Maria Prestes ao lado do filho Luiz Carlos Prestes Filho e das netas Leonardo Aversa / O Globo
RIO - Na sala repleta de fotos do Velho e de foices e martelos estampados em objetos da antiga União Soviética, que fazem do ambiente um santuário comunista, Maria do Carmo Ribeiro Prestes expõe um ateísmo convicto:
— Religião é apenas uma hipótese. Só hipótese.
Um olhar mais atento, porém, descobre entre matrioskas, cálices de vodca, pinturas russas e outras recordações, guardadas no apartamento da Gávea, uma pequena imagem de Nossa Senhora. Intrigado, o visitante cobra explicações.
— Ah, ganhei e deixei aí — sorri a anfitriã.
Mãe de sete dos oito filhos de Luiz Carlos Prestes, com quem foi casada por 38 anos, Maria nunca deixou de zelar pelas memórias e pelas crenças do marido. Mas a vida difícil, marcada por perseguições, clandestinidade e exílio, foi incapaz de endurecer o seu discurso ou turvar o seu humor. A matriarca, aos 81 anos, preserva a mesma generosidade com que, na gélida Moscou dos anos 1970, abria as portas de casa aos exilados atraídos pelo aroma brasileiríssimo de uma improvável feijoada.
Na defesa do legado de Prestes, Maria criou um estilo. Não é solene, não prega a ortodoxia. Partiu dela a revelação das recordações mais íntimas do Cavaleiro da Esperança que vieram a público este mês, com a doação de cartas, documentos e fotografias familiares de Prestes ao Arquivo Nacional, na contramão da ideia de que o legendário líder comunista só tinha tempo para as lutas contra as oligarquias e o capitalismo.
Anita Leocádia tem jeito irascível e arredio
Para os apaixonados por História, sentar-se à poltrona de dona Maria e ouvi-la é um privilégio. Mas a poltrona da matriarca não é o único assento indispensável na busca dos melhores relatos sobre o líder comunista. Em Botafogo, outro apartamento guarda igualmente muitas preciosidades do baú de Prestes, mas ali a poltrona é para poucos. A primogênita Anita Leocádia, de 75 anos, filha da união do Velho com a comunista alemã Olga Benário, é rigorosa na seleção dos interlocutores. A "imprensa burguesa", por exemplo, não passa nem pela portaria do prédio. Esta, ela açoita com cartas desaforadas, sempre em desacordo com as reportagens publicadas. A publicação de uma das fotos cedidas ao Arquivo Nacional na capa da "Revista de História" deste mês, mostrando um relaxado Prestes de sunga numa praia do Ceará, foi fortemente criticada por Anita.
Este estilo, duro e inflexível, não tira dela a legitimidade de zelar pela memória do pai-herói. Sua importância é tão grande quanto a de Maria e seus filhos. Apesar do jeito irascível e arredio, além da vida recatada que faz os colegas de magistério a compararem a uma freira, não se conhece um gesto de Anita que tivesse cerceado a imprensa ou obstruído uma pesquisa acadêmica. Como ocorre agora, quando ela protesta contra a divulgação das fotos íntimas do pai, não foram poucos os momentos em que Anita se confrontou com o restante da família. Mas talvez seja este conflito, herdado das contradições do patriarca, que mantém acesa a chama do legado prestista.
Em 2004, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça resolveu agraciar Anita, perseguida e condenada a quatro anos de prisão pelo regime militar, com uma indenização de R$ 100 mil. Repetindo um ideal do pai, que em vida negara a promoção ao posto mais alto do Exército, onde começara tenente, ela pegou um ônibus, assim que o dinheiro entrou em sua conta, e desceu apressada na Praça da Cruz Vermelha, no Centro. O cheque quase lhe queimava as mãos quando doou toda a bolada à Fundação Ary Frauzino para Pesquisa e Controle do Câncer, ligada ao Instituto Nacional do Câncer (Inca).
— Aprendi com o meu pai: é uma vergonha receber dinheiro do governo — justificou-se na ocasião.
Maria e Anita só uniram forças uma única vez
Na poltrona de Anita, não se senta nem o respeitado historiador Daniel Aarão Reis, ele também vítima da ditadura, empenhado há meses em escrever uma biografia de Prestes. Apesar da negativa, Daniel demonstra compreensão.
— O que mais esperar de uma mulher que nasceu num campo de concentração, não conheceu a mãe, foi criada pela avó no México, esteve duas vezes exilada na antiga URSS e que, quando conviveu com o pai pela segunda vez na vida, descobriu que Prestes já tinha outra família, com três filhos biológicos e dois adotivos? — indaga ele, fazendo referência aos dois filhos que Maria teve de um relacionamento anterior a Prestes.
Maria e Anita, pesquisou Daniel, só uniram forças uma única vez. Foi em agosto de 1961, com Prestes na clandestinidade após a renúncia de Jânio Quadros. A polícia de Carlos Lacerda bateu à porta da casa onde a família morava (Maria, seis filhos, Anita e uma das irmãs de Prestes, Lígia) na Rua 19 de Fevereiro, em Botafogo. As duas, juntas, com dedo em riste, impediram que os soldados entrassem. Mas foi só isso. Até no velório do Velho, em 1990, as duas facções da família ficaram em lados opostos da urna funerária.
Apesar das brigas, que se intensificaram após a morte de Prestes, a viúva e a primogênita se complementam. São os dois lados do legado. Face larga, pele morena, sorriso farto, Maria, a ex-segurança que se apaixonou pelo líder enquanto o protegia, é o lado mais vibrante e humanizado do patriarca. Rosto grave, sem pintura, acentuado por óculos de lentes grossas, e corpo delgado como o da a mãe europeia, Anita, a historiadora cujo campo de estudos se esgota na própria trajetória dos pais, representa o ideário. É a guardiã da escalada de lutas, da visão de mundo.
Desde o começo, a relação de ambas nunca foi amistosa. Quando Anita voltou ao Brasil em 1958 (tinha estado em 1945, mas ficou apenas dois anos), não sabia que Prestes tinha uma segunda família desde 1952. O pai, que experimentava um raro momento de legalidade num país acossado pela Guerra Fria, mantinha a mulher e cinco filhos numa chácara em Jacarepaguá, enquanto se encontrava com Anita, então com 22 anos, no apartamento das irmãs, em Copacabana.
— Passadas algumas semanas, Prestes resolveu apresentá-la. Foi um choque para aquela jovem que passara anos longe, alimentando a áurea da mãe mártir e do pai-herói — conta Daniel. — Ela achava que Prestes seria só dela, mas descobriu que teria de partilhá-lo com a madrasta e uma filharada.
Também não foi fácil para Maria dividi-lo com a enteada. Aos poucos, Prestes foi passando mais tempo com Anita, dedicando-se menos à casa de Jacarepaguá. Um episódio insólito, porém, mudaria a situação: o líder comunista levou um tombo doméstico que afetou a coluna.
— Percebendo o seu sofrimento, uma das irmãs, Lúcia, argumentou: "Esse homem tem uma mulher. Quem tem de cuidar é ela." Então, Maria foi levada a Copacabana. Ironicamente, não foi a Coluna Prestes, mas a coluna de Prestes, que acabaria salvando o seu casamento — diz Daniel.
Até politicamente, a união com Prestes rendeu problemas. Mesmo as credenciais de militante, filha de um aguerrido comunista do Nordeste, não livraram Maria de enfrentar o preconceito interno. Primeiro: ela era bem mais jovem (tinha 20 anos, e Prestes, 54). Segundo: era uma mulher do povo, sem formação, enquanto os companheiros do Partidão queriam o líder casado com uma comunista teórica.
— Como havia uma campanha forte de que eram contra a família, os comunistas em geral portavam-se com extremo moralismo. Tinham de ter um comportamento exemplar para enfrentar os críticos — afirma o sociólogo Marcelo Ridenti, especialista na história das esquerdas. — Nos cursos oferecidos pela União Soviética, os rapazes tinham de dançar com as moças mantendo uma distância de 15 centímetros.
Por questões de segurança, Prestes se fazia passar por tio dos filhos
O pernambucano Diógenes Arruda era, no comitê central do PCB, o dirigente mais hostil a Maria, chegando a destratá-la. Coube a outro peso-pesado do Partidão, Giocondo Dias, esfriar o clima adverso. Ele disse que Prestes tinha todo o direito de escolher uma parceira sem intromissão do partido.
Depois do episódio da Rua 19 de Fevereiro, quando Maria e Anita enfrentaram juntas a polícia, as duas jamais voltaram a dividir o mesmo teto. Por decisão do PCB, Prestes foi morar com a família em Vila Mariana, São Paulo, mas Anita ficou com a tia, Lígia, no Rio. Mais tarde, com o agravamento do regime militar e o início da Guerra Suja, ambas seguiram para o exílio em Moscou. Mas, lá, em tetos distintos.
A relação de Maria com a ditadura é curiosa. Paradoxalmente, foi o exílio forçado de dez anos em Moscou (1970-1979) que lhe proporcionou os melhores anos de convívio com o marido, ainda mais quando a temperatura baixava a 30 graus negativos e nem o Cavaleiro da Esperança enfrentava as ruas glaciais da capital russa.
— Passei o primeiro ano sozinha, com os garotos e as meninas. Prestes só chegou no ano seguinte. Foi ali que meus filhos souberam quem era o seu pai — diz Maria.
Até então, por questões de segurança, Prestes se fazia passar por tio dos meninos.
Militar de formação, Prestes cumpria em casa uma rotina rigorosa, acordando às 5h30m, e exigia que os filhos evitassem circular em casa de pijama ou camisola, porque as visitas apareciam a qualquer hora.
— Certa noite, quando todos viam TV, minha mãe se levantou e a desligou. Depois, virou-se para meu pai, que estava surpreso, e disse: "Veja como você está vestido." — recorda-se Luiz Carlos Prestes Filho, que impressiona pela semelhança física com o pai. — O Velho, único de pijama na casa, fora flagrado. Desde então, todos os filhos foram liberados de usar as roupas de dormir.
A temporada em Moscou também foi pródiga para Anita. Enquanto concluía os estudos, virou o braço direito do pai na luta interna que ele travava no Partidão. Os comunistas, pouco antes, dividiram-se entre os partidários da luta armada e os defensores de uma aliança estratégica com o MDB.
— Prestes rejeita as duas opções e fica isolado. Queria construir uma tendência de esquerda, mas não pela luta armada. Apoiou-se muito em Anita. Não deixou de amar Maria, mas tinha paixão pela filha — explica Daniel.
O isolamento levou pai e filha a uma opção controvertida para não perder o controle: alçar ao cargo de secretário-geral o mais jovem membro do comitê central, o obscuro dirigente José Sales. A tentativa terminou em escândalo. Para decepção dos Prestes, Sales foi acusado de desviar os recursos partidários e, supostamente, envolver-se com o tráfico de drogas. A luta interna do Velho estava perdida. Três anos depois de voltar ao Brasil, favorecido pela anistia de 1979, trocaria o PCB pelo PDT, de Leonel Brizola, passando a ser muito mais um símbolo do que um dirigente operacional.
Um ano antes de morrer, o líder comunista assistiu a Anita defender a tese de doutorado sobre a Coluna Prestes na UFF. Embora os colegas a considerassem uma intelectual de mãos cheias, a produção da historiadora, desde então, é vista com alguma reserva. Muitos a acusam de querer monopolizar o legado de Prestes ou de celebrar demais a sua memória, destacando apenas as virtudes.
Mas a disposição de Anita é inquebrantável. Nunca teve problema de assumir publicamente as posições mais polêmicas. Recentemente, no site do seu Instituto Luiz Carlos Prestes, reproduziu o artigo de Miguel Urbano Rodrigues, no qual o escritor português faz um desagravo a Kadafi: "Qualquer paralelo entre ele e Allende seria descabido. Mas tal como o presidente da Unidade Popular chilena, Kadafi, coerente com o compromisso assumido, morreu combatendo. Com coragem e dignidade."
Para Anita, Prestes será eternamente "a expressão máxima da luta revolucionária pelo socialismo e o comunismo". Para Maria, além disso, o pai de seus filhos, o chefe da casa.


Gostei muito desse post.
A Direita facista foi a respons[avel por todo sofrimento da sua mãe e da própria Anita e é por isso mesmo que ela não dá colher de chá ao PIG. Muito coerente essa mulher que herdou dos seus pais a coragem.
Fascista, ops, esqueci o S.
Eu, um mero estudante goianiense, conheci Anita L. Prestes no primeiro semestre de 2011. Primeiro em sua sala na UFRJ e depois em Goiânia-GO quando participou de um evento organizado pelo Centro Acadêmico de História. Eu e os companheiros do C.A não conhecemos o que dizem sobre Anita " jeito irascível e arredio", muito pelo contrário. Anita me recebeu no Rio de Janeiro, um mero estuante, estagiário, de calça jeans, tênis All Star, camiseta piadista. Minha namorada estava junto, andamos quase o dia todo pelo centro do Rio aproveitando a primeira vez que estava lá. Nós suados, caras desconhecidas, sem nenhuma relação com a imprensa, partidos ou até mesmo com a academia sendo professor ou tendo uma bolsa de pesquisa em determinado grupo. Anita nos recebeu sorridente, recebeu esses jovens evergonhados, escolhendo palavras para falar, tetando explicar o objetivo de levá-la a Goiânia. Foi cerca de 40 ou mais de um momento significativo para nós e para os estudantes que teriam contato com ela na nossa cidade. Quando Anita chegou, Eu, o Leonardo e os outros companheiros do C.A não conhecemos o seu "jeito irascível e arredio", repito. Conhecemos uma anita que topou perambular conosco pelas ruas da capital de clima seco, sem grandes atrações turísticas. Conhecemos uma Anita que pacientemente responde as questões dos estudantes, gentil, sorridente. A Anita que conhecemos não é essa que vivem falando por aí, sim, o que a "imprensa burguesa", e os desafetos partidários vendidos vivem falando. Isso é só um pequeno testemunho de uma experiência que ficará na minha história, na história da Letícia, do Leonardo, da Nara e de qualquer outro que teve o prazer de sentar com ela, conversar sobre qualquer coisa e até tirar uma foto.
Pô, cara, fala a verdade, você entrou aqui só para me tomar o segundo lugar no ranking dos nomes esquisitos, não é? (O primeiro é do Wandihklêysson Piragibe, esse ninguém tasca. Aliás, você é parente dele?).
Se fosse me dado escolher os maiores personagens de nossa história, eles seriam Prestes, Lula e Getúlio.
Jorge Vieira
Mas não foi Getúlio que entregou Olga Benário? Aliás essa trairagem não dá para esquecer.
Márcia, como não gosto de ficar em cima do muro, permita-me discordar. Quem acatou o pedido de extradição de Olga foi a justiça. Era 1939 e todos os países tinham relações diplomáticas normais com a Alemanha, sendo obrigados a respeitar os tratados em vigência. Indústrias americanas e européias transacionavam tranquilamente com o governo de Hitler, que era tratado com pompa e circunstãncia por estes países na esperança de que os nazistas destruíssem os comunistas soviéticos. Não se sabia de campos de concentração e outras barabridades que só viriam á tona bem mais tarde.
Corrigindo: Olga foi extraditada em 1936, ano em que as barbaridades nazistas ainda não tinham vindo à tona.
Cada malabarismo pra defender Getúlio, jesuis...
ANTIFA!
Vargas obedecia a um movimento pendular. Uma hora transformava os sindicatos em entidades estatais, outra hora decretava leis que moralizavam o estado brasileiro: criou o DASP (os concursos públicos tornaram-se obrigatórios). No mesmo governo ele trazia Jango e Felinto Müller, o primeiro veio a ser presidente da república, deposto pelos militares, o segundo, o fascista chefe de polícia que entregou Olga Benário aos fornos nazistas. Felinto, 35 anos depois, seria presidente do senado da Ditadura Médici e chegou a ser cogitado para presidente "civil" da República. Morreu num jato da VARIG que caiu em Paris. Infelizmente, no mesmo voo estava o cantor Agostinho dos Santos, que também faleceu. Isto é, nem deu para comemorar a passagem do Felinto para o Inferno.
Olga Benário Prestes e Luiz Carlos Prestes, meus paisPosted on 26/03/2009 | 55 Comentários
Por Anita Leocadia Prestes, no kaosenlared.net
Tive o privilégio de ser filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benário Prestes, duas pessoas extraordinárias, que deram suas vidas por uma causa nobre. Dois combatentes revolucionários que se dedicaram inteiramente à luta por justiça social, por liberdade, pelo socialismo e por um futuro melhor para a humanidade.
Olga, grávida de sete meses, foi deportada para a Alemanha nazista pelo governo Getúlio Vargas, em setembro de 1936. Companheira dedicada de Luiz Carlos Prestes, meu pai, a quem salvara a vida de ambos quando foram presos, pela polícia de Filinto Muller, em 54 de março daquele ano, no subúrbio carioca do Méier. na ocasião, ela se interpusera corajosamente entre os policiais e o marido, impedindo seu assassinato.
A deportação de Olga Benário Prestes e Elise Ewert – ambas militantes comunistas alemãs – foi um gesto de boa vontade de Vargas em relação a Hitler, expressando a aproximação então em curso entre os dois governos. Foi também vingança e castigo cruel impostos ao grande inimigo do regime varguista – Luiz Carlos Prestes, o “Cavaleiro da Esperança” para tantos brasileiros.
Olga e Elise viajaram ilegalmente, sem culpa formada, sem julgamento nem defesa. Na calada da noite foram embarcadas no navio cargueiro La Coruña, que partiu rumo a Hamburgo com ordens expressas de não parar em nenhum outro porto estrangeiro, pois havia precedentes de os portuários franceses e espanhóis resgatarem prisioneiros deportados para a Alemanha.
Minha mãe ficou presa incomunicável na prisão de mulheres Barminstrasse (Berlim), onde nasci, em novembro de 1936. Como resultado de importante e vigorosa campanha internacional pela libertação de Prestes e dos presos políticos no Brasil, assim como de Olga e de sua filha, fui entregue pela Gestapo à minha avó paterna – Leocadia Prestes – mulher valente e decidida, que encabeçava a campanha.
Quando me separaram de minha mãe contava com apenas 14 meses de idade. Não pude, portanto guardar nenhuma lembrança dela. Logo depois, Olga seria transferida para outra prisão, em condições muito piores, e mais tarde para o campo de concentração de Ravensbruck. Em abril de 1942, era assassinada numa câmara de gás no campo de Bernburg.
A tragédia que atingiu meus pais marcou minha vida. De que maneira? Poderia ter me tornado uma pessoa amargurada e decrescente da humanidade, convencida de sua maldade intrínseca. Ou poderia ter me levado a pensar que os homens, embora em sua maioria não sejam maus, facilmente se deixam arrastar pela maldade de alguns. sendo assim, não haveria por que acreditar no progresso da humanidade, não existiriam razões para qualquer otimismo em relação ao seu futuro.
Cresci e fui educada no seio de uma família comunista – a família de meu pai, que só pude conhecer em 1945, quando ele, após nove anos de prisão, num isolamento quase total, afinal foi libertado. Minha avó Leocadia, minha tia Lygia, que acabou sendo minha segunda mãe, meu próprio pai, minhas outras tias conduziram-me por outro caminho.
Desde a mais tenra idade, foi-me mostrado o exemplo de meus pais – dois revolucionários comunistas que passaram por indescritíveis sofrimentos em nome da causa maior, a causa da emancipação da humanidade da exploração do homem pelo homem. ou seja, nas palavras de Karl Marx, lutavam para que a humanidade ultrapassasse sua pré-história, ingressando na verdadeira história, fase em que seriam superadas as injustiças e desigualdades sociais, em que não mais existiria a alienação dos homens.
Desde cedo, aprendi com a vida de meus pais, com o exemplo de minha avó e, em especial com a martírio de Olga, que vale a pena lutar por um mundo melhor para toda a humanidade. Aprendi que não devemos compactuar a com a injustiça, que é necessário lutar contra ela e que, apesar de todas as dificuldades, das derrotas e sofrimentos, dos erros e dos fracassos, a humanidade caminha para a frente, e os homens encontram maneiras de aperfeiçoar seus modos de viver.
Hoje, na qualidade de historiadora que sou, entendo que esses ensinamentos recebidos na infância são verdadeiros: a história da humanidade nos mostra que o progresso é a tendência geral das sociedades humanas, embora se realize através de múltiplos e imprevisíveis retrocessos momentâneos, que por vezes podem lutar muito, levando em conta o quanto a vida humana é efêmera.
Em suas cartas enviadas do cárcere, meu pai revela a preocupação de que eu soubesse de que ele nem Olga se sentiam infelizes com a sorte que o destino lhes reservara. Pelo contrário, apesar dos sofrimentos, apesar da imensa tristeza de se encontrarem separados um do outro, longe da filha e dos que mais amavam, consideravam-se felizes por terem consciência do dever cumprido. E nisso, para eles, consistia a mais completa felicidade.
Da mesma forma, minha mãe, nas poucas cartas que conseguiu mandar do cativeiro, expressava o desejo de que eu fosse uma criança feliz e alegre, orgulhosa de meus pais se terem empenhado na luta por um mundo melhor, sem queixas nem arrependimentos. Seu sacrifício não era maior do que o de milhões de outros seres humanos que, naquele momento, enfrentavam os horrores da noite fascista que se abatera sobre a nossa civilização.
Havia, contudo, uma diferença importante. meus pais, distintamente de milhões de inocentes que sofriam e morriam sem conhecer as causas de tamanha desgraça, tinham consciência do fenômeno fascista e do seu perigo para a humanidade. Por isso, haviam lutado contra ele com todas as suas energias. derrotados, arcavam com as conseqüências de seu gesto. Mantinham-se, porém, confiantes de que o fascismo e sua variante alemã – o nazismo – seriam vencidos, como de fato se verificou, com a derrota dos países do eixo, no final da segunda guerra mundial.
Sua confiança decorria da profunda convicção científica que ambos haviam adquirido ao estudar o marxismo e ao travar conhecimento com a experiência pioneira de construção de uma sociedade socialista na União Soviética. A teoria marxista do socialismo científico lhes permitia compreender que o fascismo não podia ser explicado pela loucura de um homem ou pelas tradições autoritárias ou militaristas de algumas sociedades.
O fenômeno fascista expressava basicamente a crise que o sistema capitalista atravessava nos anos 30, representava a resposta do grande capital ao avanço do movimento operário em países como a Itália e a Alemanha.
A construção do socialismo na URSS lhes mostrava a superioridade desse sistema social em comparação o capitalista. Apesar de imensas dificuldades enfrentadas pelo povo soviético, sitiado pelas potências imperialistas, as grandes conquistas do socialismo já eram visíveis através da realização concreta dos direitos sociais alcançados pelos trabalhadores. Nenhum país capitalista fora capaz de resolver como em poucos anos fizera o primeiro país socialista.
Naqueles anos terríveis, quando o fascismo tomava conta da Europa e a guerra revelava toda a sua crueldade, poucos acreditavam na possibilidade de sua derrota. Posso orgulhar-me de que minha família – meus pais, minha avó Leocadia, minhas tias, conhecedora da fibra do povo soviético, jamais tenha duvidado de sua vitória no grande conflito que sacudiu o mundo.
Essa confiança, aliada à compreensão do caráter profundamente retrógrado do fascismo, que o condenava, portanto, ao desaparecimento, permitiram aos meus pais resistir, com firmeza e sem perder as esperanças, às terríveis provações a que foram submetidos durante aqueles anos tormentosos.
Segundo os testemunhos de companheiras do campo de concentração, Olga jamais se entregou ao desespero nem ao conformismo, lutou até o último momento de sua curta vida, infundindo coragem e confiança no futuro em todos aqueles que a rodeavam. Meu pai saiu da prisão para a luta; seu objetivo jamais foi a vingança, mas a conquista de um futuro melhor para o nosso povo e para a humanidade. Foi a esta causa generosa que ele dedicou o restante de sua vida.
http://outroladodanoticia.wordpress.com/2009/03/26/olga-benario-prestes-e-luiz-carlos-prestes-meus-pais/
Sam, eles ao menos lutaram por uma causa.
E você, já vez alguma coisa de útil para a sociedade em que vives?
E o teu comentário sobre a URSS é de tal ignorância histórica, que é melhor nem responder.
Jota, a própria Anita vê como um ato de vingança de Getúlio contra seu pai a deportação de Olga. Me desculpe, Getúlio trouxe muitas coisas boas para o Brasil mas esse episódio manchou sua biografia.
É a posição pessoal de uma filha e perfeitamente compreensível, Márcia. No entanto, a própria professora Anita reconhece a validade da aliança de Prestes com Getúlio em 43 contra o nazismo.
Prestes não entraria em acordo com Getúlio se, analisando a realidade histórica, o considerasse um monstro. Lembro a você que Prestes viveu seus últimos dias abrigado na legenda do PDT ( de origem francamente getulista, trabalhista).
Quanto às boas relações com a Alemanha em 36, outros países ditos democráticos, como a França, fabricavam através do Grupo Ugine, o gás Zyklon- B, utilizados nas cãmaras de gás nazistas. Nunca o Brasil teve esse grau de aproximação com os alemães, nem de longe.
No caso da deportação de Olga pela Justiça, deve-se observar que o anti-semitismo da sociedade brasileira era incomparavelmente maior que o de hoje, o que facilitou a decisão.
Respeito profundamente a coerência histórica de Prestes e Anita, mas não podemos esquecer que as teses uspianas, encampadas pelo Sistema Globo, que através da Globo Filmes produziu o filme Olga, vão no sentido de atacar tanto Getúlio por ''ter co-assassinado Olga'', como condenar Prestes por ''fazer acordo monstruoso com o assassino de sua mulher''. Uma empulhação histórica. Um abraço.
Jota, como assim deportada pela Justiça? Ela foi julgada por qual crime no Brasil? Não houve processo nenhum. A Deportação foi apenas para atender aos interesses da hora.
Continuo dizendo que Getúlio manchou sua biografia, ainda que tivesse feito muito pelo Brasil, como de fato fez. A História está aí para que não esqueçamos de nada.
Um abraço sem" tréplica"!!
Eu pensei que não teríamos réplica, rsrsrs...
Márcia, assim fica parecendo pegadinha. Eu estou te alertando para o revisionismo histórico dos que não querem nenhum tipo de avanço para os homens e mulheres que vagam sem esperanças pelo mundo.
Revolucionários como você não podem fazer esse jogo da direita. Enquanto estão reescrevendo a história, não dá pra discutir o passado ignorando o delicado momento histórico que vivemos. Prestes e Getúlio entenderam isso há quase 70 anos atrás. Eu defendo o aprimoramento do ser humano. Vamos olhar pra frente.
Pode me esculhambar (moderadamente) que eu repilo.( risos). Abraço final.
Ok, seu ponto de vista é idêntico ao de meu pai (ele tem 91 anos) mas eu acho que Getúlio poderia ter negado o pedido de Hitler, alegando, inclusive, ela ser casada com um brasileiro e estar grávida. Ele foi pusilãmine nesse ensejo. É a minha opinião, embora reconheça que a nossa direita quer que esqueçamos os bons feitos de Getúlio.
Não vou te " esculhambar", não sou disso, procuro manter o bom nível, sempre.
Um abraço.
A matéria, do respeitável jornalista Chico Otávio, é muito boa.. Os termos " irascível e arredia " derivam, provavelmente, das relações conflituosas de Anita com a grande imprensa, o que consta , apropriadamente, da matéria em causa. Esta tratou com o respeito devido as duas mulheres da máxima importância na vida do "velho ". Ambas admiráveis.
Um dos conceitos bem difíceis de entender no Brasil é essa obsessão por esses "não-heróis". Aqui não se cultuam aquelas pessoas que realizaram trabalhos memoráveis, e sim perdedores, como é o caso desse Prestes.
Para mim, o Luis Carlos Prestes é um perdedor, um teimoso, um mentiroso, um fanático por um idealismo que não funciona, mas tem uma grande torcida pelo Brasil. Isso é incompreensível!
O que podemos esperar do legado dele? A tal coluna Prestes que certamente infernizou as localidades por onde passou? Nas campanhas que se engajou e na qual, muitas vezes foi "perseguido pelo regime"? Perseguido por um regime que o considerava um fora da lei, isto sim.
E agora ainda vamos perder tempo com os legados dele? E mais, por que cargas dágua uma seita fanática como é esse tal "Partidão" (ops, bando de teimosos incompetentes) tinha que se intrometer na vida privada de seus membros? Isso não ajuda partido nenhum a chegar ao poder. E esses caras só largam o osso se o povo que eles acham que o representam piso no rabo deles.
Lembro que durante o regime militar muitos desses fanáticos praticavam assaltos, assassinatos, ilegalidades e perversidades, sob eufemismos como expropriação, justiçamento, etc. E hoje posam de vítimas !
Ainda bem essa seita fanática caiu em si, vitimada por seus próprios erros, e incapaz de ao menos pensar em alguma renovação.
Foram "perdedores" como Prestes que garantiram os direitos trabalhistas que você goza hoje. Foram "perdedores" como ele que mostraram para a população que a exploração do trabalho do homem é que dá poder aos donos do dinheiro, não a predestinação histórica. Foram "perdedores" como Prestes que lutando por sua ideologia contribuiram para construir a sociedade democrática e um pouco mais solidária que temos hoje. Foram "perdedores" como ele que tiveram a grandeza de colocar uma causa acima de sua vida e interesses pessoais e com justo direito transformaram-se de homens comuns a personagens históricos.
Certa vez fui assistir a uma palestra de Luiz Carlos Prestes. Foi incrível como as pessoas em reverência se levantaram a medida que ele adentrava no auditório. Era um homem pequeno mas que se agigantava pela sua trajetória pessoal e histórica.
Não sou dada a pedir autógrafos mas o dele eu tenho até hoje. Com um detalhe: foi uma amiga que pediu o autógrafo para mim pois fui acometida de um mutismo constrangedor em sua presença.
Vera Lucia Venturini
Vera , eu estou com inveja ( positiva) de vc. Gostaria muito de ter um autógrafo desse homem célebre.
Prestes era um homem que não conversava com a direita. Incorruptível, um exemplo de cidadão e político.
Parabéns, Vera.
Disse tudo em poucas palavras. E ainda há pessoa que não entendem o que foi Prestes. Provavelmente por ignorância, mas fazer o que, né?
Entendo que os tais direitos trabalhistas foram implantados numa época em que o Prestes estava na ativa, sim, mas nada comprova que Prestes participou ativamente desta implantação. Ou seja, é uma coincidência histórica. Ou ainda, com ou sem Prestes esta legislação trabalhista iria ser implantada, pela necessidade de se regular as relações patrão-empregado.
Prestes, pelo que sei atuava em outro campo político, pregando uma espécie de "religião" que é o tal do comunismo, já falido, e que foi causador de centena de milhões de assassinatos pelo mundo. Causado por uns ideólogos sem nenhum escrúpulo, a não ser de se agarrar ao poder. Claro, as baixas que o comunismo provocou no Brasil são infinitamente menores do que em outars paragens.
De Prestes saía, como da boca de todo comunista, um monte de retórica, muita embromação, enganação, um pouco de poesia econômica, e às vezes algumas verdades.
Felizmente, o mundo sobreviveu a esta "religião".
É compreensível. Não se pode exigir que esses seguidores do PIG tenham uma visão macro da história, são estreitos mesmo por natureza.
LUIZ CARLOS PRESTES: A BANALIZAÇÃO DA IMAGEM DE UM REVOLUCIONÁRIO PELOS GRANDES MEIOS DE COMUNICAÇÃO
Artigo publicado em “Brasil de Fato” de 12 a 18/01/2012, edição 463)
Por Anita Leocadia Prestes*
Já se passaram mais de 20 anos do desaparecimento de Luiz Carlos Prestes. Tendo sido sempre coerente consigo mesmo e com os ideais revolucionários a que dedicou sua vida, sem jamais se dobrar diante de interesses menores ou de caráter pessoal, Prestes despertou o ódio dos donos do poder, que se esforçaram por criar uma História Oficial deturpadora tanto de sua trajetória política quanto da história brasileira contemporânea.
Mesmo após seu falecimento, Prestes continua a incomodar os donos do poder, o que se verifica pelo fato de sua vida e suas atitudes não deixarem de serem atacadas e/ou deturpadas, com insistência aparentemente surpreendente, uma vez que se trata de uma liderança do passado, que não mais está disputando qualquer espaço político. Num país em que praticamente inexiste uma memória histórica, em que os donos do poder sempre tiveram força suficiente para impedir que essa memória histórica fosse cultivada, presenciamos um esforço sutil, mas constante, desenvolvido através de modernos e possantes meios de comunicação, de dificultar às novas gerações o conhecimento da vida e da luta de homens como Luiz Carlos Prestes, cujo passado pode servir de exemplo para os jovens de hoje.
Atualmente tornou-se difícil e pouco convincente recorrer aos antigos expedientes para satanizar os comunistas: acusá-los de “comer criancinhas assadas na brasa”, de defender a “coletivização das mulheres”, de renegar a família, de desrespeitar as freiras, etc. etc. Hoje os expedientes são outros, mais de acordo com os novos tempos. No caso de Prestes - o mais conhecido e o mais respeitado comunista brasileiro -, por tantos anos caluniado ou silenciado, uma nova tática de desmoralização foi adotada pelos grandes meios de comunicação, comprometidos com os interesses das classes dominantes. Na impossibilidade de questionar sua reconhecida honestidade, assim como sua fidelidade aos princípios revolucionários por que sempre pautou sua existência, o novo expediente consiste na banalização de sua imagem.
Procura-se desviar a atenção do público do legado político e revolucionário de Luiz Carlos Prestes, chamando a atenção para aspectos de sua vida privada, tentando apresentá-lo apenas como um homem comum e inofensivo, portanto, para os poderosos deste país. Da mesma maneira do que se passou há alguns anos atrás, com a ampla divulgação do filme “O Velho” – que apresentava Prestes como um comunista fracassado e dedicado a cultivar rosas -, agora a Revista de História da Biblioteca Nacional presta sua contribuição ao esforço de banalização da imagem de Prestes pelos grandes meios de comunicação. Reproduz na capa de sua edição de janeiro de 2012, mês do aniversário natalício de Prestes, foto sua tirada em uma praia, com trajes de banho. Para isso, contou com a lamentável colaboração da viúva do personagem retratado, num flagrante desrespeito à sua vontade e à sua memória. Todos que c onviveram com Prestes sabem que ele não admitia confundir sua vida privada com suas atividades públicas e jamais concordaria com a publicação de semelhante foto na imprensa. Prestes era um homem sóbrio, que detestava qualquer gesto de exibicionismo, qualquer atitude na vida privada que pudesse vir a prejudicar sua atuação como dirigente comunista e revolucionário.
Frente à nova tática dos grandes meios de comunicação, voltados hoje para o expediente da banalização da imagem de revolucionários como Prestes e Guevara – cuja imagem vem sendo mercantilizada pelos donos do capital -, é necessário que todos aqueles, homens e mulheres, comprometidos com a luta pelo socialismo em nossa terra, reforcem a vigilância de classe e procurem contribuir para que o legado revolucionário desses grandes lutadores se torne acessível aos jovens de hoje, aos futuros combatentes de amanhã.
*Anita Leocadia Prestes é professora do Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ e presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes.
Carta pessoal de Ivan Pinheiro à Anita Leocádia Prestes:
A publicação de uma foto do camarada Luiz Carlos Prestes em trajes de praia no jornal mais reacionário do nosso país (que deveríamos voltar a chamar de The Globe, como outrora) me deixou perplexo.
De início, feliz, por ver o incansável Velho num raro momento de justo descanso.
Não dá para perceber o ano em que a foto foi tomada, mas sabemos que ele nunca teve uma vida tranquila.
Mas comecei a me indignar quando percebi que a foto foi imposta a Prestes. Cochilando, com um chapéu que lhe cobre os olhos, é óbvio que ele não se deixou fotografar naquele momento íntimo; a foto foi tirada à sua revelia.
Acho natural e saudável que entre amigos e familiares de confiança registremos nossos momentos de descontração, de relaxamento.
Mas não é ético que uma foto reservada, como que roubada a uma pessoa (que talvez nunca a tenha visto!) seja tornada pública por quem a possuia. E se trata de uma foto de alguém falecido, que não pode concordar nem discordar de sua publicação.
Prestes não era um desses medíocres "famosos" globais cujas fotos íntimas aparecem nas ridículas revistas com que se manipulam as pessoas simples para sonharem com a possibilidade de também virem a ser ricas, bonitas e famosas.
Prestes foi um revolucionário, um dos mais importantes da história.
O diário oficial do imperialismo no Brasil certamente não escolheu esta foto para homenagear o Cavaleiro da Esperança, que sem sombra de dúvidas foi o brasileiro mais perseguido e satanizado por este monopólio.
Desta forma, Anita, solidarizo-me pessoalmente com você, compartilhando a justa indignação diante desta (vã) tentativa de banalizar a imagem de Prestes.
Um abraço.
Ivan Pinheiro
Fonte: http://prestesaressurgir.blogspot.com/2012/01/luiz-carlos-prestes-banalizacao-da.html
“Instrui-vos, porque precisamos de vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos de vosso entusiasmo. Organizai-vos, porque carecemos de toda vossa força.” Revista Lórdine Nuovo
Paulo, escolhemos o mesmo artigo... o que é ótimo!
Parabéns sinceros ao camarada Ivan Pinheiro pelo desagravo.
A profa. Anita é odiada pela "grande" imprensa porque esta sabe muito bem o que ela representa. Já que é impossível apagá-la da História, "O Globo" trata de pintá-la como uma espécie de Itamar Franco de saias, e, de forma (ainda mais) canalha e desrespeitosa, tachando-a como historiadora medíocre.
O artigo abaixo (ACIMA...), escrito pela própria profa. Anita, coloca os pingos nos ii. A "grande" imprensa quer arrojar a imagem de Prestes ao liquidificador pós-moderno, transformando-o em um velhinho gente-boa, "equivocado" na juventude e "amansado" na velhice. Uma mistificação. Prestes - e a profa. Anita - foram e são, acima e além de tudo, revolucionários. Não precisam e muito menos merecem ter suas biografias "branqueadas" pela burguesia.
Um parêntese. Amig@s, retirei o artigo porque não é necessário postá-lo duas vezes. O camarada Paulo Kautscher já havia tomado a iniciativa de colocá-lo aqui, enquanto eu criava esta intervenção. Portanto, convido todos a lê-lo logo acima, ou ainda no sítio do ILCP. A visita vale, muito, a pena.
Não entendo essa necessidade de por em um altar os seus ídolos. Que mal há em mostrar o Prestes como um homem comum, gente como a gente, que ia à praia e curtia os netos? Onde está a "vulgarização", "falta de respeito com sua memória" e coisas parecidas? Por que mostrar um homem de calção o apequena e transparece inofensibilidade? Alguém se lembra se, quando tiraram foto do Lula na praia, de calção e bebendo cerveja, disseram a mesma coisa?
Igual a alguns comunistas que não gostam dessa ilustração que aparece nas camisetas da garotada:
Esse é exatamente o tipo de gracinha pós-modernista a que me refiro. A ideia é justamente apequenar a imagem do Che, abastardá-la, torná-la indistinguível de Don Ramon em sua quixotice galhofeira. E, claro, vender muitas camisetas com isso.
Não há nenhuma reivindicação de "pureza" religiosa do "ídolo revolucionário" na condenação a este tipo de mistificação. Simplesmente não se pode dar à classe dominante o direito de tratar os seus antagonistas com o cinismo que dedica a si própria. "Deixar pra lá" é o primeiro passo para reescrever a História.
Apequenar, abestalhar a imagem do Mickey Mouse acho um despropósito, afinal, é o herói dos infantes. Não concordas Luiz?
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