O debate sobre a Reforma Psiquiátrica

Por Angelo- Usuário do CAPS

Sou usuário do CAPS, e para os que acreditam que o psiquiatra Mauro Aranha é motivado por ressentimento... Sinto informar que apesar dos CAPS envolver diveras especialidades no seu atendimento, na prática o médico psiquiatra é o que ocupa papel central. Em primeiro lugar a demanda é muito grande, e não é possível ter atendimento psicológico - que demanda mais tempo - para todos. Para o bem, ou para o mal - segundo a crença dos resistentes -, o acesso a medicação é o grande responsável pela melhora dos pacientes. Seria desejável e melhor a associação de medicação e terapia, mas fato que terapia sem a medicação seria impossível a vida de quem sofre de algum transtorno mental crônico.

o Aranha aponta uma situação complicada: Antes todos que tinham algum transtorno mental eram condenados a segregação, independente do grau do transtorno. Hoje, os transtornos mentais são tratados como se todos os graus de complexidade da doença fossem leves, desconsiderando as especificiadades do estado do paciente e dos diferentes tipos de atenção que estes deveriam receber seja de acordo com a severidade e o momento da doença mental.

Fazer coro contra a psiquiatria é fácil quando se está em bando e distante do chão da clínica. Acreditar em teorias de consíração cria a ilusão de ser mais crítico...

Não vejo viés da psiquiatria contra a psicologia nas colocações de Mauro Aranha, pelo contrário, o que percebo é que ele defende que os usuários da rede pública tenham uma qualidade semelhante dos usuários do sistema privado que têm a oportunidade do acesso ao médico psiquiatra, terapia e internações curtas quando necessário.

Existe um preconceito, um estigma em relação à internação... porém, esta é eficiente em momentos agudos. Quem é usuário do sistema privado conta com uma rede profissional de atendimento, os usuários do sistema público têm a escolha de instituições públicas sucateadas ou instituições assistencialistas - religisiosas.

Enfim, o cerne da questão é que o objetivo de uma reforma psiquiátrica e da luta antimanicomial deveria ser não zerar o número de internações, mas atender de forma adequada os pacientes, de acordo com o momento e a complexidade específico de cada transtorno mental.

Por José Carlos Lima

A reforma psiquiátrica desestruturou sim, os depósitos de loucos que eram fonte de lucro para psiquiatras carniceiros. Tive a oportunidade de visitar um destes depósitos em, Goiânia. Era o "Hospital Psiquiátrico" Adauto Botelho, conhecidos meus trabalhavam lá, um deles aparece num documentário do cineasta goiano Eduardo Jorge, sobre aquela casa de horror. Até hoje guardo lembranças do que vi. Lembro-me que os militantes da luta antimanicomial, por ocasião da implosão do Adauto Botelho, que aparece nos vídeos abaixo, tentaram salvar o acervo que incluia prontuários, fotos,   traços daquele mundo. No entanto o sistema tradicional como que com medo de complicar-se caso o acervo viesse futuramente à tona, deu um jeito de transformar tudo em pó. Mas guardo lembranças daquele universo dantesco pois, como disse, conheci ao ser levado por amigos que trabalhavam lá. Muito forte.  Dá para se ter uma idéia assistindo aos vídeos postados. 

Não consigo compreendeer a lógica que leva a se usar dos casos críticos dos que padecem de transtornos mentais como forma de se justificar o retorno dos antigos Hospitais Psiquiátricos. Nem sei porque aqueles depósitos de gente eram chamados de hospitais, nunca foram isso não. Só lamento que os espetinhos, ao implodirem o Hospital, não permitiram que os militantes da luta antimanicomial salvassem o acervo. Também pudera, se viesse futuramente uma Comissão da Verdade para apurar o que ocorreu naquela época, muitos envolvidos naqueles abusos iriam ficar em apuros.

Os vídeos abaixo revelam que era os tais "hospitais" psiquiátricos eram, antes de tudo, uma indústria de se fazer grana. Era para aquela indústria de moer gente que eram levados, geralmente pela polícia,  os rejeitados, os sem eira nem beira, os que se atreveram a ser diferentes e, neste caso, diferença era um termo bem amplo. 

No filme "Bicho de 7 Cabeças, um cigarrinho de maconha era motivo para o jovem ser levado a um destes hospitais.  Os leitos eram muitos, a indústria funcionava a todo vapor, bem ao gosto dos saudosos daquele período, dentre eles o poeta Ferreira Gullar. Nada contra o poeta, compreendo  que ela tenha sofrido por ter que conviver com o transtorno mental  de dois filhos que, se não me engano, manifestavam agressividade.  O que  não é compreensível nem aceitável é que se use tais casos para se justificar o retorno daquele mundo de horror que recebiam o pomoso nome de "Hospital Psiquiátrico."  Aliás, o  Brasil deveria ser penalizado pela forma com que tratou seus doentes mentais antes da luta antimanicomial, cuja importância pode ser conferida neste texto. 

http://www.apropucsp.org.br/apropuc/index.php/revista-puc-viva/39-edicao...

E não são atores estes do filme abaixo e sim um mundo real que pude conferir pessoalmente, figuras tão próximas,  o espaço físico também;

Vídeos:

http://www.youtube.com/watch?v=eEp_3E6Tpz4&feature=player_embedded

http://www.youtube.com/watch?v=N3XwMVVIers&feature=player_embedded 

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