O mais belo lance do xadrez

O lance maishonesto da história do xadrez

O lance mais honesto da história do Xadrez
[Berto José Costa F=(048)241-2329 - Florianópolis, Abr/99]

Hoje em dia a prática de suspender uma partida para continuá-la numa próxima sessão é muito pouco utilizada. Os torneios de xadrez rápido e/ou relampago geralmente concluem todas as rodadas num dia ou no máximo em 2 ou 3 dias. Somente em alguns torneios de longa duração, do tipo todos-contra-todos e em matches pelo título de Campeão Mundial de Xadrez, esta regra é válida e pode ser acionada.

E isto normalmente acontece quando uma partida não chega ao fim depois de decorridos 4 horas de jogo. Neste caso, o "lance secreto" é selado em um envelope que fica em poder do árbitro até o reinicio da partida.

No seu livro "From beginner to expert in 40 lessons" (De iniciante a "expert" em 40 lições) Alexander Kostyev menciona o adiamento da partida entre CAPABLANCA e VIDMAR, em Londres/1922:

"VIDMAR esperou seu oponente com o propósito de abandonar a partida. O tempo foi passando mas CAPABLANCA não aparecia. Olhando para o relógio VIDMAR repentinamente constatou que a seta do seu adversário estava para cair. Não hesitando, o GM iogoslavo apressou-se em direção ao tabuleiro e só teve tempo de inclinar o seu Rei no exato momento em que o árbitro estava por declará-lo vencedor pelo tempo. A imprensa inglesa rotulou a ação de VIDMAR como "o mais belo lance jamais jogado numa partida de xadrez".

Na verdade, a posição de VIDMAR na partida não estava tão ruim. Pderia até, em condições de jogo, tentar um empate e mesmo a vitória (veja a partida no final do artigo). No entanto, ao invés de vencer pelo tempo, pois o "lance secreto" era seu, abandonou, inclinando o seu Rei.

O que fez com que VIDMAR tomasse essa decisão nos segundos finais do tempo de CAPABLANCA só veio a ser conhecido anos mais tarde, através das MEMÓRIAS deixadas por VIDMAR:

"Quando nós saimos após suspender a partida, eu falei para CAPABLANCA que provavelmente teria que baixar minhas armas logo. Nós falamos em Frances, idioma que ele era tão pouco proficiente quanto eu. Ele assentiu gentilmente e nós nos separamos.

No recomeço da partida, o árbitro abriu o envelope selado, fez o meu lance no tabuleiro e acionou o relógio das Brancas. Um pouco mais tarde sentí alguém tocando o meu braço: "CAPABLANCA ainda não chegou", disse o árbitro ansioso. "Ele já perdeu bastante tempo", respondí e passei a observar outras interessantes partidas em andamento. Algum tempo depois, que não sei quanto, sentí a mão do árbitro novamente. Ele estava indiscritivelmente preocupado: "Em um minuto ou no máximo dois, o Campeão Mundial vai exceder no tempo", disse.

Um opressivo sentimento de inquietação afligiu-me. E se, quando nós conversamos na saída, CAPABLANCA não entendeu o que eu havia dito? E se ele tomou minhas últimas palavras como sendo: "Eu abandono", escritas no envelope selado? Então, se eu eventualmente ganhasse o 1º lugar no torneio mediante este não entendimento, o seria de uma forma desleal.

Com dificuldades eu forcei passagem através dos espectadores, cheguei na minha mesa e deitei o meu Rei, sem mais delongas. A seta do relógio caiu. CAPABLANCA apareceu, viu meu Rei deitado e sorriu gentilmente para mim.

Nós nunca conversamos a respeito da angústia que passei ou a respeito do perigo em que ele, não intencionalmente, se colocou. Eu preciso admitir que a minha posição não poderia ser salva se a partida fosse retomada.

Eu até esquecí este curioso incidente. Porém, em Nottingham/1936, o Presidente da Federação Britânica de Xadrez apresentou-me como "O HOMEM QUE FEZ O MAIS HONESTO LANCE JAMAIS VISTO NA INGLATERRA"."

O torneio de Londres/1922 terminou com a vitória de CAPABLANCA com 12 pontos, seguido por ALEKHINE e VIDMAR com 11,5 pontos cada, sendo que o único ponto inteiro perdido por VIDMAR foi justamente o da partida contra CAPABLANCA. Poderia portanto, ter obtido o 1º lugar, não fosse os ditames honestos da sua consciência.

Eis a partida:

Capablanca,J - Vidmar,M [D64]
London 1922 - Round 13

1.d4 d5 2.Cf3 Cf6 3.c4 e6 4.Cc3 Be7 5.Bg5 Cbd7 6.e3 0–0 7.Tc1 c6 8.Dc2dxc4 9.Bxc4 Cd5 10.Bxe7 Dxe7 11.0–0 b6 12.Cxd5 cxd5 13.Bd3 h6 14.Dc7 Db4 15.a3 Da4 16.h3 Cf617.Ce5 Bd7 18.Bc2 Db5 19.a4 Dxb2 20.Cxd7 Tac8 21.Db7 Cxd7 22.Bh7+ Rxh7 23.Txc8 Txc8 24.Dxc8 Cf6 25.Tc1 Db4 26.Dc2+Rg8 27.Dc6 Da3 28.Da8+ Rh7 29.Tc7 Dxa4 30.Txf7 Dd1+ 31.Rh2 Dh5 32.Dxa7 Dg6 33.Tf8 Df5 34.Tf7 Dg6 35.Tb7 Ce4 36.Da2 e5 37.Dxd5 exd4 38.Tb8 Cf6 39.Dxd4 Df5 40.Txb6 Dxf2 41.Dd3+ Rg8 42.Tb8+
Neste ponto VIDMAR teria feito o seu "lance secreto", o qual não se conhece (seguramente 42....Rf7), porém no último momento mudou para ABANDONO. (1–0)

Fontes: From beginner to expert in 40 lessons - Alexander Kostyev.
Fairest of them all – Larry Evans.
Banco de dados do autor.

Clique aqui para acompanhar no Twitter

Média: 5 (14 votos)
10 comentários
imagem de huluky
huluky

Emocionante. emocionei agora igual quando vi a entrevista do mestre karpov no brasil.

 
 
imagem de Pablo Castro
Pablo Castro

Ótima história essa !
De fato, hoje isso não seria imaginável de jogadores como Topalov, por exemplo, que no último encontro com Anand pelo título mundial se recusou a oferecer tablas ao adversário, restringindo qualquer forma de comunicação verbal ao árbitro, como forma de pressionar psicologicamente o campeão mundial indiano.
Vale lembrar que hoje mesmo em partidas longas ( ritmo pensado) foi abolido o adiamento, porquanto as análises de computadores tirariam quaquer caráter de jogo no momento em que a partida fosse retomada, transformado-se mais em verificação de análises de computador.
Portanto, hoje em dia, mesmo em torneios clássicos, a partida é jogada até o fim .
Há histórias interessantes também de partidas abandonadas em posições ganhar, valeria a pena dar uma olhada nessas posições incríveis, em que o jogador abandona temendo uma ameaça idenfensável do adversário, sendo que ele próprio tem uma ameaça indefensável antes e não se dá conta disso ...
o incrível é que isso já ocorreu com grandes-mestres, o que prova a incrível riqueza do jogo de xadrez !

 
 
imagem de FabioREM
FabioREM

Pelo visto, não era incomum Capablanca se atrasar em jogos oficiais importantes. Nao recordo se o mencionado acima era, mas no famoso match pelo campeonato do mundo Capablanca x Alekhine, em 1927 em Buenos Aires, considerado o maior de todos os tempos por muitos, Capablanca simplesmente " se atrasou" para uma partida -, sim, ele perdeu a hora. Quando chegou, com tempo limitado para jogar,nao podendo fazer a reflexão necessária em cada lance, acabou perdendo a partida. Perder o horário num campeonato mundial de xadrez é um tanto inesperado, não é? Mostra um grande desleixo.

Quantos aos adiamentos de partida, não acontecem mais porque com o crescimento das máquinas de jogar xadrez, um adiamento levaria a equipe da cada lado a buscar auxílio nas "chess engines". E aí, já não seriam seres humanos que estariam jogando, mas computadores, e ocorreria o desvirtuamento do match .
- Hoje não há jogador de xadrez, por melhor que seja, capaz de enfrentar a
"Rybka 4", a mais poderosa Máquina enxadrística do mundo. Mesmo os melhores jogadores de todos os tempos, seja Capablanca, Fischer, Alekhine, Karpov, Kasparov, quem fosse, poucas chances teriam contra a Rybka 4.

 
 
imagem de marco nascimento
marco nascimento

Já que o xadrez tá na moda no site vou pegar uma carona pra fazer uma pequena digressão cinematográfica.

Tenho uma queda por aqueles filmes que nunca se destacam, que nos antigos guias de vídeo costumavam ganhar uma ou duas estrelas. "LA Story" é o principal deles pra mim. Mas logo depois vem "Lances Inocentes" também conhecido como "À procura de Bobby Fischer". É um filme romanceado, mas ainda biográfico, sobre a infância de um prodígio do xadrez que veio a se tornar mestre internacional aos 16 anos, Josh Waitzkin.

Pois esse filme tem algumas coisas singulares. A principal é como ele aborda a cultura do BEST vs LOSER americana. Ok, o garoto ganha no final, mas porque é uma biografia, ele deve ter ganhado mesmo, e o estúdio provavelmente não aceitaria o projeto se não terminasse assim. Mas o sentimento do menino por aqueles que ele derrota não tem nada a ver com o que estamos acostumados a ver no cinema americano, pelo menos desde o discurso de Atticus Finch em "To kill a mocking bird" ("O sol é para todos"). Isso é expresso principalmente nas interações entre o professor, o pai e a mãe do menino, que compreende melhor que os outros, claro, que forças contém a sua competitividade.

No diálogo mais pungente do filme, a mãe pergunta ao pai, um jogador de baseball frustrado, "quantos jogadores cresceram com medo de perder o amor de seus pais a cada vez que entravam em campo" ao que o pai não deixa barato e devolve, falando o que sabe ser a pura verdade: "Todos!"

Vendo o que está em jogo, a mãe define a situação e deixa um ultimato: "Ele sabe que você o desaprova. Sabe que você o acha fraco. Mas ele não é fraco. Ele é decente."
\o
"E se você ou Bruce ou qualquer outro tentarem tirar isso dele, eu juro por deus, que levo ele embora"
\o/

Pra completar o filme é estrelado por um moleque excelente, Max Pomeranc, que nunca fez mais nada. Desinteressou-se dos holofotes de Hollywood. A introspecção que se vê na tela, pelo visto, não era exclusiva do personagem.

Josh Waitzkin virou um cara legal, mestre de xadrez, mestre de tai chi chuan e porta voz do xadrez eletrônico "Chess Master", que é muito bom.

Deixo-os com a parte do filme em que o tal diálogo se desenrola. É um ótimo filme, mesmo pra quem não gosta ou não entende de xadrez.
Abraço!

 
 
imagem de Léo Pasqualini de Andrade
Léo Pasqualini de Andrade

Apenas um comentário, Marco: conheci pessoalmente o Joshua Waitzkin, quando ele esteve no Brasil em 1994, e o comportamento dele não foi dos mais louváveis, ao contrário do que mostra o filme.

 
 
imagem de José Lira
José Lira

O xadrez teve grandes mestres que se comportavam com a dignidade de Vidmar no tabuleiro e na vida. Capablanca foi um deles, e o maior de todos, nesse aspecto, foi Max Euwe. Mas o próprio Alekhine, que manteve seu título mundial até a morte recusando-se a enfrentar os adversários mais fortes, destacou-se pela gana de ganhar a qualquer custo, tirando do xadrez essa aura de jogo de cavalheiros.

 
 
imagem de Marco Sanches
Marco Sanches

Grande Nassif, você me surpreendeu nessa !
Eu não conhecia essa sensacional história, e gostaria muito que você postasse mais sobre o Xadrez, esse jogo fascinante que a tanta gente encanta.

Ao ler esse post, lembrei do histórico match entre Bobby Fischer e Boris Spassky em 1972. Na primeira partida, Spassky chegou faltando um minuto para o início. Após ser aplaudido pela platéia - em que estava o Embaixador da União Soviética -, Spassky fez seu lance com as brancas, logo após o silêncio dos espectadores.

Fischer não havia aparecido, e uma atmosfera de tensão foi criada... somente nove minutos depois ele aparece, cumprimenta Spassky e responde, sem demora, dando início ao histórico confronto em que duas superpotências se enfrentaram no tabuleiro, em meio ao contexto da Guerra Fria. Emocionante ! Eram os EUA versus a URSS, e quebrando a hegemonia dos soviéticos onde Xadrez e Política desenhavam os contornos do desafio que foi além do jogo : era o embate ideológico, fascinante, entre dois mundos.

Toda essa riqueza histórica está muito bem registrada no excelente livro de Svetozar Gligoric, chamado Fischer vs Spassky - The Chess Match of The Century.

Espero sinceramente que este tema volte ao seu blog, pois é apaixonante.

E quero dizer mais uma vez : Bravíssimo, Nassif !

Teu blog é muito mais do que jornalismo de verdade.

Parabéns !

 
 
imagem de Gérson Peres Batista
Gérson Peres Batista

Parabéns pelo excelente artigo abordando a modalidade xadrez, Nassif.

Fraternalmente.

Gérson Peres Batista
www.clubedexadrez.com.br

 
 
imagem de gilberto cuello
gilberto cuello

estimado jorge...magnifico ejemplo el de Vidmar, pero de tiempo en tiempo ocurren estos hechos de dignidad deportiva...Anand ha abandonado mas de una vez cuando su adversario se encuentra apurado por el tiempo y el esta en posición inferior y lo de Vidmar debe ser único.

 
 
imagem de Wilton Yokomizo
Wilton Yokomizo

Olá Nassif!

Parabéns pelo post! É uma bela e valiosa história, sem dúvida.

Eu não conhecia essa passagem da vida de Capablanca, o gênio cubano.

Ví uma citação a você no livro "Diagonais - crônicas de xadrez"  de Helder Câmara, que mencionava exatamente a Defesa Brasileira - Defesa Câmara.

É muito legal saber de um jornalista referência que valoriza o xadrez.

Abraço

www.xadrezguarulhense.blogspot.com

 
 

Postar novo Comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
CAPTCHA
Esta questão é para testar se você é um visitante humano e impedir submissões automatizadas por spam.
CAPTCHA de imagem
Digite os caracteres exibidos na imagem acima.

Faça seu login e aproveite as funções multímidia!