Livro trilha evolução da música brasileira

Por raquel_

De O Globo

Hugo Sukman propõe olhar sobre a música brasileira que foge da tese de uma só linha evolutiva

O AUTOR: ?Afro-samba é tão vanguardista quanto

Leonardo Lichote

RIO - A bossa nova já havia feito a revolução e pavimentado o caminho para a geração de Chico Buarque, Edu Lobo, Elis Regina. Parecia que a música popular brasileira seguiria sem acidentes por aquela trilha - a herança de sofisticação samba-impressionismo-jazz fundada pela bossa. Até que, no Festival da Record de 1967, com guitarras e imagens poéticas embebidas da nascente cultura pop, Caetano Veloso e Gilberto Gil apresentaram "Alegria, alegria" e "Domingo no parque", plantando as bases do que seria a Tropicália e mudando para sempre a trajetória da MPB. Ou, como defende o jornalista Hugo Sukman em "Histórias paralelas: 50 anos de música brasileira" (Casa da Palavra), mudando para sempre uma das muitas trajetórias da MPB. No livro, ele propõe outras seis, que passam ao largo da chamada "linha evolutiva da MPB" - consagrado conceito criado por Caetano.

- A ideia da linha evolutiva é tão poderosa que domina as discussões sobre música brasileira - diz Sukman, que lança o livro dia 15, às 19h, na livraria Argumento do Leblon. - Ela tem a força de conceitos marxistas, usados até por não marxistas. Qualquer leitura da MPB passa por ali. Queria outro olhar.

O olhar de Sukman identifica, então, caminhos paralelos. Cada capítulo é dedicado a um deles: o samba, a MPB, a Tropicália; a Jovem Guarda e o brega; o instrumental; a música nordestina; a diversidade das cidades. Cada linha com suas revoluções próprias. Um exemplo é o surgimento de Martinho da Vila, numa linhagem que vem de Candeia e desagua no pagode - uma segunda corrente do samba viria de Paulinho da Viola e sua elegância herdeira da velha guarda. Outro exemplo é "Berimbau", de Baden Powell e Vinicius de Moraes, que instaura, diz ele, a separação entre a bossa e a MPB:

- "Berimbau", como os afro-sambas que viriam depois, reencena a criação da música brasileira. Parte de uma primeira parte modal, africana, e na segunda se torna tonal, acrescido da herança europeia. O afro-samba é tão vanguardista quanto o tropicalismo. E Milton, Edu, Chico, Paulinho e Hermeto são tão modernos quanto Caetano e Gil.

Livro ilumina cenas-chave

Mais que uma pesquisa exaustiva sobre cada uma das linhas, o livro ilumina certas cenas e dá a elas novos significados. O fato de Gil ter feito "Domingo no parque" numa madrugada, tendo Dorival Caymmi na cabeça e a filha dele, Nana, então sua mulher, na cama - o desejo de fazer uma nova canção baiana, num gesto de doce subversão contra o pai de sua companheira. Ou o "não" que o Quarteto Novo dá ao convite de arranjar a mesma "Domingo no parque" ao ouvir Gil citar Beatles como referência - um "não" que o autor vê como um marco para uma música instrumental que se desenvolveria a partir dali sem tomar conhecimento do pop ou do tropicalismo.

- Procuro jogar luz sobre fragmentos como a lista de músicas do disco de Elis de 1966, que trazia toda a geração que seria a MPB e que encerra com a única música que restava à cantora depois de apresentar aqueles nomes: "Carinhoso", a canção brasileira por excelência. Não é um livro de histórias novas, apesar de algumas serem, como a de Paulo César Pinheiro contando que viu Gil vaiando Chico Buarque (Caetano afirma que Gil defendia Chico) no Festival da Record de 1968 e pensou então em abandonar a música.

A tensão entre Chico e os tropicalistas está no livro, assim como a relação de espelhamento entre ele e Caetano - o segundo "perseguindo" o primeiro. "Alegria, alegria" e "A banda", "Você não entende nada" e "Com açúcar, com afeto", "Paratodos" e "Pra ninguém"...

- Chico é a perfeição - define Sukman. - O que Caetano faz com o tropicalismo é empreender uma mudança de gosto a favor dele. Se os padrões de qualidade se mantivessem em Chico, Dori, Jobim, Tamba Trio, como eram, ele não se tornaria tão importante. Mas é uma visão generosa também, pois traz o Brasil excluído, da cultura de massa, do brega. O projeto maior do tropicalismo, porém, era a atualização da música brasileira frente ao que se praticava no mundo. Sua realização maior, portanto, se deu no Rock in Rio de 1985, quando a música brasileira se mostra em pé de igualdade com a cena internacional.

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1 comentário
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José Antonio Bento

E a música de Minas Gerais, nada? O Clube da Esquina nem uma linha...

Fico com a opinião de Toninho Horta, Edu Lobo e Caetano. Não irei perder tempo com esse livro.

"Toninho Horta define bem a importância desse movimento: “o Clube da Esquina é divisor de águas na MPB: "Passados mais de 30 anos, continua sendo o único movimento que, ao lado da bossa nova, influenciou e continua influenciando a música do mundo inteiro", afirma. A contribuição se dá pela criação ‘livre e aberta’, articulação de harmonia, melodia e ‘construções rítmicas’ geniais de Milton Nascimento: acrescida das letras, a obra se torna ‘cancioneiro lírico’ que fala de justiça, amor, paixões e da vida, mais do que protesto ou política”, analisa."Não queríamos polemizar, mas apenas fazer música que tocasse fundo no coração das pessoas”."

"Edu Lobo acrescenta — com razão — que o grupo mineiro conhecido como Clube da Esquina tinha importância musical muito superior à Tropicália. Entretanto, pouco se fala disso, pouco se reconhece esta verdade nos estudos históricos relativos à música brasileira das décadas de 1960 e 1970."

"Caetano Veloso diz que, com o seu exílio e o de Gilberto Gil, o Tropicalismo perdeu vez e voz, uma vez que ambos eram os seus mentores, os seus cérebros, e que, com isso, a tropicália não teve chance nem tempo de se estruturar e se organizar de forma que pudesse constituir uma "escola" ou um "movimento" mais sólido, no sentido mais pleno da palavra, o que ocorreu com a Bossa Nova e com o Clube da Esquina."

 
 

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