O almoço do Dia dos Pais

Por Luiz Horacio

Se o Criador - o pai do Céu -, Deus, a grande Vida, o universo vivo e inteligente, o grande espírito do mundo, seja qual for o nome, esse que existe acreditemos nele ou não, onipresente, onisciente e onipotente, procurou se certificar de que todo menino, pelo menos uma vez na vida, pelo menos nessa situação, Ele cuidou para que tivéssemos de encarar, pelo menos uma vez, de alguma forma, o nosso pai. Não existe conversa de homem para homem maior do que essa. Um menino não se torna homem antes de encarar seu pai nos olhos, sem ressentimento, sem defesas, sem rivalidade e sem medo. De homem para homem. Penso que é isso o que o Luís Nassif fez, e lembro que todos os outros, a grande maioria, tem de percorrer um díficil trajeto até o dia em que poderá ver e encarar seu pai, do jeitinho que Deus quis. E talvez seja assim mesmo, em uma dimensão que não compreendemos, que não corresponde ao nosso tempo-espaço de vida comum na Terra. Acredito também que essa seja a grande tragédia humana de nossos tempos.

Esse tempo de meninos que não crescem, que não têm juízo e que não acreditam mais que precisem se tornar homens de verdade. Engraçado, pois muitos têm coragem até para ser machos e valente, para enfrentarem as situações mais perigosas e desafiadoras, mas não tiveram a coragem de ser simplesmente homens. De encarar a figura paterna de modo cordial e com toda a sua complexidade. Esse tempo de intenso narcisismo (narcisismo é o falso amor por si mesmo, é uma compensação, uma fuga do fato de se ter, lá nas profundezas, secretamente, uma baixa auto-estima, uma dúvida profunda sobre seu próprio valor, apesar de poder aparentar maravilhas), em que diversas regras essenciais do mundo são diariamente evitadas, negadas e desrespeitadas, dificilmente ocorreria na presença dos nossos pais, e diante dele, do jeitinho que Deus quis, um olhar maduro, de igual para igual, um olhar de gratidão e não de ódio. Os homens se perdem pela vida, sem essa orientação que nos liga diretamente à fonte das virtudes do ser masculino. E se os filhos aprendem com seus pais, estes também aprendem muito sendo pais, com seus filhos. Essa é a grande esperança, a grande força que pode canalizar a força masculina para construir um mundo melhor, e não um mundo de moleques irresponsáveis. Não há saída para as nossas vidas, para um sucesso real, para uma realização plena, no silêncio e na escuridão do quarto, de nossa consciência, se não for através de aceitar, compreender, respeitar e amar o nosso próprio pai.

Uma vez encontrei o Luís Nassif por caso, através do jornalista Ewaldo Dantas. Outra vez, pelo Blog, fiquei sabendo que podemos ter passado por perto quando Cassius Clay (Mohammed Ali) veio ao Brasil, e ficou hospedado no hotel San Rafael, na Av. São João, em São Paulo. Eu era um menino e estava com meu pai, íamos ao Almanara da S.João (naquele tempo, ainda não era rede) para um "senhor" almoço. Passávamos por lá, quando a comitiva do grande boxeador estava na calçada, esperando o transporte para um evento, se não me engano no Ibirapuera. E o Nassif fez um post sobre essa comitiva do Ali.

Pois então convido todos os filhos para um almoço com todos os pais, num grande Almanara, nessa dimensão em que devemos (nosso dever) olhar nossos pais bem fundo nos olhos, e sem qualquer prevenção, como Deus quis. 

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6 comentários
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Reinaldo

 

"Se o Criador - o pai do Céu -, Deus, a grande Vida, o universo vivo e inteligente, o grande espírito do mundo, seja qual for o nome, esse que existe acreditemos nele ou não, onipresente, onisciente e onipotente..."

Por que eu destruiria esta retórica falaciosa? Pela ausência de meu pai? Ele viveu 86 anos, fez suas escolhas (a maioria delas com absoluto erro, um dos quais resultou em mim) e morreu, não em paz! Deste almoço (o de hoje) ele não participa e não participará de nenhum outro. Lamento? Não!

Seria um bom texto sem este placebo divino que alguns insistem em usar para justificar uma infinidade de escolhas (certas ou erradas) que resultaram no momento presente. Na qualidade (ou defeito) de filho poderia desconstruir este "almoço" em família, mas estou sem paciência com as fórmulas mirabolantes ou com as justificativas injustificáveis!

Somos resultado de um processo. Ponto! Meu pai foi apenas um animal que cumpriu o papel que lhe cabia na perpetuação (ou tentativa dela) da espécie. Eu repito a fórmula, bem ou mal e me fiz pai da mesma forma. Meus filhos? Não sei ainda, mas espero que façam da mesma forma e aprimorem o gênero humano. E, a despeito do que me queiram imputar aqui, apenas espero que o façam sem que se considerem animais melhores que os outros ou que, sob a ótica religiosa, considerem-se "sui generis".

Meu pai foi homem de bem. Espero continuar sendo e que meus filhos o sejam!

O resto?

O resto é uma foto amarelada, uma lembrança que parece resistir ao tempo e uma saudade daquilo que não ousamos ter feito quando deveríamos, ou do que fizemos quando era preciso...

 

 
 
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interlocutor

Hoje, fiquei sabendo que vou ser avô. Acreditem; é uma emoção tão grande, ou até maior, do que  ficar sabendo que vai ser pai. Saúde e alegria para todos os pais e avós; estou completando sessenta, e quero ver minha prole florescer cada vez mais, com saúde e alegria. Não tem nada melhor no mundo do que isso. 

 
 
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luisnassif

Parabéns, Ruy. Ser avô é uma delícia, mesmo.

 
 
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Rudá Ricci

Os políticos ficaram chatos
Achei que por ser dia dos pais tinha o direito de pensar livre sobre o tema que escolhi como o da minha profissão: a política. Afinal, como diz a frase de Millôr que já é quase lugar comum, livre pensar é só pensar.

/>O meu, de hoje, é o quanto os políticos estão chatos. Acho que aí está o charme de Plínio de Arruda Sampaio desta campanha. Ao contrário de outras que ele participou - eu fui coordenador da campanha dele ao governo de São Paulo, em 1990, e posso atestar - ele não está se levando tão à sério. E retomou aquele charme histriônico dos políticos de antes. Algo de Jânio Quadros, Ademar de Barros, Enéas e até mesmo Suplicy. Collor, no meu modo de ver, já era a transição para o estilo Datafolha de ser: cheio de certezas e raiva contida (não muito contida, no caso dele, é verdade). Os políticos de hoje são chatos e acreditam demasiadamente em si. Este é, inclusive, o maior defeito de Marina: é muito contida, é muito igual à inspetora de educação, naquela sua certeza fundada em portarias e normas técnicas, no seu orgulho a respeito do rumo certo de se fazer as coisas. Marina leva jeito para ser humana e brasileira quando lê suas poesias, que não interessam ao eleitor, mas interessa ao mundo. Dilma e Serra são o supra sumo da chatice e exemplo maior de onde chegamos nestes tempos de política como ciência exata. Parece que são candidatos a Deus: não podem errar, são juizes da Via Láctea, citam números e currículos como se fossem Pelé, Airton Senna, Mozart ou Einstein. Gênios da raça. Não entendo, ao ouvi-los, como ainda não foram indicados ao Prêmio Nobel. Este é o traço de personalidade que vem judicializando a política tupiniquim.
Meu pai dizia que há três defeitos insuperáveis no ser humano: o mau hálito, a ingenuidade e a chatice. Sinto que quem vencer as eleições deste ano nos brindará com quatro anos de chatice, já que é um defeito insuperável, que já vem de fábrica e é apenas aperfeiçoado ao longo da vida.
Enfim, a política ficou chata como um jogo dirigido por Dunga.
Aliás, citei o Datafolha como ato falho. O único jornal que atacou o lado histriônico de Plínio (cujas chance de vencer é exatamente proporcional à sua atual intenção de voto) foi a Folha de SPaulo. E o colunista Fernando Barros e Silva foi o porta estandarte desta falta de humor. O artigo comparando Plínio com Beckett foi a demonstração do grau de prepotência e ausência de humanidade da grande imprensa brasileira. Eta tempos difíceis, sô!

 
 
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José Antônio Araújo

Caro Luiz Horácio:

Muito bom o seu artigo!!! A importância do pai na vida de um indivíduo é muito maior do que pensa a maioria das pessoas. É da autoridade paterna o que faz nascer um sujeito dentro de nós. Infelizmente, hoje em dia a maioria deles foge a essa responsabilidade, entregando-a a terceiros, tais como, à escola, à turma, à internet, ao terapeuta, e por aí vai. O receio de dizer "não" é muito grande. Prefere "negociar", não sabe, não quer e receia dar o limite. Ao meu ver não existe maior prova de amor do que o "não" paterno. É o que mais pedem os filhos desde novinhos: o limite. O "sim" à tudo é a facilidade, a licensiosidade, a falta da autoridade paterna tão desejada,  absolutamente fundamental a que eles se tornem pessoas mais equilibradas. Não se trata, e não é disso que estou falando, de adequá-los unicamente à vida em sociedade, mas sobretudo de que eles saibam e sintam que tiveram um pai que não se furtou a exercer a sua autoridade.

 

José Antônio

 
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José Roberto

"Esse tempo de meninos que não crescem, que não têm juízo e que não acreditam mais que precisem se tornar homens de verdade."

Ao ler hoje, na Carta Capital, o "Blog do Além" de Piaget (http://www.blogsdoalem.com.br/piaget/)., lembrei imediatamente do texto que tinha lido mais cedo sobre o almoço no dia dos pais. Vá lá, o post do blog não tem a ver com a discussão de fundo nem com a poética do texto de Luis Horácio, mas com o trecho sobre a rejeição a se tornar homem:

"Quando formulei as bases da pedagogia construtivista, havia uma fronteira muito bem definida entre adultos e crianças. Aliás, nem se prestava muito atenção nos pequenos. Naquela época, bebês apenas nasciam, hoje estreiam. Ninguém pensava em registrar o parto e muito menos postá-lo no Youtube. As festas de aniversário eram feitas em casa e, acreditem, não tinham tema nenhum a não ser o do próprio aniversário. Esperávamos que as crianças crescessem sem grande alarde.

Construtivismo, você sabe, é uma das correntes teóricas empenhadas em explicar como a inteligência humana se desenvolve. Parte do princípio de que ninguém nasce inteligente. Respondemos aos estímulos externos e agimos sobre eles. E dessa maneira vamos construindo e organizando o nosso próprio conhecimento, de forma cada vez mais elaborada. Essa ideia revolucionou o ensino e permitiu, entre tantas coisas, que creches e jardins de infância passassem a cobrar mensalidade de 3 mil reais sem sentir vergonha.

Estou contando tudo isso porque, na condição de especialista, não posso ficar alheio ao debate sobre o projeto de lei do governo brasileiro que proíbe os pais de baterem em seus filhos. Muitos me perguntam qual a minha opinião sobre essa nova lei. Vamos lá. São duas questões em uma. A primeira questiona se o Estado deve interferir sobre os problemas domésticos. E a segunda indaga se devemos ou não bater nas crianças em determinadas ocasiões, buscando um efeito “educativo”. As minhas respostas são simples: não e não. 1. O Estado não tem competência para tal tarefa. 2. Não se bate em criança em nenhuma circunstância. Bater não educa, apenas traumatiza. Para que isso fique bem claro, vou exagerar em algumas situações-limite, onde você deve buscar o diálogo, mesmo que a violência se apresente como a única solução.

- Seu álbum da Copa aparece com figurinhas coladas nos lugares indevidos.
- Você chega para jogar com seus amigos e os joysticks estão descarregados.
- Sua camiseta do Kiss aparece suja de ketchup.
- Seu filho diz que não quer comer nada e rouba todas as batatinhas do seu Mc Lanche Feliz.

É difícil, mas você tem que ser maduro nessas horas."

 
 

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