é ridículo. Primeiro por que anglo-sul-africanos, bôeres, berberes e árabes são brancos. Como distingui-los dos "pretos"? E por que a maldita cor da pele ou origem tem tanta importância? Em breve, o que seremos? Euro-brasileiros,  afro-brasileiros, asiático-brasileiros e vira-latas? Convenhamos, doutor, qual a vantagem de se trocar a "denominação pela cor" pela "denominação de origem", como se fôssemos garrafas de vinho, ou queijos?

 

Leider Lincoln

 
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Jaime Balbino

No momento em que você cita ideólogos da "harmonia das raças no Brasil" como Demétrio Magnoli (e Ali Kamel), fica a impressão de que fez um acordo para proteger a serpente do racismo brasileiro em troca do seu apoio à causa de condenar e descontruir o conceito de racismo em todas as formas, inclusive e principalmente como preconceito ao diferente étnico e/ou culturalmente.

Concordo que o termo "raça" não é o mais adequado. Textos longos não são mais necessários para provar que não existe raças brancas e negras à luz de qualquer ciência séria. Mas não é esta a questão.

Socialmente, o conceito de raça tem outros signficados e todos relacionados à diferença. Essa incômoda palavra representa melhor do que nenhuma outra a realidade e põe por terra a harmonia defendida por ideólogos brancos e pretos.

Quanto mais se tenta escondê-la e desqualificá-la e descontrui-la, mais ela grita que está viva e presente. Exatamente no discurso de quem quer desautorizá-la!

Por isso, é melhor enfrentá-la dentro do seu campo, o preconceito, e não tentar retirá-la desta arena que lhe pertence. Sob o risco de não combatermos nada e, pelo contrário, deixar o racismo se infiltrar cada vez mais em nossa cultura... apesar de insistismos que é uma ficção criada por alguns negros recalcados.

 
 
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Orlando

[[[...Entreguei ao movimento negro e resultou no monstrengo do Estatuto da Igualdade ´racial´ que os racialistas apresentaram como projeto do Dep. Paim, depois Senador Paim. Você sabe o quanto nos custou  para retirar a segregação de direitos raciais na lei aprovada....]]]

Militão, seu discurso é do ponto de vista do branco. E pode, facilmente, ser colocado na boca ou na pena/teclado de figuras como Ali Kamel, Demétrio Magnoli, Peter Fry, Yvonne Maggie e tantos outros - pseudos - defensores de igualdade étnica. È a mesmo argumentação. Ou seja, sua leitura da questão étnica não é original. Ela vem misturada com toda a ideologia racista que sempre norteou a discussão étnica no Brasil. Ou seja, somos todos iguais/miscigenados  e não devemos importar o "mau" exemplo dos EUA.

Você só não entende que esse discurso [Kamel, Fry, Maggie, Magnoli] não permite que o negro seja o protagonista da sua própria história. Isto é, o negro será sempre tutelado por figuras [Freire e tantos outros] que o [negro] estudam como em laboratório e dão o diagnóstico: NÃO EXISTE RACISMO NO BRASIL! OS NEGROS ESTÃO ENGANADOS.... Nesse sentido, seu papel é, mais ou menos, do capitão do mato... Os protagonistas de seu discurso são Maggie, Kamel, Fry, Magnoli.... 

É a mesma ladainha. Isto é, resumindo: todo negro, no Brasil, que denuncia o racismo é racista e, sobretudo, um sabotador da "democracia" etnica brasileira. Quando você fala "o quanto NOS custou", é como se você se colocasse à margem da questão étnica no Brasil e que, você, não fosse negro.

No Brasil, o negro nunca teve privilégios. Muito pelo contrário. Ações afirmativas étnicas [cotas e afins] só irá equilibrar, um pouco, a flagrante desigualdade entre negros e brancos no Brasil. Talvez, assim, não morram tantos jovens negros de forma violenta...

 
 
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mucio

Waden sou pardo, um caboclo e isso significa que não sou preto. No entanto algum nazista achou-se no direito de na estatística do IBGE classificar-me como se fosse um animal como pertencente a uma pseudo raça negra. A propósito você é um preto pobre ou pobre preto? Pois que a segunda opção é uma situação muito difícil de ser resolvida pois que é um sentimento própria do sentimento da alma dos que são escravos. Na primeira é fácil basta acabar com a miséria no Brasil e os pretos pobres junto com os brancos pobres que originaram nossa raça mestiça, deixarão de existir.

 
 
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Jaime Balbino

A classificação do IBGE é por cor da pele, e não raça.

Tal descrição é importante para aplicação e avaliação das políticas públicas.

Ou devemos simplesmente ignorar quantos negros morrem em situações violentas ou quantos estão subempregados ou quantos ascenderam classes sociais? Devemos rejeitar conhecer tais dados em nome de uma idealizada igualdade?

Dessa forma fica mais fácil dizer que no Brasil todos tem oportunidades iguais? Basta não colocar o olho na desigualdade gritante?

Quando o ressenciador veio a minha porta, respondi "negro" com orgulho. Como faço todas as décadas. Foi difícil assumir-me negro porque clarearam minha pele desde a infância. Mas meu cabelo nunca se conformou @:)

 
 
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mucio

Desde de quando cor parda é igual a cor preta? Só se for pra um cego.

 
 
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Marcia

Não sou racista,  tenho prova que não sou. Csei com um negro, tive filhos com ele.

 

Mas, aqui para nós, quanto mais  se fala em racismo mais se alimenta o preconceito.

 

Moro numa cidade majoritariamente negra, e já senti racismo contra mim. Ser alva (tipo européia) em Salvador é ser diferente. Já fui chamada de branquela sem graça, espanhoila, etc,  porque, inegavelmente,  a cor morena é muito mais bonita. A mistura de raça é linda, meus filhos são caboclos/mulatos  lindos, nem parecem meus filhos, e morro de inveja porque se vou a praia  fico camarão, toda ardida, enquanto eles ficam dourados, uma beleza.

 

 

 

Em Salvador existe  muito mais preconceito contra pobre, pobre e negro é de lascar!

 
 
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Delim

Casou com um o que(m)? Tenha muito cuidado com o que e como fala. Não desrespeite o "Políticamente Correto"...

Francamente, indivíduos num país que não dá a mínima atenção à qualidade da Educação que suas crianças recebem tentando educar os adultos..... e também as próprias crianças que recebem uma formação de 5a categoria.... É condenar a ignorância sem procurar erradicá-la.

Muito há a ser feito antes de tudo isso.

 
 
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Paulo Cardeal

Ai ai quanto olha o que vc falou isso e aquilo, gostei do que ela falou é verdade . Agora tem gente que se sente ofendida fácil né... Bem ser negro não é facil , mais como diz o Mano Brown ... Seu filho quer ser Prreto! e agora hein

 
 
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alberto manoel ruschel filho

 

 O dia em que eu me encontrar com o negõ eu sou

Tem alguma boca de estrada que já te chamou? Uma que diz, sem falar, “Entra aqui!”? Tem uma que, quando passo por ali, me chama, sempre que.

Sai de asfalto, à esquerda, e permanece deitada pelos campos até onde – você sabe – a vista não pode alcançar. E o lugar, o destino que se me oferece, está na curvatura do mundo onde o tudo e o nada se sorriem, delicados, em silêncio.

Há a placa: “El Amarillo”.

“El Amarillo”, nasceu como sendo só uma casa grande, amarela, de varandas circulares feitas com largas taboas de cerne e – segundo uma versão – com uma grande e frondosa arvore de sombra que me espera.

A sombra fronteia a construção toda.

Ali, um tio-avô criou minha mãe, meu tio que morreu jovem, e minha tia gorda Kardecista e maravilhosa.

“El Amarillo” era uma casa amarela no meio do verde. Passou o tempo, e “el paisanaje“ ampliou o amarelo da casa. Chamou tudo mais em volta de estância do “El Amarillo”. Minha gente foi criada na estância. Comeu, dormiu, brincou de roda, pulou corda.

Foi lá que meus antepassados espanhóis, portugueses – ligeiramente franceses - possuíram escravos,e escravas. Era ali que os homens, meus parentes, antes de deitarem-se com elas deitavam os olhos nas ancas viçosas.

(A história da família de meu pai, uns autros/ciganos/hungros da Alsacia Lorena, é conhecida até 1637. Grandes coisa! Apesar de interessante, ficou sem mistério.
Tive um bisavô que era palafreneiro. Um chofer de taxi da época que transportava gente importante para as suas propriedades. Acabou se apaixonando pela filha de um casal de clientes. Um dia, ela deu um “mal passo” e ele, um cara quietão, foi escolhido para assumir a coisa. Juntaram os dinheiros da venda dos seus cavalos, arreios e “carros” mais o dote dela e, num vapor, acabaram no Brasil. Foram muito felizes ali perto de Estrela, no Vale do Feliz.)

Da família da minha mãe, eu só sei até o “El Amarillo”.

Desconfiei. Mas, um dia, muito depois de ter certeza, fui num Candomblé.

A Dona da coisa toda (era dia sem ninguém) falou um pouco, sorriu, estendeu uma esteira no chão e me mandou deitar, com a cabeça ”virada pra lá”.

Ela saiu.

Deitado, fiz uma oração pro Yagonanda. Pedi proteção, me desculpei. Mas por alguma razão - até por que sou do contra -, tirei a cabeça do lugar que ela havia indicado.

Ainda assim, fiquei ali, obediente.

Fiquei vendo-me negro, voltando à Iorubá, sorrindo, as gengivas à mostra, os panos coloridos nas mulheres, bandeiras me saudando e, sem caber em si, gingando, rodando, as cadeiras, os pés, os calos, a poeira, rodando.

Foi bom.

Tempos depois, ela voltou, sentamos e ela correu os búzios. Olhou-me nos olhos, calada. Olhou muito. Levantou e abriu os braços. Abracei, me encolhi pra encaixar mais e aninhei meu coração no dela.

Seu choro começou baixinho, aumentou. Ela se afastou - me afastou - e chorou muito, mas muito mesmo, muito mais do que eu poderia entender.

Fui embora, deixei-a na porta dizendo “Aqui é sua casa, volte... se quiser.”

Eu já sabia. Não entro na boca de estrada que me chama, porque já sei o quê iria saber chegando na varanda.

Sei pelo amor que já tenho por mim mesmo, o imenso orgulho que me invade por saber-me um vira-lata com sangue negro.

Minha consciência negra é concreta, a flor da pele, histórica, objetiva, feita de cerne, na carne.

Um dia, antes de voltar à Africa, voltarei à boca de estrada. Vou me visitar no “El Amarillo,

Sentarei no primeiro degrau da escada do alpendre carcomido pelo tempo pra observar aquela sombra da árvore vindo em minha direção. Vou encontrar-me com minha sombra, a mais solar e verdadeira.

Esta, a que me faz sorrir e chorar sem culpas na sombra da cor do jacarandá.

Cantar à sombra de seu cerne, duro mas macio, antigo e mais verdadeiro.

 
 
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gra

Aqueles que proclamam contra o racismo, de forma nenhuma declaram que "raça" existe  enqto componente de diferenças biológicas. Agora, o que existe em nossa sociedade, e outras, são relações socias racializadas. Isso é fato.

Diante disso, nos calamos? Se as relacões sociais são pautadas, também, pelas diferenças externas (cor, cabelo, traços) então é preciso problematizar a questão, é preciso tirar o véu da hipocrisia e não escamotear.

Tem muita gente que a depseito de não racializarmos biologicamente nossa sociedade, prefere deixar essa discussão para debaixo do tapete.... lamentável...

 

 

 
 
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gra

Racismo implica em relações de poder, e quem detém historicamente o poder no nosso país não são os negros, portanto não me venham com essa falácia de preconceito às avessas.... puro artíficio para barrar as conquistas do movimento que é proclamar, entre outras coisas,  a auto-estima de ser o que é, com o cabelo que a sociedade prega como horrível, tendo a "cor padrão" da repressão policial e por aí vai.

 

 

 
 
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Sergio Saraiva

Como uma pequena ajuda ao meu amigo Militão.

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Irmandade_dos_Homens_Pretos

 
 
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Sanzio

Minha primeira viagem à África do Sul foi em 1985, em pleno regime do Apartheid. Por mais que estivesse preparado para o que iria encontrar, não consegui não me chocar com a realidade impressa em placas colocadas em banheiros públicos, fachadas de restaurantes,  portas de ônibus e de estabelecimentos comerciais e bancários, bancos de praças, praias.

"Exclusivo para pessoas brancas" em letras grandes, seguidas de um breve esclarecimento pleonástico, escritas em inglês e africâner, algumas também em zulu.  Em cidades com grande concentração de indianos e paquistaneses era comum a adição da advertência em  hindi e urdu. Algumas eram acrescidas do esclarecimento de que era uma determinação legal da província ou do município, muitas usavam eufemismos para "brancos" como "raça branca", "europeus" ou "caucasianos".

Voltei várias vezes ao longo dos anos seguintes e sempre me chocava com explicitação da segregação, apesar dos esforços de meus anfitriões em evitar que eu tivesse um contato mais próximo com ela, impedindo-me de andar de ônibus ou a pé, ou levando-me a lugares tão exclusivos que as tais placas eram desnecessárias.

Mesmo assim, houve duas situações que me marcaram, uma pelo meu constrangimento e outra pelo constrangimento de meu anfitrião.

A primeira ocorreu quando atravessei uma passarela para pedestres, num parque em Johannesburgo, pelo lado "errado". A passarela era dividia ao meio por um alambrado, e na entrada havia a sinalização dos lados exclusivos para os brancos e para os negros e "coloureds", eufemismo para todos os não-negros e não-brancos. Decidi atravessar pelo lado dos "coloureds" e fui abordado por um senhor negro, de uns 70 anos, que me chamou a atenção por eu estar no lado errado. Fiquei atônito, ruminando comigo mesmo se aquilo teria sido uma demonstração de orgulho, do tipo "já que foram vocês que fizeram essa merda, tratem de respeitá-la", ou se fora uma demonstração de submissão, de subalternidade.

Comentei o incidente com um cliente, que havia se tornado quase um amigo com o passar dos anos, e ele me explicou que esse era um dever imposto aos negros pelo regime. A crueldade do apartheid havia chegado ao cúmulo de impor essa norma de conduta, que já caira em desuso mas que algumas pessoas mais velhas ainda a mantinham por força do hábito.

A outra situação envolveu exatamente esse quase amigo - jovem, descendente de ingleses e opositor silencioso do apartheid. Nessa época o calvinismo africaner impunha o domingo como um dia sagrado, em que não havia atividade quase alguma. Poucos restaurantes eram autorizados a abrir, apenas alguns dentre esses poucos podiam vender bebida alcoólica ou permitir que seus clientes as levassem, atividades esportivas eram proibidas, a programação televisiva era reduzida e, em grande parte, dedicada a assuntos amenos e religiosos. A diversão, de modo mais amplo, era fortemente condenada e proibida.

Num domingo de verão, esse meu amigo me convidou para um churrasco em sua casa, num dos subúrbios mais exclusivos e caros de Johannesburg. Uma casa enorme, num terreno enorme, com um jardim enorme na frente. Montamos a churrasqueira no jardim, atravessamos a rua para apanhar madeira e gravetos num parque em frente, acendemos a churrasqueira e ficamos bebericando e petiscando enquanto a carne assava. Cada vez que era necessário buscar algo dentro da casa ele ou sua esposa se dirigia até a porta, fazia o pedido para a empregada e  aguardava que ela o trouxesse.

Intrigado, perguntei-lhe a razão da empregada não trazer o que havia sido solicitado até nós, em vez de ficarem aguardando na porta. Constrangido, explicou-me que a empregada era a  babá de sua filha pequena e morava com eles, o que contrariava a lei, que obrigava empregados domésticos a retornarem para suas casas diariamente. Caso fosse denunciado por algum vizinho, tanto ele quanto a empregada sofreriam sanções, que podiam chegar a alguns meses de prisão. Portanto, havia decidido mantê-la reclusa dentro de casa. Oficialmente, mantinha a filha dela como a empregada da casa, apenas para que esta lhe trouxesse roupas, objetos de uso pessoal, fotos e recados dos demais parentes.

O regime do apartheid terminou oficialmente com a vitória de Nelson Mandela nas eleições de 1994. Voltei ao país várias vezes depois disso, pude constatar as grandes mudanças provocadas pelo fim do antigo regime, embora aqui e acolá ainda se vissem resquícios do preconceito e da discriminação.

Lembrei disso, e decidi compartilhar com os demais leitores, ao ler a matéria abaixo na Folha de hoje:

Clube obriga babá a usar branco e barra ida a restaurante

Pinheiros diz que existem áreas, como piscina e locais de eventos, que possuem regras específicas para acesso

Para coordenador da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP, regras significam um apartheid social

CRISTINA MORENO DE CASTRO
DE SÃO PAULO

O crachá deve estar sempre no pescoço e a roupa deve ser toda branca. Em alguns dos mais tradicionais clubes de São Paulo, não basta às babás apresentarem carteirinha, como os sócios. É preciso estar trajada de acordo com as regras.
É assim no Pinheiros, no Paineiras e no Paulistano, todos na zona oeste, cujos títulos chegam a R$ 25 mil.
No Pinheiros, algumas babás relatam que são cobradas a usar calçados fechados, mesmo em dias quentes. No Paulistano, é preciso usar "sapatênis, sapatos ou tênis da mesma cor do uniforme".
"Acho discriminação", diz a babá Silvana Santana, 36, que vai ao Pinheiros duas vezes por dia. Na semana passada, ela teve apreendida sua carteirinha (onde se vê escrito "acompanhante") porque vestia bermuda jeans e blusa branca. Foi avisada de que só o patrão poderia retirar o documento.
Outra passou por uma "blitz de babás" e teve a carteirinha retida, pois não usava branco. Ficou "constrangida e envergonhada."
Sua empregadora, que preferiu não se identificar, afirma que ficou tão incomodada que enviou uma carta ao clube explicando que ela não usa uniforme em casa e pedindo que não tivesse de fazê-lo no clube. "Foi indeferido. Alegaram que é regra."
Juliana Rodrigues, 25, também babá, diz que já lhe chamaram a atenção no Pinheiros porque sua blusa branca tinha "uma florzinha no canto" e porque usava sandália "neste calor".
Diz ainda ser proibida de ir ao restaurante acompanhada apenas das crianças e conta que um sócio já pediu que ela se levantasse de um banco perto da piscina.
O Pinheiros confirma que as babás só podem ir ao restaurante infantil.
Sócia do clube, a professora Nuria Carbó, 35, considera o uniforme discriminatório. "Passaram a vir de branco porque muitos sócios reclamaram da presença delas." Já Paula Krishnan, 37, também sócia, acha que a regra é uma forma de controle. "Assim como os funcionários do clube, [as babás também] têm identificação."
O coordenador da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP, Martim Sampaio, vê discriminação na exigência da roupa branca e, sobretudo, no veto ao restaurante.
"O clube tem o direito de saber quem está adentrando a dependência, até por questão de segurança, mas a carteirinha basta para isso", diz.
"É um constrangimento ilegal a empregada ter que se vestir de forma diferenciada e é absurdo impedir que ela entre no restaurante. Ser obrigada a levantar do banco é um apartheid social."
Segundo o Pinheiros, o clube tem 37 mil sócios e 1.500 acompanhantes de idosos, crianças e deficientes cadastrados. Eles devem apresentar crachá "e portá-lo em local visível durante a sua permanência no clube, como acontece com funcionários em qualquer organização". Uniforme e crachá servem para identificação, diz.
Afirmou que algumas áreas possuem "regras específicas para acesso, podendo ser reservados exclusivamente aos associados". Paineiras e Paulistano não se manifestaram.

 
 
imagem de Morales
Morales

Kill the Boer!

http://www.youtube.com/watch?v=xfUlvsjhlNw

 
 

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