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Nós, os nordestinos de todo BrasilEnviado por luisnassif, qui, 04/11/2010 - 13:00Você, leão sulista do Norte por Eduardo Furbino Etrusco. A palavra não te diz nada, e se disser há boas chances de você ser um professor de história e saber de antemão onde quero chegar. Os etruscos dominaram parte da península itálica durante um bom tempo, conquistando Roma quando ela era apenas uma aglomerado de aldeias. Até o primeiro século antes de Cristo os romanos haviam anexado todo o território antes pertencente aos etruscos, mas sua cultura ainda vivia em meio a eles, permeando sua sociedade e contribuindo para dar forma a um dos maiores e mais poderosos impérios que esta Terra já abrigou. Nordeste. Esse nome talvez te diga algo. O povo que habita o nordeste do Brasil não é bem um povo, é, quando muito, o povo: parte constituinte de um Brasil que encontra-se unido na diversidade (lema da civilizadíssima (ironia tangível) União Européia). Esse país de onde falo começou bem ali no Nordeste, em uma dobrinha de terra que ou é Porto Seguro ou Santa Cruz de Cabrália, já que falta consenso quanto ao local onde Cabral aportou. Lá conheceram-se os índios. Lá conheceu-se o sexo entre portugueses e índios, a transmissão de doenças, a pele parda. Foi bem ali, naquela porção nordeste repleta de árvores (as da extinta Mata Atlântica), gente e bichos que tudo começou. E foi de lá que você e eu viemos. E aí decidiu-se explorar um pouco mais essas terras brasileiras, decidiu-se descer rumo ao Sul, movimento que se repetiu em igualmente sucessivas épocas de nossa História. E o povo nordestino originário, embriões do povo brasileiro atual, miscigenou-se ainda mais, se dividiu, ocupou partes distintas em porções de terra, capitanias e Estados. Tornou-se diferente, assulizando-se, verbo inventando para este texto cujo significado é "tornar-se do Sul". O nordestino, brasileiro original (que, a bem da verdade, é originário de outros: os indígenas), perdeu suas características e diferenciou-se de seu estado primevo: mudou de sotaque, de tom de pele, mudou de traços culturais, ethos e gostos compartilhados. E aí, quinhentos anos depois de nosso nascimento lá naquela dobrinha de terra situada em algum ponto do Norte, nós que vivemos no Sul passamos a nos considerar sulistas natos. Aqui, na porção meridional do país, as cidades são maiores, as indústrias mais desenvolvidas, os transportes de melhor qualidade - e chegamos mesmo a ter saneamento básico, esse oásis no meio de um deserto-nação insaneado. Então olhamos para cima, parcialmente esquecendo nossas origens, porque o umbigo que é nosso não quer saber dela, e maldizemos o ponto de partida, querendo reivindicar para boa parte desse povo uma outra parte de direitos e méritos que não lhe pertence. Você pode discordar de mim, mas fui ensinado a pensar (pelas pessoas que assim me ensinaram e pelos livros que me educaram, alguns deles escritos por pós-doutores de grande saber) que a parcela de culpa referente a um fracasso pertence a todos o que fracassaram juntos. E que, igualmente, a parcela de mérito do sucesso é de todos aqueles que a ele chegaram. Assim sendo, como ignorar que o alto IDH desse sudeste de meu Deus foi carregado nas costas, antes e hoje em dia, pelo baixo (mas em ascensão!) IDH desse norte-nordeste de meu Lula? E invoco Lula não contrapondo-o ao Todo Poderoso, mas elevando-o ao status de figura mítica praticamente responsável pela situação da região nacional à qual seu nome corriqueiramente é ligado. É comum, muito comum - e igualmente triste -, pensar no sul-sudeste como lugar que deu certo por mérito de seus habitantes, pela força de seu trabalho ou - como eu disse acima, e muitos outros recentemente o fizeram - por intervenção divina. E é igualmente comum atribuir o fracasso socio-econômico de nossa porção mais setentrional à suposta preguiça de seu povo, ao assistencialismo coronelístico ou ao poder entorpecedor das bolsas-ajuda distribuídas pelo Governo. Deus e o labor seriam os criadores de um sul rico; o mau-caratismo populacional e um presidente operário (e pernambucano) o destruidor e potencial messias, respectivamente, do caricaturado paupérrimo norte. Temos, então, uma fração de país que encontra-se em débito histórico com outra, que possui, por sua vez, crédito não só de dias anteriores como de dias recentes. Porque as origens desse povo que se diz dono do Brasil remonta à terra do Sol, macaxeira e sertão (antes mesmo dessas coisas existirem ou terem tal nome): eles são nordestinos stricto sensu, porque não dá para desobedecer as sagradas escrituras daquele mesmo Deus citado acima, quando essas disseram: não desonrarás a casa de teu pai. E o motivo da constante invocação de divindades no texto é tentar jogar com um dos elementos dos quais sulistas se valeram nas recentes eleições para cooptar votos ao seu projeto de Brasil, projeto esse que hoje se reflete em Trending Topics de Twitter por aí afora, em hashtags xenofóbicas e dizeres que embrulham o estômago e fazem arder esse umbigo que une todos nós a uma origem única e nortina. Particularmente não vejo problema em continuar a insistir na argumentação de que o débito de Estados como São Paulo, Rio e Paraná têm para com Bahia, Pernambuco e Sergipe é fruto de uma necessária e urgente reparação histórica, mas me parece que esse argumento não agrada a muitos. Reparar a história é frequentemente entendido como desfazer erros que não são nossos, ou a assumir compromissos que nunca nos disseram respeito. Mas, bem, há alguns parágrafos atrás fiz entender que a culpa e o sucesso são ambos amplos, gerais e irrestritos sentimentos compartilhados por todos os membros de um time, grupo ou nação. Isso porque a habilidade de influenciar a História é uma soma de capacidades individuais, que se anulam ou reforçam-se. E o resultado dessa soma é a própria História, estando a ela sujeitos todos os que a rejeitaram como ela se mostrou e todos aqueles que acolheram-na de braços abertos. É impossível que não seja feito aqui paralelo com a democracia: as decisões da maioria são, por natureza, vinculantes se advindas de um processo democrático. E é obrigação daqueles que fizeram oposição à decisão tomada aceitá-la e submeter-se a ela. Ou promover novo pleito para que uma alternativa seja - democraticamente - discutida. Encaro o beco sem saída. Meu tempo se esgota e é preciso um desfecho de tudo o que foi dito, um porquê final que valide a idéia exposta de o Sul hoje ter uma dívida com o Norte, e não o contrário. O que invalidaria por si só os argumentos de que bolsas-família e outros auxílios seriam esmolas. Não são. Esses dois recortes de Brasil foram responsáveis por dar forma às suas atuais configurações: se antes as terras setentrionais abrigavam a maior concentração de renda e tecnologia desse país, hoje é o contrário, e essa dinâmica socio-econômica deu forma à realidade tal qual a conhecemos. Se agora há atraso no berço da pátria, não pode o túmulo dela proclamar uma suposta independência, nem agir como se não houvesse vínculo nenhum de dependência e obrigações a ligá-los. E aí voltamos ao exemplo que abre este epopéico apanhado histórico, voltamos aos etruscos. Se nosso Sul fosse Roma, o Norte seria a Etrúria, que lhe deu forma através de processos diversos, destacadamente dois que terminam em -ão: migração e miscigenação. A influência da civilização etrusca na romana pode ser mensurada de diversas formas, segundo a cultura, a linguagem, a história ou as artes. E no que nos influenciou o povo brasileiro original? Em tudo, vale dizer, desde no motivo de chamarmos nossa casa de Brasil até no porquê de hoje sermos a oitava maior economia do mundo (a esse respeito: a economia possui lastro histórico; a partir disso, a recíproca é verdadeira). Mas, bem, diversas outras comparações entre povos poderiam ter sido usadas, só que escolhi essa por causa de seu valor pessoal para mim. Explico e concluo. Aos doze anos tive um professor de História cujo primeiro nome tinha origens etruscas: Aulus. O segundo era visivelmente romano, cesário: Augustus. Muito da minha consciência político-cidadã-militante foi formada com e por esse professor, e me lembrei dele logo ao escrever o primeiro parágrafo deste texto, mais especificamente do modo como a memória de dois povos divergentemente iguais conviviam harmoniosamente em um único nome. Penso que também é assim com "Brasil": há na palavra uma carregada carga histórica que remete ao povo que fomos e ao que somos, e também ao que queremos ser, e é a esse terceiro significado que quis me ater desde o princípio, e finalmente posso fazê-lo nessa despedida. Pois bem, eu poderia encerrar este texto das mais variadas formas, mas nenhuma delas me pareceu mais objetiva que um último apontamento histórico: os romanos, essa citada população em parte descendente dos etruscos, que com eles conviveu e depois incorporou-os, foram dependentes deles para que sua civilização atingisse o apogeu. Mais: esses mesmos romanos, ao acolherem o povo que lhes deu origem dentro do seu próprio corpo social, tornaram-se maiores que a soma de suas partes. Se hoje nos enxergamos como pedaços partidos de uma mesma identidade, tratemos de colá-los. Caso contrário, não teremos nenhuma. Caso contrário, seremos o que não fomos: um povo que, ao apagar seu passado, desconstrói o presente e nega o futuro. Voltar-se às origens, e não contra elas, é isso o que importa.
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Comentários + votados
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Nilva de Souza
04/11/2010 - 13:10
http://animot.blogspot.com/2010/11/o-brasil-e-roxinho.html
2010-11-01O Brasil é roxinhoPara acabar com a tese furada de um Brasil dividido em dois, ou de que Dilma foi eleita pelo nordeste e norte,...
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Alexandre Werner
04/11/2010 - 13:12
Sugiro a leitura do livro Formação Econômica do Brasil de Celso Furtado.
Explica como se deu o desenvolvimento econômico do país desde Cabral até meados da década de quarenta e permite ao leitor...
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Cristhian
04/11/2010 - 13:14
Belo texto! Todos os que pensam de forma distorcida e preconceituosa precisam fazer essa reflexão.
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João Oliveira
04/11/2010 - 13:23
Excelente texto. Só perguntaria se a palavra "xenofobia", para se referir a esse sentimento grotesco, não poderia ser substituída mais apropriadamente por "chauvinismo".
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Bolívar
04/11/2010 - 13:29
Nassif,
Pode ser pura teoria da conspiração, mas não pude deixar de notar dois fatos midiáticos que revelam muito sobre aonde pretende chegar a imprensa golpista nesta ressaca pós-derrota.
Primeiro,...
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Maria Rita Leal
04/11/2010 - 13:37
Que texto encantador no melhor sentido que essa palavra pode ter. O autor sabe ser sábio (perdoa-me a redundância), lógico e afetivo sem resvalar na pieguice ou no rancor, com uma justeza impagável....
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rassaf
04/11/2010 - 13:37
"O Povo Brasileiro" do Darcy Ribeiro também é muito bom nessa questão regional e na formação cultural.
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AF
04/11/2010 - 14:03
Ficou legal o gráfico. Penso que espelhe mais a 'realidade' do que simplesmente pintar de azul ou vermelho.
De qq forma, penso que exista sim uma certa divisão. Li aqui que em Fortaleza houve...
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Marcia
04/11/2010 - 14:03
Eduardo, faz tempo que não leio um texto tão bom, porque honestíssimo, inclusive,.
Tudo começou na Bahia e continuou nos demais Estados, por isso mesmo não pode prevalecer a idéia que o...
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R Godinho
04/11/2010 - 14:07
Mestre Furtado não só explica a formação da economia brasileira, mas também mostra que as fortunas originais de São Paulo se formaram em cima de um tripé imundo: caça de escravos índios, contrabando...
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Alexandre Santos
04/11/2010 - 14:35
José Ermírio de Morais (Nazaré da Mata, 21 de janeiro de 1900 — Pernambuco, 9 de agosto de 1973) foi um empresário, engenheiro e ...
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Ophelia
04/11/2010 - 14:38
Compartilho com voce a idéia de identidade de um
povo. Lavei a alma lendo o seu texto. Era o que //
mais precisava nesse momento, diante de tanto //
preconceito contra nordestino. Vale...
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Marcia
04/11/2010 - 14:47
De qualquer forma, não se pode negar que existe SIM uma diferença grande na 'ética do trabalho'
AF, qual seria a" diferença ética do trabalho" entre os nordestinos e o Sudeste/Sul?
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Elianne-Laura_Diz
04/11/2010 - 14:49
Muito bom seu texto, parabéns!
Tb fiz um post sobre o assunto, falo da minha visão pessoal- moro em Natal depois de viver no sul-sudeste minha juventude.
Interessante que tb disse que o Brasil nasceu...
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Vitória
04/11/2010 - 14:53
O conhecimento é mesmo libertador!! Ele destrói qualquer factóide!
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sandra
04/11/2010 - 14:53
parabéns, Eduardo e obrigada por nos oferecer uma reflexão tão apropriada para o momento!
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André Maranhão Santos
04/11/2010 - 15:09
Ótimo texto! Tive a sensação de uma análise de História Comparada bem presente. Gostei muito das reflexões acerca da identidade, mas acho que o termo "desconstrução" não...
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Leandro Ribeiro
04/11/2010 - 15:21
Não é uma questão de culpa, não é uma questão de dívida, não é uma questão de competência ou cultura. Os Estados mais ricos tem que ajudar os mais pobres pela sua própria qualidade de vida. A...
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Willian Gonçalves
04/11/2010 - 15:26
A história sempre se repete, e não só aqui no Brasil. O culpado é sempre o outro. O de outra cor, de outro sotaque, de outra origem. Nos EUA agora os conservadores se voltam contra os...
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http://animot.blogspot.com/2010/11/o-brasil-e-roxinho.html
2010-11-01O Brasil é roxinho
Para acabar com a tese furada de um Brasil dividido em dois, ou de que Dilma foi eleita pelo nordeste e norte, aí vai um mapinha que fiz. Utilizei porcentagens de ciano e magenta como representando as porcentagens de Serra e Dilma em cada estado.
O que a gente vê é um Brasil roxinho, puxado para para o ciano em alguns lugares (Acre, por exemplo) e para o magenta em outros (Amazonas, por exemplo). O roxinho é mais magenta no geral, por isso Dilma foi eleita.Texto e imagem do facebook do jornalista e filósofo Danilo Fraga. Com isso, a pseudotese ou tese pseudo do Brasil dividido vai pelo ralo.
Ficou legal o gráfico. Penso que espelhe mais a 'realidade' do que simplesmente pintar de azul ou vermelho.
De qq forma, penso que exista sim uma certa divisão. Li aqui que em Fortaleza houve comemoração das ruas pela vitória do PT. Em Londrina, no Paraná, onde Serra teve 75 % dos votos, o clima era de 'consternação' pelo futuro do país....
Interessante que os 'meus' estados - onde trabalho - estão entre os mais 'azuis' de todos: PR, SC, MS e MT
abs
AF
Vejam, só, o mapa ficou moreninho.
Parabéns.
Parabenizo ao Eduardo e também à Nilva.
E dizer-lhes que partilhamos de seus sentimentos e concordamos com as ações do nosso governo Lula, mesmo sem nunca termos residido no Norte ou Nordeste. Nossa pequena cidade aqui do Sul, deu vitória razoável à Dilma.
E, ainda, para os que querem dizer que apenas o norte e nordeste votaram em Dilma, um erro sem precedentes que a grande imprensa não mostra: somando-se os votos da Regiões Sul, Centro Oeste e Sudeste, Dilma venceu por aproximadamente 300.000 votos. Isto deveria correr o Brasil nos blogs, etc... não acham?
Sugiro a leitura do livro Formação Econômica do Brasil de Celso Furtado.
Explica como se deu o desenvolvimento econômico do país desde Cabral até meados da década de quarenta e permite ao leitor entender o porque das diferenças regionais que temos até hoje.
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A importância deste blog, Nassif, é a diversidade de opinião sobre um mesmo assunto.
Eduardo Furbino demonstrou seu aprendizado sobre o Brasil. Parabéns.
Quando Celso Furtado, o brasileiro que projetava o Brasil para todas as região é aqui citado, tenho que dar o meu pitaco, também.
1.
O Brasil colônia começou a pensar como Nação quando índios, africanos e portugueses em Pernambuco se uniram para expulsar os holandeses (Século XVII).
2.
Quando dos primeiros anos de mineração nas Gerais (Século XVIII), pernambucanos de Olinda e Salvador dominavam o comércio de escravos, ferramentas, alimentos, etc., que subiam o Rio da Unidade Nacional.
É a partir da presença desses nordestinos que os garimpeiros começaram a questionar a política das minas, culminando com a expulsão dos paulistas.
3.
No século XIX um cearense teve a idéia de fomentar a Carne Seca como produto de consumo.
Até então a Carne Seca, ou Carne de Sol, ou Jabá, ou Charque, etc. era produzida para consumo da família.
Com a inovação do cearense, gerando um novo mercado de renda e emprego para os nordestinos, muitas famílias e senhores de engenho passaram a adquirir a Carne Seca, Carne de Sol, Jabá, Charque diretamente na venda mais próxima.
Eis que uma Seca terrível dizimou o gado para abate.
Aí o cearense pensou e repensou na caótica situação da próxima Seca e teve o atrevimento de investir seu dinheiro no Sul, onde a carne salgada era importada de países vizinhos.
Portanto, leitor, quem introduziu o mercado de carne salgada (Charque) no Sul foi esse nordestino do Ceará.
4.
No século XX, São Paulo do café e da banha de porco (Matarazzo) começou a se industrializar com o pernambucano Zé Ermirio de Morais (fundador do grupo Votarantim).
5.
Ainda no século passado um nordestino da Paraíba resolveu arribar, como Lula, e fundou televisão brasileira na capital de S. Paulo
Isso tudo me vem à lembrança no momento, depois da leitura do Eduardo Furbino.
Belo texto! Todos os que pensam de forma distorcida e preconceituosa precisam fazer essa reflexão.
Excelente texto. Só perguntaria se a palavra "xenofobia", para se referir a esse sentimento grotesco, não poderia ser substituída mais apropriadamente por "chauvinismo".
Nassif,
Pode ser pura teoria da conspiração, mas não pude deixar de notar dois fatos midiáticos que revelam muito sobre aonde pretende chegar a imprensa golpista nesta ressaca pós-derrota.
Primeiro, há alguns dias, a Globo News vem anunciando um programa sobre a biografica de Hitler, introduzindo o mote do programa focando em um cão e com o narrador dizendo algo como: "ele era carismático", "sua política econômica foi um sucesso", dentre outras laudes. A câmera abre e vemos o ditador alemão sentado com o cão a seus pés.
Creio que a mesma foto esteja na capa de uma publicação recente da Companhia das Letras, escrita pelo historiador inglês Ian Kershaw, que publicou pelo menos três títulos sobre Hitler entre 1998 e 2001.
Coincidentemente, esses dois "eventos" vieram à tona em meio à eleição presidencial, revelando o pensamento que permeia as nossas elites: "Lula pretende se tornar ditador, devemos impedir!"
Sería interessante que abreisses um tópico de discussão no blogue, pedindo para que os participantes coletem essas "evidências" a respeito do pensamento da mídia golpista.
Grande abraço.
Lamento informar, mas essa conspiracao ai nao procede nao. Pelo menos, no que diz respeito a Companhia das Letras, essa publicacao esta planejada muito tempo antes de sequer cogitarem Dilma como candidata.
Eu mesmo votei na Dilma nos dois turnos, mas ha que se discernir as bobagens conspiracionistas, das quais o Serra utilizou a campanha toda, da realidade objetiva.
Que texto encantador no melhor sentido que essa palavra pode ter. O autor sabe ser sábio (perdoa-me a redundância), lógico e afetivo sem resvalar na pieguice ou no rancor, com uma justeza impagável. Amei, por essas e outras que amo meu país e meu povo. Tenho orgulho de minha história.
"O Povo Brasileiro" do Darcy Ribeiro também é muito bom nessa questão regional e na formação cultural.
O livro do Darcy é maravilhoso e explica muito do que nós somos. Porém, tem uma grave lacuna. Está fortemente focado na formação inicial do povo brasileiro, o português-branco, o índio-nativo e o africano-preto. Não trata as ondas de imigração tardias, os alemães e italianos no sul e sudeste, japoneses, os sírio-libaneses, e uma nova onda de portugueses, espanhóis e italianos no sudeste, particularmente em São Paulo do fim do século XIX até a metade do século XX.
Essas ondas se integram ao país original e, é claro, o alteraram. Quanto os filhos e netos desses imigrantes realmente se sentem os brasileiros mestiços da nova Roma de Darcy?
Sergio,
você esbarrou em um ponto interessante da crônica que preferi abordar indiretamente (porque esse não é um texto acadêmico e preferi não me balizar em um autor em detrimento de muitos). O motivo de eu ter feito esse jogo com Roma e os etruscos não é apenas pessoal (motivado pela existência do professor que citei). Ao mencionar os romanos como exemplo de superação, e dizer que seríamos maiores que a soma de nossas partes quando, tais quais eles, nos uníssemos em nossa diversidade, estava fazendo referência direta ao conceito de Nova Roma conforme trabalhado por Darcy Ribeiro.
Achei que deveria trazer isso à tona neste comentário, apenas para apontar um elemento interessante do texto.
Eduardo, faz tempo que não leio um texto tão bom, porque honestíssimo, inclusive,.
Tudo começou na Bahia e continuou nos demais Estados, por isso mesmo não pode prevalecer a idéia que o Brasil é São Paulo. O Brasil é um todo miscigenado, se assim não fosse, não seria esse país rico em sua cultura, exuberante e harmônico.
Sou baiana, descendente de índio, portugues e holandes, como a grande maioria dos nordestinos que, como já disse Euclides da Cunha, é antes de tudo um forte.
O Brasil é muito , é uma colcha de retalhos, e viva a Dilma!
Bonito o texto.
De qualquer forma, não se pode negar que existe SIM uma diferença grande na 'ética do trabalho' entre o Sul e o Nordeste - para o bem e para o mal.
Ao meu ver, esta diferença vem fundamentalmente da maciça imigração mais recente no Sul - italianos, alemães, japoneses, etc.
Dos meus 46 anos, vivi aproximadamente metade no sul e metade no centro oeste, e já percebe-se uma grande diferença. Quando vou ao nordeste, o que faço com alguma frequencia, sinto uma diferença ainda maior. (como disse, para o bem e para o mal....)
AF
De qualquer forma, não se pode negar que existe SIM uma diferença grande na 'ética do trabalho'
AF, qual seria a" diferença ética do trabalho" entre os nordestinos e o Sudeste/Sul?
Marcia, quando digo 'ética' não existe aí qualquer julgamento de valor de minha parte - como disse, é para o bem e também para o mal...... (sempre dependendo de que ponto de vista). Penso ter a ver com a formação cultural de cada região.
Em relação ao 'norte', as pessoas no sul - no geral - encaram o trabalho como algo mais 'importante' em suas vidas. Ser auto suficiente, fazer algo 'util', não precisar de ajuda dos outros (parentes, amigos), ter progresso 'material' durante a vida... ao meu ver é algo mais valorizado no 'sul' que no 'norte'.
Por outro lado, as pessoas do 'sul' se 'permitem' menos, celebram menos a vida, brincam menos, cobram mais, de si própria e dos outros..... Como disse, para o bem e para o mal....
Morei metade da vida no sul e metade no centro oeste. Eu e minha esposa brincamos que uma frase boa para nós é...... "More um tempo no sul.... mas saia antes que vc fique DURO demais..... More um tempo no centro oeste... mas saia antes que vc fique MOLE demais....." rs.
No meu ponto de vista o ideal é conseguir 'equilibrar' as duas visões..... Mas cada um tem o 'seu' ponto ideal....
é isso.
abs
AF
Grosso modo, você quer dizer que na minha terra tem mais maconheiro do que a sua?
Vamos suavizar ou "assulizar" a expressão, seríamos, nós do norte, mais hippies do que você e os seus aí do sul?
Sua percepção tem o viés da sua condição, apenas.
Você andou o Brasil, viu culturas, pessoas diferentes, mas a sua visão de um povo com "ética desse tipo" e outro com "ética daquele tipo", nega, convenientemente, as razões históricas que desaguaram no momento em que vivemos hoje. Vendo apenas o momento, apenas a partir do seu juízo de valor - sim, e usando somente ele - confundiu, convenientemente, o momento com a história.
Não passou pela sua cabeça, que a prosperidade gera ainda mais oportunidades...
E de onde veio a prosperidade do sul?
Vamos lá, né ?! É mais fácil negar os ciclos históricos, negar as pretensões político/econômicas que mudaram e evoluíram - aí sim, para o bem e para o mal - ao longo da formação do estado nacional.
Vamos alienar do Nordeste, o surgimento da idéia de nação, os primeiros movimentos republicanos, as consequências daquele idealismo e as retaliações da Coroa de Portugal.
Vamos fingir que a Coroa de Portugal veio para o Brasil... Se instalou-se no Rio de Janeiro... ah, é um detalhe sem a menor consequência... claro!
Vamos alienar-nos do povo nordestino, por que aquele povo fazia revoluções como quem faz festas.
Fácil...
É a nossa "ética festeira", né?
Vamos ao sul... ao destino dos empenhados, o dinheiro da Coroa.
Dinheiro vindo de onde mesmo?
Fácil...
Esta é a sua "ética trabalhadora", né?
Pois eu queria saber que diferença é essa. Será que o AF nunca viu que o trabalho mais pesado em SP desde os anos 1960 é feito por nordestinos??? AF, não confunda os efeitos de uma economia quase estagnada e a disposição ética da população.
"existe SIM uma diferença grande na 'ética do trabalho' entre o Sul e o Nordeste - para o bem e para o mal."
Hmmm... acho que nao entendi. Posso perguntar aos universitarios?
"Toda unanimidade é burra." Nelson Rodrigues
Obs.: mas nem todo ceticismo é inteligente.
pergunta pro Mussum......rs
AF
Mestre Furtado não só explica a formação da economia brasileira, mas também mostra que as fortunas originais de São Paulo se formaram em cima de um tripé imundo: caça de escravos índios, contrabando de pedras preciosas e exploração de trabalho escravo rural. Essa economia que não era nada até o meio do século XIX , quando explodiu com a entrada do café (vindo do RJ), apoiada no braço negro.
São Paulo se tornou o que é pq deu uma sorte histórica sem igual: enquanto o NE, berço da economia nacional e potência mundial, em PIB, no ciclo do açúcar, e MG / GO / BA, no ciclo do ouro, eram expoliados pelo regime colonial, com todo capital gerado fluindo para a metrópole, o café chegou a SP depois da independência, e, embora as casas inglesas tenham ganhado muito, uma boa parte da riqueza gerada permaneceu no Brasil, em mãos de brasileiros.
Não fosse essa base de capital formada no ciclo cafeeiro, o destino de SP seria o mesmo dos demais estados, quando o ciclo se encerrou.
O conhecimento é mesmo libertador!! Ele destrói qualquer factóide!
Bonito o texto.
De qualquer forma, não se pode negar que existe SIM uma diferença grande na 'ética do trabalho' entre o Sul e o Nordeste - para o bem e para o mal.
Ao meu ver, esta diferença vem fundamentalmente da maciça imigração mais recente no Sul - italianos, alemães, japoneses, etc.
Dos meus 46 anos, vivi aproximadamente metade no sul e metade no centro oeste, e já percebe-se uma grande diferença. Quando vou ao nordeste, o que faço com alguma frequencia, sinto uma diferença ainda maior. (como disse, para o bem e para o mal....)
AF
José Ermírio de Morais (Nazaré da Mata, 21 de janeiro de 1900 — Pernambuco, 9 de agosto de 1973) foi um empresário, engenheiro e político brasileiro. Foi senador da República de 1963 a 1971.
Filho de família de fazendeiros do Nordeste, estudou engenharia nos Estados Unidos. Voltando ao Brasil, foi trabalhar em uma fábrica de tecidos no interior de São Paulo, casando depois com a filha do dono.
Sob sua administração o negócio cresceu e diversificou-se tornando-se o que é hoje o Grupo Votorantim. Já como um dos maiores empresários do Brasil elegeu-se senador pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).
Foi pai do também empresário Antônio Ermírio de Morais.
Compartilho com voce a idéia de identidade de um
povo. Lavei a alma lendo o seu texto. Era o que //
mais precisava nesse momento, diante de tanto //
preconceito contra nordestino. Vale lembrar a can-
do Chico Buarque para nos embalar ..."O meu pai
era paulista, meu avô pernambucano....
Valeu Eduardo!
Muito bom seu texto, parabéns!
Tb fiz um post sobre o assunto, falo da minha visão pessoal- moro em Natal depois de viver no sul-sudeste minha juventude.
Interessante que tb disse que o Brasil nasceu no nordeste e que minha família tem origem na Paraíba .
Estou retuitando seu texto- gostei mto- nada como alguém q tem conteúdo e sabe escrever.
Abs, Elianne
parabéns, Eduardo e obrigada por nos oferecer uma reflexão tão apropriada para o momento!
Sandra
Ótimo texto! Tive a sensação de uma análise de História Comparada bem presente. Gostei muito das reflexões acerca da identidade, mas acho que o termo "desconstrução" não encaixa bem ao longo da narrativa. Eu sugiriria "destruição" ou "conflitos", pois "desconstrução" é um termo que remete à outra proposta linguística e até a outro posicionamento ético-estético. Creio que nesse ponto, alguns trabalhos de Jacques Derrida enriqueceriam mais ainda a reflexão.
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